terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Os erros de Trump e o futuro da política

Após dezoito meses de trabalho, a comissão designada pelo Congresso dos Estados Unidos para investigar o assalto ao Capitólio realizado no dia 6 de Janeiro de 2021 pelos apoiantes de Donald Trump, apresentou as suas conclusões. Os sete democratas e dois republicanos que integraram aquela comissão, ou House Select Committee, procederam “às mais exaustivas investigações da história norte-americana” e votaram por unanimidade que Donald Trump tentou subverter a transferência da presidência dos Estados Unidos para Joe Biden, através da insurreição. Ontem, a comissão recomendou que o Departamento de Justiça processe criminalmente o ex-presidente por ter tentado reverter ilegalmente a sua derrota nas eleições presidenciais de 2020 e por ter promovido a violência para se manter no poder. Porém, as conclusões da comissão não são vinculativas, nem têm força legal, pelo que terá que ser a instância judicial a acusar, ou não acusar, o ex-presidente Donald Trump. Porém, todos os grandes jornais americanos destacam nas suas edições de hoje a recomendação da comissão do Congresso para que Donald Trump seja processado.
Este caso mostra que, independentemente dos diferentes regimes, os poderes políticos estão cada vez mais limitados pelas ordens jurídicas internas e internacionais.
Não se sabe como vai evoluir o caso Trump, mas é curioso verificar o que aconteceu no corrente ano de 2022, em que foram emitidos mandados de detenção ou foram detidos, o ex-primeiro-ministro tunisino Ali Laarayedh, o ex-primeiro-ministro da Bulgária Boyko Borissov, o ex-primeiro-ministro paquistanês Imran Khan, o ex-primeiro-ministro da Guiné-Bissau Aristides Gomes, o ex-primeiro-ministro das Ilhas Virgens Britânicas Andrew Fahie e o ex-presidente peruano Pedro Castillo. Parece, portanto, que há cada vez menos governantes a actuar à margem da lei ou com impunidade e, sendo assim, o Donald não se safa. A política já não é o que era...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Ainda sobre a festa argentina no Qatar

O futebol é, certamente, o mais importante fenómeno social do nosso tempo. As suas características, simultaneamente de espectáculo artístico e de jogo, geram um entusiasmo único e universal, mesmo nos países e regiões onde ainda não conquistou a unanimidade do gosto popular. Por isso, a vitória da Argentina no Qatar 2022 ocupa as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo, incluindo alguns países onde o futebol ainda não foi adoptado pelas elites e não conquistou as multidões, como acontece nos Estados Unidos, na China, na Índia ou na Indonésia.
Todos os grandes jornais mundiais de referência destacam hoje a vitória argentina e desfazem-se em elogios a Lionel Messi que, na realidade, tem um talento futebolístico único. Habituados a ver que as notícias argentinas que nos chegam se costumam referir a crises económicas, a bancarrotas, a hiperinflações ou a situações de instabilidade política, quem imaginaria que o The Washington Post ou o The Wall Street Journal, bem como o The Times of India ou o China Daily, viessem hoje destacar nas suas edições o futebol e a Argentina, mas também a figura de Lionel Messi? São sinais dos tempos, que podem inspirar novas soluções, para novas situações. Assim, bom seria que o conflito que está a destruir a Ucrânia e a levar a dor à população ucraniana, pudesse ser resolvido de forma semelhante a um jogo de futebol, com ou sem prolongamento, com ou sem penaltis.
Não é tolerável que no território da Ucrânia haja tanta teimosia, tanto sofrimento e tanta destruição, ao contrário do que aconteceu no Qatar, onde houve tanta arte, tanta alegria e tanta festa.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Qatar: aconteceu a vitória da Argentina

