domingo, 6 de novembro de 2022

Desnorte e populismo de Sacavém à Trofa

Anteontem e ontem o país assistiu pela televisão a situações de desnorte e de puro populismo interpretadas pelo Supremo Magistrado da Nação, que me surpreendem e apoquentam.
A primeira aconteceu em Sacavém na passada sexta-feira. Na sessão de encerramento da Web Summit, lá esteve Marcelo Rebelo de Sousa a dar espectáculo como tanto gosta, ao comportar-se como um bom entertainer. Convidado para ir ao palco por Paddy Cosgrave, o organizador do evento, entrou como se fosse um show star, chamando a atenção do auditório com um aperto de mão despropositado e intimista ao surpreendido Cosgrave, como se fosse um velho amigo dos tempos do liceu e sem a dignidade que a sua função presidencial lhe exige, como mostra a fotografia publicada no Dinheiro Vivo, o suplemento económico do Diário de Notícias. Além disso, decidiu exibir-se perante o auditório, enunciando as orientações estratégicas que competem em exclusivo ao governo e cuja fiscalização deve ser feita pela Assembleia da República.
Poucas horas depois, Marcelo Rebelo de Sousa estava na Trofa para inaugurar o novo edifício dos Paços do Concelho e, aparentemente, usou essa cerimónia para promover o líder do partido a que já presidiu que, antes de tempo, ali estava num lugar de destaque. O seu discurso foi uma invulgar página de populismo, ao dirigir-se à ministra que estava presente em nome do governo, com a ameaça de estar “muito atento” à execução dos fundos europeus e não lhe perdoar uma eventual falha, quando tudo isso está fora das funções presidenciais. Foi um despropósito, um acto de populismo barato e até uma ofensa. A ministra Ana Abrunhosa, que é uma prestigiada académica da Universidade de Coimbra, riu-se. Fez bem. Há certos dichotes que não merecem resposta.
Marcelo Rebelo de Sousa foi muito infeliz, tanto em Sacavém como na Trofa e, como ele próprio disse, “há dias bons e dias maus, dias felizes e dias infelizes. A proporção é dois dias felizes por dez dias infelizes”. Estes foram dois dias muito infelizes para o Supremo Magistrado da Nação.

A COP27 e as alterações climáticas

A 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, vulgarmente conhecida como COP27, tem o seu início hoje em Sharm El Sheikh, no Egipto, para onde convergirão muitos líderes mundiais a fim de tomarem parte na discussão das acções necessárias para combater as alterações climáticas. Entre eles deverá estar o presidente eleito do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, que para tal foi convidado pelo presidente egípcio Abdel Fatah al-Sissi, o que mostra que “o Brasil está de volta”. Estas conferências realizam-se todos os anos para estimular os governos a tomar medidas para limitar o aumento da temperatura global e, em 2015, conseguiu um resultado histórico quando 194 países assinaram o Acordo de Paris, no qual todos os países signatários se comprometeram a limitar o aumento da temperatura global a 1,5ºC. Porém, os resultados têm sido insatisfatórios, a crise climática acentua-se e multiplicam-se os avisos de tragédia um pouco por todo o mundo.
António Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas, tem sido a voz mundial a alertar para a catástrofe que ameaça o nosso planeta e lá estará em Sharm El Sheikh a apelar para que sejam assumidos compromissos e que sejam cumpridos. Voltará a falar-se da redução gradual do uso do carvão, do fim dos desmatamentos como o que se vem verificando na Amazónia, na redução das emissões poluentes de metano e na transição energética, mas também da ajuda dos países mais ricos aos países mais pobres para que se preparem para as mudanças energéticas necessárias. A COP27 decorre até ao dia 18: será que podemos ter esperança em algum resultado ou será mais uma oportunidade perdida?
O jornal financeiro francês La Tribune dedica a primeira página da sua edição de ontem à COP27 e, segundo algumas notícias, o primeiro-ministro de Portugal falará hoje em Sharm El Sheikh.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

