quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Papa Francisco - Person of the Year 2013

No ano de 1927 a revista Time teve a iniciativa editorial de escolher “O Homem do Ano” e de lhe dedicar uma edição especial, tendo então escolhido o aviador Charles Lindbergh, que realizara o primeiro voo transatlântico solitário e sem escalas. A revista continuou com a sua iniciativa anual e, nos anos seguintes, entre outras personalidades, foram escolhidos Mahatma Gandhi, Adolf Hitler, Josef Stalin, Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Dwight Eisenhower, entre outros. Em 1999, a revista modernizou a sua iniciativa e em vez de “O Homem do Ano”, passou a escolher a pessoa do ano - Person of the Year - que mantém o espírito anterior e continua a destacar o perfil de um homem, mulher, casal, grupo, ideia, lugar ou máquina que "para o bem ou para o mal, mais influenciou o mundo durante o ano". Este ano a revista Time escolheu o Papa Francisco como a personalidade do ano, depois de em anos anteriores já ter escolhido outros chefes da Igreja Católica, respectivamente João XXIII (1962) e João Paulo II (1994). O Papa Francisco nasceu em Buenos Aires como Jorge Mário Bergoglio e é o primeiro papa nascido no continente americano, tendo sido eleito no dia 13 de Março de 2013.
A escolha da revista Time reconhece a coragem, o prestígio, a bondade e a enorme influência mundial do Papa Francisco no seu curto pontificado, observável através do exemplo da sua atitude e da sua palavra contra a fome, a pobreza, a desigualdade e a exclusão e, em especial, pela sua recente e lúcida exortação apostólica Evangelii Gaudium, em que toma posição sobre os grandes desafios que a Humanidade enfrenta e se declara contra “uma economia de exclusão e de desigualdade social”, porque “essa economia mata”.
Foi uma boa escolha da revista Time.

 

O Brasil escolhe aviões suecos

O governo brasileiro anunciou ontem a escolha dos aviões Gripen NG da fabricante sueca Saab, para equipar e modernizar a Força Aérea Brasileira (FAB), encerrando um processo que foi lançado em 2001 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O negócio foi fechado por 4,5 mil milhões de dólares (3,26 mil milhões de euros) e representa a aquisição de 36 unidades que deverão começar a ser entregues em 2018. O desenvolvimento do novo modelo - hoje existe apenas um protótipo do Gripen NG - será feito em conjunto com a FAB e com a Embraer, devendo contar ainda com a participação de outras indústrias brasileiras, o que se traduzirá num projecto de tecnologiza partilhada. A Presidente Dilma Roussef sublinhou que embora o Brasil seja um país pacífico, não ficará indefeso, “pois um país com as suas dimensões deve estar sempre pronto a proteger cidadãos, património e soberania".
Para a aquisição dos caças, o governo brasileiro abriu um concurso que contou com a participação dos franceses da Dassault (modelo Rafale), dos americanos da Boeing (modelo F-18) e dos suecos da Saab (modelo Gripen NG). Os jornais brasileiros destacaram esta notícia, mas alguns jornais franceses como o diário económico La Tribune, também o fizeram para assinalar “o roubo” que os suecos da Saab fizeram aos franceses da Dassault, apesar das habituais pressões presidenciais francesas. Este negócio mostra bem como dois Estados-membros da União Europeia procuram apoiar as suas indústrias, disputando influências e mercados numa verdadeira guerra comercial, que mostra como o espírito nacionalista prevalece sobre o espírito federalista europeu.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Estaleiros: uns sobrevivem, outros não

