quinta-feira, 15 de julho de 2021

África do Sul: tensão, violência e morte

Ontem o jornal The Star que se publica em Joanesburgo, destacava como título de primeira página as palavras morte e destruição, enquanto as televisões nos mostravam imagens de tiroteios, estradas bloqueadas, assaltos a lojas e pilhagens a centros comerciais. A tensão e a violência que atingem grande parte do país, que alguns já referem como uma quase guerra civil, resulta da condenação do ex-presidente Jacob Zuma a 15 meses de prisão por se recusar a testemunhar num processo sobre corrupção durante o seu mandato, mas também é uma consequência de uma grave situação económica com o desemprego a ultrapassar os 32% e de uma preocupante situação sanitária devida ao covid-19, pois apenas 1% da população está vacinada e há uma incontrolável onda de contágios e de mortes. 
Jacob Zuma é suspeito de corrupção, mas durante o apartheid passou dez anos na prisão de Robben Island, ao lado de Nelson Mandela, pelo que é uma figura de prestígio na política sul-africana. Tendo começado por recusar o cumprimento da pena de 15 meses a que foi condenado por desrespeito ao tribunal e não por corrupção, por fraude ou por extorsão que terão marcado a sua presidência (2009-2018), veio a decidir entregar-se. O facto é que irrompeu de imediato uma onda de grande violência com mortes e destruições na sua província de Kwazulu-Natal, que alastrou a Joanesburgo e a outras regiões do país.
Daí que haja profundas preocupações na República da África do Sul quanto ao caos e à violência que se está a instalar no país, tendo o ANC – African National Congress que Jacob Zuma liderou entre 2007 e 2017, apelado aos seus militantes para que “fiquem calmos”. A apreensão é grande entre os 500 mil membros da comunidade portuguesa e luso-descendente na África do Sul.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Cuba está sob um forte vento de mudança

O regime que governa Cuba há cerca de 62 anos resultou da acção vitoriosa do Movimento 26 de Julho que, em pouco mais de dois anos, derrotou o regime ditatorial de Fulgêncio Batista. Sob a liderança do jovem advogado Fidel de Castro, então com 30 anos de idade, um grupo de 81 elementos daquele movimento largou do México a bordo do Granma e desembarcou no dia 2 de Dezembro de 1956 na área oriental da ilha de Cuba. Assim nasceu o exército rebelde que, a partir da Sierra Maestra e depois de uma campanha feita com base na luta de guerrilhas, entrou triunfante em Havana no dia 1 de Janeiro de 1959. Nessa campanha houve combatentes que se destacaram e se tornaram os ícones da revolução cubana, como Fidel de Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. O mundo começou por apreciar a gesta heróica do exército rebelde, mas os seus dirigentes depressa caíram na órbita da União Soviética, enquanto Cuba se tornou um instrumento ao serviço dos interesses soviéticos e os anseios do povo cubano foram ignorados. 
Porém, a União Soviética implodiu em 1991 e a partir daí o regime cubano foi ficando cada vez mais isolado e mais empobrecido, ao mesmo tempo que se radicalizava, apesar de muitos apelos internacionais para que se democratizasse. O povo cubano foi manipulado no culto da Revolução e dos seus heróis, mas os seus dirigentes não deram atenção aos ventos, nem às lições da História. Hoje, essa geração que lutou na guerrilha já se reformou e os seus netos querem outra vida.
A morte de Fidel de Castro, que aconteceu em 2016, foi o primeiro sinal do fim do regime cubano, apesar das tentativas para que fosse preservado para além da sua morte. O seu sucessor foi o seu irmão Raúl Castro que tinha sido ministro das Forças Armadas de 1959 a 2008 e, actualmente, é o académico Miguel Diaz-Canel que preside ao país. Porém, tal como os seres vivos, os produtos, as ideias e tantas coisas mais, os regimes e as ideologias também nascem, crescem e morrem. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança. É apenas uma questão de tempo, porque como diz o jornal peruano Ojo, que é editado em Lima, “se hartó del comunismo e de la dictadura” e “Cuba clama libertad!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A Itália venceu com brilho o Euro 2020