A nova e louca corrida às armas

A edição de Novembro do Courrier internacional publica, como sempre, uma selecção de artigos da imprensa mundial sobre os temas mais importantes da actualidade internacional, tendo escolhido nesta edição “a nova e louca corrida às armas”, salientando que a guerra na Ucrânia agudizou tensões e fez disparar a produção nas indústrias militares.
Em sete pequenos artigos a revista procura ajudar os leitores a esclarecerem-se sobre esse tema, tratando dos níveis de encomendas e contratos que estão a ser feitos e dos orçamentos cada vez mais elevados que se destinam à defesa e aos armamentos, bem como da aposta crescente na inovação para encontrar armas mais letais e com menor intervenção humana. Para as indústrias do armamento, a guerra na Ucrânia e a tensão em torno de Taiwan têm dado origem a um período de grande prosperidade e um artigo publicado em Zurique refere que “os negócios correm (explosivamente) bem”, enquanto um outro artigo publicado em Tóquio salienta que “as carteiras de encomendas da Lockheed Martin ou da Raytheon Technologies raramente estiveram tão cheias”.
O negócio está alarmantemente próspero, como se verifica na enorme afluência de compradores que visita as feiras ou salões de armamento, onde são apresentados aviões e tanques, helicópteros e canhões, mísseis e drones, produzidos não só pelos habituais países fabricantes de armamento, mas também pelas emergentes indústrias militares turca, iraniana, israelita, suíça ou brasileira. Como salienta o mencionado artigo publicado em Zurique, “ninguém rejubila com a situação na Ucrânia, mas é forçoso reconhecer que ela é boa para os negócios, ainda que ninguém o diga abertamente”.
Entretanto, poucos falam do cessar-fogo ou do fim da guerra para acabar com “esta catástrofe europeia”, mas muitos afirmam que “a Ucrânia precisa, mais do que nunca, de armas”, ao mesmo tempo que toda a Europa suporta a inflação, o aumento do custo de vida, a escassez energética e as incertezas e as angústias deste tempo.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

A triste despedida de Jair Bolsonaro

Durante quase dois dias, os brasileiros e também os muitos amigos do Brasil, esperaram que Jair Bolsonaro fizesse a tradicional declaração de aceitação dos resultados eleitorais e felicitasse Luiz Inácio Lula da Silva. A generalidade dos líderes mundiais já tinha felicitado o presidente eleito e as expectativas sobre o que Bolsonaro iria dizer eram muito altas, não só pelo seu longo e enigmático silêncio, mas também pelos sinais de contestação que começaram a aparecer na via pública, com os bolsonaristas a bloquear estradas e a pedir um golpe militar. Alguns dos mais importantes apoiantes de Bolsonaro já se tinham afastado e, aparentemente, ele parecia imitar o comportamento desastrado de Donald Trump.
Finalmente, Bolsonaro falou, mas “a montanha pariu um rato”. Falou apenas dois minutos e nove segundos e as suas palavras foram equívocas e pouco claras, não tendo felicitado Lula da Silva pela vitória, nem reconhecido expressamente a sua derrota, ao mesmo tempo que não desautorizou os bloqueios de estradas e deixou no ar a ideia de que se manterá na política brasileira. O seu breve discurso teve diferentes interpretações, pois para uns foi a palavra de um homem derrotado, mas para outros foi a ameaça de um homem que não aceita a derrota.
Ainda é prematuro prever o que vai acontecer nas próximas horas e nos próximos dias. Entre os inúmeros comentadores, uns dizem uma coisa e outros o seu contrário, mas parece que o bolsonarismo, enquanto imitação do comportamento político de Donald Trump, não tem pernas para andar no Brasil. Porém, os tempos que se aproximam serão certamente muito difíceis e, como refere a revista Veja, terão que ser tempos de reconstrução da unidade brasileira. 
Porém, os brasileiros podem confiar no presidente Lula da Silva!

