segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Todo o mundo é composto de mudança

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança...
Isto escreveu Luís de Camões, em meados do século XVI, mas foi exactamente isso que aconteceu ontem na Andaluzia, uma comunidade autónoma espanhola com 87 mil km2 e com mais de 8 milhões de habitantes, isto é, uma comunidade aqui ao lado e com quase o mesmo tamanho geográfico e demográfico de Portugal.
O PSOE governava a Andaluzia há 36 anos e ontem, apesar de ter sido o partido mais votado nas eleições regionais, apenas conseguiu eleger 33 dos 109 deputados do parlamento andaluz. Estes deputados, somados com os 17 da coligação de esquerda Adelante Andalucia, somam 50 deputados, o que fica abaixo da maioria absoluta de 55 deputados que é necessária para formar governo. Por outro lado, os partidos e coligações de direita conseguiram uma maioria de 59 deputados (PP com 26 deputados, Ciudadanos com 21 deputados e o novo Vox com 12 deputados). Parece não haver dúvidas sobre o que vai acontecer ao governo da Andaluzia, depois da derrota do PSOE e do PP, isto é, os partidos tradicionais da Espanha e com o aparecimento do Vox, que se declara de extrema-direita.
É, como se costuma dizer nestas circunstâncias, um terramoto político. O problema está em avaliar até que ponto este terramoto terá réplicas, não só no resto da Espanha, mas até mesmo em Portugal, uma vez que sociologicamente há poucas diferenças entre a Andaluzia e Portugal. O facto é que na Andaluzia, tal como em Portugal, o partido mais votado não irá governar.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Coletes amarelos puseram Paris a arder

O protesto contra o aumento dos combustíveis começou há algumas semanas em Paris e noutras cidades francesas e, desde logo, os manifestantes se identificaram pelo uso de coletes amarelos. Era, ou parecia ser, um movimento espontâneo, sem a tutela de qualquer sindicato ou partido político. Aconteceu num fim de semana e, no fim de semana seguinte, repetiu-se. Ontem, pela terceira vez, os coletes amarelos vieram para a rua desafiar o governo e exigir a demissão de Emmanuel Macron.
A concentração no Arco do Triunfo deu origem a confrontos violentos com a polícia, houve 270 detenções e 92 feridos, enquanto um edifício e muitos automóveis foram incendiados. Nas ruas que convergem para os Campos Elíseos formaram-se barricadas, incendiaram-se automóveis e foram ateados focos de incêndio em lojas, a lembrar o Maio de 1968 ou o desespero de Hitler em Agosto de 1944 quando perguntou se Paris já estava  a arder.
Embora a dimensão do protesto pareça ser bem pequena e ainda não tenha alterado o quotidiano semanal dos franceses, o que está a inquietar o governo é a enorme popularidade dos coletes amarelos entre a população francesa, porque a sua bandeira já não é apenas a da luta contra o aumento do preço dos combustíveis, mas também a da luta pelo poder de compra dos assalariados, das desigualdades sociais e regionais e de outras reivindicações bem diversas, que vão desde a redução de todos os impostos até a demissão de Macron. O que não se imaginava é que um movimento desta natureza, aparentemente tão genuíno e tão espontâneo, tivesse incendiado Paris. É, portanto, um tema para ser pensado por sociólogos e cientistas políticos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A persistência da agitação na Catalunha

Depois da agitação independentista que ele próprio alimentou, o governo da Catalunha e o seu presidente Quim Torra enfrentam agora um Otoño caliente, como diz hoje o jornal elPeriódico de Barcelona. O protesto parece ser generalizado e tem dado origem a grandes manifestações de massas em que as bandeiras da Catalunha foram substituídas pelas bandeiras de diversas cores dos sindicatos e em que se têm registado confrontos e algumas destruições na via pública. Há inúmeros conflitos laborais e greves que duram há vários dias, nomeadamente dos médicos, professores, estudantes e funcionários públicos. Os sindicatos reclamam pela reversão dos cortes remuneratórios aplicados em 2011, pelo pagamento do trabalho extraordinário e de uma forma geral pela reposição do poder de compra dos seus trabalhadores.
Nesta altura do ano, é normal intensificar-se a reivindicação sindical, mas no caso da Catalunha é bem curioso como as manifestações que até há bem pouco tempo eram a favor do independentista Quim Torra, sejam agora contra a sua governação e com algum grau de radicalismo. No seu caso bem se pode dizer que “semeou ventos” e que está a “colher tempestades”, mas também se pode dizer que em tão pouco tempo passou de bestial a besta em, como se fosse um treinador de futebol.
Provavelmente não foi feito o retrato sociológico dos manifestantes catalães, mas talvez sejam os mesmos, aqueles que idolatraram Torra e aqueles que agora o insultam, o que significa simplesmente que as massas são manipuláveis, o que é um facto bem conhecido das teorias da comunicação.

