terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Basta guerra. È l’ora della pace

O jornal L’Osservatore Romano, que se publica no Vaticano e que, embora independente, costuma veicular os pontos de vista da Santa Sé, numa das suas mais recentes edições e a propósito da visita do papa Francisco ao Sudão do Sul, um país devastado pela violência e pela miséria, escreveu em manchete:

          Basta guerra
          È l’ora della pace

Essas frases que serviram de manchete ao mencionado jornal inspiraram-se no apelo feito pelo papa Francisco na capital do país visitado, para a deposição das armas e para a reconciliação nacional. Ao escolher aquela manchete, o jornal também pensou na paz desejável para os diversos conflitos que estão a abalar o mundo, sobretudo a guerra na Ucrânia.
Ontem, também António Guterres discursou em Nova Iorque perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas para apresentar as suas prioridades para 2023 e abordou as diversas crises que assolam o mundo, como as guerras e os conflitos, a fome e a pobreza, as alterações climáticas e o desrespeito por minorias, pela diversidade e por direitos civis. Partindo da invasão russa da Ucrânia e das suas “profundas implicações globais”, Guterres alertou para a degradação das perspectivas de paz, considerando que “continuam a diminuir”, enquanto as probabilidades de uma maior escalada e perda de vidas “continuam a aumentar”. As notícias que diariamente nos chegam vão no mesmo sentido, isto é, aumentam os sinais da escalada bélica e o agravamento da luta no terreno, bem como os riscos de uma confrontação mais alargada. "Os deuses devem estar loucos" e há que fazer alguma coisa para parar com a tragédia ucraniana. As condições são difíceis e as partes estão radicalizadas, mas o alívio no sofrimento do povo justifica que sejam dados passos ousados para parar com a guerra e não faltam mediadores, a começar em António Guterres.
Curioso é o facto de tanto Zelensky como Putin terem oferecido ajuda às vítimas do sismo que atingiu a Turquia, a mostrar que há coisas em que ambos estão de acordo... e não serão só estas.

A Turquia, a Síria e as forças da Natureza

Na madrugada de ontem, um terramoto de magnitude 7,8 abalou a Turquia e a Síria, provocando o desabamento de muitas centenas de edifícios em diversas cidades de ambos os países. É uma enorme tragédia para milhares de turcos e de sírios. Segundo é referido pelas agências noticiosas, é um dos maiores sismos registados no mundo desde há muitos anos, embora o balanço do desastre ainda esteja a ser feito. O número de vítimas anunciado pelas autoridades tem vindo a ser actualizado, mas já estão contabilizados mais de cinco mil mortes, vinte milhares de feridos e centenas de milhares de desalojados, tanto nas cidades do sul da Turquia como nas áreas não controladas pelo governo da Síria. Entretanto, “praticamente a cada dez minutos” têm-se sucedido dezenas de réplicas com magnitudes em torno dos 3 e 4 na escala de Richter, o que perturba e dificulta as operações de socorro.
As imagens transmitidas pelas cadeias televisivas mostram a enorme destruição provocada pelo sismo e os esforços feitos pelas equipas de socorro para recuperar sobreviventes soterrados nos escombros. Um jornal diário lisboeta escreveu hoje que "na Turquia é a maior tragédia desde 1939, no noroeste da Síria é pior do que a guerra".
Com a guerra e a sua onda destruidora ali tão perto – antes no Iraque e na Síria e, agora, na Ucrânia – o terramoto da Turquia vem mostrar-nos que os homens se devem poupar à crueldade das guerras, pois que as tragédias naturais se encarregam de lhes trazer o sofrimento e a desumanização da vida. De facto, as guerras podem e devem ser paradas, enquanto “as forças da Natureza nunca ninguém as venceu”, como escreveu António Gedeão no poema “Fala do homem nascido”.
A imprensa internacional, tal como a imprensa turca, destacam a enorme tragédia humana e patrimonial provocada pelo sismo, bem como a solidariedade da comunidade internacional para com os países e as pessoas sinistradas, aqui se publicando a imagem da capa da edição de hoje do Milliyet, um dos maiores jornais diários de Istambul.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

