sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A tragicomédia que é o passos-gasparismo

A confusão é enorme e já não é possível disfarçar o embaraço daqueles que se instalaram no poder. O passos-gasparismo falhou rotundamente na execução orçamental, revelou muitas mediocridades e hesitações, agravou o desemprego, a recessão e a dívida. Empobreceu os portugueses. Afundou a economia. Está a roubar as esperanças aos jovens. As teorias e as estratégias do seu núcleo duro falharam. Mentiram-nos quando afirmaram ter soluções para os nossos males. Eram inexperientes e não estavam preparados. Para quem jurou que tinha estudado a situação, que não cortava salários nem pensões e que bastava o corte de gorduras, tudo isto é demasiado mau. Apesar de pouco convencida, a sua jovem claque parlamentar tem aplaudido. Agora que estamos em situação de pré-catástrofe, o núcleo duro do passos-gasparismo pede o apoio da oposição que durante tantos meses insultou. Estão aflitos e muito assustados, mas continuam dominados pela cegueira e pela arrogância. Semeando ventos...
Em vez de, humildemente, mudarem de rumo, vieram com mais uma farsa que é a refundação, que ninguém sabe o que é, mas que sabemos esconder uma única ideia que é o despedimento de largas dezenas de milhares de pessoas e a redução das funções sociais do Estado. Querem pagar a dívida e os monstruosos juros aos especuladores, à custa do empobrecimento brutal dos portugueses. Chamaram os seus amigos do FMI, mas são os portugueses que têm que definir o que querem. A presença dos burocratas sem rosto do FMI é um insulto para todos nós. Fora com eles, já! Quem os chamou foram uns vende-pátrias que nos envergonham e que humilham o nosso glorioso passado. Fora com eles, também. E depressa!
E o que faz o homem do leme? Nada, absolutamente nada que se veja.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

“As Idades do Mar” em exposição

O Museu Gulbenkian está a apresentar até 27 de Janeiro de 2013 na Sala de Exposições Temporárias do seu edifício-sede, a exposição "As Idades do Mar", que reúne 108 obras criadas entre os séculos XVI e XX, provenientes de meia centena de instituições nacionais e estrangeiras, com destaque para a própria Fundação Gulbenkian e para o Museu d’Orsay. As obras expostas centram-se nas representações físicas e simbólicas do mar, através de artistas como Monet, Klee, Turner, Manet, Friedrich, Ingres, Guardi e De Chirico, entre muitos outros, enquanto a pintura portuguesa está representada por Amadeo de Souza-Cardoso, Vieira da Silva, João Vaz, José Malhoa, Noronha da Costa, António Carneiro e outros.
O curador da exposição é João Castel-Branco Pereira, director do Museu Gulbenkian, e a exposição desenvolve-se em seis núcleos distintos: A Idade dos Mitos; A Idade do Poder; A Idade do Trabalho; A Idade das Tormentas; A Idade Efémera; A Idade Infinita. Em torno da exposição realizam-se três conferências sobre iconografia do mar na azulejaria, na tapeçaria e na pintura, a realizar nos dias 5, 12 e 26 de Novembro, às 18:00 horas, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian.
Uma bela exposição a não perder, como costumam dizer na televisão.

O projecto Ocean Revival prossegue

A nossa RUA DOS NAVEGANTES divulgou no dia 3 de Abril as características do projecto Ocean Revival, que se desenvolve ao largo de Portimão, com o objectivo de criar um núcleo de recifes artificiais a partir de quatro navios afundados com esse fim específico, que se constituirão como um espaço museológico subaquático, vocacionado para o turismo de mergulho. Nessa altura, já se encontravam em Portimão dois desses navios para serem descontaminados antes de serem afundados.
Cerca de 7 meses depois, no dia 30 de Outubro, concretizou-se o afundamento desses dois navios - corveta Oliveira e Carmo e navio-patrulha Zambeze. De manhã foi afundada a corveta Oliveira e Carmo, com 86 metros de comprimento e 1380 toneladas de deslocamento, depois do seu interior ter recebido 220 toneladas de betão para assegurar que o navio afundasse sem adornar. O afundamento aconteceu depois da detonação de quatro cargas explosivas de corte que permitiram a entrada de água e levaram o navio para o fundo na posição planeada. À tarde foi afundado o navio-patrulha Zambeze, com 44 metros de comprimento e 292 toneladas de deslocamento, numa operação que decorreu de forma semelhante.
Segundo os responsáveis pelo projecto Ocean Revival, os navios ficaram a 30 metros de profundidade, com a parte mais alta do mastro a 15 metros da superfície. A esta profundidade o tempo médio de mergulho será de cerca de 40 minutos, pelo que serão precisos quatro ou cinco mergulhos para que um mergulhador possa visitar cada navio. Em tempo de crise, é animador imaginar que a viabilidade financeira do projecto parece estar assegurada, o que será uma boa notícia para a economia portuguesa.