Na sua edição de hoje o diário La Voz de Galicia anuncia que através de uma das suas filiais, a Pemex-Petróleos Mexicanos assumiu o controlo dos estaleiros Hijos de J. Barreras (Astillero Barreras) em Vigo, com um investimento de 5,1 milhões de euros na compra de 51% do seu capital social. O estaleiro entregara o ferry-boat 'Volcan de Tinamar' em Junho de 2011 e, desde então, passaram-se dois anos e meio sem que os estaleiros tivessem encomendas e trabalho, mas agora recuperam a sua actividade. O jornal galego anuncia que serão criados quatro mil postos de trabalho e que, desta forma, é reactivada a indústria naval espanhola. Os estaleiros Barreras ficam com trabalho garantido para os próximos dois anos, pois já estão asseguradas encomendas no valor de 300 milhões de euros, sendo um navio atuneiro no valor de 85 milhões de euros, mais três navios-tanques e um navio de apoio a plataformas petrolíferas. Entretanto, há conversações para a possível encomenda de mais três outros “grandes navios” e espera-se que essas encomendas sejam confirmadas até ao final do ano.
A menos de cem quilómetros para sul de Vigo situam-se as instalações dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) e, comparando o que se passa nos dois estaleiros, ficamos estupefactos. Uns sobrevivem e dão um acrescentado ânimo à economia espanhola, enquanto outros são extintos por um advogado investido de poderes ministeriais. Já tínhamos o tira-dentes e o mata-frades. Agora temos o mata-estaleiros. Ao contrário das autoridades espanholas que encontraram uma boa solução para o seu problema, o governo português e o ministro Branco não quiseram ou não foram capazes de encontrar uma solução e, na sua ânsia de abater o que ainda mexe, arranjaram uma saída catastrófica que passa pelo despedimento de seis centenas de trabalhadores e pela extinção da maior unidade portuguesa da indústria da construção e reparação naval. Nem sequer foram a Bruxelas pedir ajuda. Ainda não se sabe porquê, mas o Departamento Central de Investigação e Acção Penal já estará a analisar o caso após uma queixa apresentada por suspeitas de gestão danosa no processo de subconcessão dos terrenos e infra-estruturas dos ENVC à Martifer. Por favor sejam rápidos e desmascarem  esta gente.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Angola: prosperidade e muita confiança

O dinamismo da economia e da sociedade angolanas revelam-se todos os dias nos mais diferentes domínios. Cerca de dez anos depois do fim da guerra civil em Angola, o país atravessa um clima de expansionismo económico e de euforia social, resultantes sobretudo das suas enormes riquezas naturais, embora ainda haja uma substancial parte da sua população que não conhece os benefícios da prosperidade.
O bom conhecimento das geografias angolanas e a língua comum fazem com que o quotidiano de Angola se torne facilmente observável em Lisboa, não só pelo que se lê, mas também que se sabe através dos angolanos que por cá circulam ou através dos portugueses que por lá andam.
Ontem, o jornal Sol – Angola destacou em primeira página o projecto de construção de várias torres na ilha de Luanda, implantados numa área de construção com 494 mil metros quadrados e num investimento da ordem dos cinco mil milhões de euros. Também o semanário Expresso noticia hoje que “portugueses apostam no imobiliário na baía de Luanda” e que há portugueses entre os arquitectos e os doze investidores da Sociedade Baía de Luanda, que já requalificou a baía e vai gerir o projecto imobiliário. A primeira fase do projecto arrancará no próximo mês de Janeiro e construirá 25 edifícios que representam cerca de 30% do loteamento total, num investimento de 1,1 mil milhões de euros que se espera fique concluído dentro de três anos. Há realmente prosperidade e muita confiança para aproveitar o magnífico cenário da baía de Luanda.