O Euro 2020 terminou ontem em Wembley e a Itália levou a melhor sobre a Inglaterra. A Itália só vencera a prova no já distante ano de 1968 e a Inglaterra nunca a vencera, pelo que ambos a procuravam como um tesouro que os seus currículos futebolísticos reclamavam e, como sempre acontece nestas finais, o equilíbrio era tão grande que a vitória poderia ter caído para qualquer dos lados. Sorriu aos italianos, que assim sucederam a Portugal no trono do futebol europeu. A Itália mereceu esta vitória, mas Boris Johnson mereceu esta derrota.
Todos os jornais italianos encheram as suas primeiras páginas com a fotografia da festa e, em tempos de pandemia, estas vitórias futebolísticas animam o povo e ajudam a esquecer a crise sanitária que tanto enlutou a Itália. Depois de quase um mês de massacre futebolístico nas televisões, com inúmeras transmissões e um número incontável de comentadores a debitar banalidades, o Euro 2020 chegou ao fim.
A selecção portuguesa ficou aquém das espectativas criadas pelos jornalistas e pelos comentadores portugueses, que endeusaram e levaram ao deslumbre os jogadores e a equipa, antes de tempo. Porém, no meio da mediana prestação da selecção portuguesa, destacou-se uma vez mais Cristiano Ronaldo que, em quatro jogos marcou cinco golos e se tornou o melhor marcador do Euro 2020. 
Para o ano há mais no Mundial 2022 do Qatar. Vamos a ver se a equipa portuguesa se qualifica

domingo, 11 de julho de 2021

Brasil chora a derrota na Copa América

O grande Brasil, que por vezes designamos como o país-irmão, está a atravessar uma fase de descrença e de melancolia que vai para além das marcas da crise global que todo o mundo atravessa. Naturalmente, a crise sanitária está na primeira linha dessa crise com mais de 500 mil mortes devido ao covid-19, mas desde a primeira hora que a liderança brasileira se revelou incapaz de enfrentar as dificuldades e de transmitir serenidade e esperança ao povo brasileiro. Pelo contrário, o presidente Jair Bolsonaro tem-se comportado com demasiada ignorância, muita boçalidade e enorme incompetência. Os seus índices de popularidade nunca foram tão baixos e as sondagens conduzidas pela Datafolha apontam para que na primeira volta das eleições de 2022, recolha apenas 25% das intenções de voto, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva, o seu potencial adversário, já assegura 46% dessas intenções, enquanto numa segunda volta, qualquer que seja o adversário, o antigo presidente tem larga vantagem. A mesma sondagem da Datafolha revela que, pela primeira vez desde que começou a interrogar os brasileiros sobre um eventual processo de impeachment contra Jair Bolsonaro, já há 54% de brasileiros que se afirma favorável à sua destituição. Não se augura nada de bom nos próximos tempos. 
O Brasil atravessa, de facto, uma crise sanitária e política, mas também uma crise social e de confiança. A final da Copa América, disputada esta madrugada no Rio de Janeiro entre as equipas de futebol do Brasil e da Argentina, poderia ser um elemento mobilizador para transmitir uma centelha de entusiasmo ao povo brasileiro que tanto gosta de futebol. As coisas não correram bem e os argentinos ganharam por 1-0.
A Argentina festeja e o Brasil chora. Melhores dias virão para os brasileiros.

