segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Copacabana Palace

O jornal i já tinha dado a notícia, mas a edição de hoje do Correio da Manhã confirmou-a e até publicou algumas fotografias relativas ao  acontecimento: o Hotel Copacabana Palace, localizado em frente da famosa praia de Copacabana no Rio de Janeiro, hospedou durante os festejos da passagem do ano três conhecidas figuras políticas portuguesas que ocupam ou ocuparam importantes lugares no governo. O hotel é mundialmente conhecido por hospedar as maiores celebridades internacionais que visitam a cidade-maravilhosa e, também, por promover a realização de alguns dos mais procurados eventos sociais do Brasil. É um famoso centro de negócios e das mais diversas negociatas, incluindo o famigerado “mensalão”. 
Numa época em que insistentemente nos é dito que “temos vivido acima das nossas possibilidades”, que “temos que consumir o que é português” e que “temos que aumentar a poupança”, o exemplo que nos foi dado por esses três políticos – Relvas, Loureiro e Arnaut – é escandaloso, imoral e obsceno. Envergonha-nos. Eles não são umas quaisquer figuras. São antigos secretários-gerais do PSD. Foi o partido que os tirou da vida remediada e lhes abriu as portas da fortuna. Foram ou são ministros, mas são uns novos-ricos. Foram exibir e esbanjar muito dinheiro para o Brasil, numa altura em que muita gente passa por grandes sacrifícios em Portugal. Relvas (ministro) é o tal que se licenciou sem ter estudado e é um dos rostos do governo que nos está a mergulhar na "espiral recessiva" e a comprometer o futuro; Loureiro (ex-ministro) é um dos rostos da fraudulenta gestão do BPN que nos está a custar alguns milhares de milhões de euros; Arnaut (ex-ministro) é o rosto da sociedade de advogados que presta serviços de duvidosa transparência relativos às privatizações. É um trio que envergonha a classe política e o próprio partido que os criou. Nada os distingue dos canalhas e dos trafulhas.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Há negócios que nem sempre correm bem

A edição de hoje do diário luxemburguês Le Quotidien dá um grande destaque a Cristiano Ronaldo, com uma fotografia do futebolista a toda a largura da primeira página. Na imprensa desportiva, sobretudo em Espanha, a imagem e o nome de Ronaldo aparecem com muita frequência, mas quando isso acontece no Luxemburgo com aquele destaque, ficamos com acrescida curiosidade, até pelo título do jornal a informar que “em Esch-sur-Alzette há um cartão vermelho para as irmãs de Ronaldo”. 
A história é simples. Um tal Albano Mariz quis ser o primeiro comerciante a abrir uma loja CR7 fora de Portugal, para vender a linha de roupa Cristiano Ronaldo e atrair a comunidade portuguesa do Luxemburgo. O seu sonho concretizou-se no passado dia 20 de Agosto quando a sua loja foi inaugurada no Centro Comercial Marco Polo em Esch-sur-Alzette. Porém as coisas não têm corrido bem e, contrariamente aos contratos celebrados com a empresa de roupas das irmãs de Ronaldo, o comerciante terá recebido restos de colecções e produtos não adequados à procura esperada por parte dos portugueses. Depois terá recebido a colecção de Inverno, mas os produtos recebidos seriam falsificados e de origem chinesa. Há negócios que nem sempre correm bem e comerciante entrou em desespero, com produto de má qualidade para vender e sem clientela. 
Segundo informa o jornal, Albano Mariz cancelou hoje seu contrato e interpôs uma acção judicial contra a empresa de roupas gerida pelas duas irmãs de Cristiano Ronaldo, tendo estimado o seu prejuízo em um milhão de euros. Se a história que envolve os nossos compatriotas é aquela que é contada pelo Le Quotidien, então é um caso lamentável que nada ajuda ao bom nome da comunidade portuguesa no Luxemburgo.