Os jornais desportivos de todo o mundo destacaram nas suas edições de hoje a realização da final do Campeonato do Mundo de Futebol que iria ser disputada no estádio Lusail, no Qatar, entre as equipas da Argentina e da França. Cada uma daquelas equipas tinha dois títulos mundiais e, portanto, quem vencesse a final de hoje iria acrescentar mais um troféu ao seu palmarés e posicionar-se no ranking mundial depois do Brasil (cinco títulos) e da Alemanha e da Itália (ambas com quatro títulos). Porém, a expectativa parecia estar menos concentrada nas equipas finalistas e mais nas duas estrelas que se iam defrontar, que por acaso jogam na mesma equipa do Paris Saint-Germain: o argentino Lionel Messi de 35 anos de idade e o francês Kylian Mbappé de 23 anos de idade.
Ao fim do tempo regulamentar as duas equipas estavam empatadas por 2-2. Depois do prolongamento o empate persistiu e o marcador assinalava 3-3. Depois de duas horas de jogo muito disputado e emotivo, a solução foi encontrada nos pontapés de grande penalidade. A Argentina foi mais feliz, tornando-se a nova campeã mundial. Messi foi eleito o melhor jogador do torneio e Mbappé foi o melhor marcador com oito golos.
Emmanuel Macron foi ao Qatar apoiar a equipa francesa e a França perdeu. Os nossos dignitários institucionais foram ao Qatar e Portugal já tinha perdido. Ganhou a Argentina cujo presidente Alberto Fernández não se deslocou ao Qatar. Afinal, parece que ganham aqueles que não se distraem com a presença dos seus presidentes e que perdem aqueles que são atropelados pelos seus próprios presidentes que foram ao Qatar apenas para atrapalhar.
Portanto, parabéns à Argentina, a terra de Carlos Gardel, Juan Manuel Fangio, Ernesto Che Guevara, Jorge Luis Borges, Diego Armando Maradona e Jorge Mario Bergoglio.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Indústria aeronáutica e a nova Air India

O diário La Dépêche du Midi que se publica em Toulouse, a capital da região administrativa da Occitânia que se situa no sueste da França, noticiou ontem com grande destaque que “a aeronáutica volta a descolar na Occitânia”. De facto, a actividade do gigante aeronáutico Airbus acelerou nos últimos meses e, depois da crise sanitária de 2019-2021, já passou de uma produção mensal de quarenta para sessenta unidades do seu modelo A320. O sector emprega 80.000 trabalhadores, incluindo a área aeroespacial, mas há uma enorme quantidade de fornecedores e de subcontratações da Airbus que animam a economia da região. Para a criação deste ambiente de euforia que está a envolver a Occitânia e o grupo Airbus, está a provável encomenda de 500 aeronaves pela Air India, que está em vias de se concretizar e que será a maior encomenda alguma vez feita por uma só companhia. 
A Air India foi privatizada no início do ano de 2022 e foi adquirida pelo grupo Tata que prometeu torná-la numa empresa de classe mundial, pelo que está em vias de concretizar uma das maiores encomendas da história da aviação que, a preços de catálogo, custará cerca de 100 mil milhões de euros, um valor que é aproximadamente equivalente ao orçamento do Estado Português. Segundo revela o jornal, a encomenda consta de 400 aviões de médio curso e 100 aeronaves de longo curso, mas o grupo Tata ainda está a ponderar a divisão da sua encomenda entre a Airbus e a Boeing. 
Certamente que os aspectos políticos e as contrapartidas a oferecer por cada um dos construtores estão a ser ponderadas, bem como os custos subterrâneos que estas operações sempre envolvem. Porém, o que não há dúvidas é que a Air India se vai posicionar em breve no topo mundial da aviação comercial.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Huelva escolhe arquitecturas inovadoras