O apoio da Comissão Europeia à Ucrânia

Charles Michel, Ursula von der Leyen e quinze comissários europeus visitaram Kiev nos últimos dois dias para reuniões bilaterais e para uma cimeira entre a União Europeia e a Ucrânia. Podiam ter reunido em Bruxelas ou por vídeo conferência, mas escolheram participar numa operação de marketing e em vez de lutarem pela paz, trataram de mandar mais gasolina para a fogueira. Na agenda estiveram a adesão da Ucrânia à União Europeia, o próximo pacote de sanções à Rússia e os apoios financeiros, militares e humanitários à Ucrânia, mas sobretudo a vontade de mostrar à Rússia que a União Europeia está unida no apoio solidário à Ucrânia. Segundo uma notícia recente “Bruxelas já desembolsou 49 mil milhões de euros em menos de um ano e vai continuar a ajudar Kiev”, sem que fossem necessárias estas operações de marketing.
Ursula von der Leyen ultrapassa-se a si própria num protagonismo exagerado e num exercício de poder que o seu cargo não lhe dá, enquanto Volodymyr Zelensky sobe o nível das suas reivindicações, pedindo mais urgência na entrega do armamento prometido e esperando que as negociações de adesão comecem “quanto antes”.
Nesta data há oito países candidatos a juntar-se aos 27 da União Europeia, que são a Albânia, o Montenegro, a Macedónia do Norte, a Sérvia, a Turquia, a Moldávia, a Bósnia-Herzegovina e a Ucrânia, pelo que esta terá certamente que esperar a sua vez, ao mesmo tempo que deverá fazer muitos ajustamentos institucionais e lutar contra a sua elevadíssima corrupção, em que aparece na 116ª posição no Corruption Perceptions Index 2022 elaborado pela Transparency International.
O jornal belga Le Soir destacou em título “soutenir Kiev, à tout prix”, mas o facto é que a cimeira de Kiev não apareceu mencionada nas primeiras páginas da imprensa europeia, a mostrar que a “cimeira” foi uma mera operação de propaganda destinada a impressionar a Rússia e a promover Ursula von der Leyen, que já está a trabalhar para o seu segundo mandato à frente da Comissão Europeia.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

O triste fim de um famoso porta-aviões

O antigo porta-aviões francês Foch, que durante 37 anos foi o navio-almirante da Marinha francesa, vai acabar a sua carreira no fundo do mar ao largo da costa brasileira, segundo informa hoje o jornal Le Télégramme, que se publica em Brest. O navio foi construído na Bretanha por muitos operários e engenheiros bretões, pelo que a sua vida sempre despertou o interesse emocional da população daquela região, como mostra o destaque dado àquela notícia por um diário local.
O porta-aviões Foch (R99) foi construído nos Chantiers de l’Atlantique, em Saint-Nazaire, tendo entrado ao serviço em 1963, mas no ano de 2000 foi vendido ao Brasil por doze milhões de dólares, tomando o nome de São Paulo (A12). A Marinha Brasileira deu-lhe pouco uso por estar obsoleto, enquanto a sua modernização foi rejeitada por ser excessivamente cara. Por essas razões e por ter pouca utilidade operacional, em Fevereiro de 2017 foi decidido desarmar o navio e, pouco tempo depois, foi anunciada a sua aquisição por um estaleiro turco para ser desmantelado e aproveitado como sucata. 
Porém, porque havia a bordo algumas toneladas de amianto com elevado teor tóxico, as autoridades turcas impediram o navio de entrar nas suas águas territoriais e obrigaram-no a regressar ao Brasil. No passado mês de Agosto, um jornal das ilhas Canárias escrevia que “una colossal montaña de material tóxico y radioactivo” navega entre as ilhas de Gran Canaria e Fuerteventura, “sin que conste finalmente cuál será su destino”. Sabe-se agora que o velho porta-aviões, que tem sido rebocado por um rebocador de alto-mar holandês, já estará ao largo das costas brasileiras e que em breve vai ser afundado, apesar dos protestos das organizações ambientalistas, mas o Brasil pretende acabar com uma polémica que, desde há muitos meses, envolve aquele navio. 
É um triste fim para um navio famoso, pelo menos para os franceses e para os bretões.