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Lula regressa à presidência do Brasil

As mais disputadas eleições presidenciais da história do Brasil realizaram-se ontem e ganhou Luiz Inácio Lula da Silva com 50,90% dos votos, que recebeu 60,3 milhões de votos e superou os 58,2 milhões de votos recebidos pelo actual presidente Jair Bolsonaro, isto é, com uma margem de pouco mais de dois milhões de votos num universo de mais de 156 milhões de eleitores.
Depois de ter governado o país entre 2003 e 2010, a partir do dia 1 de Janeiro de 2023 Lula da Silva voltará ao Palácio do Planalto para dirigir os destinos do Brasil e, como anuncia hoje o jornal carioca Extra, o Brasil “bota o retrato do Lula outra vez”.
No seu discurso de vitória, Lula disse que “o Brasil está de volta” na defesa do combate às alterações climáticas e na recolocação do Brasil no patamar internacional que lhe é devido, apelou à necessária reconciliação nacional e prometeu declarar o combate à pobreza como a sua principal prioridade.
Um dos seus desafios será o de encontrar formas para atenuar os efeitos da bipolarização que marcou os últimos anos da política brasileira, em que a presidência de Jair Bolsonaro acumulou demasiados erros e muitas polémicas, umas de natureza interna como foi a forma irresponsável como tratou a epidemia de covid-19, mas outros de ordem externa como foi o seu apoio a Donald Trump e o seu crescente isolamento internacional.
Ganhou a Democracia e o Brasil está de parabéns. Há uma onda de esperança na sociedade brasileira, mas também há um elevado grau de insatisfação das hostes bolsonaristas, pelo que o desafio de Lula da Silva será unir e pacificar os brasileiros. Só falta saber o que pensa e diz o derrotado Jair…

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Guterres e a luta contra a crise climática

Não é habitual que as Nações Unidas e o seu secretário-geral ocupem as manchetes dos jornais e, por isso, a edição de ontem do Diario de Avisos, o periódico de Tenerife, é mesmo um singular acontecimento que merece ser distinguido.
O jornal publica uma fotografia do secretário-geral António Guterres, destacando a sua persistente luta contra as alterações climáticas e a afirmação de que “la crisis climática nos está matando”, com base na informação de que as mortes por calor em maiores de 65 anos aumentaram cerca de 70% nos últimos cinco anos e que nos esperam mais incêndios, mais efeitos da seca e mais vítimas. A crise climática é um assunto muito urgente para merecer a atenção da humanidade, mas as respostas políticas têm sido muito tímidas e insuficientes, sobretudo por parte das grandes potências industrializadas.
Entretanto, os relatórios das Nações Unidas, da Organização Mundial de Saúde e de muitas organizações não-governamentais continuam a mostrar os efeitos do aquecimento global e o aumento das emissões nocivas de carbono, pelo que António Guterres declarou que isso prova que o mundo está num caminho rápido para o desastre, que pode tornar o nosso planeta inabitável, ao mesmo tempo que acrescenta que não se trata de ficção ou exagero. Porém, a comunidade científica vem afirmando que ainda é possível reduzir para metade as emissões poluentes até 2030, ao mesmo tempo que pressiona os governos mundiais a tomarem medidas para reduzir as emissões, apontando sete eixos temáticos de intervenção: colapso de ecossistemas, extinção das espécies, aumento do nível e aquecimento dos oceanos, seca, fome, doenças e calor extremo.
Como avisa António Guterres, o mundo está num caminho rápido para um desastre que pode tornar o nosso planeta inabitável.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

