terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Um vulcão entrou em erupção na Islândia

Um vulcão entrou em erupção na península de Reykjanes, no sudoeste da Islândia, depois de algumas semanas de crise sísmica e da retirada de cerca de quatro mil habitantes da vila piscatória de Grindavik. Um vulcão activo na Islândia é um fenómeno vulgar, mas a edição de hoje do jornal Morgunbladid, que se publica em Reiquiavique, destaca a frase “STÆRSTA ELDGOSIД que, traduzida com a ajuda do Google, significa “o maior vulcão”.
A Islândia é um país que se tornou independente da Dinamarca em 1918 e que tem uma população total de cerca de 360 mil habitantes. É uma ilha vulcânica um pouco maior do que Portugal, que fica situada no Atlântico Norte nas proximidades do Círculo Polar Ártico, onde existem cerca de três dezenas de sistemas vulcânicos. 
A erupção que está activa é visível da capital do país, que fica a pouco mais de quarenta quilómetros do vulcão Reykjanes e, mais do que um perigo, é uma atracção turística. A população reage com naturalidade a esta erupção que os islandeses aproveitam para fotografar, não havendo alterações significativas no seu quotidiano, enquanto as televisões vão mostrando belas imagens das erupções. Até ao momento também não há quaisquer perturbações no movimento aeroportuário, mas todos recordam a erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajokull, que causou um verdadeiro pesadelo no espaço aéreo europeu, ao provocar o cancelamento de cerca de novecentos mil voos!
Porém, as autoridades “esperam para ver” a evolução nos próximos dias do vulcão Reykjanes.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Gaza, Israel e a imprensa americana

A situação que se vive na Faixa de Gaza é catastrófica e atentatória da dignidade humana, segundo todos os relatos e todas as imagens que nos chegam. Já não se trata de exercer o legítimo direito de defesa perante a crueldade do ataque do Hamas de 7 de Outubro, porque o que as forças israelitas estão a fazer sob as ordens de Benjamin Netanyahu é um massacre, que visa o extermínio da população palestiniana. Havia dúvidas quanto a essas intenções, mas a brutalidade da vingança israelita acabou com elas. Depois da resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas em que a comunidade internacional pediu um cessar-fogo imediato em Gaza, foi Joe Biden que veio afirmar publicamente as suas divergências com o governo israelita e afirmar que Israel começou a perder apoios devido aos seus bombardeamentos indiscriminados contra Gaza. Mais recentemente, foram a França, o Reino Unido e a Alemanha a pedir um cessar-fogo sustentável e a pedir que se trabalhe por uma paz duradoura entre Israel e a Palestina.
O problema agravou-se nos últimos dias com duas notícias que chocaram o mundo. A primeira foi a divulgação pelos serviços secretos americanos que das 29.000 bombas já lançadas sobre Gaza, cerca de 40-45% foram bombas não teleguiadas, ou bombas “burras”, que têm menor precisão e produzem efeitos de destruição e morte colaterais. A segunda, foi a morte de três reféns que foram abatidos por soldados israelitas, apesar de estarem de tronco nu, de acenarem uma bandeira branca e de um deles ter pedido socorro em hebraico.
A imprensa americana começa a ter um novo olhar sobre o conflito de Gaza. Apesar de, tradicionalmente, apoiar Israel, já começou a criticar a brutalidade da actuação das forças de defesa israelita. Vários jornais, como The Citizen, que se publica em Auburn, uma cidade do estado de Nova Iorque, situada nas proximidades do Lago Ontário e a cerca de 450 da cidade de Nova Iorque, na sua última edição critica Israel e destaca que está “comprometido como sempre” com a guerra.