Os lucros obscenos da Shell e suas irmãs

A multinacional petrolífera Shell PLC, que tem sede em Londres e foi fundada em 1907, anunciou que no exercício de 2022 obteve lucros de 38.455 milhões de euros (42.309 milhões de dólares), isto é, mais 110% do que no ano anterior. Nunca nos seus 115 anos de vida aquela companhia tivera lucros tão altos, como refere a imprensa e hoje destaca o britânico Morning Star!
Este valor compara bem com a Despesa Geral do Estado Português que é da ordem dos 75.000 milhões de euros, isto é, os lucros da Shell podiam financiar seis meses da actividade do Estado Português. Porém, também as irmãs da Shell, nomeadamente a Exxon Mobil, a Chevron, a BP e a Total Energies anunciaram os maiores lucros dos seus historiais que, combinados, atingem 190.000 milhões de dólares. Num tempo em que as alterações climáticas preocupam a Humanidade e em que se apela ao fim dos combustíveis fósseis que estão a destruir o nosso planeta, mas também num ano em que os preços da energia dispararam devido à invasão russa da Ucrânia, as maiores companhias petrolíferas mundiais ultrapassaram todas as previsões e conseguiram os maiores lucros da sua história. Naturalmente, estes lucros têm uma contrapartida que são os milhões de pessoas que caíram na pobreza devido ao aumento exponencial dos preços dos combustíveis e, mais especificamente, a tragédia que atravessa a sociedade ucraniana. Perante a voracidade das multinacionais petrolíferas, diversos países têm procurado que os seus lucros excessivos paguem mais impostos, mas parece que ninguém as consegue travar. Simultaneamente, também a banca anuncia lucros exorbitantes, enquanto se espera que as indústrias do armamento nos venham impressionar com os seus resultados que a guerra da Ucrânia está a engordar.
Assim vai o mundo…

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Ucrânia e as propostas de Lula da Silva

As notícias relativas à invasão russa da Ucrânia continuam a encher os noticiários internacionais, sobretudo a respeito do que se espera possa acontecer na primavera que se aproxima. As duas partes afirmam querer vencer a guerra, mas enquanto uns dizem que a Rússia está a preparar a “escalada máxima”, outros insistem que a Ucrânia está em vias de iniciar a contra-ofensiva. 
Muito acertadamente, a maioria silenciosa acha que ninguém sairá vencedor desta guerra e que todos iremos perder. Depois das discussões relativas ao fornecimento de modernos carros de combate à Ucrânia, em que se viu muita hesitação ou prudência ocidental, os ucranianos pedem agora aviões de combate, o que significaria uma maior escalada da guerra, pelo que mereceu uma imediata resposta negativa dos Estados Unidos e da Alemanha. Porém, apesar de ainda ser ouvida a voz dos belicistas, começam a surgir sinais de que é preciso acabar com a guerra, pois todos estão cansados, a catástrofe humanitária já é demasiado grande e a destruição patrimonial é enorme.
Foi neste quadro que o chanceler Olaf Scholz esteve no Brasil, tornando-se no primeiro líder mundial a visitar o presidente Lula da Silva em Brasília. Na conferência de imprensa conjunta, Lula da Silva defendeu “a criação de um grupo de países que se envolva numa mediação para pôr fim à guerra na Ucrânia” e possa “sentar com os dois lados”. Defendeu a criação de um organismo semelhante ao G20, que foi criado quando da crise económica de 2008, prometendo levar esta ideia a Joe Biden em Fevereiro e a Xi Jinping em Março, nas visitas que brevemente fará aos Estados Unidos e à China. Pode ser que a voz de Lula da Silva seja ouvida.
O que é lamentável é que o jornal Público tivesse escolhido como manchete da sua edição de hoje o belicismo e os aviões F-16, ignorando por completo a proposta de paz do presidente brasileiro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Djokovic é uma estrela do ténis mundial