sábado, 10 de julho de 2021

A Escócia, a Inglaterra e a rivalidade total

Amanhã joga-se a final do Euro2020 entre a Inglaterra e a Itália, um jogo que está a despertar um entusiasmo proporcional à enorme promoção que foi feita de toda essa competição. Aqui em Portugal foi um exagero, um autêntico sufoco de informação. Nunca terá havido um acontecimento internacional que mobilizasse tantos jornalistas, tantos comentadores e tantos estagiários portugueses. Foi uma festa para toda essa gente que esvaziou as tesourarias das suas empresas, mas encheu a cidade de Budapeste atrás da selecção portuguesa. Porém, as coisas não correram bem e apesar de ter jogadores muito talentosos, a equipa ficou pelo caminho. Foi um soco no estômago depois de tudo o que foi dito e escrito.
Amanhã, portanto, teremos a Inglaterra e a Itália à procura da taça. Como se tem visto e amanhã se voltará a ver, o vencedor vai resultar de uma casualidade, de um erro do árbitro, da falha de um guarda-redes ou de uma bola na trave. Curiosamente, o jornal independentista escocês The National, dedica a primeira página da sua edição de hoje a Roberto Mancini, o treinador da selecção italiana e escreve:
Salva-nos Roberto, tu és a nossa esperança. 
Nós não podemos suportar mais 55 anos deles a bater sobre isso.
O facto é que a Inglaterra nunca ganhou o Europeu e só uma vez, no ano de 1966, ganhou o Mundial, o que é um palmarés decepcionante para um país que é a pátria do futebol. Os escoceses consideram que os ingleses, que gostam de invocar glórias do passado, andam há 55 anos a invocar com arrogância aquela sua única vitória. Por isso, os ingleses estão ansiosos por uma nova vitória, mas os independentistas escoceses não a desejam e apoiam os italianos, o que significa que não querem nada com os ingleses, nem sequer no futebol.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

As histórias tristes deste nosso Portugal

A vida, a escola e os amigos ajudaram-me a ser o que sou, mas a matriz da minha identidade cívica e cultural aprendi-a desde muito jovem, sobretudo, com os meus Pais.
O meu Pai era um homem rigoroso que, de cor e sem hesitações, me debitava páginas e páginas de Os Lusíadas, enquanto a minha Mãe era uma mulher perspicaz que gostava muito de usar provérbios e ditados populares. Um deles, que ela muitas vezes me repetia, era que “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”. Daí resultou, desde há muitos anos, a minha desconfiança nos processos de acumulação de riqueza, no novo-riquismo, na chamada gente de sucesso e, sobretudo, daqueles que se deixavam enrolar na teia da fama e da vaidade que a comunicação social alimenta, enquanto me espantava a intrigante forma como a Justiça e as Instituições pactuavam e conviviam com o que se passava. Muitas vezes me ocorreu a famosa expressão de Sofia, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, mas parece que poucos viam, poucos ouviam, poucos liam e que muitos ignoravam.
Porém, como escreveu Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e, segundo parece, “a tradição já não é o que era”, pelo que começaram a aparecer muitos casos que estão a alarmar a sociedade portuguesa. Esses casos que têm vindo a público não me surpreendem, mas surpreende-me que se continue a verificar um verdadeiro abuso de poder por parte dos operadores judiciais e que a comunicação social se comporte como um grupo de vira-casacas que, depois de endeusar essa gente, os coloca agora sob a sua implacável guilhotina. 
Não há quaisquer dúvidas que é um dever democrático que as autoridades actuem contra quem viola as leis da República, mas não é tolerável o abuso de poder e a prática das fugas cirúrgicas de informação, nem o abuso das prisões preventivas e, sobretudo, a condenação na praça pública de tanta gente, antes de ser acusada e julgada. 
Muita dessa gente, que conviveu com os poderes políticos, que se sentou ao lado dos operadores judiciais e que foi endeusada pelos mass media, está agora no centro da crítica e da severa condenação de quem antes tanto os bajulou. Há poucas histórias tão tristes como estas no Portugal contemporâneo. 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A aventura do “Ever Given” chegou ao fim