Como em nenhuma outra região do mundo, a província andaluza de Huelva, que é vizinha do nosso Algarve, guarda a memória de Cristovão Colombo em Palos de la Frontera, no mosteiro de La Rabida e em diversos monumentos da cidade de Huelva. Estando situada a cerca de cinquenta quilómetros da fronteira portuguesa, a cidade de Huelva e as memórias de Colombo são uma visita quase obrigatória para os portugueses que apreciam a expansão marítima ibérica, com as suas grandezas e as suas misérias.
Pois foi nesta cidade que ontem foi inaugurado um novo terminal portuário, um acontecimento que mereceu destacada notícia no diário Huelva Información, um dos periódicos pertencentes ao grupo Joly, que é o mais importante grupo editorial da Andaluzia.
O novo terminal de passageiros, serviços portuários e controlos policiais e alfandegários do porto de Huelva está localizado no Muelle Sur do porto e representou um investimento de cinco milhões de euros. Segundo as autoridades portuárias, o novo terminal vai permitir o incremento do tráfego de passageiros e mercadorias entre Huelva e as ilhas Canárias (cerca de 380 milhas), que este ano se cifrou em 65.000 passageiros/turistas e que, actualmente, dispõe de cinco ligações semanais.
Uma fotografia na primeira página do Huelva Información, ilustra a notícia da inauguração do novo terminal que “se caracteriza por su diseño singular e innovador”, o que lhe permite ser classificado como uma obra de arquitectura. Não é uma obra grandiosa na volumetria mas, à sua dimensão, é uma pequena obra de arte que enriquece o porto de Huelva. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

As inundações que os políticos ignoraram

Depois de alguns meses de seca extrema, com os rios a minguarem os seus caudais e as barragens a descer a níveis preocupantes, o território continental português foi servido por chuvas abundantes nos últimos dias. As barragens que no verão estavam praticamente vazias começaram a encher-se e, no norte e no centro, já estão com um nível de enchimento médio ou acima da média. Porém, esta é a face positiva de uma moeda que, na outra face, tem revelado aspectos catastróficos, sobretudo na região de Lisboa e em alguns municípios do Oeste e do Alentejo.
A intensidade das chuvas e a subida do nível das águas apanhou a população e as autoridades desprevenidas, como se não fosse uma situação que ciclicamente acontece. A água entrou em habitações e lojas, inundou ruas e bloqueou viaturas na área metropolitana de Lisboa, nomeadamente em Lisboa, Oeiras, Loures, Odivelas e Cascais, provocando avultados prejuízos que ainda estão por avaliar. Hoje o Diário de Notícias publica, com destaque de primeira página, uma fotografia de uma rua de Algés, em que se vê um bote de borracha da Marinha...
Já se estima que tenham sido afectados mais de cem mil pequenos negócios e mais de quatrocentos mil postos de trabalho. A televisão não se cansou de mostrar tudo o que as inundações fizeram, bem como as explicações dadas por tantos especialistas.
A primeira justificação avançada para explicar esta tragédia provocada pela meteorologia são as alterações climáticas, mas o excesso de chuva só explica uma parte do que aconteceu. O problema é, como toda a gente sabe, a falta de escoamento nas áreas urbanas, o entupimento de condutas, os excessos de impermeabilização urbana, a obstrução das ribeiras naturais e a construção desregrada em zonas de cheia, entre muitas outras razões. O falecido arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles explicou isso inúmeras vezes e parece que ninguém lhe deu ouvidos. Os decisores políticos parecem preocupar-se apenas com a navegação à vista de costa até às próximas eleições, para segurarem os seus lugares. Não ouviram quem deveriam ter ouvido e ignoraram este problema, porque o que é necessário fazer será sempre uma obra sem visibilidade e que não dá votos. Irresponsavelmente, desculpam-se com as alterações climáticas.