Macau procura preservar a língua patuá

Os portugueses instalaram-se na península de Macau em meados do século XVI e desde então começou a afirmar-se uma língua crioula de base portuguesa, influenciada pelas línguas chinesas, malaias e cingalesas, mas também de inglês, do tailandês, do japonês e de algumas línguas indianas. Essa língua é conhecida como o Patuá macaense, outras vezes como o Papia Cristam di Macau e outras, ainda, como Doci Papiaçam di Macau.
Ao longo do século XX, com o aparecimento de novos meios de comunicação, o Patuá deixou de ser uma língua corrente, entrou em vias de extinção e era conhecido apenas por um número cada vez menor de macaenses. Até que em 1993 surgiu uma associação cultural com o objectivo expresso de salvar e divulgar essa língua crioula, enquanto símbolo identitário, histórico e cultural de Macau. Essa associação é o Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau, fundado e dinamizado pelo advogado macaense Miguel de Senna Fernandes, que o jornal Tribuna de Macau destaca na sua última edição.
O Dóci Papiaçám di Macau, tal como outros grupos e associações culturais macaenses, tem procurado proteger o Patuá macaense, apresentando peças teatrais e músicas em Patuá, publicando um Dicionário Português-Patuá e mantendo o objectivo de incluir o Patuá na Lista do Património Oral e Imaterial da Humanidade da Unesco.
O grupo celebra agora 25 anos de vida e a sua actividade é considerada uma referência da cultura macaense por ter feito renascer o interesse pelo Patuá e por agregar pessoas de etnias, classes sociais, idades e sensibilidades diversas, o que de certa forma representa a identidade do território de Macau, isto é, “um lugar comum a muitas pessoas diferentes”.

domingo, 25 de novembro de 2018

Uma visita de grande sucesso político

A visita oficial de três dias do Presidente João Lourenço a Portugal foi um acontecimento político muito importante para as relações entre Portugal e Angola, pois traduziu-se numa permanente manifestação de cumplicidades e de afectos entre os presidentes de Portugal e de Angola e, por essa via, entre o povo angolano e o povo português.  
Os ares frios e distantes dos tempos do  ex-presidente José Eduardo dos Santos, já fazem parte do passado. João Lourenço veio trazer-nos uma nova Angola e os portugueses perceberam e estão a aplaudir a mudança que está a acontecer no país, que também está a melhorar a sua imagem no mundo. Com a sua coragem, o seu sorriso e o seu discurso, João Lourenço conquistou a simpatia dos portugueses e, tendo aludido à anormalidade de terem decorrido nove anos sem que o chefe de Estado angolano tivesse visitado Portugal, afirmou que “os amigos querem-se juntos”. Nas relações entre Angola e Portugal, não se pode falar apenas em interesses como acontece nas relações internacionais, porque para além dos interesses há afectos, há história, há cultura e há um conhecimento recíproco.
A economia e o investimento estiveram no centro das conversações. Naturalmente. De facto, Portugal e Angola perceberam que precisam ambos do outro e que os seus interesses são compatíveis e complementares. Porém, para lá de uma dúzia de acordos de cooperação que foram assinados, o discurso de João Lourenço não se poupou nas palavras e falou de corrupção, nepotismo, bajulação e impunidade, porque a nova Angola exige uma nova atitude do poder. Disse que quando se propôs combater a corrupção em Angola já sabia que estava a mexer num “ninho de marimbondos”. A metáfora da destruição do ninho de marimbondos agradou aos portugueses e o Jornal de Angola registou-a para a posteridade.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A arte africana e o seu regresso às origens