Uma gaiola dourada em Paris

Há menos de um mês realizou-se em Lisboa uma manifestação contra os cortes previstos no Orçamento do Estado para 2014 que, pela primeira vez, juntou todas as polícias e que se concentrou em frente das escadarias da Assembleia da República. Seriam cerca de 12 mil polícias de diferentes corporações e o ambiente era de alguma tensão como costuma acontecer nessas circunstâncias, com manifestantes a empurrarem as grades de segurança que acabariam por ser recuadas. Em determinada altura os polícias (em protesto) conseguiram furar o cordão dos polícias (em serviço) que os impediam de subir as escadarias da Assembleia da República. Subiram-nas e só pararam à porta do edifício. Foi uma atitude simbólica dos polícias (em protesto) e uma atitude sensata dos polícias (em serviço), mas rapidamente tudo serenou. O governo não esperava esta “grave afronta" ou esta "insubordinação” e decidiu demitir imediatamente o director geral da PSP, vindo a nomear para o cargo o comandante da força policial que, mal ou bem, não evitou que as escadarias fossem ocupadas pelos manifestantes. O assunto nunca foi claramente esclarecido, talvez para poupar a demissão do ministro, como seria normal que acontecesse. Porém, ele aí mostrou que tem pouca verticalidade. Passou menos de um mês e o governo, como salienta hoje o Diário de Notícias, decidiu nomear o antigo director da PSP para um lugar especialmente criado para ele: oficial de ligação do seu ministério na embaixada portuguesa em Paris, onde irá ganhar 12 mil euros por mês, isto é, o triplo do que auferia como diretor da PSP. Nunca esse cargo foi necessário e é uma autêntica e escandalosa gaiola dourada. Podia ser em Alcoutim ou em Penedono, mas teve que ser em Paris. Embrulhem! O homem até podia não aceitar e ficaria na história como um insubornável e incorruptível, mas aceitou. E o ministro podia não criar estes tachos neste tempo tão nebuloso, quando o seu governo abusa da austeridade e promove despedimentos, faz aumentar a pobreza e aumenta a desigualdade. Que vergonha é esta de termos o ministro Macedo a baixar ao nível dos seus pobres pares, ao arranjar tachos que vão ser pagos com os dinheiros das nossas pensões, salários e  impostos e, de uma forma geral, com os nossos sacrifícios, a demonstrar que a austeridade não é para todos! Que vulgar macedo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os independentistas catalães não cedem

Os partidos políticos independentistas da Catalunha chegaram a um acordo para realizar um referendo sobre a independência desta região do nordeste da Espanha no dia 9 de Novembro de 2014, segundo anunciou Artur Mas, o chefe do governo catalão, que também indicou as perguntas a dirigir ao eleitorado:
     - Querem que a Catalunha se transforme num Estado?
     - E em caso afirmativo, querem que seja independente?
A notícia foi destacada por toda a imprensa espanhola, que também destacou a solene declaração de Mariano Rajoy a rejeitar a autorização para a realização ou para qualquer negociação relativa a esse referendo, porque é contrário à unidade indissolúvel da nação espanhola e, portanto, é inconstitucional. O problema é muito sério pois reflecte uma legítima aspiração histórica da Catalunha, mas também porque esconde a grave situação económica catalã que está sob um programa de ajustamento financiado pelo governo central e, sobretudo, porque é um processo que pode conduzir à fragmentação da Espanha. Actualmente os partidos que apoiam a realização do referendo – CiU, ERC, ICV e CUP – dispõem de uma maioria de 88 deputados dos 135 que fazem parte do Parlamento catalão (65%), embora as últimas sondagens apontem para um apoio de apenas 47% do eleitorado à independência catalã.
O referendo não é vinculativo, mas está a fazer aumentar a tensão entre Madrid e Barcelona ou entre Mariano Rajoy e Artur Mas. Curiosamente, caso o referendo catalão se realize, acontecerá menos de dois meses depois do referendo sobre a independência da Escócia que acontecerá no dia 18 de Setembro de 2014, o que pode influenciar os resultados na Catalunha.