O tenista sérvio Novak Djokovic triunfou ontem pela décima vez no Australian Open e com este triunfo totalizou 22 vitórias em provas do Grand Slam ou majors, isto é, os quatro mais importantes torneios anuais do ténis – Australian Open, French Open (Roland Garros), Wimbledon e US Open. Através da televisão pudemos ver alguns milhares de australianos de origem sérvia a apoiar o seu ídolo no Melbourne Park, bem como a forte emoção que tomou conta do tenista de Belgrado após a vitória.
O ténis mundial tem sido dominado desde o início do século XXI por Roger Federer, o suiço de 41 anos de idade que venceu 20 provas do Grand Slam, por Rafael Nadal, o espanhol de 36 anos de idade que triunfou em 22 provas do mesmo Grand Slam e por Novak Djokovic de 35 anos de idade que, com este triunfo igualou Rafael Nadal no número de vitórias em provas do Grand Slam. Com este resultado, Djokovic recuperou a liderança do ranking ATP, o que também constitui um feito notável. Os dois maiores rivais do tenista sérvio felicitaram-no pelo seu êxito, a mostrar o elevado fair play que domina o ténis enquanto modalidade desportiva. Note-se que, de acordo com números que circulam, o total dos prize moneys conquistados por estes três tenistas ultrapassam os 400 milhões de dólares.
A repercussão deste notável feito desportivo foi noticiada em alguns jornais mundiais, mas aqui destacamos a forma exuberante como o Sportski žurnal (Спортском Журналу), o principal jornal desportivo de Belgrado, noticiou o feito do maior atleta sérvio da actualidade.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Ainda as sequelas da guerra das Falklands

O diário chileno Las Últimas Noticias divulgou na sua edição de ontem, com destaque de primeira página, uma curiosa história que envolveu um navio-patrulha da Royal Navy, que integra em permanência a força naval britânica estacionada nas ilhas Malvinas ou Falklands. Trata-se do HMS Forth (P 222), um navio da classe River, que desloca 2.000 toneladas, tem 90 metros de comprimento e uma guarnição de 50 elementos. O navio costuma visitar o porto chileno de Punta Arenas para reabastecimento e para realizar alguns trabalhos de manutenção, mas no passado mês de Novembro, em que se previa a sua participação na Exponaval de 2022 que se realizou na cidade chilena de Valparaiso, as autoridades chilenas não autorizaram a visita do navio britânico para não melindrar os seus vizinhos argentinos. Segundo revela o jornal, tudo resultou de excesso de zelo de alguns funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros e esta decisão foi muito criticada, porque ao procurarem agradar à Argentina, acabaram por ofender o Reino Unido, que até esteve representado em Valparaiso pelo subchefe da Royal Navy.
De facto, a Marinha chilena tem uma relação bicentenária com a Royal Navy e o almirante escocês Lord Cochrane é um dos seus heróis nacionais, pelo papel que teve na luta pela independência chilena e, depois, na ajuda que deu à independência do Brasil, isto é, “la marina de Chile es hija de la marina británica y se ha mantenido en ese papel durante los ultimos 200 años”.
Certamente que a República do Chile já apresentou desculpas ao Reino Unido por este seu lapso histórico e diplomático, mas é curioso verificar que, quarenta anos depois da guerra das Falklands ou Malvinas, continuam os ressentimentos argentinos em relação à presença britânica naquelas ilhas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Os Leopard como instrumento da escalada

A mais recente edição da revista Der Spiegel destaca na capa a imagem de um tanque Leopard e o seu conteúdo tem como assunto principal a decisão alemã de fornecer catorze desses tanques à Ucrânia. O título escolhido é uma interrogação muito pertinente:
“Agora a Ucrânia pode vencer?”, enquanto o subtítulo refere “Como o Leopard está a mudar a guerra – e o que o Ocidente está a arriscar no processo”.
A revista tratou de conhecer a opinião dos alemães quanto a esta decisão e, segundo uma pesquisa de opinião, a entrega dos tanques teve a aprovação da maioria da população alemã, embora o mesmo não aconteça em relação a uma eventual cedência de caças, que parece ser a nova exigência ucraniana. Refere a revista que “com a entrega de tanques Leopard, a guerra ucraniana está entrando em uma nova e perigosa fase”, perguntando “se o chanceler Scholz está à altura da tarefa”.
Dos diferentes artigos inseridos na revista parecem ressaltar três ideias principais: a “vontade ocidental de ganhar a guerra”, “o medo da escalada” e a enorme pressão dos “belicistas”.
Naturalmente “o Ocidente quer que Kiev vença esta guerra e isso é mostrado pelas entregas de tanques de batalha”. No que respeita à escalada, é salientado que a Rússia já considerou que “foi cruzada uma linha vermelha”, esperando-se a sua reacção no terreno. Quanto às pressões dos belicistas, a revista anuncia que “os fabricantes alemães de armas estão enfrentando um negócio de biliões de dólares”.
É certo que às dúvidas de Olaf Scholz e à sua decisão demorada e difícil, se juntou Joe Biden ao anunciar a entrega de 31 tanques Abrams, embora esclarecendo que se trata de ajudar a Ucrânia a defender o seu território, isto é, “não é uma ameaça ofensiva à Rússia”.
Mesmo com a nossa tradução pouco rigorosa, estas parecem ser as linhas principais da edição do Der Spiegel.

