terça-feira, 18 de março de 2014

Prosperidade virtual ou pura vaidade?

A ACAP – Associação Automóvel de Portugal divulgou as suas estatísticas de vendas de veículos automóveis ligeiros e pesados, tanto de passageiros como de mercadorias e, surpreendentemente, verifica-se que nos primeiros dois meses de 2014 o mercado automóvel português cresceu 38,3% relativamente ao período homólogo de 2013. Estes números constituem um indicador de que a confiança parece estar a regressar aos consumidores e que, portanto, a economia tem essa condição essencial para entrar num novo ciclo, a juntar à retoma que se começa a verificar na Europa. Apesar de já estarmos a assistir a uma campanha de propaganda para fins eleitorais, com análises irrealistas quanto à situação económica, não há dúvidas que o mercado automóvel está a dar sinais positivos: a venda de veículos ligeiros de passageiros atingiu 19.801 unidades (crescimento de 36,2%), enquanto a venda de veículos comerciais ligeiros se cifrou em 3320 unidades (crescimento de 54,1%).
A análise das vendas por marcas também é surpreendente. Apesar da Renault e da Peugeot serem as marcas mais vendidas em Portugal, seguem-se no respectivo ranking a Volkswagen, a BMW, a Mercedes e a Audi, com a particularidade de nos dois primeiros meses do ano de 2014, as marcas BMW e Mercedes terem registado aumentos de vendas superiores a 50%, relativamente ao período homólogo de 2013. Porém, a surpresa não se fica por aí. A marca Porsche também vendeu 43 unidades, o que corresponde a um aumento de 53,6% relativamente ao período homólogo de 2013, enquanto a Ferrari que nos dois primeiros meses de 2013 não vendera quaisquer unidades, surge com 3 unidades vendidas nos dois primeiros meses de 2014. É caso para nos interrogarmos sobre o que é que está de volta: a prosperidade ou a vaidade dos portugueses?

O ataque aos benefícios fiscais

Um relatório de 82 páginas intitulado Despesa fiscal 2014 que o governo tornou público e que alguma imprensa comentou, salienta que os benefícios fiscais concedidos pelo Estado em sede de IRS — como as deduções à colecta de despesas com saúde, habitação, educação e protecção social — têm vindo a encolher de ano para ano desde a chegada da troika. O relatório constitui um bom documento de esclarecimento público sobre a despesa fiscal, um conceito que agrupa o conjunto de medidas vulgarmente conhecidas por benefícios fiscais e que são destinadas a incentivar determinados comportamentos ou actividades económicas.
O relatório revela a dureza das políticas adoptadas pelo governo/troika ou pela troika/governo, ao mostrar que entre 2011 e 2014 se verificou uma redução de 35% das despesas fiscais das Administrações Públicas, resultante das políticas restritivas impostas no âmbito do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro. Essa redução correspondeu a uma diminuição de cerca de 4,81 mil milhões de euros, sendo que essa “poupança governamental” representou uma redução na despesa fiscal global das Administrações Públicas de cerca de 2,6% do PIB. O relatório enumera e descreve as diferentes modalidades da despesa fiscal e, relativamente às deduções à colecta em sede de IRS, revela que estas passaram de 3743 milhões de euros em 2011, para 2728 milhões de euros em 2014.
Como titula o Jornal de Notícias, as “Famílias perdem mil milhões no IRS”, como consequência da redução dos limites nas deduções à colecta e, em termos médios, só com os cortes nas deduções nas despesas de educação, saúde e habitação, a factura do IRS custou mais de 250 euros a cada agregado familiar. O corte mais substancial verifica-se na saúde que conta agora com menos 433 milhões de euros do que em 2011, isto é, menos 67% da verba disponível há quatro anos. Logo atrás encontam-se as verbas previstas para o crédito à habitação que no mesmo período caíram 376 milhões de euros (62%) e para a educação em que a redução das despesas foi de 32 milhões de euros (11%). Assim, o reembolso de IRS, que até há pouco tempo era sinónimo de alívio para as Famílias e que muitas vezes era utilizado para ajudar a pagar seguros ou créditos à habitação, está cada vez mais curto. Naturalmente que esta quebra no rendimento das pessoas, a juntar aos enormes impostos directos e indirectos, tem inúmeras consequências negativas para a sociedade e é um factor de empobrecimento.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ucrânia: ainda a procissão vai no adro