Um festival de cozido à portuguesa

Está anunciado para o período que decorrerá entre os dias 8 e 11 de Novembro, o Festival do Cozido Ribeirinho, uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Loures e pela Junta de Freguesia de Sacavém, que decorrerá em Sacavém, na área ribeirinha do rio Trancão. De acordo com o programa que está divulgado, o festival estende-se por diferentes atracções, onde se incluem restaurantes, artesanato, animação infantil, música ao vivo, magusto e petiscos.
Diariamente, das 12:00 às 23:00 horas, junto à zona ribeirinha de Sacavém, poderemos conhecer o Festival do Cozido Ribeirinho, que a organização afirma ser “o melhor Festival de Cozido do País”. Provavelmente é uma boa oportunidade para os apreciadores da boa gastronomia e, naturalmente, eu próprio não deixarei de ir conhecer esse “cozido ribeirinho”.

domingo, 28 de outubro de 2012

Um novo especialista de maratonas

Os tempos estão difíceis mas, apesar disso, o nosso contabilista-mor não só dirige as nossas Finanças Públicas, como ainda tem tempo para comentar a corrida da maratona. Na realidade, segundo disseram os jornais e a televisão mostrou, durante uma prelecção feita aos deputados da maioria nas respectivas jornadas parlamentares conjuntas, afirmou que Portugal já realizou dois terços do seu processo de ajustamento e está agora como um atleta na fase final da maratona. Depois fez uma analogia entre o processo de ajustamento que tem conduzido e a corrida da maratona, dizendo que Portugal já fez "dois terços da maratona", ou seja, está "por volta do 27º quilómetro" e a aproximar-se da parte final da corrida. Ora não é isso o que vemos, ouvimos e lemos! Nem é isso o que ele diz quando ameaça subir ainda mais os impostos. Depois, continuou a dissertar sobre a corrida da maratona e disse que os maratonistas não desistem ao 27.º quilómetro, mas apenas entre o 30.º e o 35.º quilómetro, quando se apresentam os maiores desafios aos maratonistas, tal como acontece com um programa de ajustamento. Durante esta parte do seu discurso, o novo especialista de maratonas assinalou que Portugal tem "uma maravilhosa tradição de corredores de maratona" e sabe, por isso, "o que significa correr e triunfar na maratona".
Que grande confusão! Esta analogia da maratona é muito infeliz. Quando há mais de dois mil anos os gregos ganharam a batalha da Maratona, foi ordenado ao soldado Filípides que corresse até Atenas, situada a cerca de 42 km, para levar a notícia da vitória sobre os persas. Filípides correu essa distância tão rapidamente quanto pôde e, ao chegar, apenas conseguiu dizer "vencemos", caindo morto devido ao esforço dispendido. Também em 1912 na edição da maratona olímpica de Estocolmo, o português Francisco Lázaro morreu durante a prova. Significa que a morte já atraiçoou alguns maratonistas. Esperemos que isso não aconteça com a nossa ”maratona”.