Qatar: a Argentina chega à sua sexta final

O futebol continua a suscitar o entusiasmo do planeta quando faltam apenas quatro dias para se conhecer o novo campeão do mundo a coroar no Qatar.
Ontem, a Argentina venceu a Croácia por 3-0 e foi apurada para a final. Nem a guerra na Ucrânia, nem as tensões fronteiriças entre a China e a Índia, nem o abalo por que passa o Parlamento Europeu ou as inundações em Portugal, têm hoje tanto destaque na imprensa mundial como a vitória argentina e a superior exibição de Lionel Messi. O diário Clarín que se publica em Buenos Aires e que se julga ser o maior jornal de língua espanhola, destaca com uma fotografia a toda a largura da sua primeira página, mais este passo “por el tercer Mundial”. De facto, a Argentina já venceu o Mundial por duas vezes, em 1978 e 1986, pelo que aspira a uma terceira vitória, embora também já tenha perdido três finais em 1930, 1990 e 2014. Hoje será conhecido o outro finalista no jogo que vai ser disputado entre a França, que é o actual campeão do Mundo, com a surpreendente equipa de Marrocos. Desde que os marroquinos derrotaram os portugueses e se tornaram a primeira equipa africana a atingir as meias-finais de um campeonato do mundo, que a tensão é enorme entre a comunidade marroquina em França. 
No jogo de hoje entre franceses e marroquinos vai estar em disputa muito mais do que o acesso à final, pois estarão em confronto relações históricas de dependência e de desigualdade, com o ex-oprimido a ter a oportunidade de lutar em igualdade com o ex-opressor, mas também as tensões herdadas do domínio colonial e da emigração marroquina. O futebol já não é apenas uma actividade desportiva, um grande espectáculo e um poderoso negócio de contornos pouco conhecidos, mas tornou-se numa expressão do prestígio das nações, das suas ambições e das suas reivindicações por verdadeiros estatutos de igualdade.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O escândalo que afunda o sonho europeu

O jornal francês La Croix destaca na sua edição de hoje o “escândalo europeu”, com a corrupção a chegar em força ao Parlamento Europeu (PE). Já se sabia que a União Europeia tinha criado um novo-riquismo que envolve a generalidade dos que se alimentam das suas burocracias e dos dinheiros que por lá circulam, mas pensava-se que os eurodeputados – que os cidadãos escolheram com o seu voto – estavam fora dessas suspeitas.
O PE é o órgão legislativo da União Europeia, sendo composto por 705 deputados que representam os 446 milhões de cidadãos dos seus 27 estados-membros, entre os quais 21 eurodeputados portugueses, a maioria dos quais não conhecemos, nem sabemos o que faziam antes, nem o que fazem agora. A sua sede oficial localiza-se em Estrasburgo, mas os deputados circulam entre Estrasburgo, Bruxelas e o Luxemburgo, onde reúnem as comissões parlamentares e o secretariado. É um exemplo de despesismo injustificável que custa muitos milhões de euros e que permite inúmeros truques e falcatruas aos deputados e aos funcionários menos escrupulosos. Esta estrutura gigante tem um orçamento anual de cerca de dois mil milhões de euros, um montante que dá para tudo, costumando dizer-se que ser eurodeputado europeu é o melhor emprego que existe.
Nesta instituição há uma eurodeputada grega que é vice-presidente e se chama Eva Kaili. Certamente muito ambiciosa, deslumbrada e sem escrúpulos. Porém, foi detida em Bruxelas na sequência de uma investigação da justiça belga relativa a alegados subornos do Qatar para influenciar decisões políticas. Nas buscas realizadas no seu apartamento pelas autoridades foram encontrados sacos com 150 mil euros em dinheiro, enquanto o seu pai foi detido nesse mesmo dia em flagrante num hotel de Bruxelas, carregando uma mala com 600 mil euros em dinheiro, com o qual pretendia fugir. É mesmo um escândalo! Até que ponto podemos confiar nesta gente que afunda o sonho europeu de liberdade, igualdade, fraternidade e solidariedade?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Qatar: Ronaldo não teve paz nem sossego