O turismo chinês está de regresso a Macau

A epidemia do covid-19 afectou severamente o turismo de Macau, mas com o fim das quarentenas e das restrições pandémicas impostas pelas autoridades chinesas, muitos milhares de pessoas das regiões vizinhas de Macau voltaram àquela região autónoma especial da República Popular da China. Na sua edição de hoje, o jornal ponto final publica uma fotografia das ruínas de São Paulo, um dos mais expressivos ex-libris da cidade e um dos maiores testemunhos da herança cultural portuguesa, escrevendo que “turistas, sem medo da pandemia, voltam a encher as ruas de Macau”. O jornal fez uma pequena reportagem sobre este enorme afluxo de turistas que aproveitaram os feriados do Ano Novo Lunar e que, mais do que o interesse pelos casinos, vieram à procura da boa comida, da paisagem da cidade e… do ouro. O ouro é um símbolo de sorte para os chineses, que compram ouro no primeiro dia do ano para terem sorte no resto do ano, acontecendo que o ouro de Macau se tornou uma imagem de marca muito apreciada, sobretudo pela falta de confiança no ouro do interior da China.
Depois de três anos de crise, os comerciantes da baixa de Macau estão optimistas, apesar do volume de turistas ainda estar a cerca de 50% do que havia no período equivalente anterior à pandemia. Refira-se que, segundo os números divulgados pelos Serviços de Turismo, no ano de 2022 a cidade recebeu 5,7 milhões de turistas, um número bem longe dos valores de 2019, quando Macau recebeu 40 milhões de turistas, quase sessenta vezes a população da cidade.
O turismo é realmente muito importante para a economia macaense, como também é importante a carga emocional de vermos as ruínas de São Paulo na capa do jornal ponto final.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

As festas do 74º Republic Day na Índia

A República da Índia é uma união de estados que fica situada na Ásia do Sul e que está organizada como uma democracia parlamentar. É constituída por 28 estados (um dos quais é o estado de Goa) e por oito territórios da União (um dos quais é o Union Territory of Dadra, Nagar-Haveli, Daman & Diu). É o segundo país mais populoso do mundo, a sexta maior economia e o sétimo país mais extenso do planeta. As suas línguas nacionais são o inglês e o hindi, mas a maioria dos seus 28 estados tem a sua língua reconhecida constitucionalmente. Por isso, é costume dizer-se que a Índia tem cerca de 30 línguas e 447 idiomas, havendo referências à existência de 1.652 dialectos. Em termos religiosos, cerca de 80% da população pratica o hinduísmo, havendo cerca de 15% de islamistas, 2,5% de cristãos e várias outras religiões como o sikhismo, o budismo e o jainismo.
Em princípios do século XIX os ingleses conseguiram dominar a península do Industão e criaram o Raj Britânico, mas no dia 15 de Agosto de 1947 cederam aos movimentos independentistas e concederam a independência à sua “jóia da coroa”, de que resultaram a República da Índia, o Paquistão, o Myanmar, o Bangladesh e o Ceilão, depois chamado Sri Lanka.
Não haverá no mundo nenhum país com tantos contrastes como a República da Índia, sobretudo devido às grandes desigualdades sociais, ao abismo entre a riqueza e a pobreza, bem como às enormes diferenças religiosas, linguísticas e culturais.
Por isso, o dia 15 de Agosto (Independence Day) e o dia 26 de Janeiro (Republic Day) são aproveitados para organizar grandes paradas militares para estimular o sentido de unidade nacional entre os indianos. Hoje celebrou-se o Republic Day com uma grande parada em Nova Delhi e em muitas outras cidades indianas e, como de costume, os jornais indianos publicaram muitos anúncios comerciais, por vezes em primeira página, a saudar a Índia pelo 74º aniversário da República. Um deles foi o The New Indian Express.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A Ucrânia, as armas e a perigosa escalada