Uma governança que vai de mal a pior

Os primeiros dias deste novo ano de 2013 têm sido desastrosos para a imagem e para a credibilidade do governo português, não só devido à severidade da mensagem presidencial, das declarações de Mister Barroso e de um artigo do antigo presidente da Assembleia da República, mas também devido à dureza dos comentários que têm sido feitos pelos opinion makers. A tudo isto juntou-se a divulgação pelo Tribunal de Contas da Auditoria de seguimento das recomendações aos gabinetes governamentais (Relatório nº 36/2012 – 2ª Secção, Novembro de 2012) que, ao longo de 85 páginas, analisa as despesas de funcionamento dos gabinetes dos membros do governo, concluindo que “não existe evidência de que as despesas de funcionamento dos gabinetes dos membros do Governo tenham diminuído”. Assim, a austeridade que está a ser imposta aos portugueses e que se está a traduzir numa enorme perda do rendimento das famílias, levando a uma quebra na procura interna e a uma acentuada recessão da economia, parece não estar a ser seguida pelos governantes. O governo criticara os seus antecessores pelo seu elevado despesismo, mas comporta-se exactamente da mesma maneira e, só o gabinete do primeiro-ministro tem um numeroso quadro de pessoal com 50 pessoas, incluindo 12 adjuntos, 10 assessores, 15 secretários pessoais e 12 motoristas, para além de vários especialistas e do pessoal da segurança. Os 49 membros do governo, incluindo o primeiro-ministro, os 11 ministros e os 37 secretários de Estado parecem gastar com pouca regra e o Tribunal de Contas salienta “a inexistência de um tecto máximo para as despesas dos gabinetes”, bem como “a manutenção de uma opacidade a revelar que persistem anomalias, situação que deve ser ultrapassada em nome do rigor e da transparência orçamental”, criticando a ausência de regras relativas às chamadas regalias extra-salariais e acessórias (cartão de crédito, uso de viatura e despesas com telefone). A mensagem presidencial de Ano Novo salientou: “Precisamos de recuperar a confiança dos portugueses. Não basta recuperar a confiança externa dos nossos credores”. Porém, não é com estes exemplos que se recupera a confiança dos portugueses. O governo e a governação vão de mal a pior.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A recessão no mercado automóvel

Uma das faces mais visíveis da recessão económica que está a afectar a Europa é a situação do mercado automóvel. A imprensa espanhola e francesa destacam hoje essa realidade na perspectiva do consumo e na perspectiva da produção, com títulos como “pinchazo histórico en las ventas de coches” ou “automobile: éviter la panne” ou, ainda, “la double crise de l’automobile française”.
Em Espanha (699.589 carros vendidos) não se vendiam tão poucos automóveis desde 1989 e a quebra de vendas em 2012 foi de 13,4% relativamente a 2011; em França (1.899 mil carros vendidos) desde 1997 que as vendas de automóveis não eram tão baixas, tendo havido uma quebra de 13,9%. Em Portugal (95.290 carros vendidos) os números são semelhantes, mas mais graves, pois a quebra foi de 37,9% e há 27 anos que não se vendiam tão poucos automóveis!
Apesar da quebra geral no consumo, verifica-se que as marcas alemãs BMW, Mercedes e Audi, são as que menos perdem nos três países do sudoeste da Europa. Em Portugal essas três marcas venderam 17.864 unidades, isto é, tiveram uma quota de mercado de quase 20%. É impressionante. Assim, ficam evidenciadas duas coisas: que a crise toca a todos mas de maneira diferenciada e que o gosto pelos carros topo de gama não é só português.
Estes números são o reflexo das políticas de austeridade e da crise do consumo que se espera sejam ocasionais, mas também são uma preocupação para o sector da produção e para o emprego, sobretudo em França, até porque se anuncia que no ano de 2013 a China produzirá mais automóveis do que toda a Europa. Ora aqui está mais um bom tema de reflexão.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A personalidade do ano de 2012? Ora essa!