No passado mês de Março o gigantesco porta-contentores Ever Given, propriedade da empresa chinesa Shoei Kisen, encalhou no canal do Suez com mais de 18 mil contentores a bordo. O navio ficou encalhado durante seis dias, numa posição que impedia a passagem de outros navios e só foi desencalhado devido à acção conjugada de rebocadores e de dragas e, naturalmente, com a indispensável ajuda das marés. Os prejuizos causados por esta ocorrência foram astronómicos e era muito pesado o cenário judicial que se apresentava.
O navio foi judicialmente apreendido e ficou fundeado no Great Bitter Lake, uma área que separa os dois troços do canal do Suez, enquanto a respectiva Autoridade anunciou que o encerramento do canal representava um prejuízo diário de 12 a 15 milhões de dólares, além de perda de reputação, embora fossem bem diferentes as estimativas de perdas que foram anunciadas por diferentes fontes. As negociações arrastavam-se há mais de três meses.
Finalmente, foi divulgado que o Egipto assinou um acordo de compensação com o armador e com a seguradora do navio, que terá ficado bastante abaixo dos 916 milhões de dólares inicialmente exigidos. Com os seus 400 metros de comprimento e os 18 mil contentores que carrega, o Ever Given voltou ontem a navegar para norte e esse facto foi notícia para o The Wall Street Journal.
Quando chegar a Port Said, a porta de saída do canal para o Mediterrâneo, o navio vai ser objecto de uma avaliação de segurança e, depois, seguirá para Roterdão onde a sua carga terá como destino final o porto inglês de Felixstowe.
Terá então terminado a aventura do gigante Ever Given e do seu encalhe no canal de Suez.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Xi Jinping e a novíssima ambição chinesa

O Partido Comunista Chinês (PCC) festejou ontem 100 anos de idade e houve festa grande na praça de Tiananmen, com um longo discurso de Xi Jinping que apareceu vestido com a túnica cinzenta popularizada por Mao Tsé-tung, o fundador do partido.
“A China tem 5000 anos e durará outros 5000”, diz um popular slogan que as autoridades têm repetido nas últimas semanas como preparação para os festejos. Ao fim de 72 anos no poder conquistado depois de uma longa guerra civil, o PCC evoluiu e transformou a China, mas conserva a fotografia de Mao à entrada da Cidade Proibida, em frente da praça Tiananmen, certamente para lembrar que a China privilegia as mudanças que conduzem ao progresso, mas continua fiel à herança política do PCC e do seu fundador. Foi aí nesse simbólico local que, de pé e junto à fotografia de Mao Tsé-tung, o secretário-geral Xi Jinping falou aos seus militantes, ao país e ao mundo.
Xi Jinping lembrou as conquistas do passado, elogiou os sucessos do presente que permitiram retirar da pobreza muitos milhões de chineses e estabeleceu metas para o futuro, entre as quais a "missão histórica" da reunificação com Taiwan, a ilha que é considerada uma província separatista da República Popular da China. No seu discurso deixou um claro aviso para o mundo ao afirmar que "nunca vamos permitir que qualquer força estrangeira nos oprima ou subjugue", acrescentando que as potências estrangeiras que tentarem intimidar ou influenciar o país vão entrar em rota de colisão “com uma parede de aço" de 1,4 mil milhões de pessoas.
O discurso de Xi Jinping teve larga difusão na imprensa mundial e, em Macau, o jornal hoje macau dedicou-lhe a sua primeira página com o título “o século da China”. É nesse sentido que aponta a futurologia.  

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Efeito das mudanças climáticas no Canadá

O processo de aquecimento global do nosso planeta e as alterações climáticas estão na ordem do dia, sobretudo pelo está a acontecer nas regiões ocidentais do Canadá e dos Estados Unidos, onde as temperaturas se têm aproximados dos 50ºC, o que tem provocado centenas de mortes e tem levado as autoridades a encerrar escolas, empresas e centros de vacinação. Não há memória de uma onda de calor como esta e todos os registos históricos foram ultrapassados, por exemplo nas cidades de Vancouver, Seattle e Portland, onde as temperaturas têm atingido valores muito superiores aos valores que são habituais nesta época.
Por todo o mundo, à excepção da América de Donald Trump, as alterações climáticas têm sido consideradas a maior ameaça ambiental do século XXI, com consequências profundas e transversais na sociedade, sobretudo nos aspectos económicos, sociais e ambientais. Embora as alterações climáticas sempre tenham sido registadas ao longo da vida do nosso planeta, o agravamento que vem acontecendo no último século não tem precedentes e é uma ameaça para a Humanidade. A principal razão das mudanças em curso são os chamados gases de efeito de estufa, cujas emissões têm aumentado devido ao dióxido de carbono (CO2) resultante da queima de combustíveis fósseis. Daí que, a temperatura global tivesse aumentado 0,76ºC no último século, embora a previsão para este século se situe entre 1,1 e 5,4ºC, dependendo das medidas que vierem a ser adoptadas pela comunidade internacional.
O facto é que esta onda de calor no ocidente do Canadá e dos Estados Unidos impressionou muita gente, incluindo alguma imprensa francesa como o Libération, que já se esqueceu do Euro 2020 e que deixou a loucura dos franceses pelo Tour de France para um plano secundário.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Princesa brasileira, Rainha de Portugal