O presidente é um incontinente verbal

Expresso, 21 de Outubro de 2022
O cartoonista António, nome artístico de António Moreira Antunes é reconhecido como um talentoso caricaturista político português, cujo nome artístico é apenas António e que tem uma extensa obra publicada regularmente na nossa imprensa. Porém, em 2012 foi convidado para desenhar as caricaturas de mais de cinquenta personalidades da vida portuguesa destinadas à decoração da estação do Metropolitano de Lisboa no Aeroporto e esse trabalho é, porventura, a sua obra mais apreciada.
Na última edição do semanário Expresso foi publicado um cartoon com a sua assinatura e que se intitula “O incontinente”. Nesse cartoon, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa vomita letras e palavras, mostrando-se um incontinente que tudo comenta e a qualquer hora, tanto em Portugal como no estrangeiro. Comenta a política e o futebol, a meteorologia e os festivais, a economia e os casos judiciais, os acidentes e a política internacional. Tanta opinião cansa. Fala do que não devia. Viaja demais e nunca se esquece de levar consigo microfones e cornetas. Com tantas aparições, quase sempre diz vulgaridades ou banalidades, como “ninguém está acima da lei”, ou comenta taxas de juro, estratégia militar, incêndios florestais e orçamento do Estado, quando este ainda está em discussão no lugar próprio que é o Parlamento. É um exagero. É um protagonismo desproporcionado e até ilegítimo. Os seus serviços anunciam os locais e as horas onde Sua Excelência aparece e, ao ver microfones ou câmaras, não resiste. Se vê telemóveis aproveita para se expor ou para tirar as suas próprias selfies. Antigamente, era comentador num só canal televisivo, mas agora comenta em todos os canais, jornais e redes sociais. É um caso extremo de incontinência comunicacional como escreveu Eduardo Cintra Torres, ou como caricaturou António. Sem dúvida.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Carlos III e Rishi Sunak: que futuro?

No passado dia 20 de Outubro a primeira-ministra britânica Liz Truss demitiu-se, cerca de 45 dias depois de ter tomado posse, reconhecendo não poder cumprir o mandato para que tinha sido eleita pelo Partido Conservador. Cinco dias depois, porque temia a realização de eleições antecipadas, o mesmo partido escolheu Rishi Sunak, o ex-ministro das Finanças do governo de Boris Johnson, para ocupar o mesmo cargo, tendo sido largamente distribuída uma fotografia em que o novo rei Carlos III o recebia no Palácio de Buckingham para cumprir a tradição e formalizar-lhe o convite para constituir governo. A escolha de Rishi Sunak é uma novidade da política britânica por causa da sua idade, do seu inexpressivo passado político e da sua origem asiática. Não lhe faltam adversários políticos, não só no Partido Trabalhista, mas também no seu próprio partido, o que o levou a dizer aos seus correligionários a frase “unite or die”, que mostra como os Conservadores estão divididos. Por tudo isso e mais a situação económica britânica, as expectativas não são muito altas e há muita gente a pedir eleições, mas o rei cumpriu o seu dever, sem se saber qual o conteúdo da conversa havida entre Carlos III e Rishi Sunak. O popular tablóide Daily Mail publica uma fotografia do encontro e escolheu como título “Leave it to me, Your Majesty!”, parecendo revelar as grandes preocupações do novo Rei quanto ao futuro do governo Sunak, que até podem ser o prenúncio de outras preocupações bem maiores.
Entretanto, setenta e cinco anos depois da independência da Índia, do fundo dos seus túmulos, tanto o Mahatma Gandhi como Jawaharlal Nehru devem ter sorrido.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Que estabilidade no governo de Itália?