Durante o longo período da colonização europeia do continente africano houve muitos militares, antropólogos, etnólogos, religiosos e outros, que percorriam os territórios coloniais e que regressavam a casa com recordações compradas ou trocadas e, por vezes, roubadas. Noutros casos, durante as acções de ocupação e domínio desses territórios, sobretudo no século XIX, as forças militares ocupantes tomavam posse dos objectos de arte que encontravam e simplesmente transferiam-nos para os seus países onde eram integrados em museus.
Por uma ou por outra via, a parte mais importante do património artístico móvel africano foi transferido para a Europa e, por isso, o British Museum de Londres e o Museu do Louvre de Paris, mas também o Museu Tervuren de Bruxelas, o Museu do Vaticano e muitos outros museus têm nas suas colecções de arte, enormes quantidades de objectos de arte africana. Um dos casos mais notórios é o novo Museu do Quai Branly ou Museu das Artes e Civilizações de África, Ásia, Oceania e Américas, em Paris, que tem um acervo de 300 mil obras das quais cerca de 70 mil são de origem africana. Segundo é referido, habitualmente, os países que têm mais obras de arte nos museus europeus são o Chade, os Camarões, Madagáscar, o Mali, a Costa do Marfim, o Benim, a Etiópia, o Gabão e o Congo.
Com o apoio da Unesco, a África exige agora a restituição de todos esses tesouros artísticos que fazem parte do seu património cultural. Na Alemanha e no Canadá o processo já foi iniciado,  mas no Reino Unido, na Bélgica e na França só agora se iniciou a discussão do complexo assunto. Em Portugal o problema também existirá, mas numa escala incomparavelmente menor.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A promoção turística da ilha da Madeira

Acaba de ser publicada em França mais uma edição da revista Destination Portugal, que é dedicada à ilha da Madeira. Trata-se do número 11 de uma revista dedicada a Portugal, que é classificado como a nova destination-phare dos franceses ou também como le nouvel Eldorado. A iniciativa de publicar uma revista com este título e que já vai no seu 11º número despertou a minha curiosidade e fui investigar.
Trata-se de uma revista especializada em Turismo que nasceu em 2016 em Chamalières, nos arredores de Clermont-Ferrand, no centro da França, por iniciativa de uma pequena empresa com o nome de Vasco Editions. Com este nome, pensei de imediato que se tratava de uma editora criada e constituída por portugueses ou luso-descendentes que tinham detectado uma oportunidade de mercado cujo público-alvo era a comunidade francesa luso-descendente, que deve ser bem numerosa e que se interessava por Portugal. Porém, verifiquei que os sócios que, aparentemente, são os únicos trabalhadores da empresa, são Christophe Bonicel e Yves Goutorbe, cujos nomes não indiciam qualquer ligação a Portugal.
Das edições já publicadas destaca-se que já foram dedicadas à Nazare (la nouvelle vague), a Lisboa (duas edições), Albufeira, Peniche, Cascais, Aveiro, Porto (au top) e Lagos.
Com excelentes fotografias, a revista Destination Portugal satisfaz o mercado turístico francês que “gosta de viajar,  mas que se informa previamente sobre o que vai ver”, deve ser um projecto economicamente rentável e, ao mesmo tempo, promove o que de bom existe em Portugal. Por ainda não ter tido acesso à revista, não sei até que ponto ela é subsidiada pelas agências de turismo português.

Angola, Portugal e o desejado reencontro

O Presidente da República de Angola está em Portugal para uma visita oficial de três dias a convite de Marcelo Rebelo de Sousa e a primeira coisa a fazer é dar as boas vindas a João Manuel Gonçalves Lourenço. A visita de JLo tem a marca de um reencontro entre irmãos que falam a mesma língua, que estiveram amuados e que é, portanto, muito desejado por angolanos e por portugueses.
Durante estes três dias, o presidente angolano vai encontrar-se com as autoridades portuguesas, estará numa sessão solene na Assembleia da República, viajará para o Porto, participará em seminários de natureza comercial e, sobretudo, vai sentir como são fortes os laços de amizade que os portugueses nutrem por Angola e pelos angolanos.
Portanto, o patamar desta visita vai estar muito acima dos interesses circunstanciais da conjuntura, dos negócios, das trocas comerciais, dos investimentos ou da discussão das dívidas, situando-se num plano verdadeiramente estratégico de contornos políticos e económicos, mas também de forte significado cultural e, naturalmente, de grande conteúdo emocional. Os anos de chumbo que turvaram a relação entre os dois países parece terem sido ultrapassados e agora parecem avizinhar-se anos de ouro no entendimento e na cooperação luso-angolana, como todos desejam por cá e por lá, não só em relação aos negócios e à economia, mas também em relação a outros assuntos desde a educação à saúde, sem marginalizar o intercâmbio cultural, desportivo e científico.
O Presidente de Angola representa o povo angolano e, por isso, traz consigo uma longa história comum entre os dois povos, que nem sempre correu da melhor maneira, mas a História foi o que foi e os seus julgamentos nem sempre são os mais apropriados, sobretudo quando são feitos por quem pensa condicionado pela ideologia do tempo presente. Nos tempos de incerteza em que vive o mundo, Portugal e Angola bem precisam de se entender porque as vantagens desse entendimento são enormes.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O estranho caso das touradas em Portugal