Com mais de 96% dos votos, os habitantes da península e região autónoma da Crimeia aprovaram ontem a sua integração na Rússia, num referendo considerado ilegal pelas novas autoridades de Kiev e pela maioria da comunidade internacional. A população da Crimeia, que é maioritariamente de origem russa e que representa apenas 4,3% da população total da Ucrânia, festejou o acontecimento que abre o caminho para o seu regresso à “grande mãe”. De imediato, o Parlamento da Crimeia aprovou por unanimidade a independência do território, que representa apenas 4,3% da superfície total da Ucrânia, assim como a sua integração na Federação Russa.
A partir de agora, nem a União Europeia nem os Estados Unidos têm hipóteses de impedir a integração da Crimeia na Rússia, mesmo que venham a impor sanções económicas ou diplomáticas, que sabemos serem de duvidosa eficácia. Muitos dos relatos que nos chegam de Simferopol, a capital da Crimeia, revelam que o território está sob o domínio de milícias pró-russas e de tropas russas, com o expresso propósito de proteger as populações etnicamente de origem russa, mas essa demonstração de força apenas revela a determinação russa para garantir o seu domínio sobre a Crimeia. Putin tinha a lição estudada e os russos anteciparam-se para assegurar o controlo da estratégica cidade de Sebastopol, onde a sua frota do Mar Negro tem a sua base desde há duzentos anos. Tudo isto é, apenas, a realpolitik. Entretanto, em diversas cidades no leste da Ucrânia, de forte tendência pró-russa, estão a acontecer novos protestos contra o poder instalado em Kiev, onde se inclui o assalto e a ocupação de edifícios públicos, a reivindicação pelo regresso do presidente eleito Viktor Yanukovitch e, até mesmo, a exigência da realização de outros referendos nos moldes daquele que foi realizado na Crimeia. Nesta disputa ucraniana e como diz o povo, ainda a procissão vai no adro.
 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Dá Deus nozes a quem não tem dentes

Um grupo de 70 personalidades, publicamente reconhecidas pela diversidade do seu pensamento político e pela sua idoneidade cívica, subscreveu um manifesto em que apela à reestruturação honrada e responsável da dívida pública portuguesa, porque sem ela continuará a imperar a política da austeridade, a ausência de um crescimento sustentado, o agravamento das desigualdades, a desagregação social  e um contínuo défice na criação de emprego. Esse grupo inclui vários políticos, alguns dos quais antigos ministros, mas também académicos, constitucionalistas, empresários, patrões e sindicalistas, isto é, gente muito qualificada e com assinaláveis serviços prestados ao país.  
Segundo o manifesto, a actual dívida pública directa atinge cerca de 129% do PIB e os respectivos juros absorvem 4,5% do PIB, o que torna insustentável qualquer solução para este magno problema sem um crescimento económico sustentado e robusto, forjado num quadro de coesão social e de solidariedade nacional. Por isso, o manifesto defende o abaixamento da taxa média de juro, a extensão das maturidades da dívida para 40 ou mais anos e a reestruturação de, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB. Não é nada que não tenha sido antes praticado. De resto, o manifesto recorda o Acordo de Londres sobre a Dívida Externa Alemã, de 27 de Fevereiro de 1953, que perdoou 46% da dívida externa alemã anterior à II Guerra Mundial e 51,2% da dívida posterior à Guerra, sendo que 17% do remanescente ficaram a juro zero e 38% ficaram a juro de 2,5%. Naturalmente, o manifesto foi assinado por 70 personalidades e, se eu fosse uma personalidade, obviamente que lá estaria a minha assinatura, porque o manifesto abre uma janela de oportunidade para discutir novos caminhos e mostra que há alternativas a esta austeridade a “esta economia que mata”. Por issso, o meu obrigado aos 70! Para espanto de muita gente, o manifesto gerou um inesperado nervosismo nos obedientes governantes que temos, mas também naqueles que, aparentemente, defendem e querem "uma cultura política de compromisso".  Em vez de mostrarem entusiasmo e gratidão por este contributo qualificado, os "orgulhosamente sós" que por aí andam perderam a cabeça e exibiram a sua face muito pouco democrática. Como diz o povo, dá Deus nozes a quem não tem dentes...