O jornal diário berlinense Die Tageszeitung, conhecido como taz, destaca na sua edição de ontem a situação política na Itália, ilustrando-a com uma imagem da Torre inclinada de Pisa, a famosa construção iniciada em 1173 sobre um subsolo instável que, logo à nascença, sofreu uma inclinação de cerca de cinco graus que persistiu até à actualidade.
Essa imagem remete os leitores para a situação de menor estabilidade do governo italiano chefiado por Giorgia Meloni, que tomou posse no sábado. Meloni tem 45 anos de idade e foi, desde a sua juventude, uma fervorosa apoiante do Movimento Social Italiano, um partido neofascista inspirado no legado do ditador Benito Mussolini e no seu lema “Deus, Pátria e Família”.
Em 2012, Giorgia Meloni foi uma das fundadoras do Fratelli d’Italia, um novo partido da extrema-direita italiana e, em 2022, venceu as eleições de 25 de Setembro (26%), em coligação com a Lega Nord de Matteo Salvini (9%) e a Forza Italia de Silvio Berlusconi (8%). A Europa não conhecia uma situação destas desde 1945 e está alarmada. As declarações de Meloni e dos seus ministros têm sido muito prudentes para não assustarem os seus parceiros europeus, nem a Europa de onde chegam os fundos comunitários, nem os mercados financeiros que controlam a elevada dívida italiana e os respectivos juros. A palavra de ordem parece ser estabilidade e, num forte sinal dessa estabilidade, foi escolhido Antonio Tajani para ministro dos Negócios Estrangeiros, um homem que antes presidiu ao Parlamento Europeu.  A dúvida está em saber como vai este governo italiano conciliar interesses tão diversos e até opostos, incluindo eurocépticos, separatistas, amigos de Putin, neofascistas, nacionalistas e outros.
A imagem da Torre de Pisa remete-nos para a instabilidade, mas o facto é que aquela torre resiste inclinada há vários séculos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Xi Jinping, o líder indiscutível da China

O 20º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) terminou ontem e aprovou uma emenda à sua carta magna que eleva o estatuto do seu secretário-geral, pelo que Xi Jinping foi reeleito para um terceiro mandato como “líder indiscutível da China”. Nunca, desde o falecimento de Mao Tse-Tung em 1976, um líder chinês conquistara tanto poder como aquele que foi conferido a Xi Jinping. A imprensa mundial deu notícia desse acontecimento e publicou a fotografia do todo-poderoso líder chinês, assim acontecendo com a edição de hoje do The Wall Street Journal.
O mundo fica agora na expectativa do que vai acontecer no futuro e vai lembrar-se do discurso de Xi Jinping na abertura do Congresso, em que reafirmou que Taiwan faz parte da China e disse que essa questão “é um assunto do povo chinês e deve ser resolvido apenas pelo povo chinês”, numa clara alusão às posições americanas que assumem a defesa e a autonomia de Taiwan, mas também a sua afirmação de que “não renunciaremos nunca ao uso da força e reservamos a possibilidade de adoptar todas as medidas necessárias”.
Os dados estão lançados há muito tempo. A China insiste na reunificação ou no regresso de Taiwan à mãe-pátria, enquanto as mútuas provocações ou as tensões diplomáticas que acontecem, como a visita de Nancy Pelosi a Taiwan ou os exercícios militares no estreito de Taiwan, vão alimentando esta importante questão que Xi Jinping vai quere resolver durante o seu mandato.

R.I.P. Adriano Moreira

O Professor Adriano Moreira faleceu ontem com cem anos de idade, que completara no passado dia 6 de Setembro. Nesse dia, prestei-lhe a minha homenagem neste meu espaço comunicacional e elogiei-lhe a sua sabedoria, a sua inteligência, a sua sensatez e a sua devoção à causa pública.
Eu tinha por ele uma estima reverencial e uma grande admiração pela sua agradável postura social, pelo que dizia e pela forma como dizia, que se traduzia numa permanente aprendizagem para quem o escutava. Eu ouvi-o muitas vezes e li muito do que escreveu. Cruzei-me com ele pela primeira vez há 54 anos quando foi meu professor no ISCSP e, mais tarde, reencontrei-o no ISNG da Marinha Portuguesa, onde ele ensinava Ciência Política e eu tratava das aulas de Economia e Finanças.
Os anos passaram e em 1998 encontrei-o como curador da Fundação Oriente, a instituição cultural a que estive ligado durante alguns anos, onde por diversas vezes conversamos, sobretudo a respeito da Marinha a que ambos estávamos ligados por razões sentimentais.
Em Fevereiro de 2017 fui convidado pelo Instituto D. João de Castro, a que ele então presidia, para falar sobre “Goa contemporânea”. Recordo-me do evidente interesse com que o Professor Adriano Moreira acompanhou a minha exposição e das elogiosas palavras que no fim me dirigiu que, embora excessivas porque foram ditadas pela amizade, tanto me emocionaram.
Hoje, a voz da sociedade portuguesa é unânime na homenagem a este homem que foi uma personalidade marcante da nossa vida política e cultural durante tantos anos.