As touradas e as outras festas tauromáquicas apareceram agora na agenda política e mediática mas não são um problema e, muito menos, um problema importante. Importantes serão outros problemas como a pobreza ou a fome, os baixos salários e as pensões, a desertificação do interior, as alterações climáticas ou a poluição dos nossos rios. Esses é que são alguns dos nossos verdadeiros problemas!
As corridas de touros e as touradas não são um problema, pois são apenas espectáculos que muita gente aprecia loucamente e que, outros tantos, detestam também loucamente.
No primeiro grupo estão os que condenam a barbaridade que é picar ou matar um touro e, no outro grupo estão os que transbordam de entusiasmo pela festa brava e que são os chamados aficionados. Entre os meus amigos tenho quem pertença ao primeiro grupo e quem pertença ao segundo.
As festas tauromáquicas fazem pare da cultura portuguesa desde há muitos anos e nalguns casos são verdadeiras festas populares, caso das largadas de touros do Colete Encarnado em Vila Franca de Xira, das Festas da Moita ou de Alcochete, das touradas à corda na ilha Terceira e de outras festas tauromáquicas que se realizam em diversas localidades do país.
Hoje o jornal i salienta que a “tourada agita família socialista”, mas provavelmente agita muito mais famílias, porque são duas barricadas irreconciliáveis. Por isso, há que compatibilizar a vontade das gentes da Moita, de Vila Franca de Xira e da Praia da Vitória, por exemplo, com a vontade das gentes de outras localidades onde a festa brava não tem tradição, nem é apreciada. A cultura portuguesa tem muitas especificidades regionais e as festas tauromáquicas têm esse cunho regional. Assim, deverá ser cada Município a decidir a solução de maior agrado para os seus munícipes, tal como decide sobre outras iniciativas culturais. Pessoalmente, tenciono continuar a optar por outras iniciativas culturais.

sábado, 17 de novembro de 2018

O submarino argentino já foi encontrado

Ao fim de um ano de pesquisas, a Marinha da Argentina anunciou que foi encontrado o submarino San Juan que desaparecera no dia 15 de Novembro de 2017 com 44 tripulantes a bordo. As buscas decorriam desde que o submarino tinha sido dado como desaparecido e nelas chegaram a estar envolvidos meios de busca de treze países, mas perante a pressão dos familiares dos marinheiros do San Juan foi contratada a empresa americana Ocean Infinity para localizar o submarino. Depois de dois meses de actividade e quando se anunciava a suspensão das buscas, um veículo submarino ROV (Remotely Operated Vehicle) da referida empresa, controlado remotamente para observar e fotografar o fundo do mar, encontrou o San Juan no fundo do oceano Atlântico, a 907 metros de profundidade e a cerca de 400 km para leste da península Valdés, na Patagónia argentina.
Segundo revela o jornal argentino Clarín, a Ocean Infinity foi contratada porque a Marinha argentina não dispõe daquele tipo de equipamento e a bem sucedida operação vai custar 7,5 milhões de dólares.
A notícia veio clarificar a situação das famílias dos 44 marinheiros e emocionar os argentinos que ficaram agradados pelo sucesso das buscas. No entanto, não está garantida a recuperação do submarino por causa da grande profundidade a que se encontra, a não ser que o fabricante alemão se envolva neste complexo e muito dispendioso processo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O acordo do Brexit é só um pequeno passo