 

terça-feira, 11 de março de 2014

O homem que nos avisa, avisa, avisa!

O Venerando Chefe do Estado (VCE) junta anualmente os seus escritos num livro chamado Roteiros e, no dia em completou dois anos do seu segundo mandato, decidiu divulgar o prefácio do seu Roteiros VIII. É um texto que está disponível na internet, que ocupa 10 páginas e que utiliza 5611 caracteres. É um texto bem pensado por alguém que parece ser assessor do governo, mas é um texto frustacional, como diria a nossa parlamentar inconseguida.
De facto, no momento em que continuamos a atravessar uma grave crise - ao fim de três anos de troika e de arrogância política da dupla passos-portas, aumentou a dívida, o desemprego, o desespero, a pobreza, a emigração, a insegurança e as falências – era de esperar e era necessário que o VCE produzisse um texto mobilizador das nossas energias mas, em vez disso, aparece-nos um texto economicista, narcísico e autojustificativo de um homem que tem estado no poder desde há muitos anos, mas que parece viver noutro país. Acena-nos com austeridade e sacrifícios até 2035 para satisfazer as exigências dos abutres, com a desculpa  das novas regras europeias da disciplina orçamental. Assume-se como um mero espectador na triste realidade que nos é imposta por um grupo de fanáticos internos e externos, quando todos desejaríamos que fosse um referencial de esperança ou o provedor dos mais desfavorecidos. Foi ele que em tempos anunciou a sua oposição ao corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos porque, dizia, “há limites ao sacrifício que se pode pedir às pessoas", mas é ele que fica indiferente aos cortes das pensões e das reformas. Ele convive sem pestanejar com um governo que é forte com os fracos e fraco com os fortes. Ele convive com o discurso da austeridade. Por isso, é apupado na rua e os seus índices de popularidade são escandalosamente baixos porque não actua na defesa dos que precisam, limitando-se a avisar e a lembrar que avisou. E repete e repete. E mastiga e mastiga. E pode perguntar-se o que fez o VCE durante os últimos sete anos, quando aprovou sete orçamentos do Estado? Então não viu o défice e o endividamento que lá estavam? E que magistratura de influência exerceu para assegurar os consensos políticos e sociais de que a sociedade precisa? Apela à cultura política do compromisso, mas não vê que os seus protegidos usam a cultura política do insulto? Ele diz que tem a estabilidade política "como o seu valor primeiro", mas talvez fosse melhor que adoptasse os portugueses como o seu primeiro  valor.

domingo, 9 de março de 2014

As Javieradas de Navarra 2014

Iniciam-se hoje em Xavier  – Javier em castelhano e Xabier em basco – uma localidade da comunidade foral de Navarra, situada a cerca de 50 quilómetros de Pamplona e que tem pouco mais de uma centena de habitantes, as Javieradas de Navarra 2014.
O Diário de Navarra destaca estas peregrinações em honra de São Francisco Xavier que partem de diferentes localidades do território navarro, convergindo para o imponente castelo de Xavier. Nasceram em 1940 para “perpetuar o espírito da cruzada”, isto é, o espírito dos vencedores da guerra civil espanhola a que o então arcebispo de Pamplona chamara “cruzada”, mas rapidamente perderam esse cariz de cruzada nacionalista e se tornaram numa festa religiosa muito concorrida em que participam muitos milhares de peregrinos que se dirigem para Xavier e “ocupam” o seu castelo.
São Francisco Xavier (1506-1552) nasceu em Xavier e foi um dos fundadores da Companhia de Jesus. Em 1540 veio para Portugal, mas seguiu logo para Goa onde chegou em 1542. A sua acção missionária foi intensa e estendeu-se da Índia a Malaca e ao Japão. Foi canonizado em 1622 e, desde 1637, os seus restos mortais repousam na Basílica do Bom Jesus em Goa.
São Francisco Xavier é o santo patrono dos missionários, o Padroeiro de Macau mas, sobretudo, é o Santo Padroeiro de Goa e dos goeses, que tanto se identificam e veneram este santo que, em língua concani, é conhecido por Gõycho Saib, o rei e protector de Goa. O seu dia festivo é o dia 3 de Dezembro, quando o campo arqueológico de Velha Goa e a Basílica do Bom Jesus atraem muitas centenas de milhar de pessoas de todas as religiões.