Depois de algumas semanas em que o tema foi amplamente discutido, a Alemanha cedeu às pressões da Ucrânia e da NATO, tendo decidido enviar 14 dos seus blindados Leopard 2A4 para as forças ucranianas, ao mesmo tempo que autorizou que os diferentes países que possuem aquela arma a possam reexportar para a Ucrânia, havendo informações de que vários países, a começar pela Polónia, vão ceder uma parte da sua frota para a defesa da Ucrânia. O jornal El Correo que se publica na Biscaia, destaca na sua edição de hoje um carro de combate Leopard 2A4.
Poucas horas depois, o presidente Joe Biden informou que os Estados Unidos iriam fornecer 31 blindados M1 Abrams, enquanto o Reino Unido já anunciara o fornecimento de 12 tanques Challenger 2. Tal como tem acontecido com os mísseis, também a indústria alemã do armamento agradece esta súbita procura dos seus produtos, que muito anima os seus negócios.
É a escalada e a escalada é muito perigosa! A seguir aos tanques, pedirão aviões e mísseis de longo alcance e, depois, exigirão homens. Jens Stoltenberg, o secretário-geral da NATO, já se comporta como o líder de uma das partes da guerra e, tal como Zelensky, exige que os países da NATO se envolvam ainda mais no conflito. Do lado russo já são várias as declarações feitas por responsáveis do círculo de Putin, de que os Abrams e os Leopard "serão destruídos". Com tantos tanques, a Ucrânia irá procurar expulsar os russos do seu território, enquanto os russos procurarão aguentar as suas posições.
O crescente empenhamento de meios militares no terreno vem confirmar a teoria do neokeynesianismo militar e o paradigma de Paul Samuelson – canhões ou manteiga. Lamentavelmente poucos parecem defender o povo ucraniano que sofre e morre por causas a que é alheio. Afinal quem quer o fim da guerra? Prevalece a ideia de que a paz não é possível por agora. Ambos os contendores afirmam que vão ganhar, mas todos perdemos com esta guerra.

sábado, 21 de janeiro de 2023

A guerra na Ucrânia sem sinais de trégua

A guerra na Ucrânia está quase a perfazer um ano e os cenários de morte e de destruição são impressionantes. A dimensão da catástrofe humanitária é aterradora e não há sinais de que alguém procure o cessar-fogo, as negociações e a paz. Pelo contrário, a linguagem da guerra é cada vez mais agressiva, com cada uma das partes a pretender destruir o adversário. O povo ucraniano sofre e acaba por ser a vítima do confronto de interesses que não serão os seus.
Ninguém imaginava que a vontade ucraniana de se juntar à União Europeia e à NATO, pudesse levar à intervenção da Rússia e a um confronto que, cada vez mais, tem envolvimentos internacionais e que é demasiado perigoso para o futuro do nosso planeta. 
Muitos procuram o confronto e poucos procuram o consenso. Na sua edição de ontem, o diário holandês Trouw que se publica em Amesterdão, destaca o conflito em curso e ilustra a sua primeira página com um mapa da Ucrânia, mostrando as silhuetas do tanque inglês Challenger 2 e do tanque alemão Leopard 2A4, parecendo sugerir que serão esses tanques que poderão resolver a situação militar a favor da Ucrânia. O título da notícia salienta que o Ocidente vai aumentar o seu apoio em armamento na esperança de desequilibrar a situação que, desde há várias semanas, parece ser estável na frente de combate. Porém, as silhuetas dos tanques podem sugerir aos leitores que eles serão a chave para a vitória ucraniana, mas essa sugestão é enganadora, porque o poder militar depende de vontades, de estratégias, de qualificações e de um mix de armamento, que envolve muitos outros meios como os aviões, os mísseis, a artilharia e os drones, entre outros. Os ucranianos “exigem” tanques modernos para derrotar os russos, mas isso pode significar uma escalada no conflito que muitos dos seus aliados e amigos não querem. A Ucrânia vem denunciando a “indecisão geral” dos seus aliados quanto ao fornecimento de tanques, sobretudo os famosos Leopard 2A4 alemães, mas muitos especialistas afirmam que aquela guerra não tem solução militar, embora haja demasiados políticos que não os ouvem.