Perú: o diário Líbero, 11 de dezembro de 2022
A imprensa internacional registou o sensacional apuramento de Marrocos para as meias-finais do Campeonato do Mundo do Qatar e a inesperada eliminação de Portugal, mas o destaque mediático assentou na derrota e nas lágrimas de Cristiano Ronaldo. A sua fotografia foi publicada nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro, porque ele é uma figura mundial e a sua notoriedade é maior do que a do seu próprio país. Não foi Portugal que perdeu. O derrotado foi Cristiano Ronaldo, um ídolo para milhões de adeptos do futebol.
Cristiano Ronaldo é uma personalidade muito apreciada e é a única pessoa no mundo que tem mais de 500 milhões de seguidores na rede social Instagram. Vestiu a camisola da selecção em cinco Campeonatos do Mundo, proporcionou muitas alegrias ao povo e, só por isso, é merecedor da gratidão dos portugueses, cuja alegria e orgulho nacional estiveram muitas vezes associadas aos golos que marcou. Com ele, a selecção portuguesa saiu da penumbra e passou a posicionar-se no patamar mais elevado do futebol mundial, enquanto o país passou a ser conhecido mundialmente por ser o país do Ronaldo.
Por cá discute-se se o que aconteceu foi por mérito marroquino ou por demérito português, ou se foi por culpa do Ronaldo, do seleccionador Santos ou por quaisquer outras razões, mas nunca haverá respostas para essas questões. Não sei se Ronaldo devia ou não devia ter jogado mais tempo, não sei se podia ou não podia ter jogado melhor. Porém, ficará como registo histórico que, depois de ter sido endeusado durante muitos anos, Ronaldo foi criticado e maltratado por muitos jornalistas e muitos comentadores. Irresponsavelmente. Não lhe deram paz nem sossego. No dia 9 de dezembro, na véspera do jogo com Marrocos, o seleccionador pediu aos jornalistas que “deixem o Ronaldo em paz”, mas seis dias antes, no dia 3 de dezembro, já aqui tinha sido escrito “deixem o Ronaldo em sossego”. Cercados por agitadores mediáticos, era difícil que o Ronaldo e os seus companheiros fizessem melhor. Ficaram nas oito melhores equipas. Foi bem bom, apesar do amargo da derrota com os marroquinos.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Qatar: Marrocos desfez o sonho luso

Ontem foi um dia muito triste para os portugueses! Depois de vários dias de endeusamento das qualidades dos nossos futebolistas, das viagens dos nossos principais dignitários ao Qatar (feitas em nome do interesse nacional) e do massacre televisivo a que fomos sujeitos com as reportagens dos enviados especiais, por vezes muito desinteressantes e medíocres, a selecção nacional perdeu com a selecção de Marrocos. Foi apenas um golo, mas bastou. Podia ter sido ao contrário, mas aconteceu assim. Os jogadores bateram-se bem mas não foram felizes e, na sua edição de hoje, o jornal A Bola publica a fotografia do desalentado Ronaldo e convida os portugueses a chorar.
Foi pena, porque os portugueses andam pouco entusiasmados com o seu quotidiano e precisavam desta alegria. Porém, não há drama nenhum e há mais futebol e mais desafios para além deste Qatar 2022. Com a equipa portuguesa também saíram as equipas do Brasil, da Holanda e da Inglaterra e, antes, já a Alemanha, a Espanha, a Bélgica, a Dinamarca e o Uruguai tinham ido para casa mais cedo. A selecção nacional tinha chegado aos quartos-de-final depois de humilhar a Suíça e estava no grupo das oito melhores equipas, mas ontem foi derrotada por Marrocos que antes batera a Bélgica e a Espanha. Os marroquinos chegaram às meias-finais e são a maior surpresa deste Qatar 2022, pois nunca uma equipa africana conseguira ir tão longe.
Agora a discussão será entre a Argentina, a Croácia, a França e Marrocos. No que respeita a Portugal, “é preciso levantar a cabeça”, como costumam dizer os derrotados. Porém, uma vez que os jogadores portugueses são realmente muito talentosos, talvez se justifique uma análise mais profunda sobre as causas das nossas frustrações futebolísticas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Voltou a moda dos “golpes de estado”