Os maus passos e os erros da troika

O Parlamento Europeu decidiu investigar a trapalhada que têm sido os passos e os erros da troika em Portugal, que têm aprofundado a nossa crise e que nos têm conduzido a um progressivo empobrecimento, a uma insustentável situação social e a uma humilhante dependência externa. Apesar do discurso mais ou menos optimista do poder, o quotidiano dos portugueses continua nebuloso, sem esperança e sem futuro.
Christine Lagarde, a directora-geral do FMI, admitiu que o erro em relação aos efeitos da austeridade obrigou Portugal (e a Grécia) a aplicar programas de ajustamento num espaço de tempo demasiado curto, referindo também que os elevados custos da electricidade prejudicam o crescimento económico em Portugal. Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia, tinha dito que a austeridade atingiu o limite, que não fizemos tudo bem e reconhecia que se tinha cedido demasiado a “conselheiros tecnocratas”. Mario Draghi, o presidente do BCE, veio exigir à banca que deixe de aplicar o dinheiro que recebe do BCE no rendoso negócio da dívida pública (que em Portugal ascende a 23,5 mil milhões de euros) para passar a emprestá-lo às empresas.
Estes dirigentes são os principais responsáveis pela troika e disseram o que já tinha sido dito muitas vezes, por muita gente e desde há muito tempo. Porém, teimosa e fanaticamente, o governo quis “ir mais longe que a troika” e avisou que não precisava “nem de mais tempo, nem de mais dinheiro”. O governo e o seu responsável máximo instalaram-se legitimamente no poder, mas não estavam preparados. São medíocres. Deslumbrados. Não conheciam o país. Mandaram emigrar os portugueses e estão a vender o nosso património. Viajam muito e pensam pouco. Tornaram-se os agentes da troika e dos grandes interesses. Habituaram-se a não reagir e a ceder a tudo, a deixar-se humilhar e a não ter dignidade, nem patriotismo, nem orgulho nacional.  Agora sofrem o vexame de ter que receber o Parlamento Europeu para investigar esta trapalhada. É demasiada mentira e muita incompetência. Mário Soares tem razão.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Os americanos repensam o problema sírio

No passado mês de Setembro o governo sírio aceitou entregar o arsenal de armas químicas do seu exército a inspectores internacionais, de acordo com um plano apresentado pela Rússia, travando assim uma mais que provável intervenção americana contra alvos sírios, que o Presidente Obama tinha declarado ser “limitada, proporcional e consequente”. A partir de então, a Síria saiu da agenda dos media internacionais, embora a guerra tivesse continuado com muita dureza, assim como a ajuda militar aos opositores a Bashar El Assad que era fornecida por americanos e ingleses, mas também pela Arábia Saudita e pelo Qatar.
Passaram menos de três meses e, segundo revela hoje o diário espanhol El País, os Estados Unidos e o Reino Unido decidiram retirar a ajuda militar aos rebeldes sírios, designadamente ao Exército Livre Sírio (ELS), porque uma milícia do Estado Islâmico, uma nova amálgama de milícias opositoras do regime, assaltou a sede do Conselho Militar Líbio e vários dos seus depósitos de armas, capturando armas anti-aéreas e anti-tanque. Essa acção levou os Estados Unidos a suspender o apoio aos rebeldes do ELS com receio que essa ajuda vá parar às mãos dos grupos extremistas sunitas, aos jihadistas estrangeiros ou à Al Qaeda, isto é, os americanos parece que aprenderam, que  já repensam o problema sírio e que começam a perceber que a alternativa à ditadura de Bashar El Assad é uma ditadura fundamentalista.  Michael Hayden, o ex-director da CIA veio agora dizer que uma vitória de Bashar El Assad "é o melhor de três muito, muito horríveis cenários" e o único que pode evitar a fragmentação do país.
Entretanto, parece estar em preparação uma conferência de paz a iniciar provavelmente em Janeiro e bom seria que as nações mais poderosas ou mais influentes trabalhassem para a paz na Síria, tendo sempre em mente o que aconteceu ao Iraque e à Síria depois do derrube de Sadam Hussein e de Muamar Kadafi.   

A França também tem uma crise social

Por razões históricas e culturais que, ao longo do processo histórico nem sempre foram as melhores, há uma relação muito intensa entre Portugal e a França. Muitos milhares de portugueses e de luso-descendentes vivem em França e, por isso, tudo o que por lá se passa nos interessa.
Hoje, os jornais franceses destacam a “irrespirable” poluição de Paris e perguntam “pourquoi on respire si mal”, tratam do “chaos centrafricain” e dos dois soldados franceses que lá morreram e anunciam a ambição bretã de participar com uma equipa na America’s Cup de 2017. Porém, os mais surpreendentes destaques da imprensa francesa nas suas edições de hoje dizem respeito à situação social por que passa o país, que é um dos pilares da União Europeia.
O jornal Midi Libre que se publica em Montpellier analisa a situação social francesa, investiga a situação da pobreza e procura compreender essa nova realidade que é “vivre avec 600 euros”, enquanto o diário Le Figaro destaca em primeira página “ces jeunes qui ne voient plus leur avenir en France”. De facto, há muitos milhares de jovens franceses que estão a deixar o país na procura de alternativas para a falta de dinamismo da sua economia e para a não criação de novos empregos, que se verifica no “hexágono”. Esses jovens, afinal tão desesperados como os jovens portugueses, espanhóis, gregos ou italianos, dirigem-se para a Suiça, para a China ou para o Qatar, mas também para os Estados Unidos, para a Austrália e para o Canadá. A Europa está mesmo mal e não se vê quem cuide dela.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Acudam aos jovens, antes que seja tarde