Nos últimos dias os meios de comunicação social fizeram as habituais retrospectivas sobre os acontecimentos que marcaram o ano de 2012 e, muitos deles, escolheram o facto e a personalidade do ano. Em Portugal aconteceu a mesma coisa e a escolha tem recaído maioritariamente no homem que gere a pasta das Finanças, o que me parece muito caricato, porque os resultados que ele tem obtido são muito fracos. Quase tudo se tem agravado, mas o homem anda deslumbrado com os elogios alemães e a fazer parelha com o nosso primeiro ao melhor estilo “Senhor Feliz e Senhor Contente”. Ainda há alguns fiéis nesta comédia, mas o aplauso vem sobretudo dos borges, dos moedas e dos relvas, isto é, da malta das negociatas. Certamente, o homem terá sido bom estudante e terá alguns méritos em várias coisas teóricas, mas é um desastre na gestão concreta das nossas finanças públicas. Falha em tudo. Trata as pessoas como números e julga que a nossa equação financeira se resolve numa folha de excel. Não consegue travar o défice. Não consegue reduzir a dívida. Faz aumentar as falências e o desemprego. Afunda a economia. Vende as nossas jóias da coroa. Rouba-nos a confiança e ameaça vender o país. Tem sido assim ao longo de muitos meses, com insensibilidade social, cegueira económica e arrogância política. E ainda há quem o considere a personalidade do ano!
Agora tivemos a tradicional mensagem presidencial de Ano Novo e, entre outras valentes marteladas que foram dadas ao passos-gasparismo a propósito das falhadas políticas de austeridade, ouvimos:
“Temos que pôr cobro a esta espiral recessiva em que a redução drástica da procura leva ao encerramento das empresas e ao agravamento do desemprego…. É aí, no crescimento económico, que temos que concentrar esforços… Precisamos de recuperar a confiança dos Portugueses. Não basta recuperar a confiança externa dos nossos credores… Temos argumentos – e devemos usá-los com firmeza – para exigir o apoio dos nossos parceiros europeus, de modo a conseguir um equilíbrio mais harmonioso entre o programa de consolidação orçamental e o crescimento económico”.
Tudo isto tem sido repetidamente enunciado desde há muitos meses por muita gente, mas o fundamentalismo e a arrogância do passos-gasparismo não deram ouvidos a ninguém. E agora? Está na hora?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Festejar o Novo Ano em tempo de crise

Hoje é o último dia do ano e, apesar de estarmos em tempo de crise e de austeridade, os portugueses não abdicam de festejar a entrada de 2013 e de se divertir, no país ou no estrangeiro, com viagens, festas, ceias, música, bailes e fogo de artifício.
As agências de viagens sugeriram propostas mais ou menos económicas para a passagem do ano em Londres ou Barcelona, Paris ou Praga, Roma ou Berlim, mas também na Turquia, em Marrocos ou Cabo Verde. As televisões têm exibido as imagens da preparação dos festejos domésticos, mostrando os hotéis, os restaurantes, as iguarias e os foliões que festejarão a passagem do ano no Algarve, na Madeira, no Alentejo, no Douro ou na serra da Estrela. Os jornais apresentam propostas de programas para entrar no novo ano, com indicação dos locais, dos preços, das ementas e dos artistas que animarão a noite. Com tanta oferta de alternativas até parece que não estamos em tempo de crise ou, então, que o melhor é “divertir para esquecer”.
Porém, no momento em que se anuncia uma austeridade ainda mais rigorosa e se reconhece que cerca de um milhão de portugueses estão desempregados, há gente que voa mais alto. Gente que devia dar o exemplo de contenção. O jornal i revela hoje que o ministro Relvas passa férias de fim de ano no Rio de Janeiro, tendo-se instalado no famoso Copacabana Palace onde “o preço médio por dormida é de 800 euros, sem incluir taxas de serviço de hotel ou pequeno-almoço”. Que belo exemplo de austeridade! Que novo-riquismo! O jornal ainda insinua que o homem estará no Rio de Janeiro como convidado. A ser assim, a pouca vergonha é maior.
Esta gente nem sequer tem noção do ridículo!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A demografia ameaça o nosso futuro

