terça-feira, 9 de outubro de 2018

Montserrat Caballé e a união pela cultura

O último adeus a Montserrat Caballé deu origem a uma homenagem nacional e tornou-se num acontecimento político relevante, a mostrar que a democracia funciona até na Catalunha, apesar da existência de alguns dirigentes radicais catalães.
A morte da soprano espanhola de 85 anos de idade acontecida no passado sábado num hospital de Barcelona, a sua terra natal, consternou toda a Espanha porque ela era um dos símbolos da cultura espanhola contemporânea, com um currículo artístico singular em que fez mais de quatro mil apresentações em todo o mundo, entre óperas e recitais.
Num tempo em que as tensões têm subido de tom na Catalunha e pouco tempo depois do presidente da Generalitat ter incitado o povo a assaltar o Parlamento e de ter feito um ultimato ao governo espanhol, as cerimónias fúnebres juntaram alguns dos principais protagonistas do processo, a começar pela Casa Real representada pela Rainha Emérita Sofia de Espanha, mas também o primeiro ministro espanhol Pedro Sanchez, o presidente da Generalitat da Catalunha Quim Torra, o ministro da Cultura espanhol, o líder do Partido Popular e a presidente do Município de Barcelona. Gobierno e Govern unidos por Montserrat Caballé. A união pela cultura.
Todos os jornais publicaram a fotografia da cerimónia fúnebre. Embora todos tivessem reparado que Sanchez e Torra se limitaram a um mero cumprimento protocolar e que não trocaram palavra, a sua simples presença nesta cerimónia ao lado de apoiantes e de adversários da causa catalã, mostra que o diálogo é possível e que só esse caminho pode resolver o problema. Certamente que Quim Torra, tal como Carles Puigdemont, aprenderão que as suas legítimas aspirações independentistas não podem ser satisfeitas através de outra via que não seja a do diálogo.

Brasil escolherá Presidente na 2ª volta

O Brasil está em brasa com os resultados das eleições presidenciais, mas sobretudo está dividido e preocupado, porque os resultados da 1ª volta determinaram que Jair Bolsonaro com 46% dos votos e Fernando Haddad com 29% disputem a 2ª volta. Significa que as previsões apontadas pelas sondagens foram acertadas e, portanto, não houve grandes surpresas, pois confirmou-se a polarização da sociedade brasileira, entre a direita e a esquerda políticas ou entre a segurança a que uns aspiram e a justiça social que outros desejam. Nem Bolsonaro nem Haddad parecem ter o carisma que lhes permita mobilizar emocionalmente as multidões e, portanto, o voto dos brasileiros tenderá a seguir a razão e não a emoção. Não é fácil perceber à distância as razões que irão pesar nas escolhas dos eleitores brasileiros na 2ª volta que se realizará no dia 28 de Outubro. As sondagens indicam que Bolsonaro poderá vencer, mas as sondagens enganam-se muitas vezes. Agora que a campanha eleitoral se concentra nos dois candidatos mais votados, vai acontecer uma reflexão mais apurada dos eleitores e uma natural arrumação dos votos dos candidatos derrotados na 1ª volta e daqueles que nem sequer votaram. Os dois candidatos que se situam nas franjas eleitorais extremas da direita e da esquerda vão agora moderar o seu discurso para atrair os 25% de votos obtidos pelos candidatos moderados e vão procurar que os que não votaram não deixem de ir às urnas no dia 28. São mais de 20 milhões de votos que podem alterar todas as previsões.
Uma eleição destas não é um exercício matemático simples e, pelo contrário, é uma operação de sociologia política e de manipulação mediática muito complexa. Por isso, nem Bolsonaro tem a vitória garantida, nem Haddad já está condenado. Só que nem um, nem o outro candidato, afastam as preocupações dos brasileiros quanto ao seu futuro.