sábado, 8 de março de 2014

Um país dominado pelo pessimismo

O Parlamento Europeu encomenda periodicamente estudos de opinião pública nos estados-membros para melhor conhecer a percepção e as expectativas dos cidadãos sobre as suas actividades e as da União Europeia (UE) no seu conjunto. O mais conhecido desses estudos é o Standard Eurobarometer, vulgarmente conhecido por Eurobarómetro que, desde 1973,  se publica duas vezes por ano.
O Eurobarómetro 79 (Primavera de 2013) tinha mostrado que, tanto a nível europeu como nacional, a confiança nas instituições era bastante baixa e que, no caso de Portugal, havia 71% da população sem confiança nas instituições da UE, enquanto 81% não acredita no seu Parlamento e 88% não confia no seu Governo.
Agora foi divulgado o Eurobarómetro 80 (Outono de 2013) que revela que Portugal se situa “sempre entre os três países mais pessimistas da UE” e que “a maioria dos portugueses pensa que a situação económica e em termos de emprego irá piorar no próximo ano", além de que "uma elevada proporção considera que o mesmo irá acontecer à sua situação profissional pessoal e às condições financeiras do seu agregado familiar”. Em termos políticos, a situação é ainda mais pessimista, pois Portugal é o país da UE que tem o mais elevado nível de insatisfação com o funcionamento da sua democracia, sendo de 85% a percentagem de inquiridos que se declaram insatisfeitos, quando a média europeia é de 52%. Este resultado é o mais baixo de sempre no nível de satisfação com a democracia em Portugal e, obviamente, está relacionada com a crise e com a forma como é gerida. Perante este triste quadro de pessimismo e desta ausência de ânimo e de confiança, como é possível que andem por aí tão eufóricos alguns dirigentes políticos e alguns dos seus fiéis lambe-botas. São uns mentirosos e desonestos!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Como eles ameaçam as nossas poupanças

Aqui há dias houve um indivíduo - por acaso bem instalado na vida, que até é Conselheiro de Estado e que tem estado sempre ao lado dos poderes dominantes - que esteve em audiência na Assembleia da República na qualidade de presidente da Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS), a entidade que congrega todos os bancos que operam em Portugal e que gere todo o sistema de cartões de débito (Multibanco).
O dr. Vítor Brinquete Bento, assim se chama a referida personagem, tem um percurso de vida que parece respeitável, mas deve andar transtornado com as desgraças por que passa a gananciosa banca e, vai daí, quis ajudar os apetites insaciáveis dos seus patrões e sugeriu que o levantamento de dinheiro nas caixas Multibanco pagasse imposto de selo, o que constituiria uma fonte de receita para o Estado e um proveito adicional para a banca sob a forma de comissão. Mais uma vez, comiam o Estado e a banca, enquanto o mexilhão pagava.
Segundo revela a escassa imprensa que pegou neste assunto, os partidos políticos foram unânimes na condenação desta sugestão contabilística do dr. Briquete, o que mostra como é possível estabelecer consensos políticos sobre muitas matérias. Esta ideia do Dr. Brinquete é um absurdo que nem ao diabo lembra, pois seria mais um confisco ilegal e fraudulento feito aos depositantes, que são os únicos donos do dinheiro. É grave que esta lógica se esteja a instalar no cérebro de “gente que se fez a pulso” e que esquece tudo o que passou para chegar onde chegou. Amanhã ainda se vão lembrar de criar um imposto para quem tenha a ousadia de se manter vivo depois da idade da reforma ou para quem apenas quiser ter o direito de respirar ou de sonhar com uma sociedade mais justa.