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou ontem a sua publicação anual Indicadores Sociais, relativa ao ano de 2011. Trata-se da 14ª vez que o INE faz a compilação de resultados estatísticos sobre as principais variáveis e indicadores de carácter social, o que permite traçar um retrato social da população residente no nosso país e a forma como evoluiu nos últimos anos. A análise das 215 páginas do documento revela um país em grande evolução e informa que a população residente em Portugal em 31 de Dezembro de 2011 se estima em 10 541,8 milhares de pessoas. Menos população. Menos nascimentos. Saldo natural e saldo migratório negativos. Maior esperança média de vida. Menos casamentos. Menos PIB. Menos rendimento disponível das famílias. Maior taxa de risco de pobreza. Mais formação. Menos abandono escolar. Mais frequência universitária. Mais estudantes de mestrado e de doutoramento. Menos emprego e menos emprego jovem. Mais reclusos nos estabelecimentos prisionais. Menos títulos de jornais. Mais acesso à Internet. Et cetera.
Em maior ou menor grau os Indicadores Sociais.2011 confirmam aquilo que vamos sabendo pela comunicação social e pela nossa própria observação, embora nos chamem a atenção para o nosso grave problema demográfico. A tabela da página 19 mostra que, desde 2006, o número de nados vivos é inferior ao número de óbitos e, portanto, a taxa de crescimento da população portuguesa é negativa. Por outro lado, a pirâmide etária da página 18 evidencia a deformada estrutura da população portuguesa, com muitos idosos e poucos jovens, o que constitui um aviso muito sério e um grande problema. Os nossos estrategas, os pensadores, os planeadores e os dirigentes não podem deixar de ter a informação que essa pirâmide nos dá, como elemento de reflexão e parâmetro essencial nas suas opções.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Álbum de Memórias. Índia Portuguesa

No Padrão dos Descobrimentos em Lisboa encontra-se uma exposição evocativa da passagem do 50º aniversário do regresso dos militares portugueses que estiveram prisioneiros na Índia Portuguesa, depois dos acontecimentos de 1961. É uma iniciativa muito louvável da Câmara Municipal de Lisboa e da EGEAC, destinada a preservar e divulgar a memória dos últimos soldados e marinheiros da Índia Portuguesa.
Álbum de Memórias. Índia Portuguesa. 1954-62 é o seu título, que constitui uma oportuna homenagem aos militares que perderam a vida em combate e aos que, no regresso a Portugal, foram hostilizados pelo regime salazarista, sendo uma visão inédita sobre os últimos anos da Índia Portuguesa. A exposição foi concebida a partir das memórias dos militares que viveram esse período histórico, incluindo o seu espólio fotográfico, alguns objectos pessoais, extractos de diários e outros documentos. A exposição está organizada em várias secções temáticas, designadamente os aspectos da mobilização dos militares, a viagem marítima para a Índia, a missão e o quotidiano em Goa, Damão e Diu, a invasão dos territórios pelas Forças Armadas Indianas, o consequente cativeiro nos campos de concentração e, em Maio de 1962, o repatriamento. É uma lição de História e uma oportunidade para conhecer melhor o que se passou na Índia Portuguesa desde 1954, quando foram ocupados os territórios de Dadrá e Nagar-Aveli, até 1962, quando os cerca de 3 mil prisioneiros de guerra foram repatriados.
A exposição foi inaugurada em 30 de Setembro, vai continuar patente ao público até 27 de Janeiro e merece ser visitada atentamente.