O Jornal de Notícias é um dos jornais que hoje destaca um estudo sobre emigração que acaba de ser divulgado e que revela que 57% dos jovens portugueses, entre os 15 e os 24 anos de idade, querem emigrar para conseguir um emprego e melhores condições de vida, ou já emigraram. O estudo foi encomendado pela seguradora Zurich e avaliou a situação em 12 países de diversos continentes, incluindo os vizinhos da Espanha, da Itália, da Irlanda e de Marrocos, concluindo que Portugal é país da Europa com maior desejo de emigração (57%), igualado pelos marroquinos e apenas superado pelos russos com 64%, embora estes tenham outras motivações. Relativamente às outras faixas etárias, o valor da vontade de emigrar dos portugueses também é muito elevado. Na faixa etária entre os 25 e os 34 anos, os que ponderam emigrar ou que já o fizeram representa 50% e, na faixa etária entre os 35 e os 44 anos, essa vontade ainda se aproxima dos 50%. Este fenómeno era evidente nas nossas famílias e no nosso círculo de amigos, traduzindo-se, por exemplo, no facto de em 2012 terem emigrado mais de 121 mil portugueses, o mais elevado número desde 1966.
A situação está a ter graves consequências económicas e demográficas, porque está a conduzir ou a acelerar o processo de empobrecimento e de envelhecimento da população portuguesa. A catástrofe social é uma ameaça efectiva e a emigração jovem tende a tornar-se no nosso “vesúvio a soterrar pompeia”.
Perante este desafio, muito complexo e a exigir urgentes medidas para o atenuar, assistimos à irresponsável indiferença dos nossos governantes, que sorriem sem vergonha apenas porque o produto cresceu 0,1%! Eles até podem reduzir a dívida, diminuir o défice, fazer “um milagre económico”, restaurar a nossa credibilidade externa, etc. & tal, mas com esta indiferença estão realmente a acabar com o país.

 

Há indignação e protesto na Ucrânia

A Ucrânia está a passar por momentos de grande tensão e o protesto contra o governo e contra o Presidente Viktor Yanukovytch tem mobilizado algumas centenas de milhares de pessoas nas ruas de Kiev, que reclamam pela aproximação à União Europeia e pelo seu afastamento da Rússia. No domingo, um grupo de manifestantes com o rosto coberto e que empunhavam bandeiras do partido ultranacionalista, destruiu a estátua de Lenine, o líder da revolução russa de 1917. Este simbólico acto anti-russo, a lembrar o derrube da estátua de Sadam Hussein, revela a grande instabilidade por que está a passar o país.
A Ucrânia é um país da Europa Oriental com quase 50 milhões de habitantes que tem fronteiras com a Rússia e com a União Europeia (Roménia, Hungria, Eslováquia e Polónia), encontra-se na fronteira entre a chamada “civilização ocidental” e a “civilização russa”, pelo que é natural que haja forças e interesses reclamando maior ligação a um dos dois referidos blocos.  No entanto, não se trata apenas de questões civilizacionais, culturais, históricas e espirituais, pois o problema também envolve dimensões geoestratégicas de natureza económica, logística e militar. É, portanto, um assunto interno da Ucrânia, mas é um assunto muito importante para a Europa. Curiosamente, enquanto vários países da União Europeia estão a sofrer os efeitos da crise e da austeridade, com manifestações, bloqueios e protestos violentos que põem em causa os seus fundamentos e a moeda única, na longínqua Ucrânia é derrubada uma estátua de Lenine no centro de Kiev e reclama-se a “europeização” do país e a adopção dos valores europeus. O que se está a passar em Kiev não é indiferente para a União Europeia, nem sequer para os portugueses que se habituaram a conviver com uma numerosa comunidade ucraniana, que tão bem se adaptou à sua cultura e ao seu modo de vida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

