sexta-feira, 8 de julho de 2011

O estranho mundo do futebol

O futebol é uma paixão, mas também é um negócio que movimenta muito dinheiro, através de transferências milionárias de jogadores e de treinadores. O tradicional “amor à camisola” perdeu-se e o mundo do futebol está cada vez mais dependente de engenharias financeiras e de interesses obscuros, que por vezes encobrem certo tipo de práticas criminosas, como a lavagem de dinheiro e a fraude fiscal.
Entretanto, a crise parece ter chegado a todo o lado, menos ao futebol. Em finais de 2010 o Jornal de Notícias anunciou que os clubes que integram as Ligas Profissionais de Futebol portuguesas tinham 816 milhões de euros de passivo e que os campeões da dívida eram o Benfica (398,8 milhões), o Sporting (172 milhões) e o F. C. Porto (157,5 milhões) que, em conjunto, representavam cerca de 90% da totalidade das dívidas dos clubes portugueses.
Entretanto, só nesses três clubes de futebol, os recentes negócios relativos às transferências de jogadores valeram 90 milhões de euros e, ao aeroporto de Lisboa, continuam a chegar os Enzo Pérez, os Garay, os Kléber e os Bojinov, além dos Nolitos, dos Iturbes e dos Witsel.
Com os tempos difíceis que se aproximam, prevê-se menos público nos estádios, menos merchandising, menos direitos televisivos e maiores dificuldades de crédito bancário para solucionar os crónicos défices de tesouraria, o que parece antecipar muitos problemas.
É neste quadro que, para os seus estágios, o Benfica escolheu a Suiça, o F.C. Porto a Alemanha e o Sporting a Holanda.
O futebol é realmente um espectáculo extraordinário, mas o mundo do futebol é muito estranho!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

As noites de fado em Goa

No próximo mês de Dezembro completam-se cinquenta anos sobre os acontecimentos que levaram à ocupação dos territórios de Goa, Damão e Diu pelas tropas da União Indiana.
Desde então, embora de forma não assumida, as autoridades indianas e, depois da constituição do Estado de Goa, as autoridades goesas, sempre procuraram a desportugalização do território e, na realidade, a língua e a cultura portuguesas têm perdido alguma importância na sociedade goesa. No entanto, há interesses de ordem diversa – identitários, culturais e emocionais – e, sobretudo, interesses turísticos, que persistem na preservação da herança cultural portuguesa.
Com cerca de dois milhões e meio de turistas que anualmente visitam Goa, a marca portuguesa tornou-se mais valiosa: cerca de 90% dos turistas são indianos que procuram a “Europa da Índia”, enquanto os restantes 10% são estrangeiros que procuram as praias e a “exótica simbiose luso-indiana”, que Goa oferece.
Por isso, o turismo apoia-se fortemente na herança cultural portuguesa. Um dos casos mais curiosos da preservação da memória portuguesa em Goa refere-se ao Hotel Cidade de Goa e ao seu Restaurante Alfama, onde regularmente há noites de fado, apresentadas por intérpretes goeses de grande talento. Assim vai acontecer, uma vez mais, no próximo dia 12 de Julho.

TP 1844

No nosso tempo, um voo de pouco mais de duas horas nada tem de incomum e é um acto rotineiro das nossas vidas.
Porém, no caso do voo TP 1844 que liga a ilha do Faial a Lisboa, pode haver lugar a uma agradável surpresa, que só depende da meteorologia e da vontade do piloto.
Poucos minutos depois da largada do aeroporto, quando ainda está na sua fase ascensional, o avião passa ao largo da ilha do Pico e dos seus imponentes 2351 metros de altitude.
Umas vezes o avião passa mais próximo e outras vezes menos próximo da montanha que, frequentemente, não está visível porque se encontra envolvida por densas nuvens ou está mergulhada nas chuvas e nas neblinas que são características das ilhas açorianas.
Nessas condições meteorológicas de menor visibilidade, a montanha raramente se apresenta descoberta, iluminada e bem próxima de nós. Mas quando isso acontece e à vontade da meteorologia se junta a vontade do piloto, a montanha surpreende-nos com a sua agreste beleza vulcânica e parece convidar-nos a uma subida até ao topo numa outra oportunidade.
Porém, mais do que qualquer texto, é a fotografia que melhor evoca a agradável surpresa de voar com o Pico ali tão perto.