A crise da Europa e o desemprego invisível

Dois jornais franceses – Le Parisien e o Aujourd’hui en France – conduziram um inquérito nacional sobre o desemprego em França e chegaram a conclusões alarmantes pelo que, nas suas edições de hoje, destacaram o título: “os números negros do desemprego invisível”. Segundo os resultados desse inquérito, os “desempregados invisíveis” não aparecem nas estatísticas oficiais, porque deixaram de acreditar nos centros de emprego, cederam à vergonha, foram tomados pelo desânimo e perderam a auto-estima. Serão dois milhões e meio de franceses. Porém, há outras categorias de “desempregados invisíveis”, como aqueles que ao concluir a sua formação escolar, nem sequer ousam entrar nos centros de emprego e se limitam a enviar cartas a pedir emprego. E há as vítimas do trabalho a tempo parcial e das tarefas precárias. Somando tudo, aqueles jornais afirmam que há 9 milhões de franceses desempregados ou em sub-emprego, a comparar com os cerca de 5 milhões que constam das estatísticas oficiais e concluem que “a sociedade francesa está muito doente”.
A realidade laboral francesa é o reflexo da grave crise económica e social que está a afectar toda a Europa e que já não poupa ninguém. Por isso, a nossa perplexidade não cessa de aumentar ao vermos o servilismo dos nossos governantes perante os seus congéneres europeus e ao ouvirmos as suas patéticas declarações de optimismo quanto ao rumo que estão a dar ao nosso destino, em que o crescimento e o emprego continuam a ser desvalorizados face às exigências dos especuladores. A crise da Europa é enorme e o desemprego, visível ou invisível, pode ser a desgraça do seu modelo social. Aqui também. Arrepiem caminho e coloquem as pessoas em primeiro lugar.  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Há mensagens de Natal muito ridículas


O nosso primeiro ministro dirigiu a tradicional mensagem de Natal aos portugueses, em que afirmou que “não tenhamos dúvidas, estes anos difíceis irão passar”, que “estamos no bom caminho” e que “estamos mais próximos de vencer a crise”, para além de nos ter afirmado “a certeza de que os dias mais prósperos e mais felizes do nosso país estão à nossa frente”. Todas estas frases, verdadeiras palavras de ordem de campanhas eleitorais, seriam verdadeiramente excepcionais se fossem verdade. Porém, nem o optimismo nem a aparente convicção do nosso primeiro nos convencem. Nem ele, nem a sua equipa de gente pouco experimentada nos convencem com a sua cegueira política, a sua insensibilidade social e a sua servil subordinação à agenda merkeliana. De facto, continuamos a ser diariamente confrontados com relatórios de execução orçamental e com previsões que nos indicam exactamente o contrário daquilo que o nosso primeiro afirmou, enquanto assistimos ao aumento incontrolado do desemprego, da pobreza, das falências e da emigração, a juntar aos sinais de decadência e de frustração que observamos à nossa volta. Naturalmente, uma mensagem de Natal não poderá deixar de ter um conteúdo mobilizador e de mostrar sinais de optimismo, mas não pode ser um veículo de propaganda irrealista, mesmo que esteja cheia de frases bonitas, mas sem qualquer significado. Um bom exemplo está nesta promessa: “Ninguém que esteve presente nos piores momentos da crise, com a sua coragem e o seu esforço, será deixado para trás nos anos de oportunidade que temos pela frente.” O que é que isto quer dizer?

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Os impostores que andam por aí