sábado, 6 de outubro de 2018

Brasil: eleições e muitas preocupações

A primeira volta das eleições presidenciais brasileiras realiza-se amanhã e os 147,3 milhões de brasileiros recenseados vão escolher o futuro Presidente da República Federativa do Brasil, mas se nenhum dos 13 candidatos obtiver mais de 50 por cento dos votos válidos, haverá uma segunda volta no dia 28 de Outubro em que participarão apenas os dois candidatos mais votados na primeira volta.
O Brasil é o maior país da América Latina, é o quinto maior país do mundo em território e é o sexto em termos demográficos. Mesmo que alguns amigos brasileiros não gostem de ouvir as verdades, o grande Brasil que tem mais de 15 mil quilómetros de fronteira terrestre, é obra de bandeirantes, diplomatas, missionários e militares portugueses, que souberam expandir as suas terras até à cordilheira dos Andes e mantê-las unidas e à margem dos interesses espanhóis.
Amanhã os brasileiros vão votar e, segundo as sondagens, o candidato Jair Bolsonaro terá 39% dos votos válidos enquanto o candidato Fernando Haddad ficará com 25%. A ser assim, esses mesmos candidatos disputarão a 2ª volta no dia 28 de Outubro. A escolha é difícil para o eleitorado brasileiro porque de um lado está o discurso da extrema-direita e de um certo apelo à ditadura, do racismo e da misoginia, com a promessa de mais segurança, enquanto do outro lado está a continuidade das políticas do PT, a corrupção e a insegurança nas ruas, com a promessa de mais justiça social. Poucos parecem apostar na democracia e muitos temem que ela seja suspensa. A leitura da imprensa europeia, como se vê por exemplo no Libération, mostra a grande preocupação por uma eventual vitória de Bolsonaro que, segundo se diz por cá, é uma cópia de Donald Trump, embora muito pior, mas o facto é que  está a seduzir o Brasil com o seu discurso radical e a garantia de segurança que vem oferecendo. Amanhã saberemos o que escolheram os brasileiros.

Há corvos e abutres a cercar o Vaticano

Para além dos aspectos religiosos que são um problema do foro íntimo de cada ser humano e que, portanto, não são aqui tratados, a Igreja Católica Apostólica Romana é também uma organização milenar e planetária cuja autoridade suprema é o Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro. A comunidade católica conta com mais de mil milhões de crentes em todo o mundo, que representam cerca de um sexto da população mundial e daí a sua importância.
Ao longo do processo histórico a Igreja Católica tem dado um enorme contributo para o progresso da Humanidade através das suas missões, das suas escolas e dos seus padres e missionários, mas sem nunca ter estado isenta de crises e de cismas. Porém, nos tempos modernos, a Igreja tem procurado adaptar-se aos novos tempos, para uns de forma muito tímida e para outros de forma muito avançada. Aí começam os problemas em que  se confrontam as correntes progressistas e as correntes ultra-conservadoras da Igreja, em que as questões do património, da gestão financeira ou do comportamento do clero se transformam em grandes polémicas.
A Igreja Católica, tal como a cidade-estado do Vaticano, são governadas desde o dia 13 de Março de 2013, por Jorge Mario Bergoglio, o bispo argentino que, após a renúncia do Papa Bento XVI, foi escolhido pelos cardeais reunidos em conclave para o substituir e que adoptou o nome de Papa Francisco. Tem sido sobre esse homem, que procura gerir com equilíbrio as diferentes sensibilidades e até as tradições culturais, teológicas e litúrgicas da Igreja Católica, que pesa o desafio de procurar restituir a confiança nos católicos feridos pelos escândalos do clero e de levar à aceitação de uma Igreja missionária, mais próxima dos pobres e dos mais necessitados.
O Courrier International trata hoje deste assunto e a sua capa é bem sugestiva e fala por si.

O novo mundo dos smartphones

Uma das grandes transformações sociais dos últimos tempos está a ser a generalização dos smartphones, que está a dar origem ao aparecimento de um novo tipo de criatura que não vê, não escuta e não lê, mas que se limita a usar aquela pequena maquineta. Huawei, Samsung, Apple, Wiko e Nokia dominam o mercado e cada um destes nomes tem os seus seguidores pois que, tal como acontece com o automóvel e com os produtos de luxo, a marca e o modelo do smartphone também conferem status entre os jovens e os adolescentes
O smartphone entrou no quotidiano de quem o tem e de quem não o tem. Entramos no transporte público e toda a gente o devora, indiferente ao que o rodeia, uns para verem as notícias, outros para ouvirem música ou para fazerem jogos e, outros, ainda, para falarem pelo Skype ou pelo WhatsApp. O smartphone selecciona percursos, escolhe as estradas, gere as contas bancárias, escolhe restaurantes, leva-nos às lojas e reserva-nos os bilhetes. Faz quase tudo. Estamos perante uma smartmania que já se transformou num verdadeiro choque civilizacional, em que se está a perder a conversação em família que era a base da educação e, entre os amigos, que era o fundamento da sociabilidade e da solidariedade. Estamos, portanto, a entrar num novo mundo habitado por criaturas que, embora derivem do homo sapiens já não são aquilo que tinham sido os seus avós.
A revista alemã Der Spiegel foi estudar este assunto e com o título “O meu filho, o celular dele eu”, procurou encontrar caminhos para lidar com a geração-smartphone. O smartphone tornou-se uma espécie de segundo cérebro para muitos adolescentes e eles não conseguem imaginar a sua vida sem eles e sem a necessária cobertura de rede da internet. O estudo começou por verificar que os jovens levam em média o smartphone na mão 98 vezes por dia e que o chegam a utilizar 90 vezes. É realmente um mundo novo este dos smartphones.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Theresa May e o marketing político