sábado, 27 de outubro de 2012

Portugal: o país que queremos ser

No próximo dia 3 de Novembro vai realizar-se na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, por iniciativa da Comissão Nacional de Justiça e Paz, uma conferência com o sugestivo título “Portugal: o país que queremos ser”.
Trata-se de uma conferência que pretende ser um contributo para o reforço da nossa confiança num futuro de justiça e de paz, mas será também uma oportunidade para ouvir as reflexões de algumas das mais respeitadas personalidades da nossa vida cívica, como Ramalho Eanes, Oliveira Martins, Bruto da Costa, Laborinho Lúcio, Gomes Canotilho, Seixas da Costa, Manuela Silva, entre outros.
Estamos a viver um tempo de incerteza e de grande dificuldade, curvados ao peso das dívidas e dos nossos erros, humilhados no nosso orgulho nacional, envolvidos em elevados níveis de turbulência e com o pensamento atrofiado pelo excessivo ruído que uma comunicação social sensacionalista se encarrega de ampliar e, por isso, esta iniciativa nascida do empenhamento e da sabedoria de instituições e personalidades da nossa sociedade civil, é notável e justifica as nossas melhores expectativas. A Comissão Nacional de Justiça e Paz está de parabéns por esta iniciativa que se afigura poder ser um estímulo para encarar e resistir aos dias e aos tempos que hão-de vir. A conferência inicia-se às 10:00 horas, a entrada é livre e é vivamente recomendável.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Afinal quem é que manda nesta freguesia?

Não é necessário recorrer a quaisquer indicadores para perceber que a nossa situação económica e social se está a degradar diariamente, bastando andarmos pelas ruas para vermos os efeitos de uma crise persistente, com os desempregados encostados às paredes, as pessoas a mendigar, o pequeno comércio a encerrar portas, os edifícios a degradarem-se, os jovens a abandonar o país e a falta de confiança espelhada no rosto das pessoas, cada vez mais assustadas e descrentes. Há quem diga que a austeridade nos está a matar. Os cenários que nos desenham não são credíveis e todas as previsões económicas falham. Os nossos dirigentes enganaram-nos e não nos dão verdadeiros exemplos mobilizadores. Limitam-se a aumentar impostos e a cortar salários e pensões. Não fazem outra coisa. Não têm experiência e não conhecem o país. Esquecem que são os portugueses e não os especuladores gananciosos que estão em primeiro lugar. Disseram uma coisa e têm feito outra. Descaradamente. Insensatamente. Irresponsavelmente. Os outros políticos também parecem não compreender o que se passa, absorvidos pela clubite partidária. Os discursos que ouvimos são contraditórios, com apreciações que variam do óptimo ao péssimo. As notícias que nos chegam de fora também não são animadoras. Não há verdadeiras soluções para o crescimento e o emprego ou para o défice público e a dívida. Em vez de nos darem ânimo e confiança, ameaçam-nos com mais austeridade.
Nesse quadro de progressiva recessão económica, de aumento da pobreza e da decadência social, temos Abebe Selassie, o homem do FMI que lidera a missão da troika em Portugal, a produzir declarações no Diário Económico que revelam duas coisas muito preocupantes: a primeira, é que os nossos governantes se tornaram meras figuras decorativas perante as entidades que constituem a troika e, a segunda, é que de facto não somos dirigidos por um primeiro-ministro ou por um governo por nós eleito, mas por um pequeno grupo de técnicos/dirigentes que, qual cavalo de Tróia, estão infiltrados no governo com bandeirinha na lapela, a representar e a defender os interesses da troika.

Relvas & companhia: vão estudar!

O conhecimento e o saber são instrumentos de promoção económica e social mas, para muitas pessoas, não é isso que conta mas tão só a posse de um qualquer certificado, que eventualmente os habilite a um bom emprego mas, sobretudo, que assegure o reconhecimento da sociedade. No nosso país, esse certificado é o diploma de licenciatura, porque ser doutor representa um estatuto e poucos resistem a esse apelo, provavelmente por razões de falta de escrúpulos e de pouca inteligência. Porém, enquanto antigamente as licenciaturas representavam quatro ou cinco anos de muito trabalho e estudo, agora parece ter-se tornado possível a obtenção desse certificado através de esquemas muito controversos e que, seguramente, devem envolver dinheiros, subornos, corrupção e tráfico de influências. O caso relvas é um dos casos mais conspícuos desta trapalhada, pois em 2006 obteve 32 equivalências com base no seu currículo profissional, tendo apenas feito quatro exames para concluir num ano o curso de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Lusófona. De resto, esta escola tornou-se uma verdadeira oficina de doutores e, nesta altura, já terão sido detectados 350 casos ou processos aparentemente viciados, nos quais metade terá concluído o curso em menos de um ano, embora haja quem o tenha feito em menos de 20 dias e, até, em menos de 24 horas.
A licenciatura de Relvas está em risco, escreve o jornal i. O Ministério da Educação já obrigou a Universidade Lusófona a reavaliar todas as licenciaturas que foram atribuídas com recurso ao golpe da creditação profissional. No entanto, os estudantes a quem for retirada a licenciatura poderão “retomar o percurso académico de forma a obter o grau”, o que significa que pode vir a concretizar-se o apelo que neste Verão surgiu em cartazes que observamos nas transmissões televisivas das grandes provas desportivas: Relvas vai estudar!
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Os Fantasmas do Rovuma