Nos últimos dias fomos confrontados com uma personagem que, na qualidade de coordenador de um Observatório Económico e Social das Nações Unidas, despertou o interesse do público português com um discurso inovador sobre a realidade nacional. Chama-se Artur Baptista da Silva, é português, tem a palavra fluente e apresentou-se como alguém que coordenava uma equipa de economistas que preparara um relatório sobre a crise na Europa do Sul, a apresentar ao secretário-geral das Nações Unidas. Apareceu na televisão, deu entrevistas ao Expresso, à SIC e à TSF, defendeu que Portugal não deveria ter pedido o resgate financeiro à troika, disse que foi a ajuda comunitária que conduziu ao nosso brutal endividamento e até lançou o que dizia serem as bases para uma renegociação com a troika. Ninguém duvidou do homem mas, em boa hora, o jornalismo de investigação funcionou e o homem foi rapidamente desmascarado: não é economista, não trabalha na ONU, não existe qualquer observatório, não foi feito nenhum relatório e, até há bem pouco tempo, esteve preso por burla, abuso de confiança e emissão de cheques sem cobertura.
O Diário de Notícias escreveu ontem que Artur Baptista da Silva é um impostor. Significa, portanto, que  é alguém que engana com falsas aparências e com mentiras, fingindo ser diferente do que realmente é. Os impostores são atrevidos e falsificam o seu estatuto social, académico, financeiro, profissional e, por vezes, até a sua identidade. Infiltram-se na política, na economia e na comunicação social e nós vivemos rodeados por esse tipo de gente. São os impostores do tipo Baptista da Silva que, mesmo quando são desmascarados, continuam a andar por aí a infectar a nossa sociedade e a comprometer o nosso futuro.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Avaliação por resultados: não aprovado!

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Desde há cerca de 18 meses que o actual governo está no poder e, desde há cerca de 18 meses que, para ajustar a economia e reduzir a dívida e o défice, o ministro das Finanças fez aumentar a electricidade, os transportes, a água, as taxas moderadoras e, naturalmente, todos impostos directos e indirectos. As dificuldades aumentaram para as famílias e para as empresas. A pobreza aumentou escandalosamente. O desemprego aumentou brutalmente e os mais capazes emigram. A dívida já vai nos 120% do PIB e, teimosamente, o défice não baixa. Disse Adriano Moreira: “nunca vi uma situação tão severa na vida portuguesa”. Disse Jorge Sampaio: “a austeridade está a rebentar com o país”.
Contudo, apesar desta brutal agressão aos portugueses e desta sofreguidão fiscal, o que se verifica é que as coisas não correm bem, embora os nossos contabilistas teimem em afirmar que estamos no bom caminho, repetindo o que dizem os seus amigos e colegas eurocratas. Apesar do aumento dos impostos a receita pública tem diminuído e o  Correio da Manhã revela hoje que está 1,7 milhões de euros abaixo das previsões. É um desvio brutal. É um soco no estômago.
As previsões governamentais têm sido irrealistas como muito boa gente tem alertado. Os nossos contabilistas ainda não perceberam que, a partir de certos limites de carga fiscal, a receita diminui. Não está apenas nos livros. Está à vista há muito tempo. Assim, enquanto há quem escolha o pequeno Gaspar como a personalidade do ano, eu sujeito-o a uma avaliação por resultados e só o posso reprovar. Ele não tem acertado uma e, sob uma aparente humildade, apenas tem mostrado muita arrogância, pouca sabedoria e um crescente apetite pelo poder.

A enorme burla e o buraco do BPN

A monstruosa burla que foi o caso BPN ainda continua a surpreender-nos, mesmo depois de ter sido vendido aos capitais angolanos do BIC pela importância de 40 milhões de euros que, como sabemos, é um valor que não dá para pagar metade do contrato do Cristiano Ronaldo.
O BPN tinha sido intervencionado pelo Estado em Novembro de 2008 e, nessa altura, uma auditoria revelou que a administração do Banco tinha ocultado perdas no valor de 740 milhões de euros. O Banco de Portugal estivera distraído ou não percebera o que se tinha passado. Depois, pouco a pouco, os contornos da burla e a identidade dos burlões começaram a ser conhecidos. Chegou a pensar-se que o caso teria um tratamento exemplar. Em Dezembro de 2010, o Estado assumiu a responsabilidade por 1803 milhões de euros de incobráveis ou activos tóxicos e imaginou-se que o problema do Banco estava quase resolvido. Podia ser vendido. Havia compradores. Em Julho de 2011 o BPN foi vendido, mas agora vamos sabendo que afinal o BIC apenas comprou a "carne" e deixou os "ossos" para o Estado. Estimam-se agora que os incobráveis, também conhecidos por activos tóxicos ou, ainda, por imparidades, sobraram para nós e podem atingir 5,5 mil milhões de euros, isto é, cerca de 3% do PIB. A edição de ontem do Expresso estuda o assunto e revela que há mais de 500 grandes clientes do BPN, todos com dívidas superiores a meio milhão de euros que deixaram de pagar as suas prestações. Impune e descaradamente. Uns ladrões que andam por aí. Os principais responsáveis deste caso parece que estão a ser julgados, mas ninguém sabe o que está a ser feito para reaver os milhões dos devedores em incumprimento. O que faz a Justiça? O que fazem as Finanças? Os nossos governantes são mesmo uns valentões!