Foi anunciado ontem que o governo de Theresa May aprovou o rascunho do acordo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, depois de muitos meses de negociações entre Londres e Bruxelas.
Trata-se de um documento de 585 páginas que contempla inúmeras questões como por exemplo a compensação financeira devida à saída britânica, os direitos dos cidadãos europeus no Reino Unido e dos cidadãos britânicos na Europa dos 27, os protocolos sobre o estatuto de Gibraltar e sobre as bases militares britânicas no Chipre, os procedimentos relativos à futura fronteira entre a Irlanda do Norte britânica e a República da Irlanda e, naturalmente, a problemática das futuras relações económicas britânicas com a Europa. Porém, a aprovação do governo de Theresa May não foi pacífica e onze dos seus membros terão estado contra, com o ministro dos Transportes a demitir-se e a pedir que fosse realizado um segundo referendo sobre o Brexit.
Significa que o caso ainda está para durar. O Conselho Europeu terá que validar o acordo nos próximos dias  e depois tem a palavra o Parlamento Britânico, mas há muitas dúvidas quanto à resposta que ele vai dar a este acordo, havendo muitas vozes da maioria que se lhe opõem. De seguida, ainda o Conselho e o Parlamento Europeu terão que votar a sua aprovação.
O jornal The Guardian diz hoje que no Reino Unido está tudo dividido, isto é, o governo, o Partido Conservador e o próprio país, com a Escócia à frente da contestação. O Brexit está, portanto, muito longe de estar resolvido. Falta convencer ministros, deputados e a opinião pública britânica, mas do lado europeu e dos aliados do Reino Unido também parece haver insatisfação. Até há quem venha afirmando que em vez de um acordo do Brexit, o que vai acontecer é a realização de eleições num futuro próximo para decidir, por essa via e sem segundo referendo, o que deverá ser feito.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Israel, a Palestina e o sofrimento do povo

Depois de cerca de seis meses de acalmia, a tensão entre palestinianos e israelitas aumentou subitamente na noite de domingo quando forças especiais israelitas intervieram numa operação no interior da Faixa de Gaza, daí resultando a morte de alguns milicianos palestinianos e de um soldado israelita.
Na segunda e na terça-feira, tanto os israelitas como os palestinianos não pararam de se atacar. De acordo com o Gulf News os palestinianos lançaram 400 rockets sobre o território de Israel, enquanto a aviação israelita atacou 150 alvos palestinianos, incluindo a Al-Aqsa, a estação televisiva do Hamas na Faixa de Gaza, que deixou de emitir após o ataque. As imagens que foram divulgadas nos media internacionais mostram a enorme violência e a destruição causada pelos ataques aéreos israelitas e os observadores internacionais consideram que esta escalada no histórico conflito na Faixa de Gaza entre israelitas e palestinianos foi a mais grave desde a guerra de 2014.
A diplomacia egípcia, com apoio das Nações Unidas, trabalhou intensamente para pôr termo a esta violência entre milícias palestinianas e Israel, quando o balanço destes dois dias já atingia 16 mortos, incluindo 14 combatentes palestinianos, um militar israelita e um civil palestiniano, além de muita destruição. Ontem, o Hamas e os outros grupos palestinianos, assim como Israel, aceitaram uma trégua negociada pelo Egipto. Porém, o ministro da defesa israelita não concordou com a trégua aceite pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e tratou de se demitir, o que pode abrir uma crise política em Israel, ou seja, não há maneira de se acabar com o sofrimento do povo palestiniano.

Até uma moderna fragata se pode afundar

Na madrugada da passada quinta-feira, dia 8 de Novembro, a moderna fragata norueguesa Helge Ingstad de 5000 toneladas colidiu com o navio petroleiro maltês ST Sola no fiorde de Hjeltefjord, perto de Bergen, quando regressava ao porto depois de terminar alguns exercícios enquadrados no Trident Juncture, o maior exercício militar da NATO desde há muitos anos. Neste exercício participam cerca de 50 mil militares de 31 países, que têm ao dispor 10 mil veículos, 250 aeronaves e 65 navios, entre os quais o porta-aviões americano Harry Truman e a fragata portuguesa Corte Real.
O acidente com a fragata norueguesa causou oito feridos entre os 137 elementos da guarnição e, como resultado da colisão, a fragata meteu água e adornou. Apesar das operações que têm sido conduzidas para evitar a sua perda, a fragata tem-se afundado e actualmente está quase totalmente submersa, mantendo-se à tona apenas o topo do mastro e uma pequena parte da popa.
O navio é uma das cinco fragatas da classe Fridtjof Nansen que foram construídas entre 2006 e 2011 nos estaleiros militares espanhóis da Navantia em Ferrol, na Galiza, tendo custado 366 milhões de euros e, por isso, a notícia deste acidente aparece hoje no jornal La Voz de Galicia. Segundo relata o jornal galego este caso constitui um desastre para a Marinha da Noruega e tem sido um espectáculo mediático para os noruegueses que têm acompanhado este quase afundamento através da televisão, até porque não se sentirão nada bem a ver 366 milhões de euros a ir ao fundo daquela maneira.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Será o fim do jornalismo em Portugal?