domingo, 17 de dezembro de 2023

O bom exemplo da Venezuela e da Guiana

O jornal ÚltimasNotícias, que se publica em Caracas, destacou na sua edição de ontem o encontro entre os presidentes Nicolas Maduro da Venezuela e Mohamed Irfaan Ali da República Cooperativa da Guiana, que se realizou no Aeroporto de Argyle em São Vicente e Granadinas, no sul das Caraíbas. O anfitrião deste encontro foi o primeiro-ministro Ralph Gonsalves, “neto de emigrantes de Câmara de Lobos que emigraram para as Caraíbas em 1845” e nele participaram Celso Amorim, enviado especial do presidente Lula da Silva, bem como outros primeiros-ministros das Caraíbas.
Segundo os relatos da imprensa avançou-se bastante na questáo do Essequibo que, nos últimos tempos, se agudizara e ameaçava transformar-se num conflito militar, tendo sido assinada a Declaração de Argyle com onze pontos que apontam para um arrefecimento do conflito. As partes comprometeram-se a não fazer ameaças recíprocas, nem a utilizar a força em quaisquer circunstâncias, nem a agravar os seus desacordos e “acordaram que qualquer controvérsia entre si se resolverá em conformidade com o direito internacional, incluido o Acordo de Genebra de 17 de Fevereiro de 1966”.
Significa que a República Cooperativa da Guiana reconhece o Acordo de Genebra, isto é, o acordo assinado “para resolver a controvérsia entre a Venezuela e o Reino Unido sobre a fronteira entre a Venezuela e a Guyana Britânica”, que criou uma Comissão Mista para “buscar soluciones satisfactorias para el arreglo práctico de la controversia entre Venezuela y el Reino Unido”, que até agora não foi resolvido.
Este diálogo e este acordo de Argyle entre a Venezuela e a Guiana, que aqui saudamos, é um passo importante para a resolução pacífica e negociada deste conflito nascido do “imperialismo britânico do século XIX”. Porém, também aqui lamentamos que não sirva de exemplo para a resolução de outros conflitos, por exemplo na Ucrânia e no Médio Oriente, onde aqueles que têm influência para encontrar soluções não falam de paz, mas tão só de guerras, de armas e de mais armas.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Os coleccionismos e a força da Messimania

O coleccionismo é uma actividade desenvolvida por milhões de pessoas em todo o mundo, que consiste na identificação, guarda, estudo, organização, classificação e exposição dos mais diferentes objectos, havendo coleccionadores de tudo, desde moedas, selos e postais, até isqueiros, sapatos, garrafas, primeiras edições de livros, miniaturas e, num outro patamar, as obras de arte, os automóveis clássicos ou as velhas máquinas voadoras.
Há diferentes tipos de coleccionismo, alguns deles bem imaginativos, havendo alguns que até recebem nomes específicos como a bibliofilia, a numismática ou a filatelia.
O coleccionador é sempre uma pessoa apaixonada pelos objectos que colecciona e, por isso, procura sempre a valorização das suas colecções, o que pode fazer com a aquisição de novos objectos em casas especializadas, em leilões ou em feiras, o que significa que o coleccionismo potencia vários tipos de negócios. Por isso há coleccionadores que, provavelmente, são meros negociantes especuladores, como acontece por exemplo com os mercados e os leilões de obras de arte, de automóveis antigos e, também, de coleccionáveis desportivos.
O futebolista Lionel Messi foi para os Estados Unidos para jogar no Inter Miami e a Messimania, nascida e criada em Barcelona, acentuou-se. Hoje, o jornal Clarín que se publica em Buenos Aires, destaca em primeira página que num leilão da casa Sotheby’s, em Nova Iorque, um anónimo adquiriu por 7,8 milhões de dólares, um lote de seis camisolas da selecção argentina “com o número 10 e o nome Messi nas costas”, que foram usadas no Catar por Lionel Messi na primeira parte de seis jogos do Campeonato do Mundo de 2022. A Sotheby's planeara atingir mais de dez milhões de dólares e ultrapassar o valor de 10,1 milhões de dólares por que foi vendida uma camisola usada pelo basquetebolista Michael Jordan nas finais da NBA de 1998.
O famoso Messi "perdeu" para Michael Jordan, como também "perdera" várias vezes com Cristiano Ronaldo.