sábado, 2 de julho de 2011

A longa luta do país do Sol Nascente

No princípio do ano de 2001, as ruas de Díli e a maioria das vilas e aldeias de Timor estavam destruídas devido à violência que se seguiu ao referendo de 1999. O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo representava as Nações Unidas e as forças internacionais que ocupavam o território, consumiam muitos dos recursos de que o país carecia e, em geral, não estavam preparadas para ajudar os timorenses. Era um tempo de muita incerteza.
Na medida das minhas possibilidades, eu acompanhara os acontecimentos de 1975 e tudo o que se passara depois. Quando em 2001 fui a Timor, procurei saber mais sobre o país do crocodilo. Estudei os tempos de Celestino da Silva, a guerra do Manufai e os protagonismos de Dom Boaventura e de Filomeno da Câmara. Pesquisei sobre a ocupação japonesa e sobre as figuras de Dom Aleixo Corte-Real e de D. Jaime Garcia Goulart. Informei-me sobre os complexos acontecimentos de 1975, a guerra civil e a invasão indonésia de 7 de Dezembro de 1975. “Conheci” Nicolau Lobato, Xanana Gusmão, Ma’Huno e Konis Santana. Fui a alguns dos locais mais simbólicos da resistência timorense, desde a orla do Matebian até à igreja de Motael e ao cemitério de Santa Cruz. Estive em Balibó, Maliana, Batugadé, Manatuto, Baucau, Viqueque, Lospalos e Aileu. Conheci e convivi com alguns dos resistentes, com vários anos na prisão de Cipinang ou com muitos anos de exílio. Gente experimentada. Gente que se organizou e que hoje está a dar um futuro ao país.
Alguns têm raízes étnicas e culturais portuguesas. Um deles correu meio mundo a procurar apoios para a causa timorense e foi premonitório quando, em 1994, escreveu “Amanhã em Díli”. Depois foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz e, quando regressou a Timor, partilhou algumas das suas memórias e conversas com um discreto hóspede do já extinto Hotel Dom Aleixo. É o actual Presidente da República de Timor-Leste. Agora, uma vez mais, veio a Lisboa e, certamente, não deixará de visitar a sua casa paterna de Buarcos e de olhar o Tejo, de onde um dia o seu pai saiu como deportado por razões políticas.
Neste registo, deixo esta breve homenagem ao JRH.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sarkozy ou o pequeno falcão europeu

A guerra que ocorre na Líbia desde há alguns meses, tem sido um mau exemplo de unidade dos europeus, tal como já tinha acontecido há vinte anos com a guerra na antiga Jugoslávia, porque alguns países decidiram actuar sem um prévio consenso e à margem dos seus parceiros comunitários.
Então, alguns deles, intervieram na lógica do seu próprio interesse nacional, apoiando e armando os independentistas croatas, ou os separatistas da Krajina ou, ainda, as facções muçulmanas da Bósnia e do Kosovo. Cada qual fez o que quis.
Agora, na sequência da Resolução 1973 (2011) de 17 de Março do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que criou uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e que autorizou todas as medidas necessárias para proteger os civis sob a ameaça dos ataques governamentais, volta a aparecer um cenário de divisionismo e egoísmo europeus que nos recorda a guerra na ex-Jugoslávia. À sombra da NATO, cada qual está a fazer o que quer.
Indiferente às abstenções do Brasil, China, Alemanha, Índia e Federação Russa àquela Resolução, a França tornou-se o pequeno falcão europeu com os seus bombardeamentos aéreos e o fornecimento de armamento aos rebeldes líbios, em que se incluem munições, metralhadoras, lança-rockets e mísseis anti-tanque.
Nos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes já “chumbou” a participação americana na guerra da Líbia, enquanto as críticas da China e da Rússia aumentam, por considerarem que se está a ir para além da Resolução da ONU. Ângela Merkel apenas pensa nos dinheiros que tem na Grécia. A ajuda francesa aos rebeldes que lutam contra o regime de Kadhafi veio mostrar que Sarkozi abandonou o seu velho amigo (e financiador?) e está a tornar-se o pequeno falcão europeu.
Faz-lhe jeito o petróleo, certamente.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um novo top de Paula Rego