Uma obra para ver - Ode Marítima

A apresentação em Lisboa da Ode Marítima de Álvaro de Campos - um dos heterónimos de Fernando Pessoa  - que está em cena desde o dia 6 até ao dia 16 de Março no Teatro Municipal de São Luiz, é um acontecimento cultural relevante que assinala o centenário da criação desta obra.
Frequentemente considerada como uma das maiores obras poéticas da literatura portuguesa, a Ode Marítima tem uma excelente interpretação de Diogo Infante, música original de João Gil e direcção cénica de Natália Luiza, estando a despertar o interesse do público, atraído pela oportunidade de “conhecer ao vivo” uma das mais belas obras literárias de Fernando Pessoa. É um poema futurista, mas é sobretudo uma história que entusiasma pelo seu ritmo e diversidade, que trata de marinheiros e de navios, de viagens e de faróis, de portos e de cais...
Relembrando:

     Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
     Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido,
     Olho e contenta-me ver,
     Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
     ...
     Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
     E quando o navio larga do cais
     E se repara de repente que se abriu um espaço
     Entre o cais e o navio,
     ...
     As viagens agora são tão belas como eram dantes
     E um navio será sempre belo, só porque é um navio.
     ...
     O olhar humanitário dos faróis na distância da noite...

Numa época em que o teatro tem vindo a perder público relativamente a outras artes do palco, é encorajador verificar como Fernando Pessoa e um dos textos mais clássicos da literatura portuguesa sobem ao palco e atraem o interesse do público jovem e menos jovem.

terça-feira, 4 de março de 2014

As incertezas do imbróglio ucraniano

A Europa e, de certo modo, o mundo têm acompanhado com muita apreensão o que está a acontecer na Ucrânia. Aparentemente, o que se passou em Kiev foi uma espécie de 25 de Abril, em que uma coligação alargada de interesses derrubou um poder autocrático e muito corrupto, personalizado na figura do Presidente Viktor Yanukovich.
Um sentimento de libertação alastrou por todo o território, revelando que há duas matrizes culturais, duas concepções políticas, dois tipos de aliança preferencial ou, simplesmente, duas ucrânias, cada qual com a sua língua – o ucraniano e o russo. É uma situação muito preocupante, porque há inúmeros factores de conflitualidade presentes no terreno, embora a situação se enquadre no conceito de “Europa das Pátrias”, isto é, um continente de múltiplas identidades e culturas, a fazer lembrar os recentes desmembramentos da Checoslováquia e da Jugoslávia.
A Ucrânia nasceu há vinte anos como resultado do desmoronamento da União Soviética e nunca se libertou da sua relação umbilical com a Rússia. Tem uma superfície superior a 600 mil km2 e é o maior país da Europa, tendo cerca de 45 milhões de habitantes. O seu território tem fronteiras com 7 países e inclui a Crimeia, uma península com 26 mil km2 que é uma república autónoma da Ucrânia, situada na costa setentrional do Mar Negro e que alberga a frota russa na cidade portuária de Sebastopol.
A Ucrânia e, em especial a Crimeia, são estrategicamente importantes para a Rússia, existindo receios de desagregação do país e de separatismo imediato da Crimeia que, demograficamente, é de maioria russa. Nesse quadro, Vladimir Putin não perdeu tempo, “passou ao ataque” e “ocupou” a Crimeia, sem quaisquer hesitações quanto à protecção dos seus interesses vitais ou das suas fronteiras naturais. O Ocidente reagiu a esta prova de força e a crise está a subir de tom. A imprensa internacional dá grande relevo aos acontecimentos e, muitos jornais, reproduzem hoje a imagem de Putin numa visita a um campo militar russo, enquanto a imprensa portuguesa se dedica a assuntos menores e parece ignorar o que se passa.
O imbróglio ucraniano é uma situação muito complexa e de muita incerteza. É preocupante e está para durar, porque estas mudanças revolucionárias são como as marés, isto é, têm fluxos e refluxos. Tal como se faz no totobola nos jogos de grande dificuldade, é melhor utilizar uma resposta tripla: 1x2.