José Tolentino Mendonça é Prémio Pessoa

José Tolentino Mendonça, cardeal da Igreja Católica nascido na vila madeirense do Machico, que actualmente é o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação na Cúria Romana, é um reconhecido teólogo, professor, escritor e poeta português. Hoje completa 58 anos de idade e ontem foi-lhe atribuido o Prémio Pessoa.
Foi a 37ª personalidade da cultura portuguesa a ser distinguida com aquele prestigiado prémio que foi criado em 1987 por iniciativa do semanário Expresso, com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, para destacar, ainda em vida, uma personalidade da sociedade portuguesa cujo percurso e obra se tenham evidenciado ao longo do ano, designadamente nos aspectos culturais ou científicos.
É, porventura, o prémio mais importante que existe em Portugal, um país em que são muito poucos “aqueles que por obras valerosas”, “se vão da lei da morte libertando”, como escreveu Camões em 1572. Porém, o cardeal José Tolentino Mendonça é um dos nossos compatriotas cujas “obras valerosas”, associadas à sua humildade e à sua qualidade intelectual, lhe dão um lugar de destaque no panorama da cultura portuguesa.
Não é este o espaço para elogiar o premiado e a sua obra poética e ensaística, até porque a imprensa de hoje destaca o percurso biográfico deste homem, “desde o Machico a Roma”, mas é um lugar em que se manifesta o regozijo pela escolha feita e se aplaude o premiado.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os jornais, a opinião pública e a verdade

Com grande destaque, o jornal Diário de Notícias divulgou hoje os resultados de uma sondagem de opinião feita pela Aximage para a Global Media Group, realizada nos dias 11 e 12 de Dezembro, com base numa amostra de 515 entrevistas. Dos resultados da sondagem, o jornal escolheu para manchete a frase “menos de metade dos portugueses acha que Marcelo deve ficar em Belém”.
A sondagem realizou-se a propósito do “caso das gémeas luso-brasileiras”, que tem sido exaustivamente tratado pela comunicação social devido aos seus ingredientes de escândalo e de sensacionalismo, embora se situe dentro do círculo cultural português que é a cunha, essa instituição a que poucos portugueses resistem. O facto é que, com este caso, muitos jornais e muitos jornalistas passaram rapidamente do jornalismo da bajulação, para uma espécie de jornalismo de caça ao escândalo, disfarçado de jornalismo de investigação. E aquele que era o mais popular dos políticos portugueses e o presidente dos afectos, das selfies e dos sorrisos, rapidamente passou a um estado em que só 48% desses mesmos portugueses acha que tem condições para levar o seu mandato até ao fim. É demasiado ridículo para ser verdade!
A questão de saber se houve um tratamento de favor às gémeas luso-brasileiras por parte do Presidente da República, das autoridades portuguesas ou do SNS, ainda está por esclarecer, mas a comunicação social já se antecipou, tendo decidido que o visado era Marcelo Rebelo de Sousa. Quem é que vai tirar isso da cabeça dos portugueses depois de tanta repetição dessa notícia, que não se sabe se é verdadeira ou falsa? Tem sido assim com muitos outros casos em que os jornais, os jornalistas e aqueles que os influenciam, destroem a dignidade e o bom nome das pessoas, apenas por suposições ou indícios malévolos.
Curiosamente, a sondagem também inquiriu os entrevistados em relação à cobertura que a comunicação social tem dado ao caso, tendo revelado que 19% dos inquiridos manifestaram uma opinião muito boa e 36% uma opinião boa. Fico muito surpreendido porque, todos os dias "vejo, ouço e leio" as notícias publicadas e não imaginava que 55% dos portugueses achassem boa ou muito boa a cobertura deste caso. Eu pertenço aos 45% de portugueses que acham que a cobertura deste caso pela comunicação social, não é boa nem muito boa.

COP28: será o fim das energias fósseis?