Tamborradas de San Sebastián/Donostia

As festas populares que se realizam em algumas localidades espanholas incluem desfiles de tambores e bombos conhecidos por tamborradas, que já foram classificadas pela Unesco como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
As tamborradas de San Sebastián ou Donostia nasceram no século XIX, realizam-se no dia 20 de Janeiro quando se celebra o Dia de San Sebastián e constituem uma festa popular marcante na identidade cultural basca. São um espectáculo musical de grande impacto, em que participam mais de uma centena de sociedades ou grupos, habitualmente formados por mais de uma centena de tamborileros, cujos trajes se inspiram nos uniformes das tropas napoleónicas que ocuparam a cidade.
A festa inicia-se à meia-noite do dia 19 de Janeiro com a cerimónia do içar da bandeira na praça da Constituição e, a partir daí, os tamborileros, que serão sempre cerca de vinte mil, percorrem toda a cidade ordenadamente durante 24 horas, sempre em ambiente muito festivo e com as “emociones donostiarras a flor de piel”. A festa termina onde começou, isto é, na praça da Constituição com a cerimónia da “arriada de bandera”. Desde há vários anos que as tamborradas passaram a integrar mulheres e crianças. As tamborradas das crianças, nas quais ontem participaram cerca de cinco mil alunos das escolas básicas vestindo uniformes militares como se fossem pequenos "napoleões", constituem sempre uma das facetas mais apreciadas das festas. A edição de hoje de El Diario Vasco destaca exactamente uma imagem dos jovens tamborileros da cidade de Donostia ou San Sebastián.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Dever de informar e direito ao bom nome

Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, anunciou ontem que no início do próximo mês de Fevereiro abandonará o cargo que ocupa desde 2017. Nessa altura tinha apenas 37 anos de idade e nunca no mundo houvera uma mulher tão jovem a chefiar um governo. Na sua actividade ultrapassou algumas crises que afectaram a Nova Zelândia, como a erupção do vulcão Whakaari e o massacre da mesquita de Christchurch, o que a tornou muito popular, tanto no plano internacional como no plano interno. 
Ontem, na sua declaração, Jacinda Ardern alegou cansaço no exercício das suas funções e afirmou que “sou humana" e que "os políticos são humanos”, o que significa que a sua demissão mostra como é difícil o equilíbrio entre a vida pública e a vida familiar. Essa dificuldade, terá sido acentuada com as crescentes campanhas de difamação e os ataques pessoais, com os abusos da imprensa e com as ameaças de grupos radicais. “É um dia triste para a política, porque um líder excepcional se cansou da constante difamação”, disse a líder do partido maori da Nova Zelândia. A notícia encheu a primeira página da edição de hoje do jornal australiano The Camberra Times e obriga-nos a reflectir sobre o que se passa em Portugal. 
De facto, nas últimas semanas a comunicação social tem publicado diversas notícias, verdadeiras ou falsas, que levantam insinuações ou suspeitas sobre o comportamento institucional e sobre a gestão pública de agentes políticos a vários níveis. Naturalmente, a comunicação social deve ser livre e independente para defender a verdade e o sistema democrático, mas tem que ser responsável. A ética jornalística deve estar acima do protagonismo dos jornalistas, do sensacionalismo mediático e das instâncias editoriais, porque algumas campanhas de difamação e ataques pessoais ultrapassam largamente o dever de informar e colidem com o direito ao bom nome de muitos agentes políticos. Há o risco de muitos agentes políticos portugueses se cansarem como aconteceu com a Jacinda Ardern.