Looking back, um quadro de Paula Rego, foi licitado num leilão realizado ontem na Christie's, em Londres, tornando-se o quadro da autora que até agora atingiu um valor mais elevado no mercado leiloeiro.
Enquanto num leilão organizado em 2008 pela leiloeira Sotheby's, o quadro Baying, de 1994, foi arrematado por 558 mil libras (740 mil euros no câmbio da altura), o leilão ontem realizado pela Christie's para Looking Back, de 1987, teve uma licitação final de 769 250 libras (866 175 euros).
Com esta venda, Paula Rego reforçou a sua posição no restrito número de autores portugueses contemporâneos com cotação no mercado internacional da arte que, aparentemente, continua a ter em Maria Helena Vieira da Silva o seu mais apreciado ícone. Recorde-se que em Junho de 2010 em Paris, a leiloeira Sotheby’s, vendeu o seu quadro Inverno, de 1960, por 1 095 150 euros.
Paula Rego vive em Londres mas expõe regularmente em Portugal, destacando-se as exposições realizadas na Fundação Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, para além da grande exposição organizada em 2005 pelo Museu de Serralves, que teve 160 mil visitantes. Actualmente a sua obra pode ser vista na exposição permanente do Museu Casa das Histórias, em Cascais, e ocasionalmente no Centro de Arte Manuel Brito, em Algés, além de estar representada nas exposições permanentes de vários museus portugueses.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A miragem de "dar tudo a todos"

O Estado tem diversas funções constitucionais e a função social é, seguramente, uma das mais importantes, ao assegurar diversos tipos de prestações a mais de um milhão de beneficiários, nomeadamente o Subsídio Social de Desemprego (SSD) e o Rendimento Social de Inserção (RSI).
Estas prestações são financiadas pelos impostos pagos pelos contribuintes e são um contributo solidário da sociedade para os mais desfavorecidos, servindo para minimizar situações sociais de dificuldade e para atenuar a pobreza. Este princípio de redistribuição da riqueza baseado nos impostos e nos subsídios ou na lógica “dos que podem aos que precisam”, é hoje incontestável nas sociedades modernas.
Porém, nos últimos anos, enraizou-se em Portugal a ideia de que o Estado pode "dar tudo a todos” e, nessa lógica, a política de subsídios foi longe demais, inclusive no que respeita às prestações sociais, havendo a convicção de que muitos desses benefícios sociais resultam de situações injustas ou fraudulentas.
Todos as conhecemos, mas não as denunciamos.
A televisão mostra-as, mas as autoridades não reagem.
Nuns casos, há beneficiários do SSD que não procuram ou recusam ofertas de trabalho, porque o valor do subsídio é superior ao salário, enquanto noutros casos há beneficiários do RSI cujo património e rendimentos são omitidos e que deveriam ser tributados.
Estes dois exemplos mostram como é necessário um estudo geral destas situações e a consequente adopção de medidas que evitem a falência da segurança social e que travem a crescente subsidiodependência dos portugueses, que acabem com o parasitismo institucionalizado e evitem os possíveis casos de injustiça social.
Com vontade política e com a ajuda da informática, estas situações podem ser resolvidas com alguma brevidade. Essa intenção está anunciada. Será que vai ter solução?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um apóstolo das Índias

Ribeirinha – Ilha do Pico
Na povoação da Ribeirinha, próximo da ponta leste da ilha do Pico, está colocada uma lápide na empena de uma casa muito modesta, que contém a seguinte inscrição:
NESTA CASA NASCEU A 5 DE FEVEREIRO DE 1898
D. JOSÉ VIEIRA ALVERNAZ PATRIARCA DAS ÍNDIAS
Nascido em 1898, D. José Vieira Alvernaz teve a sua ordenação sacerdotal em 1920, dirigiu diversas paróquias nos Açores e, depois, seguiu para Itália onde frequentou estudos superiores, tendo-se doutorado em Filosofia e Direito Canónico (Roma) e em Ciências Sociais (Bérgamo).
Em Agosto de 1941 o Papa Pio XII nomeou-o Bispo de Cochim, cargo que desempenhou até 1951 quando, na sequência da independência da Índia, foi extinto o Padroado Português do Oriente. Tornou-se, por isso, o último bispo português de Cochim, uma diocese criada em 1558 e que se estendia da costa do Malabar até à Birmânia.
D. José Vieira Alvernaz foi depois designado Arcebispo de Goa e Damão e Patriarca das Índias Orientais e, por ironia do destino, também veio a ser o último português a desempenhar esses cargos. Durante os acontecimentos que em 1961 levaram à queda da Índia Portuguesa, consta que a opinião do Patriarca das Índias foi decisiva na prudente atitude que o Governador Vassalo e Silva adoptou perante a invasão indiana. Como consequência da invasão e da ocupação indiana, D. José Vieira Alvernaz viu-se compelido a deixar o território da sua jurisdição episcopal, tendo regressado a Portugal. Depois de cerca de vinte anos de permanência na Índia, instalou-se em Angra do Heroísmo, onde faleceu em 1986.
Junto à casa onde nasceu, um grupo de amigos e admiradores promoveu a colocação de um busto em bronze em sua homenagem.