United Colors of Football

Aproxima-se o Campeonato do Mundo de Futebol – o Brasil 2014 – e o entusiasmo já está instalado na comunicação social dos 32 países participantes, sobretudo depois do sorteio das equipas que vão integrar cada um dos 8 grupos. O sorteio teve transmissão televisiva em directo para todo o mundo e os resultados desse sorteio deram origem a muitos comentários relativos às hipóteses de cada equipa passar ou não passar a 1ª fase. Uns mais eufóricos que outros, mas todos muito confiantes. Sabemos como o futebol se tornou uma das maiores indústrias do nosso tempo e como os jogadores mais talentosos são contratados pelas equipas mais ricas que, cada vez mais, são uma miscelânea de nacionalidades. Assim, há equipas inglesas com poucos ou nenhuns jogadores ingleses, há equipas portuguesas com poucos jogadores portugueses e o mesmo acontece na generalidade dos países europeus.
Hoje o diário desportivo as, que se publica em Madrid, publica uma fotografia de seis futebolistas do Real Madrid que, certamente, estarão no Brasil em Junho de 2014 a representar a Argentina, França, Espanha, Portugal, Brasil e Croácia. O que é curioso é que, mesmo em Portugal, a equipa do Futebol Clube do Porto poderia juntar numa mesma fotografia, não seis mas nove jogadores que provavelmente vão estar no Brasil a representar Portugal, Brasil, França, Argentina, Rússia, México, Bélgica, Colômbia e Argélia. Esses atletas trabalham para o mesmo clube que lhes paga os seus avultados salários, passam um ano inteiro conjuntamente em treinos, estágios, viagens, concentrações e jogos, habituam-se a falar a mesma língua e, depois, por uma só vez, encontram-se frente a frente durante 90 minutos a jogar por diferentes equipas.
Esta verdadeira salada futebolística obriga-nos a pensar o Brasil 2014 como uma grande festa desportiva cheia de bons actores e não como uma  guerra entre nações rivais.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela e a hipocrisia anibalesca

O desaparecimento de Nelson Mandela obriga-nos a uma reflexão sobre a vida do homem e do legado político de tolerância e de apaziguamento que deixou ao seu país, ao continente africano e ao mundo, porque ele foi um exemplo e hoje estamos carentes de exemplos como o que ele nos deu. É isso o que está  a ser feito por todo o mundo e, nesse aspecto, não somos excepção e até tivemos o privilégio de ter ouvido o depoimento de alguns portugueses que o conheceram e com ele conviveram. Nessa reflexão, tem sido recordada a 77ª sessão plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas realizada no dia 20 de Novembro de 1987 em foi aprovada a Resolução A/RES/42/23 (G) sobre a acção internacional a desenvolver para a eliminação do apartheid, que o condena expressamente e que, no seu ponto 4, insta o governo sul-africano a “release immediately and unconditionally Nelson Mandela and all other political prisioners, detainers and restricters”. Soube-se agora pela imprensa que essa Resolução das Nações Unidas foi aprovada com 129 votos a favor e 23 abstenções, tendo havido apenas três países que votaram contra: os Estados Unidos de Ronald Reagan, o Reino Unido de Margareth Tatcher e o Portugal de Cavaco Silva. Estávamos em Novembro de 1987 e o mundo pressionava a África do Sul para libertar Nelson Mandela, o que só aconteceu cerca de 27 meses depois, em Fevereiro de 1990, perante a indiferença ou mesmo a não aprovação do governo português.
Agora, o mesmo homem que deu instruções para se votar contra a libertação de Nelson Mandela e que nada fez para que fosse libertado, escreve que ele “deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações” e que “o  exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade”. Como é possível tanta hipocrisia política e esta enorme cambalhota do Aníbal?