Os trabalhos da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2023, ou COP28, que se realizaram no Dubai, chegaram ao fim depois de duas semanas de intensas negociações e, pela primeira vez na história destas conferências organizadas pelas Nações Unidas, foi alcançado um acordo que prevê o fim da era do petróleo ou, pelo menos, a redução do seu consumo. Porém, embora o apelo à eliminação progressiva dos combustíveis sólidos tivesse sido uma grande vitória da COP28, tem muitos aspectos por esclarecer, sobretudo porque não impõe prazos, nem limites à produção de petróleo, gás natural e carvão.
Este acordo não foi fácil e a COP28 esteve em riscos de falhar, mas a maior parte dos duzentos países e organizações presentes aplaudiu o resultado alcançado, que também satisfez António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, que declarou: “esperemos que o acordo não chegue demasiado tarde”.
É sabido que o petróleo, o gás natural e o carvão pesam cerca de 80% no consumo energético mundial e que essas energias fósseis são as principais responsáveis pelas alterações climáticas que afectam o nosso planeta, pelo que o acordo alcançado no Dubai significa uma maior sensibilização à escala global e é realmente histórico. Porém, muitos recordam o acordo alcançado há dois anos em Glasgow para a redução do consumo de carvão que, de facto, tem continuado a aumentar, significando que as boas intenções das cimeiras têm tido poucos resultados.
A imprensa acompanhou os trabalhos da COP28, mas o jornal parisiense La Croix perguntava na sua edição de hoje se é o fim das energias fósseis.

O mundo apela ao cessar-fogo em Gaza

O resultado da votação na ONU (UN News)
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou no dia 12 de Dezembro uma resolução não vinculativa mas influente, que exige um cessar-fogo humanitário imediato em Gaza, depois dessa mesma exigência ter sido rejeitada pelo Conselho de Segurança alguns dias antes, devido ao veto dos Estados Unidos. O projecto de resolução foi apresentado pelo Egipto com o apoio de oito dezenas de estados, incluindo Portugal, tendo sido apoiado por 153 votos a favor, 10 votos contra e 23 abstenções – um resultado considerado “esmagador”.
O texto expressa grande preocupação pelo sofrimento dos civis palestinianos e pela catastrófica situação que se vive em Gaza, onde se estima já terem sido mortas 18 mil pessoas desde o dia 7 de Outubro, devido aos ataques do Hamas e às acções de retaliação de Israel. Além disso, o texto pede o cumprimento das leis internacionais que protegem civis e exige a libertação imediata e incondicional de todos os reféns em poder do Hamas.
A votação reflecte o crescente isolamento internacional dos Estados Unidos e de Israel, que se recusam a apoiar um cessar-fogo em Gaza, persistindo na sua intenção de neutralizar o Hamas, mesmo que isso represente o genocídio do povo palestiniano. Os Estados Unidos, que são os maiores aliados e os principais fornecedores de armamento a Israel, são cada vez mais vistos como cúmplices dos crimes cometidos pela retaliação israelita, mas são a única entidade capaz de persuador o extremismo de Benjamin Netanyahu a aceitar um cessar-fogo. Daí que Joe Biden, já tenha alertado para o facto de Israel estar a perder apoio internacional devido ao “bombardeamento indiscriminado” de Gaza.
Curiosamente, ou não, a imprensa nacional ou internacional não destacou esta esmagadora votação da Assembleia Geral das Nações Unidas nas suas primeiras páginas.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Goa, o mandó e a herança cultural lusitana