sábado, 25 de junho de 2011

Vulgaridades, brejeirices & boçalidades

A RTP 1 mantém um conjunto de programas ligeiros especialmente vocacionados para atrair audiências e, esse desígnio, parece justificar-lhe todas as concessões à qualidade e isentá-la do dever de ter uma programação de interesse público.
Assim, alguns programas como o Portugal no Coração, o Portugal sem Fronteiras, a Praça da Alegria, o Preço Certo ou Quem quer ser Milionário preenchem longas horas das emissões da RTP 1. Em geral, a receita é mais ou menos a mesma, com apresentadores de duvidoso talento, uma sala cheia de gente mais ou menos excitada para aplaudir e o habitual desfile de convidados, concorrentes, cozinheiros, artesãos, autarcas anónimos, cantores desconhecidos, grupos folclóricos, etc. Cada um desses programas gerou uma enorme e desproporcionada popularidade aos seus apresentadores que, em alguns casos, assumem o estatuto e são reconhecidos como vedetas. A partir daí, o desconchavo das suas prestações televisivas tende a aumentar. Ultrapassam-se em auto-convencimento.
Eu não aprecio especialmente nenhum desses programas e, certamente, o defeito é meu! Por isso, até pensei organizar uma votação inspirada no modelo das "7 Maravilhas", que se intitularia as "7 Maravilhas da Imbecilidade Televisiva". Pensei, mas decidi não ir em frente, pois ao acompanhar mais demoradamente o Portugal no Coração, a minha escolha ficou feita. O nível de vulgaridade, brejeirice e boçalidade com que os seus apresentadores conduzem o programa e a forma como os convidados são tratados, ridicularizados e, por vezes, quase humilhados, ultrapassam os meus limites de tolerância. Certamente, eles serão pessoas inteligentes e qualificadas, mas ultrapassam o senso comum, tornam-se atrevidos, caem num foleirismo primário e, porque são bem pagos pelo erário público, ainda gozam com o pagode. Insuportável para o meu gosto.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O sono do Ministério Público

O Diário Económico noticiou que 40% da despesa do Estado relativa à comparticipação de medicamentos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) em 2010 tem, potencialmente, origem fraudulenta.
Esta conclusão baseia-se numa auditoria da Inspecção-Geral de Finanças (IGF) ao sistema de prescrição e conferência de facturação de medicamentos do SNS. Numa amostra de cerca de três milhões de euros de comparticipações do SNS, verificou-se que cerca de 1,2 milhões de euros, isto é, cerca de 40% daquele valor, foi identificado como potencialmente irregular. Em 2010, a despesa do Estado com medicamentos vendidos nas farmácias chegou aos 1,6 mil milhões de euros, pelo que as irregularidades detectadas podem chegar pelo menos aos 600 milhões de euros. A IGF já tinha alertado em relatórios anteriores para a fraude no sector dos medicamentos, o motivou, aliás, participações da IGF ao Ministério Público.
O bastonário da Ordem dos Médicos já referiu que, até ao momento, não se confirma o envolvimento dos médicos nesta gigantesca fraude e, como exemplo, referiu o caso dos médicos falecidos que continuam a prescrever receitas, salientando que entre os 42 mil médicos inscritos na Ordem pode haver meia dúzia que não são honestos. Segundo o Bastonário, as receitas e as vinhetas são fáceis de falsificar, pelo que não é difícil de imaginar o aparecimento de fraudes.
Porém, o que nos admira é a dimensão desta fraude, que tem contornos muito complexos e graves, que podem favorecer entidades muito diferentes. Ao mesmo tempo, admiramo-nos pelo facto dos alertas da IGF ao Ministério Público, desde há vários anos, não tenham perturbado o seu sono e não tenham produzido quaisquer efeitos A quem interessou esse silêncio?