A exposição que está patente na Galeria do Rei D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda com o título D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal. 1819-1853, é um acontecimento cultural relevante, não só por representar a retoma das grandes iniciativas culturais a que a cidade de Lisboa já nos habituara e que a crise pandémica suspendera desde há muitos meses, mas também pela grande qualidade expositiva e diversidade de conteúdos.
A exposição celebra o 200º aniversário do nascimento da rainha D. Maria II e foi organizada pelo Museu da Presidência da República (MPR) e pelo Palácio Nacional da Ajuda (PNA), apresentando várias centenas de peças e documentos provenientes de diversos museus, autarquias e coleccionadores privados, bem como do Governo Regional dos Açores, muitas das quais foram restauradas para esta exposição. De entre as obras que ficarão em exposição até ao dia 29 de setembro, destacam-se várias joias pessoais de D. Maria II e a Coroa Real Portuguesa que há mais de duas décadas não era exposta ao público, bem como a bandeira utilizada pelas forças liberais na ilha Terceira, que fora bordada pela própria princesa Maria da Glória.
A exposição evoca a vida e o reinado da rainha que nasceu no Brasil em 1819, que era filha de D. Pedro IV e da imperatriz Leopoldina, mas que veio a falecer precocemente em 1853, durante o parto do seu 11º filho. Dois dos seus filhos - D. Pedro V e D. Luís - foram reis de Portugal.  No seu reinado, que iniciou em 1834 com 15 anos de idade, o país passou do absolutismo ao constitucionalismo e, apesar de ser um período de grande instabilidade que se seguiu à guerra civil, abriu as portas a grandes transformações sociais, económicas e culturais.
Um excelente catálogo apoia a belíssima exposição que, naturalmente, se recomenda que seja visitada, pela sua qualidade pedagógica, documental e estética.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Marcelo foi contagiado pela futebolite

O jornal Tal & Qual foi fundado em 1980 e teve grande sucesso editorial, mas em 2007 cessou a sua publicação. Porém, cerca de catorze anos depois, voltou às bancas como semanário de informação geral e é um regresso que se saúda.
Na sua última edição o jornal escolheu para manchete “Marcelo anda a pôr Belém num virote”, mas o assunto não me interessou porque não tenho nenhuma curiosidade em saber a forma como o venerando Chefe do Estado faz a gestão da sua residência oficial.
Entretanto, vieram os dias do Euro 2020, com a comunicação social a infectar a sociedade portuguesa de uma forma absolutamente desproporcionada e a deixar no espírito dos mais distraídos a ideia de que o futebol era a coisa mais importante das nossas vidas. Com o entusiasmo fora dos limites, não só o Presidente da Assembleia da República perdeu a cabeça, como o próprio Presidente da República veio dar razão ao Tal & Qual, ao pôr o país num virote, pois alinhou no generalizado desvario que se abateu sobre o país, fazendo ao mesmo tempo de comentador, de adepto e de seleccionador. Foi um absoluto exagero, estudado e preparado, sempre com os microfones e as câmaras à vista, como ele tanto gosta. Naturalmente, decidiu assistir ao jogo Portugal-Bélgica, mas não escolheu o recato da sua casa, mas preferiu um restaurante com os inevitáveis microfones à volta. No dia seguinte, tomou a decisão de ir esperar os jogadores que, por acaso tiveram a pior prestação de sempre naquela competição. Mais um exagero. O jornal O Jogo escreveu que “Marcelo decidiu dar colo à selecção”, mas mais nenhum jornal ligou à inapropriada presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi dizer que éramos tão bons como o campeão do mundo, que éramos melhores que o número um do ranking mundial, que jogámos mais do que eles e que a luta continua. Foi demasiado colo. É demasiado populismo. É bom que o Presidente da República seja inteligente, culto, cosmopolita e democrata, mas estes exageros não são nada recomendáveis.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Há muito mais vida para além do futebol