Theresa May, a líder do Partido Conservador e primeira-ministra da Grã-Bretanha, falou ontem aos seus correlegionários em Birmingham, durante o congresso do seu partido, poucos minutos depois do deputado James Duddridge lhe ter apresentado a demissão do governo e de ter afirmado que ela não é pessoa certa para liderar o partido e o país.
Muitos observadores consideram que a atitude de Duddridge está em linha com as posições de Boris Johnson, que se demitiu do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros e se prepara para se apresentar como alternativa à liderança dos conservadores.
Neste quadro de críticas e numa altura em que o ambiente é pesado e incerto no Partido Conservador e na Grã-Bretanha pela falta de acordo com Bruxelas relativamente ao Brexit, os congressistas estavam muito ansiosos para ouvir Theresa May num momento particularmente difícil. Porém, por vezes o marketing político pode fazer milagres e foi isso que aconteceu:
Theresa May subiu ao palco ao som de “Dancing Queen”, dos Abba, não deixando de exibir boa disposição e de ensaiar alguns passos de dança. Mesmo antes de falar, já tinha conquistado a plateia que a aplaudiu com entusiasmo. Os congressistas gostaram e os passos de dança de Theresa May encheram as redes sociais, enquanto toda a imprensa britânica os reproduziu em primeira página.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O conflito catalão renasceu e está vivo

Os partidos e as organizações independentistas catalãs organizaram ontem em Barcelona uma manifestação para comemorar o primeiro aniversário do referendo de 1 de Outubro de 2017 (1-O). Esse referendo de 2017 tinha sido convocado pelo Governo Regional da Catalunha (Generalitat de Catalunya), mas tinha sido proibido pelo Tribunal Constitucional e pelo Governo de Espanha então chefiado por Mariano Rajoy, mas os independentistas compareceram nas urnas. Dos mais de 5 milhões de eleitores recenceados votaram 43% e, destes, houve 92% que responderam “sim” à pergunta "Quer que a Catalunha seja um estado independente em forma de república?”. Significa que, de acordo com os dados anunciados mas não verificados, houve 38% do eleitorado catalão que votou pela independência, mas nunca ninguém certificou estes resultados em que cada um votou as vezes que quis e nos locais que quis. Foi uma farsa em que ninguém acreditou. Porém, no dia 10 de Outubro, o então presidente da Generalitat Carles Puigdemont, declarou a independência catalã de forma unilateral, mas pediu que o efeito dessa declaração fosse suspenso durante algumas semanas para que se abrisse um diálogo. Entretanto, Puigdemont retitou-se para Bruxelas, a Catalunha serenou e recuperou a sua autonomia que lhe havia sido retirada por acção do artigo 155 da Constituição Espanhola.
Ontem os CDR (Comités de Defesa da Revolução), que foram criados em 2017 para defender os resultados de um referendo sem qualquer valor jurídico e sem reconhecimento internacional, com o apoio expresso de Quim Torra, o actual presidente da Generalitat, tentaram assaltar o Parlamento Catalão, como se estivessem em 1917 em frente do Palácio de Inverno em Moscovo, ou em 1989 em frente do Palácio de Ceausescu em Bucareste. A polícia catalã, os Mossos de Esquadra, impediram essa tentativa de invasão, mas os acontecimentos de ontem em Barcelona, que a imprensa relata e a televisão mostra, revelam que o conflito catalão vai continuar e que Quim Torra pode juntar-se brevemente a Carles Puigdemont ou a Oriol Junqueras, pelo seu expresso incitamento à desordem pública e à violência.