domingo, 23 de outubro de 2022

Venezuela y Colombia se abrazan

A desintegração do império espanhol das Américas ou Grã-Colômbia foi um processo liderado por Simón Bolivar e que, depois de muitas lutas, deu origem em 1831 à formação de três estados, respectivamente a Venezuela, o Equador e a Nova Granada, que em 1886 adoptou o nome de Colômbia.
A fronteira entre a Venezuela e a Colômbia tem 2.219 quilómetros de extensão e a definição das fronteiras sempre teve alguma controvérsia, pelo que, desde o início do século XX, as relações entre os dois países têm tido altos e baixos e, por vezes, têm sido conflituosas, apesar dos laços históricos, geográficos e culturais entre os dois países.
Já no século XXI, o presidente colombiano Álvaro Uribe acusou a Venezuela e o seu presidente Hugo Chávez de darem guarida aos guerrilheiros colombianos das FARC. Os dois países cortaram relações diplomáticas, trocaram ameaças e “contaram espingardas”, mas com o presidente Juan Manuel Santos a tensão serenou. Depois com o presidente Iván Duque, a partir de 2019 o governo colombiano voltou a cortar relações diplomáticas e a criar tensões destinadas a afastar do poder o presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Com a recente eleição de Gustavo Petro, que assumiu a presidência da Colômbia no passado domingo, a possível normalização das relações entre os dois países gerou optimismo e esperança dos dois lados da fronteira e o jornal venezuelano Últimas Notícias destaca que “Venezuela y Colombia se abrazan”. Provavelmente, os 50 milhões de colombianos e os 30 milhões de venezuelanos já festejam esta notícia.

sábado, 22 de outubro de 2022

O governo de Itália e um incerto futuro

Como consequência das eleições realizadas no dia 25 de Setembro, tomou hoje posse o novo governo italiano chefiado por Giorgia Meloni, que substitui o governo de unidade nacional que foi liderado por Mario Draghi. O novo governo resulta de uma coligação de direita em que se uniram os Fratelli de Italia de Giorgia Meloni, a Forza Italia de Silvio Berlusconi e a Liga Norte de Matteo Salvini, sendo o mais direitista governo italiano desde os tempos de Benito Mussolini e da 2ª Guerra Mundial. Os 24 ministérios serão distribuídos pelos Fratelli de Italia (8), pela Forza Italia (6) e pela Liga Norte (4), havendo seis ministérios que serão ocupados por técnicos. 
A Itália e a Europa interrogam-se sobre o que vai acontecer com esta coligação de uma direita pós-fascista e extremista, com uma direita liberal populista personalizada em Berlusconi e uma extrema-direita regionalista, separatista e anti-europeia representada por Salvini. Embora estes partidos tenham feito grandes ziguezagues ideológicos nos últimos tempos por táctica eleitoral, os seus princípios são nacionalistas, populistas, eurocépticos, anti-emigrantes e anti-federais. A Europa está preocupada.
Este será o 68º governo italiano desde 1946 e pela primeira vez será presidido por uma mulher, mas enfrenta enormes desafios, incluindo uma recessão iminente, uma inflação crescente, o aumento das contas da energia e, sobretudo, a guerra da Ucrânia sobre a qual não parece haver uma posição unânime no governo. 
A Itália que é a terceira maior economia da Zona Euro, pode inaugurar uma nova era de governos de extrema-direita na União Europeia, mas vai certamente introduzir muita incerteza na vida política europeia num futuro próximo. O jornal romano La Repubblica destaca hoje o título Meloni, patria e famiglia, que nos remete para ideologias de tipo fascizante.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