A equipa portuguesa jogou ontem em Sevilha e perdeu com a selecção belga por 1-0, pelo que foi eliminada do Euro 2020. “O único momento de inspiração da Bélgica bastou para afastar Portugal”, escreveu o jornal Público como manchete de primeira página, ilustrada com uma fotografia de um Cristiano Ronaldo derrotado. Segundo rezam as crónicas, “o apuramento bateu no poste” e houve “falta de pontaria”, mas a equipa bateu-se bem, atacou muito e merecia ganhar. Os belgas foram eficazes e fizeram um só remate que lhes bastou para averbar a vitória. Foi uma enorme desilusão para os portugueses, depois de uma intensa campanha conduzida pela comunicação social e pelos seus estagiários, bem como por algumas personalidades da nossa vida política, com destaque para o Presidente da República que, qual venerando Chefe do Estado, se tornou um fervoroso adepto e um entusiasmado comentador. Todos eles fizeram do futebol a coisa mais importante das nossas vidas e isso não é verdade. A desilusão geral que se abateu sobre o país também é uma consequência da insistência com que nos fazem crer que somos os melhores do mundo e de não nos prepararem para outro resultado.
Os jogadores fizeram o que puderam enquanto profissionais muito bem remunerados, ou obscenamente pagos, mas também ficaram tristes, porque o resultado poderia ter sido outro. Porém, hoje o país acordou com os mesmos 92.212 quilómetros quadrados de superfície, a nossa dívida pública não se alterou, a taxa de desemprego também não baixou e o índice de transmissibilidade do covid-19 podia estar melhor.  
Há que seguir em frente porque há muito mais vida para além do futebol, como diria o saudoso Presidente Jorge Sampaio, que era um genuíno adepto de futebol, mas que não era comentador.

domingo, 27 de junho de 2021

A América cultiva a rapidez da Justiça

No dia 25 de Maio de 2020 na cidade de Minneapolis do estado do Minnesota, um polícia chamado Derek Chauvin deteve um indivíduo suspeito de qualquer coisa chamado George Floyd e aplicou-lhe uma técnica de imobilização que consiste em deitar o suspeito de bruços, ajoelhar junto dele e pressionar o seu pescoço com o joelho. Chauvin pressionou o pescoço de Floyd durante mais de oito minutos, Floyd gritou vinte vezes que não conseguia respirar, alguns polícias assistiram sem intervir e diversos transeuntes filmaram aquela cena. George Floyd não resistiu. As imagens desta ocorrência foram largamente difundidas pelas televisões e desencadearam protestos antiracistas e manifestações contra a violência e o abuso policiais em muitas cidades americanas, mas também tiveram muitas solidariedades, incluindo nos estádios de futebol europeus.
No dia 25 de Junho de 2021, um ano e meio depois da ocorrência de Minneapolis, o julgamento do caso ficou concluído e a sentença foi lida. Os americanos esperavam ansiosamente pela sentença e o ex-polícia Derek Chauvin foi condenado a 22 anos e seis meses de prisão pelo homicídio do afro-americano George Floyd.
A sentença foi recebida com algum alívio pela comunidade negra americana e pelas organizações de defesa dos direitos civis, pois a condenação de um polícia branco pela morte de um afro-americano é uma raridade na justiça americana, enquanto a imprensa americana deu alargada cobertura à notícia.
A Justiça americana foi rápida como convém à boa ordem social.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