domingo, 30 de setembro de 2018

R.I.P. Alves Barbosa

Faleceu ontem no Hospital Distrital da Figueira da Foz, com 86 anos de idade, o antigo ciclista Alves Barbosa (1931-2018), que foi o primeiro atleta a vencer a Volta a Portugal por três vezes, em 1951, 1956 e 1958.
Tinha 19 anos quando venceu pela primeira vez essa prova em que vestiu a camisola amarela na primeira etapa e a manteve até ao fim. Tornou-se um ídolo do desporto português e gozou de uma invulgar popularidade, quando ainda não havia a televisão em Portugal.
No ano de 1956 o ciclista que correu sempre com a camisola do modesto Sangalhos Desportos Clube, participou e obteve o 10º lugar na Volta à França. Num tempo em que o desporto português não tinha qualquer projecção internacional, com excepção de uma modalidade periférica que era, e ainda é, o hóquei em patins, ou de alguns bons resultados no hipismo e na vela olímpica, a classificação conseguida por Alves Barbosa foi um acontecimento nacional.
Alves Barbosa, de quem fui grande admirador na minha infância, ficou sempre ligado ao ciclismo como atleta, treinador e dirigente, tendo sido uma uma das maiores figuras da história do ciclismo português.

sábado, 29 de setembro de 2018

Angela Merkel quase a pendurar o casaco

A chanceler Angela Merkel vai no seu quarto mandato e, como o primeiro se iniciou em 2005, significa que está há 13 anos à frente do governo alemão. Como nunca teve uma maioria absoluta, a chanceler Merkel tem governado sempre com o apoio de coligações e tem tido a habilidade de as formar e manter, daí resultando uma grande estabilidade política para a Alemanha. Porém, o tema dos refugiados tem-lhe provocado muitas críticas e alguma impopularidade, não só no interior da sua coligação como revelam as sondagens, mas também a nível europeu, sobretudo em países como a Itália, a Áustria, a Hungria, a República Checa, a Polónia e a Eslováquia.
Apesar do apoio de Emmanuel Macron, que também está a passar por uma baixa de popularidade, ou de Pedro Sanchez, que ainda não se consolidou como primeiro-ministro de Espanha, o facto é que Angela Merkel perdeu o fulgor político de outros tempos e tem poucas aparições públicas. Algumas vezes, ela e o seu ministro Wolfgang Schäuble, pareceram liderar e dominar a União Europeia, mas esses tempos já são do passado. Hoje, muitos alemães mostram insatisfação e já consideram que ela esteve demasiado tempo no poder. Na sua edição de hoje, a revista Der Spiegel mostra na capa um dos celebérrimos casacos de Angela Merkel pendurado, numa clara insinuação de que deve abandonar o poder ou, como se diz em gíria, arrumar as botas.
Quando isso acontecer, a Europa vai certamente passar por mais um valente sobressalto.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Descobertas da arqueologia subaquática

O semanário Expresso revelou na sua última edição que tinham sido encontrados na barra do Tejo e próximo da Torre do Bugio, os restos de uma nau da Carreira da Índia, provavelmente de finais do século XVI ou do início do século XVII. A importância arqueológica do achado justificou que a notícia tivesse sido manchete do semanário.
O achado foi feito no passado dia 3 de Setembro por uma equipa de arqueólogos subaquáticos da Câmara Municipal de Cascais, no âmbito dos trabalhos do Projeto Municipal da Carta Arqueológica Subaquática do Litoral de Cascais (ProCASC) e, este caso, demonstra como as autoridades locais podem ser importantes para a detecção, identificação e preservação do nosso património histórico e cultural, sem estarem à espera da acção do Estado central e da sua pesada movimentação.
Do que já se apurou, os restos do navio estão espalhados por uma área de cem metros de comprimento por cinquenta de largura em doze metros de profundidade e constam de nove canhões em bronze com o escudo nacional ou com a esfera armilar, fragmentos de pratos de porcelana chinesa da época Wanli, grãos de pimenta e partes do casco.
O anúncio público deste importante achado também serviu para elucidar a opinião pública quanto à forma de tratar estes achados.
Refira-se que se admite a ocorrência de cerca de 10 mil naufrágios na costa portuguesa desde o século XVI e que a Câmara Municipal de Cascais já localizou 133 sítios arqueológicos que remontam à época romana, bem como despojos de navios dos períodos moderno e contemporâneo, num trabalho que já foi reconhecido pela Unesco.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Valls e uma nova ideia para Barcelona