As comemorações do fim da 1ª Guerra Mundial tiveram grande repercussão, não só para honrar os seus milhões de mortos, mas também para apelar à paz e a uma pedagogia da paz e da concórdia entre as nações. As cerimónias realizadas em Paris foram marcantes, devido à presença de muitas dezenas de chefes de Estado e de governo, mas muitas outras foram realizadas por todo o mundo. A edição de ontem do jornal canadiano Toronto Sun escolheu uma sugestiva imagem para a sua primeira página e escreveu como lead a seguinte frase:  “Assinalando 100 anos desde o fim da 1ª Guerra Mundial, realizaram-se cerimónias por todo o país e por todo o mundo como tributo aos que lutaram e aos que morreram”. Significa que, de uma forma ou de outra, a evocação da 1ª Guerra Mundial correu mundo.
Portugal entrou na guerra nas frentes da Flandres e nas fronteiras de Angola e Moçambique e embora não se conheça exactamente o número de portugueses mortos em combate ou por doença, as estimativas apontam para cerca de seis mil, que o país nunca deixou de homenagear.
Como já ontem referimos, nenhum jornal português assinalou ou deu importância a esta efeméride de significado mundial, talvez porque somos terrivelmente periféricos na Europa e no mundo, não só na geografia, mas também no culto de valores culturais e da nossa História. Lamentavelmente, a nossa imprensa é cada vez mais papel borrado de tinta. O que conta para a nossa imprensa escrita (e televisiva) é um tal Bruno de Carvalho, uma figura menor da nossa terra que, até prova em contrário, não fez nada de mal e apenas está a ser investigado. O caso nem merecia notícia, mas o Diário de Notícias, o Público, o Jornal de Notícias e, naturalmente, o Correio da Manha, não falam noutra coisa. Impera a lei de "vender papel" a qualquer preço ou o jornalismo de vão de escada. Não quero crer que acabou o jornalismo em Portugal, apesar de ver tanta mediocridade, tanta incompetência e tanta falta de sentido de serviço ao público.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Grande Guerra e a homenagem da França

Paris foi ontem o centro do mundo e Emmanuel Macron, cem anos depois do armísticio que pôs fim à I Guerra Mundial, foi o anfitrião de mais de 70 líderes e chefes de Estado que se juntaram para homenagear os milhões de mortos e feridos da Grande Guerra.
O presidente francês começou por receber os representantes internacionais no Palácio do Eliseu, de onde seguiram para o Arco do Triunfo e foi nesse local que o chefe de estado de França deixou um alerta contra o ressurgimento dos nacionalismos. No seu discurso Emmanuel Macron lembrou o “inferno” passado pelos que combateram nas trincheiras desta guerra, os 10 milhões de homens que morreram, os milhões de mulheres que ficaram viúvas e os milhões de crianças que ficaram órfãs e, num apelo à paz, disse que “a lição da Grande Guerra não pode ser a do ressentimento entre os povos, e o passado não pode ser esquecido” e acrescentou que “o patriotismo é exactamente o contrário do nacionalismo”.
A cerimónia teve grandeza e espectacularidade, como mostraram as televisões estrangeiras, já que as televisões portuguesas se revelaram uma vez mais alheias e desinteressadas do que acontece no mundo. Hoje, os jornais de todo o mundo tratam das comemorações em França e publicam a expressiva fotografia da primeira fila da tribuna onde, entre outros, estão Macron e Merkel, Trump e Putin.
A mediocridade da imprensa portuguesa, cuja tematização se aproxima cada vez mais do ridículo e que revela uma absoluta menoridade cultural, destaca hoje como principal notícia a detenção do ex-dirigente desportivo Bruno de Carvalho. É uma vergonha para qualquer dos directores dos nossos jornais de referência e para os jornalistas sérios que lá trabalhem. Que pena não termos um Almada Negreiros para retratar com um manifesto estes Dantas do nosso tempo.