domingo, 2 de março de 2014

A falsa euforia do irrevogável ministro

O irrevogável ministro Portas tem sido o porta-voz do governo para as coisas positivas, como lembrou recentemente o comentador Marcelo e, quando as notícias não são boas, ele trata de as embrulhar para parecerem outra coisa e iludir o povo. Isso aconteceu mais uma vez na sexta-feira e, com meias verdades e muitas omissões, procurou fazer passar uma mensagem mentirosa e nem sequer aceitou ser interrogado pelos jornalistas, depois de anunciar a conclusão da 11ª avaliação do programa de ajustamento. “Esta lebre está corrida”, disse ele, acrescentando que a troika considera que Portugal vive "um ambiente de crescimento económico bastante mais forte" suportado pelo investimento e pelas exportações. Ora aí está um ambiente que eu ainda não tinha visto, nem na cidade nem no campo, nem no litoral nem no interior.
Com base nessa análise da troika, o governo corrigiu as previsões para 2014  apontando agora para um crescimento do produto interno bruto de 1,2% e não de 0,8%, enquanto a taxa de desemprego de 16,8% foi agora estimada em 15,7%. Uma mudança entusiasmante! As exportações devem manter um crescimento de 5,5%, enquanto o investimento deverá passar de um crescimento negativo de 6,5% para uma expansão de 3,1%. Outra mudança entusiasmante! Com estas previsões, o irrevogável ministro puxou de um pincel e pintou um quadro cor de rosa: "a revisão do cenário aponta para um ano com mais crescimento, mais emprego, mais exportações e mais investimento". Porém, a verdade pode não ser essa e, por isso, a troika exigiu a apresentação de mais medidas para concluir a 11ª avaliação, incluindo mais cortes e a manutenção de impostos, enquanto o FMI já avisou que só sairá em Junho, obrigando o irrevogável ministro a substituir o relógio com contagem decrescente que ridiculamente inaugurara nas instalações do seu partido. Assim, esta euforia só pode ser falsa.

sábado, 1 de março de 2014

A EDP é mesmo um negócio da China!

Vem-me acontecendo, tal como a muitos milhares dos meus concidadãos, o confisco da pensão a que temos direito por termos confiado à guarda do Estado uma parte das remunerações, auferidas ao longo de uma vida de trabalho. Como o dinheiro é meu, o Estado tem vindo a roubar-me. Numa fase inicial de emergência financeira por que passamos, esse roubo poderia eventualmente aceitar-se a título excepcional. Porém, esta rapaziada que nos governa e que obedece cegamente à troika, insiste no roubo e continua a revelar a mesma falta de pudor e safadez, ao atacar os fracos e pondo-se de cócoras perante os fortes.
O que se passou com a privatização da EDP é mais uma história de poucas vergonhas. Ficou agora a saber-se que em 2013, a EDP de Catroga, Mexia e muitos mais barões, pagou 188 milhões de euros de IRC e impostos diferidos, um encargo que traduz uma diminuição de 95 milhões de euros relativamente a 2012, o que fez baixar a taxa efectiva de imposto da EDP de 19% para 14%. Desde 2005 que a factura fiscal da EDP não era tão baixa e, desta forma, a poupança fiscal conseguida em 2013 ajudou a empresa a manter um resultado líquido acima de mil milhões de euros, pelo sexto ano consecutivo, enquanto o consumidor português continua a ser explorado. Como se vê, o Catroga e o Mexia são amigos dos chineses e, naturalmente, fazem-se pagar por isso. A privatização da EDP foi mesmo um negócio da China e não só para os chineses da China Three Gorges Corporation!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Promiscuidade entre política e negócios

A edição desta semana da revista Visão inclui uma alargada reportagem sobre os negócios em que estão envolvidos alguns políticos e pergunta “o que juntará Luís Filipe Menezes (ex-autarca e líder do PSD), Martins da Cruz (ex-conselheiro diplomático de Cavaco e antigo MNE) e Jorge Costa (ex-secretário de Estado das Obras Públicas de Durão Barroso) numa desconhecida empresa do ramo imobiliário, com fortes laços em Angola”. Na realidade, de acordo com essa reportagem, a política, a diplomacia e os negócios constituem um triângulo que passa por Vila Nova de Gaia e tem importantes ramificações em Luanda. Tanto quanto parece, não está em causa qualquer ilegalidade, mas apenas um grave atropelo à ética republicana com o uso da política para satisfazer gananciosos e promíscuos interesses pessoais. Foi assim com Loureiros e Varas, com Limas, Mouras, Coelhos e com muitos outros, isto é, com gente que, impunemente, usou os conhecimentos e as influências que adquiriram na actividade política para fazer negócios especulativos ou ocupar posições de topo. Antes da política pouco valiam, mas com ela tornaram-se iluminados e ricos.
É uma triste sina lusitana haver tanta gente que se serve da política para “subir na vida” e para exercer actividades altamente lucrativas, que nunca na vida conseguiriam sem a bengala da política. Neste caso, os novos empresários têm um denominador comum que é terem exercido funções na Câmara Municipal de Gaia, que é a segunda mais endividada do país e parece estar em risco de falência com uma dívida próxima dos 300 milhões de euros. Pois é esta gente que agora se dedica a negócios imobiliários.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