Numa altura em que as agendas mediáticas andam ocupadas com o futebol e com a guerra na Ucrânia, ainda há surpreendentes notícias de tentativas de “golpes de estado” na Alemanha e no Perú, o que não se imaginava que pudesse acontecer, pois esse tipo de intervenção parecia estar fora de moda, até mesmo na América do Sul, quanto mais na Alemanha.
Na Alemanha, que é o principal país da União Europeia, foi desmantelada uma rede que se suspeita estar a preparar um “golpe de estado”, através da invasão do Bundestag, do derrube do governo e da imposição de uma nova ordem constitucional.
No Perú também terá acontecido uma tentativa de “golpe de estado”, promovida por Pedro Castillo, isto é, pelo próprio presidente da República. Castillo foi eleito em 2021 na 2ª volta das eleições presidenciais peruanas, mas durante a campanha eleitoral já era acusado de ser “o Nicolás Maduro do Perú”, pelos seus sinais de autoritarismo. A sua presidência decorreu em permanente clima de crise política e com frequentes acusações directas de ser um agente activo da alta corrupção, pelo que no seu curto mandato foi confrontado com três pedidos de impeachment. Ontem, dia 7 de dezembro, o Parlamento procurou destitui-lo por “incapacidade moral”, mas Castillo antecipou-se e decretou a sua dissolução. Porém, cerca de duas horas depois o impeachment foi mesmo votado e aprovado com 101 votos a favor, seis contra e dez abstenções. O Congresso, e depois o Supremo Tribunal do Perú, classificaram a atitude ditatorial de Castillo como “golpe de estado”, pelo foi destituído e imediatamente detido por violação da Constituição, ao mesmo tempo que era dada posse à vice-presidente Dina Boluarte para o substituir. O diário Uno, que se publica em Lima, mostra as fotografias de Castillo e de Boluarte, ou as imagens de la traición e de la esperanza.
Portanto, na Alemanha e no Perú, terá havido duas tentativas de “golpe de estado”, que é uma coisa que se julgava impensável em quase todo o mundo no século XXI.

Qatar: o apoio dos goeses aos portugueses

O Campeonato do Mundo de Futebol está a interessar quase todo o mundo e, por isso, a vitória de Portugal sobre a Suiça teve uma enorme repercussão na imprensa mundial.
Um dos casos mais curiosos do entusiasmo pela selecção portuguesa acontece em Goa, um território que os portugueses governaram durante 451 anos e que em 1961 foi integrado pela força na República da Índia. Mudou a soberania em Goa e houve tentativas dos novos poderes para apagar a memória lusitana, mas os traços culturais portugueses permaneceram na sociedade goesa. O entusiasmo com que os goeses apoiam a selecção nacional de futebol que está no Qatar, demonstra exactamente isso.
A goleada portuguesa sobre a Suíça por 6-1 foi destacada na edição do centenário jornal oHeraldo que se publica em Pangim, com quatro fotografias que mostram o entusiasmo dos goeses pela selecção portuguesa, quer em Goa, quer na diáspora goesa que vive no Qatar. Diz o jornal que “casas, autocarros e gente de Goa se vestem com as cores portuguesas” e que os apoiantes de Portugal “não querem outra coisa que não seja que a taça vá para Lisboa no dia 18 de dezembro”.
O apoio dos goeses à equipa portuguesa de futebol é emocionante, tal como é emocionante o entusiasmo com que se festejam os seus êxitos nas comunidades portuguesas e nos territórios onde deixamos as nossas marcas culturais, que nem sempre foram positivas. Porém, a alegria do futebol faz esquecer essas coisas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Portugal entre “los 8 grandes” do futebol

Ontem foi um dia de festa para o futebol português pela robusta e até inesperada vitória obtida sobre a equipa da Suíça, que colocou a selecção portuguesa nos quartos de final do Campeonato do Mundo e deu uma enorme alegria aos portugueses, em especial aos que vivem e trabalham naquele país. A imprensa portuguesa escreveu em letras bem grandes as palavras demolidor e fulminante. No mundo do futebolez, em que se usa e abusa do adjectivo “histórico” para tudo e mais alguma coisa, a exibição de ontem e o resultado de 6-1, bem justificam a título excepcional a utilização da palavra histórica, até porque veio mostrar que a maravilha de que aqui se falara como sendo um atributo futebolístico brasileiro, afinal também é português. Aqueles jogadores são notáveis em talento e em determinação e, para muita gente, até merecem as fortunas que lhes pagam.
Com aquele resultado, como hoje lembra o jornal peruano Líbero, estão encontrados los 8 grandes, isto é, Portugal está entre as oito melhores equipas de futebol do mundo. Naturalmente que isso é agradável pela alegria que transmite ao povo – que bem precisa de alegrias – mas seria bem mais interessante se estivéssemos entre os oito melhores do mundo em prosperidade económica e qualidade de vida, em protecção social e solidariedade, no combate às desigualdades e à pobreza, no apoio aos mais necessitados, em responsabilidade ambiental e na luta contra o clientelismo que tanto afecta a harmonia da sociedade portuguesa. Lamentavelmente, todas essas causas ficam subordinadas aos interesses políticos imediatos e à busca de popularidade que a generalidade dos políticos persegue à boleia do futebol. 
Assim, eu aplaudo e fico muito satisfeito com o desempenho da selecção nacional de futebol, mas não me agrada nada tanta euforia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A maravilha brasileira chegou ao Qatar