As eleições autárquicas em Espanha vão ser realizadas no dia 26 de Maio de 2019, isto é, daqui a oito meses, por acaso coincidindo com as eleições para o Parlamento Europeu. Ainda falta muito tempo, mas no caso de Barcelona, já apareceu um candidato de peso, bem à medida da importância da autarquia e, quem sabe, se não será a chave para a resolução do problema catalão. Trata-se de Manuel Valls, o ex-primeiro ministro francês que anunciou a sua candidatura como candidato independente e afirmou que “quiero ser alcalde de una nueva Barcelona. Queiro ser alcalde de todos, como resultado de un esfuerzo colectivo para mejorar la ciudad”.
Se vier a ser eleito, este cidadão natural de Barcelona substituirá Ada Colau, a actual alcaldessa de Barcelona, tornando-se um caso único de um indivíduo que tendo sido primeiro-ministro de um país, ascende ao governo de uma grande cidade de outro país, ou seja, Manuel Valls tende a ser um pioneiro de uma nacionalidade europeia que, de facto, ainda não existe. Mais do que ser francês, espanhol ou catalão, a matriz identitária de Manuel Valls é europeia, até porque a dupla e a tripla nacionalidade são cada vez mais comuns numa Europa unida e sem nacionalismos serôdios.
Porém, o que parece mais significativo é o facto de, com a sua experiência e o seu prestígio, Manuel Valls poder vir a ser um árbitro no conflito catalão, ser capaz de juntar as partes divididas e tornar-se o agente mobilizador que faltava para encontrar uma solução agregadora e de progresso para a Catalunha. A imprensa espanhola parece ter gostado deste anúncio e o El País trouxe-o para a sua primeira página.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Bolsonaro ameaça a América Latina

A revista britânica The Economist olhou para o Brasil e escolheu Jair Bolsonaro para tema de capa da sua edição desta semana, definindo-o como "a última ameaça latino-americana" e classificando a sua eventual vitória nas eleições de 7 de Outubro como "um desastre".
O candidato do Partido Social Liberal representa a extrema-direita brasileira e lidera as sondagens presidenciais, afirmando-se um admirador do ditador Augusto Pinochet e sendo comparado a Donald Trump e à sua  insensatez política e social que tanto ameaça a paz no mundo. É uma verdadeira ameaça para o Brasil e para a América Latina.
Jair Bolsonaro é mesmo um perigo, como mostra a sua longa carreira política, mas o seu currículo está cheio de afirmações controversas, que vão desde a defesa da tortura e da ditadura militar, até à esterilização dos pobres. A revista realça os anos de convulsão por que o Brasil tem passado, com os seus problemas endémicos de corrupção, a enorme violência que grassa no país e uma recessão económica que afecta o emprego, que reduz o rendimento e que aumenta a pobreza.
Na aritmética eleitoral Bolsonaro deverá vencer a 1ª volta das eleições, mas terá que disputar uma 2ª volta no dia 28 de Outubro com Fernando Haddad, Ciro Gomes ou Geraldo Alckmin. O que se espera é que os brasileiros saibam rejeitar os reais perigos do bolsonarismo e das suas orientações radicais e escolham um candidato democrático e com um projecto de progresso para o Brasil.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A paz na Coreia 65 anos depois da guerra?

O Presidente Moon Jae-in da Coreia do Sul viajou de Seul para Pyongyang, onde foi recebido pelo Presidente Kim Jong-un da Coreia do Norte. Esta visita é um dos mais extraordinários acontecimentos da política internacional nos últimos tempos, porque em termos políticos e jurídicos “pode acabar com a guerra que nunca acabou”, como refere a edição de hoje do The Wall Street Journal.
A guerra da Coreia aconteceu entre 1950 e 1953 devido à rivalidade entre americanos e soviéticos que pretendiam dominar a península da Coreia e deram origem a uma guerra entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, em que os aliados de ambos os lados quase reeditavam a 2ª Guerra Mundial, mas então com alto risco de uma guerra nuclear. Morreram cerca de 4 milhões de coreanos e, por acção das Nações Unidas, no dia 27 de Julho de 1953 foi assinado um armistício que assegurou a cessação das hostilidades “até que uma solução pacífica final seja alcançada”. Essa solução, ou esse tratado, nunca foi assinado mas, recentemente, os dois dirigentes coreanos prometeram que, até ao final do ano, seria assinado um tratado de paz.
Passaram-se 65 anos e, na realidade, as duas Coreias permaneceram divididas e os pequenos conflitos continuaram, sem terem revestido um carácter militar, embora o desenvolvimento das capacidades nucleares norte-coreanas tenha sido uma preocupação para os coreanos do Sul e uma ameaça à paz mundial. Entretanto, a Zona Desmilitarizada da Coreia, uma faixa de segurança criada em 1953 com 238 km de comprimento e 4 km de profundidade, continua a servir de fronteira e a ser a zona mais militarizada do mundo.
Agora que o Presidente Moon Jae-in foi a Pyongyang e que o Presidente Kim Jong-un parece ir brevemente a Seul, ao mesmo tempo que se abraçam como velhos amigos e anunciam uma candidatura conjunta aos Jogos Olímpicos de 1932, tudo parece entrar num caminho de paz.