R.I.P. Paco de Lucia

Aos 66 anos de idade faleceu vitimado por doença súbita na cidade mexicana de Cancun, onde residia, o cidadão espanhol Francisco Sánchez Goméz. Tinha nascido em Algeciras no ano de 1947 e era filho de Lúcia Gomes, uma portuguesa de Castro Marim, sendo mundialmente conhecido pelo nome artístico de Paco de Lucia. O seu nome artístico nasceu da tradição andaluza dos rapazes serem reconhecidos com uma referência ao nome da mãe. Quando o jovem e talentoso guitarrista teve necessidade de adoptar um nome artístico decidiu adoptar exactamente o nome por que era conhecido no seu bairro e assim ficou Paco de Lucia.
Nas últimas quatro décadas transformou-se num dos principais embaixadores da música espanhola, com concertos em dezenas de países entre os quais Portugal, onde actuou pelo menos duas vezes. A sua carreira simbolizou muitas vezes o melhor da cultura espanhola ao universalizar o flamenco. Em 2004 foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias galardoando "um músico que transcendeu fronteiras e estilos". Toda a imprensa espanhola, especialmente a andaluza, prestaram hoje homenagem a Paco de Lucia – o Deus do flamenco e o mestre universal da guitarra – publicando a sua fotografia na primeira página das suas edições e considerando a sua morte uma “perda irreparável para o mundo da cultura e para a Andaluzia". Um desses jornais é exactamente o EuropaSur, o diário da terra natal de Paco de Lucia, que escreve na sua primeira página que "Algeciras chora o seu filho mais universal".

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Os anúncios mentirosos do fim de crise

O diário espanhol El País destaca na sua edição de hoje o debate parlamentar em que “Rajoy da por acabada la crisis”, enquanto Alfredo Rubalcaba, o líder da oposição, lhe perguntou “en qué país vive, presidente”. De facto, em 2013 a Espanha teve quatro trimestres com crescimento negativo, a sua dívida pública aumentou 14,3% e o desemprego situou-se nos 25,8%, pelo que o anúncio do fim da crise é uma mentira e um exercício de propaganda.  Porém, não é só no país vizinho que, de repente e sem que haja sinais de recuperação consistentes, alguns mentirosos têm “decretado” o fim da crise. É o caso de Durão Barroso que, recentemente, afirmou que a crise está ultrapassada e que “a União Europeia está a emergir da recessão”. Porém, em Portugal essa  mentira já vem de longe. O primeiro mentiroso terá sido o ministro Álvaro que, com a economia portuguesa então em queda descontrolada, em finais de 2011 garantia que “2012 seria o ano do fim da crise”.
Porém, o nosso primeiro Passos tem sido o campeão do anúncio do fim da crise, confundindo o sonho e a realidade. Em Setembro de 2011 anunciou em Castelo de Vide que o ano de 2012 era "o ano do princípio do fim da emergência nacional". Em Agosto de 2012 afirmou na Quarteira que 2013 seria “um ano de inversão na situação da actividade económica em Portugal". Em Janeiro de 2013 disse que "o ciclo recessivo deve abrandar em 2013, dando início a um ciclo de expansão económica" e em Dezembro foi peremptório: “estamos a vencer a crise”. Em Janeiro de 2014 afirmou em Cáceres que os sinais de saída da crise chegam “de todas as partes”.
Estas são apenas algumas das muitas vezes em que o nosso primeiro Passos, que é conhecido por não cumprir nenhuma das suas promessas eleitorais, tem anunciado a saída da crise. Deve ser apenas para convencer os mais distraídos ou, então, não vive em Portugal.