Está a decorrer na cidade de Panjim, a capital do estado indiano de Goa, o 56th All Goa State Level Mando Festival, no qual participam 29 grupos e que, durante dois dias, desperta um enorme interesse dos goeses, sobretudo daqueles que ainda estão ligados à cultura portuguesa. O suplemento Café do jornal Heraldo destacou na sua edição de ontem "o jovem e entusiástico" talento musical que este festival promove. 
Goa é uma terra de música e de músicos, onde se fundem harmonicamente as tradições musicais da Índia e do ocidente. O mandó é uma forma musical que nasceu e se desenvolveu em Goa durante o século XIX, quando o território fazia parte do Estado Português da Índia, tendo incorporado elementos musicais indianos e ocidentais. É cantado em concanim, a língua nacional de Goa, embora inclua muitas palavras de origem portuguesa. É uma expressão da música tradicional goesa e é muito popular entre a comunidade católica de todo o território, em especial na província de Salcete, no sul de Goa, sobretudo em Curtorim, Majorda, Raia e Margão, sendo cantado por pequenos grupos em ocasiões festivas e nas festas de casamento.
O mandó é, sobretudo, uma canção de amor, de afectos e de saudade, embora também inclua o lamento, a crítica social e o anúncio de acontecimentos. Associado à música, o mandó desenvolveu-se também como uma dança de salão de elevado requinte estético.
Apesar de haver muitos estudos sobre a música tradicional goesa e sobre o mandó, que procuram compreender a sua origem e as suas formas, não há unanimidade sobre esta matéria, embora todos reconheçam uma forte influência ocidental e, sobretudo, portuguesa.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

El Loco é o novo presidente da Argentina

O economista Javier Milei assumiu funções como novo presidente da República Argentina e dizem os cronistas que é um homem da ultra-direita, como Donald Trump, Viktor Orbán, Giorgia Meloni ou Jair Bolsonaro. À sua posse assistiram o rei Filipe VI de Espanha, alguns presidentes sul-americanos (Chile, Uruguai, Paraguai e Peru), Viktor Orbán que é o primeiro-ministro da Hungria, o ex-presidente Bolsonaro e, para surpresa de muita gente, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que para tal fez um voo de 12.816 quilómetros desde Kiev a Buenos Aires. Nenhum presidente ou chefe de governo do G-20, o grupo das vinte maiores economias do mundo, esteve presente.
Na sua juventude Javier Milei foi apelidado de El Loco, devido à agressividade da sua retórica, mas essa alcunha perdurou até aos nossos dias. O facto é que aproveitando a grave crise económica e social argentina e o desespero de muitos compatriotas, Milei conseguiu ser eleito, pois representou a esperança de uma vida melhor para os argentinos. No seu discurso de posse declarou que teve a “pior herança” que um governo argentino alguma vez recebeu, mas prometeu acabar com “a história de decadência e declínio da Argentina”, cujo índice de inflação se situa actualmente em 142,7% anuais.
Milei disse que “no hay plata” e informou que vai cortar 25 mil milhões de dólares no orçamento argentino, correspondentes a cerca de 5% do PIB, embora também tenha prometido “enterrar décadas de fracasso e disputas sem sentido” e afirmado que “hoje começa uma nova era de prosperidade, uma era de crescimento e desenvolvimento, de liberdade e progresso”. Muitos perguntam se o choque económico de Javier Milei é solução para a crise argentina. Só o tempo o dirá.
Entretanto, é caso para perguntar o que fez correr Volodymyr Zelensky para Buenos Aires, a capital de um país onde "no hay plata"?

domingo, 10 de dezembro de 2023

Mundo em mudança e extinção da escrita

Luís de Camões imortalizou-se como autor de “Os Lusíadas”, mas também com a sua obra poética em que se destacam os sonetos, um dos quais se intitula “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, que inclui um verso que nos diz que “Todo o mundo é composto de mudança”. Camões viveu em pleno Renascimento que foi um tempo de mudança artística e tecnológica que ele bem conheceu. Houve depois outros tempos de mudança, mas aquelas a que actualmente assistimos são mais profundas e mais aceleradas do que todas a que o processo histórico assistiu durante séculos.
Não é fácil identificar todos os avanços tecnológicos que estão a transformar o mundo, desde os tempos pioneiros da electricidade e da telegrafia sem fios, até aos mais recentes tempos da aviação, da televisão, da robótica, da internet e, mais recentemente, da inteligência artificial. 
Há um Homem novo em formação nas modernas sociedades, em que o pensamento e a acção são, cada vez mais, decididos por computadores, eventualmente em formato de smartphone ou telefone inteligente, que nos acompanham nos bolsos e que nos mostram as horas, a meteorologia, a localização, o correio, as notícias e um sem-número de informações úteis, que nos são acessíveis através das chamadas aplicações. Os poderes e os interesses instituídos, bem como as suas televisões, adoptam cada vez mais uma formatação que, através da repetição e da manipulação, nos impingem e repetem inverdades que, naturalmente, moldam o pensamento e a opinião de muita gente. No mundo em mudança em que vivemos, o Homem precisa cada vez menos de pensar.
Neste contexto, é muito esclarecedora a reportagem hoje publicada pelo diário catalão elPeriódico, que em primeira página destaca o título “escribir a mano, un hábito en extinción”, acrescentando que quatro em cada dez espanhóis quase não praticam a escrita. É o mundo em mudança, como escrevera Camões há mais de quatrocentos anos!