A crise britânica e o sonho de Liz Truss

Os jornais de quase todo o mundo publicaram a fotografia de Liz Truss, a primeira-ministra britânica que ocupou o nº 10 de Downing Street apenas por 45 dias. Esta insólita demissão é o resultado de várias trapalhadas cometidas por alguns dos seus ministros, da fragmentação do seu partido e da contestação resultante da crise económica e social por que passa o Reino Unido, mas também da forma imprudente e insensata como ela conduziu a sua governação, pois tendo sido escolhida por se apresentar como a herdeira política de Margareth Thatcher ou da Dama de ferro, veio a comportar-se como uma Dama de barro, conforme hoje se lhe refere o diário espanhol ABC.
Este acontecimento político teve repercussão mundial e foi mais um caso a afectar o prestígio internacional do Reino Unido e a evidenciar o desnorte da sua governação, sobretudo desde que, no dia 31 de Janeiro de 2020, se consumou o Brexit. Muitos britânicos ainda não compreenderam a mudança e na Escócia, as repartições públicas, continuam a hastear a bandeira da União Europeia.
A persistente instabilidade política no Reino Unido já levou a oposição trabalhista a pedir eleições antecipadas. Talvez seja a solução mais apropriada, pois a actual situação de incerteza política e de crise social pode acelerar o processo de fragmentação do Reino Unido, sobretudo pelos fortes sentimentos separatistas da Escócia e da Irlanda do Norte.
O sonho de Liz Truss se tornar uma Margareth Thatcher do século XXI gorou-se, mas é tão grande a diversidade de ideias e de interesses dentro do Partido Conservador, que já ninguém acredita que a estabilidade possa surgir sem que haja eleições antecipadas.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Nem no futebol o tempo volta para trás

O futebolista francês Karim Benzema, que integra a equipa do Real Madrid, venceu o troféu Bola de Ouro de 2022, anualmente atribuído pela revista France-Football, enquanto o senegalês Sadio Mané que joga no Bayern de Munique e o belga Kevin De Bruyne, que actua no Manchester City, ficaram nos lugares imediatos. O jornal L’Équipe noticia esse acontecimento com a frase Le Ballon à la Maison, pois desde 1998 que nenhum francês ganhava aquele troféu que Zinedine Zidane, Jean-Pierre Papin e Michel Platini já tinham ganho, mas que há 34 anos fugia aos franceses.
Este ano o melhor português foi Rafael Leão que joga no AC Milan, que ficou em 14º lugar, enquanto Cristiano Ronaldo ficou em 20º lugar. Na classificação da Bola de Ouro de 2022, ainda obtiveram posições de grande destaque os futebolistas Bernardo Silva (22º) e João Cancelo (25º), ambos jogadores do Manchester City.
Depois de 17 anos em que se posicionou sempre como o melhor futebolista português e em que ganhou o troféu cinco vezes (2008, 2013, 2014, 2016 e 2017), em que ficou sete vezes em segundo lugar (2007, 2009, 2011, 2012, 2015 e 2018) e em que obteve um terceiro lugar (2019), Cristiano Ronaldo obteve em 2022 a mais fraca posição de sempre, o que mostra que o tempo não perdoa, ou que o tempo não volta para trás. Em 23 anos de actividade futebolística, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro foi nomeado 18 vezes para a escolha do Ballon d’Or, o que é um feito desportivo notável, mas os seus 37 anos de idade e de talento não perdoam.
Parabéns a Karim Benzema e os nossos votos para que os jogadores portugueses possam ascender a posições de relevo no futebol mundial, como as de Cristiano Ronaldo, mas também de Luís Figo (2000) e de Eusébio (1965), que também ganharam a Bola de Ouro.