É um livro que é um excelente trabalho de reportagem ou de narrativa histórica da autoria do jornalista Ricardo Marques, baseado em documentos muito diversos, incluindo livros, testemunhos escritos, cartas e memórias publicadas em jornais e revistas, mas também em informações recolhidas junto de especialistas. Tem por título Os Fantasmas do Rovuma e trata de uma das mais humilhantes e menos conhecidas campanhas militares em que os portugueses estiveram envolvidos ao longo da sua centenária história e que decorreu no norte de Moçambique entre 1914 e 1918, no período em que se travou a I Guerra Mundial.
No contexto geopolítico da época, o governo português decidiu enviar expedições militares para as suas fronteiras com os territórios coloniais alemães, para assegurar a protecção das suas fronteiras. Assim, para o norte de Moçambique seguiram sucessivamente quatro expedições militares que se instalaram sobretudo junto às margens do rio Rovuma, que separava os territórios portugueses da Companhia do Niassa dos territórios da África Oriental Alemã. Inicialmente as tropas portuguesas tomaram Quionga e chegaram a ocupar alguns postos militares no território alemão, mas depois foram dizimados pelas marchas e pela fome, pela sede e pela doença e, por vezes, também pela acção dos homens do famoso general von Lettow-Vorbeck. Mais do que um desastre militar, aquelas expedições foram uma tragédia humanitária que Os Fantasmas do Rovuma bem documentam.
Para quem gosta de História e, para quem como nós - cinquenta anos depois - esteve no cemitério de Quionga e na foz do Rovuma, este livro é um documento essencial para melhor compreender uma das mais negras páginas da nossa história.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Espanha entre centralismo e soberanismo

As eleições regionais que ontem se realizaram na Galiza e no País Basco, tiveram os resultados esperados ao confirmarem a maioria de quem já governava, mas vieram acentuar a complexidade da situação política espanhola e revelar tendências de sinal contrário.
Na Galiza, o PPG (Partido Popular Galego) conseguiu manter a presidência do governo autónomo e revalidar a maioria absoluta no parlamento daquela região espanhola (41 dos 75 deputados), com uma campanha que defendia as políticas de austeridade preconizadas por Madrid, num claro apoio ao centralismo de unidade nacional de Mariano Rajoy, que é natural daquela região autónoma.
No País Basco a vitória pertenceu ao PNV (Partido Nacionalista Basco) com 27 deputados, embora tivesse ficado aquém da maioria absoluta e, consequentemente, tenha necessidade de negociar com outros partidos para formar governo. Duas alternativas são possíveis: a coligação Euskal Herria Bildu, herdeira do ilegalizado partido Batasuna (21 deputados), que foi a segunda força mais votada ou o PSV (Partido Socialista Basco), com 16 deputados. Os observadores parecem apostar numa coligação entre o PNV e o E. H. Bildu, o que representará uma pressão para a realização de um referendo para decidir sobre a independência do País Basco, semelhante ao que está a suceder na Catalunha, onde serão realizadas eleições em Novembro.
Em Espanha, a situação económica e social está muito difícil, mas a situação política também está muito complexa e não lhe podemos estar indiferentes.

domingo, 21 de outubro de 2012

Para quê tantos estudos?