sábado, 9 de dezembro de 2023

Icon of the Seas: um navio grande demais

O jornal Diario de Cadiz anunciou há dois dias que “el gigante se pone a punto en Cádiz” e acrescenta que “el Icon of the Seas, el crucero más grande del mundo, ultima en Navantia su viaje inaugural”.
O gigantesco navio que tem um deslocamento de mais de 250 mil toneladas e 365 metros de comprimento, foi encomendado pela Royal Caribbean International e foi construído nos estaleiros Meyer Turku, que ficam situados na costa sudoeste da Finlândia. No passado mês de Junho o navio realizou os seus primeiros testes de mar e, em Outubro, foi iniciada a formação dos cerca de 2.350 tripulantes que vão guarnecer o navio e que irão servir até um máximo de 7.600 passageiros, isto é, o navio transportará normalmente cerca de 10 mil pessoas. Actualmente, o Icon of the Seas encontra-se no porto de Cádiz nos derradeiros preparativos para a sua viagem inaugural, que sairá de Miami em Janeiro e escalará as Caraíbas, sendo de 1.800 dólares por sete noites o preço mínimo a pagar por cada passageiro.
Quando iniciar a sua exploração comercial, o navio oferecerá aos seus passageiros vinte pavimentos (ou decks), 2.805 camarotes, sete piscinas, um parque aquático que será a grande atracção do navio, minigolfe, simulador de surf, três dezenas de restaurantes, bares, casino e, como aparece escrito num texto promocional, “tudo (ou quase tudo) o que se possa imaginar”.
O Icon of the Seas é grande demais e, provavelmente, muitos dos seus passageiros vão estar tão ocupados nesta cidade-flutuante, que nem terão oportunidade para ver o mar.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Zelensky e a Ucrânia: o cansaço e a dúvida

Depois de várias semanas de silêncio em relação ao conflito da Ucrânia, que foi passado para segundo plano por causa da guerra entre Israel e o Hamas, reapareceram na imprensa internacional as notícias sobre a guerra entre russos e ucranianos. Porém, as notícias não são no sentido mais desejado que seria o cessar-fogo, as negociações, a paz e o sossego para o martirizado povo da Ucrânia Oriental que, desde 2014, vive em estado de guerra.
Hoje, o jornal The New York Times escreve que “Ukraine still hopes for further U. S. military aid”, enquanto a imprensa francesa veicula muitas preocupações em relação ao futuro dos ucranianos, com o diário Le Figaro a referir que “l’Ukraine de plus en plus isolée face à la Russie”, o jornal Libération Champagne a escrever “Guerre en Ukraine, de plus en plus seuls…” e o Courrier international a dizer que “Zelensky l’heure di doute”.
Parece que os ucranianos começam a ser abandonados, depois de terem sido tão empurrados para resistir à invasão russa. As viagens de tantos dignitários a Kyev e as promessas de apoio militar tinham criado uma onda de entusiasmo. Os Leopard e os Abrams, a promessa dos General Dynamics F-16, os mísseis de todos os tipos e as operações especiais, mas também tantos cheques, deslumbraram Zelensky. A propaganda ajudou. Porém, como hoje salienta o Courrier international, “a contra-ofensiva falhou, o cansaço está a espalhar-se entre a população e os aliados de Kiev. Perante uma vitória que parece impossível, a estratégia do presidente ucraniano é cada vez mais contestada”.
Entretanto, algumas informações – falsas ou verdadeiras – que têm sido difundidas, garantem que há generais ucranianos e russos que têm conversado, eventualmente à revelia de Zelensky e de Putin, para encontrar uma solução. Seja.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Notícias fortes de um mundo em mudança