R. I. P. Nelson Mandela

A notícia era esperada desde há algumas semanas mas, apesar disso, consternou o mundo como se pode verificar nas muitas dezenas de jornais que em todo o mundo homenagearam Nelson Mandela com a publicação da fotografia em primeira página do homem que foi o primeiro presidente negro da República da África do Sul e que morreu ontem na sua casa de Joanesburgo com 95 anos de idade.
Nascido em 1918, formou-se em Direito e tornou-se um activista e lutador contra o regime do apartheid que foi oficializado em 1948 e que negava à maioria negra, aos mestiços e aos asiáticos todos os direitos políticos, económicos e sociais. Em 1961 foi consequente com os seus ideais e passou à clandestinidade para se tornar o primeiro comandante do MK, a ala militar do ANC. Capturado, veio a ser condenado a prisão perpétua em 1964 por sabotagem e conspiração. Passou 18 anos na prisão de alta segurança da ilha de Robben Island onde se tornou o prisioneiro número 46 664, esteve depois na prisão de Pollsmoor e, por fim, na cadeia de Victor Verste, perto da Cidade do Cabo. Cumpriu 27 anos de prisão e no dia 11 de Fevereiro de 1990 foi  libertado, depois de receber garantias de que todos os outros prisioneiros políticos seriam libertados como ele. Em 1993 ganhou o prémio Nobel da Paz juntamente com o Presidente Frederick de Klerk, em reconhecimento dos esforços comuns para instaurar uma democracia na República da África do Sul. Em 1994 foi eleito para a presidência do país, tendo cumprido o seu mandato até 1999. Depois de terminado o seu mandato de cinco anos, retirou-se da política e passou a dedicar-se, através da fundação com o seu nome, a uma nova causa – o combate e a prevenção da sida. O presidente Jacob Zuma anunciou a morte de Nelson Mandela e dirigiu-se aos sul-africanos referindo que “Mandela uniu-nos e é unidos que nos devemos despedir dele”. Só quem conheceu o apartheid pode realmente compreender o que foi a luta de Mandela e, depois, a sua magnanimidade para com os seus adversários. O seu nome entra directamente na restrita galeria das mais importantes personalidades do século XX, onde estavam Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Winston Churchill, Mikail Gorbachev e João Paulo II.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um português no governo do Luxemburgo

O novo governo do Luxemburgo, que ontem tomou posse e é presidido por Xavier Bettel, resulta de uma coligação entre liberais, socialistas e verdes, tendo posto fim a duas décadas de Jean-Claude Juncker como chefe do governo do Grão-ducado. Hoje, o diário luxemburguês Le Quotidien noticia o início da Era Bettel, em contraponto à Era Juncker.
O governo inclui como ministro da Justiça o cidadão Felix Braz, um militante dos Verdes com 47 anos de idade, sendo a primeira vez que um luso-descendente desempenha funções governativas no país que tem cerca de 13% de portugueses na sua população residente, pelo que a presença no governo de um ministro de origem portuguesa é um facto muito normal e, em certa medida, também um “prémio” para uma comunidade muito respeitada. Félix Braz é filho de portugueses naturais de Castro Marim e nasceu em 1966 no Luxemburgo. Em 1994 foi eleito pela primeira vez para a autarquia de Esch-sur-Alzette, tendo assumido o cargo de vereador em 1999. Em 2004, tornou-se o primeiro deputado luso-descendente no Luxemburgo. Depois da cerimónia de tomada de posse realizada no Palácio Grão-Ducal onde jurou “fidelidade ao Grão-Duque, obediência à Constituição e às leis do Estado” fez, significativamente, as suas primeiras declarações à comunicação social em português.
Entretanto, a primeira tarefa que lhe foi cometida enquanto Ministro da Justiça é a responsabilidade pela elaboração de um código de conduta ou código deontológico, que os membros do governo deverão seguir. Talvez o Ministro Félix Braz possa mandar uma cópia dessas regras de conduta para os nossos governantes.