Uma bofetada de luva branca

Pedro Passos Coelho deslocou-se hoje a Bruxelas, pela primeira vez como primeiro-ministro, para participar no Conselho Europeu, tendo dado instruções para a mudança do seu bilhete da classe executiva para a classe económica. O primeiro-ministro viajou acompanhado pelo chefe de gabinete, pelo assessor de imprensa e por dois elementos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, segundo números divulgados, com esta alteração o governo poupou 2265 euros.
Esta atitude de Passos Coelho é um exemplo para os inúmeros agentes do Estado que viajam e enchem as salas VIP dos aeroportos, de que é preciso ter muita contenção, sobretudo no período difícil que atravessamos. Alguns dirão que é demagogia de início de mandato e que o valor poupado é uma insignificância, mas é com estes exemplos e com estas atitudes simbólicas que se cria respeitabilidade e se consegue a adesão das pessoas para projectos que temos pela frente. Certamente que, nos próximos tempos, muitos agentes do Estado hesitarão em viajar em classe executiva, pois podem cruzar-se com o primeiro-ministro a viajar em económica. Da mesma forma, a requisição dos Falcon, que chegou a ser uma prática comum por mera vaidade pessoal, também vai seguramente reduzir-se.
Eu aplaudo esta bofetada de luva branca que Passos Coelho deu aos deputados, aos diplomatas, aos funcionários governamentais e a tanta outra gente que viaja à custa do erário público. E deixo aqui expresso que, nas últimas eleições, não votei na lista do partido de Passos Coelho, que em Lisboa era encabeçada por Fernando Nobre.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

As festas do Espírito Santo

Estou de volta ao grupo central do arquipélago dos Açores, ao deslumbramento paisagístico e à riqueza cultural das ilhas, evocando uma vez mais Raul Brandão, o autor que revelou um dos aspectos mais singulares da paisagem açoriana: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente – o Corvo, as Flores, Faial, o Pico, o Pico, S. Jorge, S. Jorge, a Terceira e a Graciosa…”.
A invernia já lá vai e o mau tempo no canal está ausente. Os dias são muito longos e o bom tempo prevalece. A vida renova-se. A serenidade das águas é apelativa. Chegam os primeiros emigrantes. Anunciam-se festejos por toda a parte.
É o tempo das Festas do Espírito Santo, tão características da vida dos Açores e que tanto contribuíram para desenvolver o sentido de comunidade e a riqueza cultural das ilhas. O culto do Divino Espírito Santo é dominado pelo cerimonial religioso, cujo fulcro é uma pequena capela ou império, utilizada para a distribuição geral do pão e das sopas do Espírito Santo - um apreciadíssimo cozinhado com pão, carne e legumes.
As ruas enfeitam-se e enchem-se de gente. O ambiente de festa tudo domina. Há um misto de alegria e de solenidade no ar. As bandas filarmónicas e as danças populares e, em certos locais, a tourada à corda, animam a festa.
As festas do Espírito Santo são um grande acontecimento religioso, mas também um ex-libris da cultura açoriana.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O bloqueio dos tribunais

De acordo com o Correio da Manhã há em Portugal mais de um milhão de processos judiciais parados, a que correspondem cerca de 19 mil milhões de euros de dívidas por cobrar, sendo que metade dos processos dizem respeito a dívidas inferiores a três mil euros. Esta situação diz respeito ao intervalo entre 2003 até Maio deste ano e representa quase 12% do PIB, o que manifestamente é um valor muito elevado.
Aparentemente, estes números parecem mostrar que se chegou a um ponto em que “ninguém paga a ninguém”, nuns casos por dificuldades imprevistas e conjunturais, mas em muitos outros porque se difundiu a ideia de que o “crime compensa”.
Calcula-se que metade dos processos parados respeite a dívidas de consumo e em especial das compras a prestações, estimuladas pela sedução publicitária e feitas sobretudo através de cartões de crédito, que os bancos impingiam aos seus clientes em cenários de grande fartura, ou seja, esta situação resulta dos comportamentos dos consumidores, da ganância dos bancos e, finalmente, dos tribunais que não mostram capacidade para resolver rapidamente estes casos.
Aqui está um caso curioso que complica o normal funcionamento da economia. As intenções de quem governa podem ser as melhores, mas com estas atitudes dos agentes económicos - consumidores e bancos - e com o verdadeiro bloqueio dos tribunais, tudo se torna mais complicado entre nós.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Grécia como lição e como aviso