De acordo com a edição de hoje do Correio da Manhã, a proposta de orçamento do Estado para 2013 inclui uma verba de 86 milhões de euros destinada a estudos, pareceres, projectos e consultadoria. Embora este montante represente um decréscimo de cerca de 14 milhões relativamente ao ano anterior, há alguns ministérios que vão gastar mais dinheiro na contratação de estudos, nomeadamente o Ministério da Justiça.
Em tempo de vacas magras é um caso muito estranho, até porque desde há muitos anos que existem suspeitas de que esta despesa constitui um desperdício e uma forma de ajudar os negócios dos amigos. De facto, esta rubrica orçamental tem sido sempre criticada porque, objectivamente, tem servido para alimentar escritórios de advogados, gabinetes técnicos diversos e empresas de consultoria, para além de ajudarem a aumentar as contas bancárias de muita gente. O Estado possui um verdadeiro batalhão de técnicos superiores altamente qualificados em todos os domínios e, esta decisão não é apenas um descarado favorecimento dos amigos, mas é também uma evidente desconsideração desses técnicos.  
Em tempos estes gastos foram tidos como gorduras do Estado e, por isso, esperava-se que o discurso moralizador do passos-gasparismo pusesse um travão nesta escandalosa sangria dos nossos dinheiros, mas até neste domínio é evidente que esta gente é forte para com os fracos e fraca para com os fortes. É caso para perguntar: para quê tantos estudos?

sábado, 20 de outubro de 2012

Uns contabilistas muito teimosos

O jornal i informa hoje que a troika obriga Portugal a pagar juros de dinheiro que não utiliza, o que constitui uma atitude hostil e brutal para um país em dificuldade e que é membro das três entidades que compõem a troika.
O programa de assistência financeira a Portugal assinado em Maio de 2011 prevê um empréstimo de 78 mil milhões de euros, em que se inclui uma fatia de 12 mil milhões de euros destinados ao sector financeiro para reforço dos seus capitais ou, dito de maneira mais directa, para tapar os buracos a que conduziu a má gestão bancária e a sua ganância do lucro. Desta fatia de 12 mil milhões de euros, o Estado injectou este ano 4,5 mil milhões de euros no BCP e no BPI, enquanto os restantes 7,5 milhões estão depositados numa conta bancária no Banco de Portugal.
É sabido que, conforme revelou o nosso contabilista-mor, vamos pagar 34,4 mil milhões de euros em juros correspondentes à utilização integral do crédito de 78 mil milhões de euros. Porém, ao contrário do que estava previsto, o pagamento de juros à troika está a incidir sobre a totalidade dos 12 mil milhões de euros e não apenas sobre o montante utilizado até agora, isto é, a troika obriga Portugal a pagar juros de dinheiro que de facto não utiliza. Vergonhosamente, os nossos contabilistas não protestam. Eles são mais trokistas que a troika. São amigalhaços.
Esta é apenas uma das várias intransigências da troika, mas também é um sinal revelador da necessidade de serem renegociadas a dívida e o défice, mas também a arquitectura do programa de ajustamento, pelos maus resultados que estão a produzir. Com negociadores patriotas. Quando se ouve o antigo ministro Cadilhe a defender que Portugal deve fazer a renegociação honrada da dívida, isto é, deve tentar renegociar a dívida com a troika, para um prazo muito mais alargado e com uma taxa de juro mais suportável, estou (por uma vez) de acordo com ele. Mas os nossos contabilistas sempre disseram que queriam ir mais longe do que a troika.
 .

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Heros of Porto

Na passada terça-feira realizou-se no Porto, um desafio de futebol entre as selecções de Portugal e da Irlanda do Norte, integrado na fase de grupos de apuramento para o Campeonato do Mundo a realizar no Brasil em 2014.
No ranking da FIFA a selecção portuguesa ocupa o 3º lugar, enquanto a equipa da Irlanda do Norte se encontra no 117º e, por isso, o favoritismo estava todo do lado português, com um estádio cheio de público a incentivar a equipa onde brilham algumas das estrelas do futebol mundial. A divulgação e a promoção publicitária do jogo tinha gerado uma onda de entusiasmo e de confiança, pelo que ninguém esperava outro resultado que não fosse uma vitória de Ronaldo, Nani, Pepe e Bruno Alves.
Porém, o futebol não é uma ciência exacta e depende de muitos factores, sobretudo do valor dos jogadores, do treino de conjunto, da inspiração individual de cada jogador e da táctica adoptada para dominar o adversário.
No fim do jogo o resultado foi um empate a um golo, que chocou os adeptos portugueses e que começa a comprometer a presença da selecção portuguesa no Brasil em 2014. Quando a selecção ganha a nossa imprensa endeusa os jogadores, mas desta vez foi o jornal Belfast Telegraph que trata os seus jogadores como heróis e anuncia em primeira página:
Heros of Porto… Northern Ireland earn shock draw in Portugal