Estão a decorrer os jogos dos oitavos de final do Campeonato do Mundo e, sem surpresas, estão a ser apuradas as equipas mais fortes e com maior favoritismo. Ontem, o Brasil eliminou a equipa da Coreia do Sul treinada pelo português Paulo Bento e, sobretudo na primeira parte, exibiu-se a um nível artístico que pode igualar-se a um bailado ou a um número de circo, com os artistas bem sincronizados na apresentação das suas habilidades com a bola. Naturalmente, os jornais brasileiros não perderam tempo e trataram de heroicizar os seus neymares, mas o que realmente espanta é a capa do jornal italiano Corrierre dello Sport que se publica em Roma que, para além de publicar uma fotografia da festa brasileira a toda a largura da primeira página, escolheu o título “Maravilha!”, isto é, em vez de escrever a palavra italiana meraviglia, escreveu a palavra portuguesa maravilhaEste tributo ao futebol brasileiro também é uma consequência da frustração italiana de nem sequer ter sido apurada para o Qatar 2022.
Uma outra curiosidade desta edição é o destaque que Ronaldo tem na mesma primeira página, não porque marque golos ou jogue bem, mas apenas porque a Arábia Saudita parece que lhe vai pagar 500 milhões de euros por dois anos e meio de contrato. A ser assim, serão 16 milhões de euros por mês e 547 mil euros por dia. É mesmo uma grande jogada e é um outro tipo de maravilha...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Há entendimento entre Biden e Macron?

Emmanuel Macron foi em visita oficial aos Estados Unidos e a enorme zanga franco-americana que resultara do cancelamento do contrato para o fornecimento de submarinos franceses à Austrália, que os americanos reverteram a seu favor, parece ter sido ultrapassada. A fotografia publicada pelo Financial Times, com os dois líderes cheios de sorrisos, parece mostrar um relacionamento menos tenso e mais efectivo. Porém, estes dois velhos amigos e aliados, pelo menos desde 1776, também tinham na agenda outros assuntos como o défice energético europeu e, sobretudo, a guerra na Ucrânia e, nesse ponto, surgiram algumas divergências. Ambos acusam Putin de estar a levar a guerra a alvos civis e de utilizar o inverno para derrotar o moral ucraniano, prometendo reforçar o seu apoio à Ucrânia, embora Macron entenda que a guerra deva terminar rapidamente na mesa de negociações e não no campo de batalha. Por isso, Macron entende que “o Ocidente deve dar garantias à Rússia” e que é necessário “acomodar Putin”, o que não agrada aos falcões que o querem derrotar, mesmo que a Ucrânia seja destruída e o seu povo sofra.
De facto, desde o início da guerra que Joe Biden e os seus amigos defendem que a Ucrânia deve ser ajudada para vencer a guerra e que a Rússia deve ser derrotada, até porque essa atitude fortalece a economia americana. Porém, a escolha de Macron como interlocutor europeu dos Estados Unidos tem algum significado. Segundo os analistas, o Reino Unido marginalizou-se com o Brexit e Rishi Sunak ainda está a aprender, enquanto Olaf Scholz é cauteloso e ainda não tem a autoridade de Angela Merkel. Por isso, Emmanuel Macron parece ser a pessoa certa para abrir as portas a um cessar-fogo e a negociações de paz, pelo que até já anunciou que voltará em breve a falar com Putin.
Nunca se falou tanto em negociações de paz como nos últimos dias.