Na última década a Grécia gastou mais do que podia, tendo pedido muitos empréstimos num tempo de dinheiro barato e deixado que a sua economia tivesse ficado refém de uma avultada dívida. Os gastos públicos aumentaram descontroladamente e os salários do funcionalismo quase duplicaram. A evasão fiscal atingiu limites insuportáveis e os chamados direitos sociais da população criaram obrigações insustentáveis. A ganância dos financiadores internacionais foi cega. Os gregos deslumbraram-se. Quando chegou a crise global de crédito de 2009 e os credores despertaram, o défice orçamental grego era de 13,6% do PIB e a sua dívida era de cerca de 300 mil milhões de euros, isto é, mais do dobro do seu PIB.
Perante este quadro, surgiu um plano de ajuda externa que incluiu a participação de países da zona do euro e do FMI, que disponibilizaram um empréstimo de cerca de 110 mil milhões de euros para ultrapassar a situação. Foram impostas severas medidas de austeridade no país, mas a reacção a essas medidas traduziu-se em greves, manifestações violentas e numa enorme tensão política e social. A situação agravou-se e não foram cumpridas as metas de redução do défice previstas para 2010, tornando-se claro que com três anos de recessão e um desemprego da ordem dos 16%, a Grécia não conseguiria inverter a sua situação quase dramática. Os credores estão cépticos e os juros já passam os 30%. Como abutres esfomeados, os credores apertam o cerco. O caos financeiro e social já é uma realidade.
A hipótese da bancarrota está à vista e teme-se que a eventual queda da Grécia possa ter um efeito dominó, sobretudo na Europa do Sul. Por isso, os 17 países da Eurozona estão a debater a possibilidade de conceder um segundo pacote de ajuda à Grécia, que poderá ascender a 90 mil milhões de euros, para cobrir as necessidades de financiamento do país até 2014.
E qual é o perigo de contágio? E se a Grécia entrar em incumprimento? E qual é o futuro do euro? E nós vamos ter juízo? Não faltam especialistas e entendidos a dar palpites.
Em 1872, já lá vão 139 anos, sem que tivesse acesso às estatísticas do Eurostat, Eça de Queirós escreveu em “As Farpas”:
“…Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de carácteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par, a Grécia e Portugal..”

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A ética da magistratura do futuro

No Centro de Estudos Judiciários (CEJ), que tem por função a formação inicial e contínua dos magistrados judiciais e do Ministério Público, segundo o Jornal de Notícias foi detectado que os actuais 137 auditores ou a maioria deles, copiaram num teste.
Confrontada com esta vergonha da Justiça portuguesa, a direcção do CEJ decidiu anular o teste em causa, atribuindo a todos os auditores de Justiça a classificação final de dez valores. Os principais agentes da Justiça lamentaram e condenaram o episódio, mas foi o Bastonário da Ordem dos Advogados que tratou adequadamente a questão. António Marinho Pinto defendeu que os formandos do CEJ que utilizaram "métodos fraudulentos" para ficarem aprovados no curso deviam ser "excluídos" da profissão. Além disso, salientou que as pessoas que "utilizam métodos fraudulentos para acederem à magistratura não serão seguramente magistrados honestos", acrescentando que “quando se começa a prevaricar nos primeiros passos da carreira, imagine-se o que eles farão quando forem magistrados, com os poderes inerentes à profissão”, notando que quando estes auditores de Justiça começam "logo com fraudes" é "de esperar e temer o pior" no futuro.
Concordo em absoluto com o que disse o Bastonário e também gostava que o processo de recrutamento de magistrados passasse a ser transparente e não uma reserva para amigos, compadres e afilhados, como consta que actualmente sucede.
Este escândalo do “copianço” está em linha com um estudo da Universidade do Minho divulgado em 2010: nas universidades, três em cada quatro alunos assumem copiar nos exames e noventa por cento destes já o faziam no liceu. Por isso, a ética da magistratura, mas também de outras funções e agentes do Estado, está realmente ameaçada. Vale tudo?