sábado, 22 de dezembro de 2012

A Fonte Luminosa de novo a brilhar

A Fonte Monumental da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, vulgarmente conhecida como Fonte Luminosa voltou a funcionar em pleno, depois de ter sido objecto de uma demorada e profunda intervenção de restauro.
A Fonte foi construída para celebrar o abastecimento regular de água à zona oriental da cidade e a sua inauguração solene realizou-se no dia 30 de Maio de 1948. Foi uma das obras mais simbólicas da arquitectura do Estado Novo, incorporando esculturas da autoria de Maximiano Alves e de Diogo de Macedo e baixos-relevos laterais de Jorge Barradas.
Nos últimos anos a Fonte Luminosa esteve abandonada, vandalizada, sem qualquer tipo de manutenção e acabou por ser encerrada, tornando-se um símbolo da decadência e de um certo abandono da Alameda, um bairro onde outrora pontificava uma população jovem que estudava no Técnico e que frequentava os cafés Império e Pão de Açucar. Para quem antes conhecera a Alameda, não podia deixar de sentir uma enorme tristeza quando contemplava a decadente estrutura da Fonte Luminosa.
Ao decidir levar a efeito a reabilitação daquele conjunto arquitectónico, sobretudo para retomar os seus tradicionais “jogos de água”, que é uma das vertentes mais admiradas desta emblemática fonte, a Câmara Municipal de Lisboa revelou uma elevada sensibilidade às questões da qualidade de vida dos munícipes e à estética da cidade. A reabilitação urbana, pública ou privada, é sempre um estímulo à actividade económica e ao emprego, mas neste caso é, também, um contributo para a preservação do património e para a reanimação de uma importante zona cidade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

À beira do abismo?

Os Estados Unidos são a maior potência económica do planeta, mas nem por isso estão libertos dos problemas orçamentais e dos problemas económicos que lhe estão associados, como revela a última edição da revista britânica The Economist. A revista interroga-se sobre se a economia americana está “over the cliff” ou, como se diz em português, está “à beira do abismo”, porque passa por uma fase em que o crescimento económico abrandou, o investimento quebrou e o nível de confiança dos consumidores está muito baixo. O desafio do presidente Barack Obama é exactamente o de evitar esse abismo económico e de tomar medidas que equilibrem o orçamento e as finanças públicas dos Estados Unidos, o que significa aumentar impostos e cortar na despesa pública. Os americanos mais ricos terão de pagar mais impostos, as despesas de soberania terão de ser reduzidas e as funções sociais, como por exemplo as pensões e os cuidados de saúde, terão que ser reapreciadas, sobretudo num contexto em que a população envelheceu e os custos com a saúde aumentaram muito. Essa receita obriga a consensos, mas enquanto os Republicanos acreditam que o aumento dos impostos vai destruir a economia, os Democratas não cedem nas garantias das pensões e dos cuidados de saúde dos idosos e dos mais pobres. O facto é que os Estados Unidos vivem com uma elevadíssima dívida e com um enorme défice estrutural da ordem dos 9%, um dos mais elevados de entre os chamados países ricos, o que constitui uma preocupação para o mundo. O reeleito presidente Barack Obama tem o desafio de inverter este ciclo, evitar o abismo e dar uma nova esperança à economia mundial.