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Os especuladores não cedem à Argentina

O navio-escola argentino Libertad fazia a sua habitual viagem de instrução anual, tendo a bordo mais de trezentos tripulantes e alunos, incluindo cadetes de outros países sul-americanos. O navio tinha largado de Buenos Aires no dia 2 de Junho e, no dia 2 de Outubro, encontrava-se no porto de Tema, nas proximidades de Accra, a capital do Ghana. Foi aí que o navio foi surpreendido por uma ordem judicial emitida pelo Supremo Tribunal do Ghana que o impedia de sair do porto, dando provimento a uma queixa apresentada por um grupo de investidores das Ilhas Cayman, agrupados no Fundo NML, que é controlado pelo especulador internacional Paul Singer e que reclama o pagamento pela República Argentina de cerca de 370 milhões de dolares. Era o arresto ou uma quase penhora de um navio da Marinha de Guerra Argentina! O Fundo NML tem procurado apropriar-se judicialmente de bens argentinos no estrangeiro (aviões, agências bancárias e até o património da família Kirchner), no sentido de ser ressarcido do dinheiro que emprestou à República Argentina e, agora, escolheu o Libertad como alvo. Porém, o Fundo NML não aceitou participar no sindicato que em 2005 e 2010 possibilitou a reestruturação da dívida externa argentina, que permitiu superar a situação de bancarrota declarada em 2001, tendo por isso ficado fora do plano de pagamentos argentino. É, portanto, um caso de vingança a demonstrar a força dos especuladores internacionais!
Para a Argentina está-se perante uma grosseira violação da Convenção de Viena, uma vez que os navios militares estão protegidos por imunidade diplomática, pelo que está ser pedido o apoio dos países amigos. O facto é que desde então, a imprensa argentina tem acompanhado o caso com muita emoção, interrogando-se sobre as condições em que o Libertad foi apanhado nesta delicada questão judicial. O navio está atracado em Tema há duas semanas e o Chefe da Marinha Argentina já se demitiu. Entretanto há quem lamente a política da Presidente Cristina Kirchner que reivindica as Malvinas e que nacionalizou a espanhola Repsol, o que representa o isolamento argentino em relação ao apoio que poderiam receber do Reino Unido e da Espanha.  

Scotland 2014 - a independência?

Há uma onda de nacionalismo que está a atravessar a Europa que tem raízes históricas, mas que também é uma consequência da fraqueza da União Europeia e da profunda crise institucional e financeira em que está mergulhada. O projecto de solidariedade europeu está em risco e volta a falar-se numa Europa a duas velocidades, na saída voluntária de alguns dos seus Estados-membros, na sua total fragmentação ou até no fim do próprio ideal europeu e do sonho de Jean Monnet, Robert Schuman e Konrad Adenauer. Depois de meio século em que a ideia federalista se aprofundou à custa das soberanias nacionais, os interesses e as opiniões públicas nacionais estão a reagir contra os projectos hegemónicos que, até há bem pouco tempo, eram corporizados pelo eixo franco-alemão e, em particular, pela chanceler Merkel.
O nacionalismo é uma ideologia que defende os interesses da nação antes de quaisquer outros, sobretudo a defesa do seu território, da sua identidade e da sua população – unida por tradições, língua, cultura, religião ou interesses comuns – e constituindo uma individualidade territorial e política com direito de se auto-determinar.
A Europa sempre foi uma Europa de Nações, com afinidades e rivalidades, que tantas vezes se guerrearam, se uniram em espaços imperiais ou se sujeitaram a tutelas supra-nacionais. Nas actuais condições, a onda de nacionalismo europeu está a renascer em Espanha, França, Bélgica, Itália e Reino Unido, entre outros países. O acordo assinado entre o primeiro-ministro britânico David Cameron, e o ministro britânico para a Escócia, Alex Salmond, para a realização de um referendo em 2014 com uma só pergunta – Independência? Sim ou Não – vai permitir que os 5 milhões de escoceses decidam se querem ou não desligar-se do Reino Unido, ao qual estão ligados há três séculos. Foi um dia histórico para os escoceses, como salientou o jornal The Scotsman de Edimburgh.