A tensão à volta do caso da Crimeia

Perante a grave crise que atravessava, em 1985 o Partido Comunista da URSS elegeu Mikhail Gorbachev para seu secretário-geral, encarregando-o de promover as reformas necessárias para salvar o regime instituído depois de 1917. Daí nasceu a perestroika que veio dar origem ao desmembramento do estado soviético e à independência de várias das suas repúblicas, entre as quais a Ucrânia que se tornou independente em 1991. A influência russa era enorme na Ucrânia porque cerca de 20% da sua população é de origem russa e, além disso, uma parte do arsenal nuclear soviético estava em território ucraniano, pelo que foram feitos acordos, nomeadamente de âmbito militar, entre a nova Federação Russa e a Ucrânia independente.
Porém, vieram a surgir problemas políticos internos resultantes da diversidade cultural do país e do alinhamento internacional que procurava, com os ucranianos divididos entre a aproximação à União Europeia e a fidelidade à Federação Russa. Esses problemas acentuaram-se e em 2014, houve um movimento insurrecional em várias regiões do país e a população russa da península da Crimeia, com o apoio militar russo, ocupou muitos edifícios públicos e rejeitou a governação ucraniana de Kiev. Foi então realizado um referendo local, considerado ilegal, que aprovou a chamada “reunificação com a Rússia”, mas as Nações Unidas e a comunidade internacional não aceitam a ocupação da Crimeia e consideram-na um território ucraniano sob ocupação russa.
A península da Crimeia tem cerca de 26 mil km2 de superfície, cerca de dois milhões de habitantes dos quais cerca de 60% são de etnia russa e tem uma posição estratégica importante no Mar Negro, pois acomoda a base naval russa de Sebastopol.
Esta semana, o destroyer inglês HMS Defender, em trânsito de rotina de Odesa para a Geórgia, terá entrado nas águas territoriais da Crimeia junto do cabo Fiolent e um navio-patrulha russo terá feitos tiros de advertência, enquanto um avião de combate Su-24M terá lançado bombas na proa do navio inglês. A imprensa inglesa deu grande destaque a este caso como se fosse uma guerra e avisou Putin de que “não vai parar os nossos navios”, mas os russos também não querem navios ingleses por lá. No entanto, ainda está por esclarecer o que realmente se passou. 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A nossa superestrela é Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo marcou ontem dois golos à França e, para além do empate que garante uma presença (sofrida) da equipa portuguesa nos oitavos de final do Euro2020, o jogador atingiu a marca de 109 golos ao serviço da selecção portuguesa, o que iguala o máximo mundial de golos marcados ao serviço de uma selecção nacional, que pertencia ao iraniano Ali Daei.
Naturalmente, a comunicação social portuguesa destacou este acontecimento e Ronaldo merece-o.
Porém, tem sido um exagero o exibicionismo novo-riquista, ridículo, suburbano e desproporcionado da comunicação social portuguesa, que tem andado atrás dos jogadores por Budapeste e por Munique, enchendo-nos de futebol, de ronaldices e de imensas banalidades. Alguns títulos reflectem a ronaldomania que tomou conta da nossa imprensa, como por exemplo CR109, Ronaldo é Deus ou Ronaldo dispensa calculadora. É um entusiasmo que não é espontâneo e que resulta em alto grau de um estímulo criado pelas capas dos jornais, pelas intermináveis horas de televisão que nos são servidas e por um merchandising que explora o entusiasmo popular.
Porém, os golos que ontem foram marcados por Cristiano Ronaldo, tiveram repercussão no estrangeiro e, por exemplo, os grandes jornais desportivos italianos como La Gazzetta dello Sport (Milão), o Corrierre dello Sport (Roma) e o TuttoSport (Turim), trataram de internacionalizar os 109 golos de Ronaldo. Nestas circunstâncias, embora criticando muito do que é escrito e dito na nossa comunicação social que muitas vezes esquece que uma equipa de futebol tem onze jogadores, eventualmente dez estrelas e uma superestrela, não podemos deixar de aplaudir e enaltecer os feitos futebolísticos de Ronaldo e da sua destacada presença nas capas dos maiores jornais desportivos italianos.