O diário The Wall Street Journal, que é o jornal de maior circulação nos Estados Unidos, na edição de hoje destaca duas importantes notícias de primeira página relativas à política internacional: uma sobre o apoio americano à Ucrânia e outra sobre as relações de Vladimir Putin com a Arábia Saudita.
A notícia sobre o apoio americano à Ucrânia, refere que os Republicanos bloquearam o projecto de financiamento destinado ao apoio à Ucrânia, o que levou a administração de Joe Biden a anunciar que “não terá dinheiro para apoiar a Ucrânia na sua luta contra a Rússia e ficará sem recursos para adquirir mais armas e equipamentos para Kiev”.
A outra notícia é ilustrada com uma fotografia do encontro que o presidente russo Vladimir Putin e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MbS) tiveram ontem em Riad. Estes dois países controlam um quinto da produção diária de petróleo no mundo e ambos precisam que o seu preço seja elevado, porque o petróleo é a força vital das suas economias. Para além dos seus interesses convergentes na área do petróleo, estes dois países têm ambições semelhantes na esfera das relações internacionais. A Arábia Saudita pretende afirmar-se como uma potência regional, menos dependente da tutela americana e daí a sua aproximação ao Irão e à Rússia, enquanto a Rússia procura contrariar as tentativas ocidentais que visam o seu isolamento internacional, sobretudo depois da invasão da Ucrânia. Estas duas notícias destacadas pelo The Wall Street Journal mostram como os diversos países se procuram ajustar às realidades estratégicas de um mundo em mudança e, uma vez mais, revelam como a Europa conta cada vez menos na política internacional. O recente anúncio da revista Forbes informando que Ursula von der Leyen foi escolhida como a primeira das “the World’s 100 Most Powerful Women”, parece mesmo uma verdadeira caricatura.

O Ocidente hesita e a Ucrânia treme

O conflito na Ucrânia já dura há mais de nove anos sem que haja sinais de solução e, depois da recente e grave crise surgida em Gaza, o problema ucraniano até parece ter sido esquecido.
Tudo começou em Fevereiro de 2014 com a agitação civil e as manifestações de Kyev a favor da integração europeia, que ficaram conhecidas como Euromaidan e que levaram o presidente pró-russo Viktor Yanukovych a abandonar o poder. Na sequência destes acontecimentos seguiu-se a intervenção russa que ocupou a Crimeia e o seu apoio às forças separatistas de Donetsk e Lugansk.
No dia 24 de Fevereiro de 2022, perante a hipótese da Ucrânia ser integrada na NATO e de ser admitida na União Europeia, a Federação Russa sentiu-se provocada e ameaçada, tendo decidido invadir a Ucrânia. A chamada “operação militar especial” desencadeada às ordens de Vladimir Putin não correu bem e, sob o comando de Volodymyr Zelensky, a cidade de Kyev resistiu. Desde então, o que vamos sabendo é contaminado pelas propagandas, mas parece que a situação no terreno é estacionária, com os russos a ocupar quatro regiões ucranianas (Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporijia) e com os ucranianos a resistir, embora a depender directamente do apoio militar da União Europeia, dos Estados Unidos e do Canadá.
A Ucrânia exige a retirada das tropas russas de todo o território ucraniano, incluindo a Crimeia, como condição prévia para se sentar à mesa de negociações, mas os russos não cedem nas suas exigências de anexação das regiões que, histórica e culturalmente, consideram russas. O problema é que a ajuda ocidental à Ucrânia se está a tornar mais dispendiosa do que foi previsto e que os resultados operacionais não são animadores. Como hoje refere o diário francês Le Télégramme, o Ocidente hesita e a Ucrânia treme.