sábado, 3 de maio de 2014

Mentiras e trapalhadas da nossa troika

A lusa troika
Há duas semanas, perante a aproximação do final do programa de assistência económica e financeira (PAEF), a generalidade dos nossos.governantes "passou-se" e garantiu que os impostos não seriam aumentados e, alguns deles, até admitiram que o IRS pudesse baixar. Essa garantia foi assegurada pelos componentes da lusa troika, isto é, os ministros Passos, Portas e Madame Albuquerque, a contabilista que sucedeu a Gaspar. Pressionados pela proximidade das eleições e pela desproporção entre os sacrifícios impostos à generalidade da população e os resultados catastróficos que foram obtidos, esses governantes não se pouparam em declarações de propaganda e garantiram que não seriam pedidos mais sacrifícios aos portugueses, porque o PAEF tinha sido um sucesso. Mentiram, sabiam que estavam a mentir e agora estão a desconsiderar-nos e a tratar-nos como uns parvos, ao negar que vão subir os impostos e que preparam mais medidas de austeridade.
As 84 páginas do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) que entretanto apresentaram, são de uma confrangedora pobreza e prevêem o aumento do IVA e da TSU, além de outros impostos e sacrifícios. Sempre a mesma receita contabilística de aumentar impostos, enquanto o corte das gorduras do Estado continua por fazer. A reforma do Estado não foi feita porque não há coragem para combater os interesses corporativos instalados no aparelho de Estado e porque continua a faltar a coragem para acabar com os boys e as girls que, vindos das estruturas partidárias, enxameiam a administração pública central, regional e local. Foram três anos de empobrecimento, de endividamento, de emigração, de maior desigualdade, de descrença e de bloqueio, mas de muitos assessores, muitas viagens e muitos Audis. Ajustamento, ainda não sei se foi, mas regabofe foi com certeza. Não foram apenas os programas eleitorais e as promessas não cumpridas. Ninguém sabe o que agora aí vem. A desconfiança é absoluta, até porque a incerteza nas perspectivas económicas mundiais é alta, como aliás salienta o DEO. A crítica a esta trapalhada é quase unânime.
Uma política de verdade deveria reconhecer que a maioria dos objectivos do PAEF falharam e deveria prevenir os cidadãos de que a austeridade terá que continuar, porque três anos de sacrifício e humilhação nada resolveram. Para que os portugueses soubessem e ajuizassem.
Porém, eles insistem na mentira que desacredita a democracia e os políticos, além de minar a confiança dos portugueses. Estou curioso por saber o que vai acontecer no dia 25 de Maio.

A guerra civil já começou na Ucrânia

Nos últimos dias a Ucrânia tem assistido a um aumento da tensão e da confrontação entre os apoiantes do regime instalado em Kiev que tem o apoio ocidental e os separatistas pró-russos, sobretudo nas regiões do sul e do leste do país. A imprensa ocidental trata este tema com profundidade, noticiando os acontecimentos e afirmando uma vez mais que a Ucrânia está à beira da guerra civil. Enquanto as autoridades que tomaram o poder nas ruas de Kiev defendem a unidade da Ucrânia e a ligação ao ocidente, os separatistas pró-russos reivindicam a criação de um estado federal, ou a independência, ou a sua integração na Rússia em termos semelhantes ao que sucedeu na Crimeia. Os acordos de Genebra, que foi negociado em Abril entre a Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos e a União Europeia, previam que as milícias pró-russas abandonassem os edifícios que ocuparam, mas estas recusaram-se a fazê-lo por não terem sido consultadas. Nessas condições, as autoridades de Kiev decidiram impor a ordem e avançaram com tropas sobre as cidades ocupadas. Os russos exigem que as tropas ucranianas retirem, mas os ucranianos exigem que os russos retirem o seu apoio às milícias.
Odessa e Slaviansk são duas cidades onde os separatistas ocuparam ruas e edifícios que nesta altura escapam ao controlo das autoridades ucranianas. Nessas circunstâncias, os confrontos são inevitáveis e ontem traduziram-se em cerca de quatro dezenas de mortos, havendo também a registar o abate de dois helicópteros militares ucranianos, empenhados nas operações de restabelecimento da ordem, o que pressupõe a posse de armamento apropriado fornecido pelos russos. Os esforços diplomáticos já realizados e as sanções económicas já decretadas contra a Rússia não produziram resultados no terreno e, nessas condições, a guerra civil parece que já começou. A dúvida agora está em saber como irá ser - mais ou menos musculada, mais ou menos prolongada - a intervenção da Rússia de Vladimir Putin.  