A nova Angola e a cooperação fortalecida

A visita de dois dias que António Costa efectuou a Luanda foi um marco importante no futuro das relações entre Portugal e Angola e fica-se com a convicção de que a partir de agora nada será como dantes.
Escreveu-se que houve um "divórcio temporário" que começou a ser superado em Maio quando se soube que Manuel Vicente ia ser julgado em Angola e não em Portugal. Foi então que começou um novo ciclo das relações entre os dois países e, certamente, os quatro encontros que António Costa manteve com o novo Presidente de Angola no último ano, serviram para solidificar a confiança pessoal e política entre ambos. A viragem diplomática aconteceu e, com ela, renasceu uma cooperação desejada. 
O Jornal de Angola deu um relevo excepcional à visita de António Costa e escreveu que “isto é bom para Angola, tanto quanto para Portugal, sendo igualmente importante reter o facto de a gestão do que as autoridades lusas consideravam como ‘irritante’ ter sido feita sem o agravamento das relações bilaterais”. Se a presidência de João Lourenço era um sinal de mudança para Angola, este reencontro com Portugal e a assinatura de onze acordos de cooperação vieram reforçar o seu poder e abrir as portas a um novo ciclo de que, tanto Angola como Portugal, podem tirar grandes proveitos para as suas economias.
António Costa também deu um passo relevante ao desbloquear em tão pouco tempo uma situação indesejada, porque Angola e Portugal têm demasiadas afinidades e, por isso, a confiança entre ambos é essencial para milhões de angolanos e portugueses. As fotografias dos dois dirigentes que a imprensa divulgou, falam por si.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Ilha de Moçambique, cidade bicentenária

As autoridades moçambicanas decidiram evocar a passagem dos 200 anos da elevação à categoria de cidade da Ilha de Moçambique e o jornal O País tratou de ilustrar a primeira página da sua edição de hoje com uma fotografia da imponente fortaleza de São Sebastião, construida pelos portugueses no século XVI.
Até 1898 a pequena Ilha de Moçambique que tem 2,5 quilómetros de comprimento máximo, foi a capital da África Oriental Portuguesa e aí foi construída a fortaleza que tinha por objectivo assegurar protecção às naus da carreira da Índia, mas também outros baluartes defensivos, igrejas, palácios e armazéns. A sua população agrupa-se por diferentes grupos religiosos com destaque para os cristãos e para os islâmicos, mas na ilha parece haver todas as religiões e todos os principais grupos étnicos. Em 1960 foi construida uma ponte com cerca de 5 quilómetros que liga a Ilha ao continente e, desde 1991, que a Ilha de Moçambique foi classificada como Património Mundial pela Unesco.
A história da Ilha de Moçambique não cabe num pequeno texto, mas é seguramente um dos mais expressivos capítulos da história da expansão portuguesa pelo mundo. Segundo relata a imprensa local, as comemorações do seu estauto de cidade bicentenária e de primeira capital de Moçambique tiveram a presença de Filipe Nyusi, o Presidente da República de Moçambique, vários membros do governo, deputados, magistrados, membros do corpo diplomático, empresários e membros da sociedade civil entre nacionais e estrangeiros. Nenhuma notícia refere a presença portuguesa nas cerimónias que terá sido bem discreta, o que é de lamentar, pois o património edificado na ilha faz parte das melhores memórias históricas portuguesas e a sua preservação tem sido apoiada por instituições portuguesas.