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O insólito na política brasileira

Todos sabemos como a política é perversa e que, um pouco por todo o mundo, acontecem casos escandalosos em que as mais elementares regras democráticas são violadas por gente corrupta e sem escrúpulos.
Porém, o insólito aconteceu agora no Brasil, quando um grupo de três dezenas de pessoas foi pago para aplaudir os discursos de alguns deputados e, como destaca a edição de hoje do Correio Braziliense, esse grupo “foi flagrado a receber dinheiro nos corredores do 10º andar do Anexo IV da Câmara dos Deputados”, poucos minutos depois da aprovação de um texto que altera a lei dos caminhoneiros”. Foi trabalho feito, trabalho pago!  Durante a sessão essas pessoas ocuparam as galerias da Câmara dos Deputados para aplaudir cada um dos deputados que apoiou o texto relativo ao aumento da jornada de trabalho para os motoristas. Logo que a sessão terminou, essas pessoas dirigiram-se para o Anexo IV e, nas proximidades do gabinete de Nelson Marquezelli, um deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro-São Paulo (PTB-SP) que cumpre actualmente o seu sexto mandato, receberam notas de 50 e de 20 reais pelos serviços prestados, numa cena que foi filmada por alguns jornalistas e divulgada em vários jornais digitais. Foi realmente um caso insólito!
Aqui em Portugal também as galerias do Parlamento são muitas vezes ocupadas por cidadãos que não aplaudem mas que protestam contra a violação dos seus direitos constitucionais ou contra as políticas governamentais. A presidência do Parlamento tem instruído as autoridades policiais para intervirem e para reprimirem esses protestos, talvez porque ainda não se lembrou de contratar claques para aplaudir as discursatas pró-governamentais muitas vezes mentirosas e, dessa forma, abafar os protestos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

O futebol indiano não existe só em Goa

Bengaluru FC, campeão indiano de futebol
O cricket é o desporto-rei da Índia, mas o interesse pelo futebol tem aumentado muito nos últimos anos, com mais equipas, mais jogadores e mais entusiasmo.
Foi na época de 1996-97 que se começou a disputar um campeonato nacional baptizado como Indian National Football League (NFL) que na época de 2007-2008 se tornou na actual I-League e que, nos seus dois formatos, já teve 18 edições. No passado domingo terminou a edição de 2013-2014 da I-League com o triunfo do Bengaluru Football Club, um clube de Bangalore, que é a capital do Estado de Karnataka. Curiosamente, o clube foi fundado há menos de um ano (20 de Julho de 2013) mas foi logo campeão, o que mostra que o poder do dinheiro também já chegou ao futebol indiano. No plantel do novo campeão estão integrados os futebolistas Keegan Pereira, Bruno Colaço, Ricardo Cardoso e Darren Caldeira, cujos apelidos mostram ser originários de Goa.
Goa é o mais pequeno dos 28 Estados da Índia mas é exactamente aquele em que o futebol desperta mais paixões, sendo esse facto apontado muitas vezes como uma herança cultural portuguesa. Nenhum outro Estado indiano tem tantas equipas na I-League e as equipas goesas triunfaram em 9 dos 18 campeonatos disputados até agora: Dempo SC (5 vezes), Churchill Brothers SC e Salgaocar SC (2 vezes cada um). Depois de terem vencido os últimos 7 campeonatos, na época que agora terminou as equipas de Goa classificaram-se, respectivamente, em 3º lugar (Salgaocar SC), 4º lugar (Dempo SC), 5º lugar (Sporting Club de Goa) e 11º lugar (Churchill Brothers SC).
É um bom resultado, mas não é costume que as equipas goesas fiquem ausentes dos dois primeiros lugares da I-League.
 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O porta-aviões da recuperação económica

O irrevogável ministro Portas tem sido um paladino da promoção das nossas exportações, desdobrando-se em viagens por todo o mundo, acompanhado por empresários, muitos amigos e alguns jornalistas. Tem sido um verdadeiro globetrotter lusitano e um frequent flyer ao serviço da nação. Um Fernão Mendes Pinto! Um homem das Arábias! Nas suas frequentes aparições televisivas, primeiro como Ministro dos Negócios Estrangeiros e depois como vice-Primeiro Ministro, exibe sempre um ar triunfalista e de auto-convencimento sobre o sucesso das suas missões e dos méritos daquilo a que ele chama “as nossas empresas”.
Há cerca de dois meses, no final de uma visita ao salão internacional do sector alimentar e bebidas, o irrevogável ministro brindou às exportações e declarou aos jornalistas que "as exportações estão a ser o porta-aviões da recuperação económica no nosso país". Porém, um estudo publicado esta semana no Boletim Económico do Banco de Portugal (Bdp) alerta para as exportações porque têm agora uma maior componente importada, isto é, o peso percentual das importações em cada bem ou serviço exportado tem aumentado e, por exemplo, no caso dos combustíveis a componente importada representa 82% do seu valor de exportação. Além disso, o estudo mostra que mais de 30% das exportações portuguesas estão sobrevalorizadas e que os maiores exportadores portugueses contribuem bem menos do que se pensa para o aumento do produto nacional. Assim, o contributo das exportações para o crescimento do PIB não é um valor absoluto e tem sempre que ser deduzido da sua componente importada. Significa, portanto, que há algumas exportações que são boas e outras que são menos boas. Há que distingui-las, porque se o crescimento da economia for feito apenas pela via das exportações faz aumentar as importações e o desequilíbrio externo, o que parece já estar a acontecer. O irrevogável ministro tem utilizado as exportações com ligeireza e como arma de promoção pessoal, mas a imprensa foi clara ao escrever que o “Banco de Portugal denuncia farsa nas exportações”.

domingo, 27 de abril de 2014

A nossa história recente em fotografia

O dinamismo cultural da sociedade portuguesa é avaliado frequentemente através das iniciativas das grandes instituições culturais públicas ou privadas, nomeadamente os grandes concertos e exposições. Essa avaliação ainda nos conduz a um acentuado centralismo em torno das duas maiores cidades do país, sobretudo em relação às chamadas culturas eruditas, embora a iniciativa das autarquias e de muitas outras associações culturais criadas pela sociedade civil tenham vindo a alterar este tradicional centralismo e a atrair cada vez mais agentes culturais e mais públicos.
A exposição Eduardo Gageiro – Rapaz de Sacavém, fotógrafo do Mundo, patente no Museu de Cerâmica de Sacavém, é um excelente exemplo de iniciativa local e de descentralização cultural. Trata-se de uma exposição biográfica da vida e obra de Eduardo Gageiro, natural de Sacavém e reconhecido como um dos melhores repórteres fotográficos portugueses, que apresenta algumas fotografias que se tornaram emblemáticas da nossa história recente, como algumas que registou no dia 25 de Abril de 1974, mas também as fotografias de muitas figuras públicas que ao longo dos anos foram registadas pela sua câmara fotográfica. A exposição também é uma revisitação de muitos episódios marcantes do último meio século da história portuguesa, está muito bem apresentada sob o ponto de vista museológico, tendo um elevado interesse pedagógico e documental. Inicialmente prevista para terminar em 16 de Fevereiro de 2014, a Câmara Municipal de Loures decidiu prolongá-la até ao fim do ano, devido à curiosidade e ao interesse que tem suscitado, mas também por se comemorarem os 40 anos do 25 de Abril.

sábado, 26 de abril de 2014

Viva o 25 de Abril!

Celebrou-se ontem o 40º aniversário do 25 de Abril e a grandiosidade das manifestações populares mostrou que essa data continua viva na memória do povo português, como símbolo da liberdade, da democracia, do fim da guerra colonial, da descolonização, das autonomias insulares e de um Estado Social moderno, entre muitas outras conquistas políticas e sociais. A data também foi assinalada por muitas associações de emigrantes em diversos países e alguns jornais franceses, luxemburgueses, brasileiros, angolanos, macaenses e cabo-verdianos, destacaram essa efeméride libertadora nas suas primeiras páginas.
Por cá, uma vez mais, a Associação 25 de Abril organizou ou associou-se a inúmeras iniciativas populares, destacando-se a simbólica cerimónia realizada em Lisboa, no Largo do Carmo, em homenagem a Fernando Salgueiro Maia, o jovem capitão que há 40 anos, naquele mesmo local, comandara as tropas que impuseram a rendição ao governo de Marcelo Caetano. O presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço, proferiu um importante e emotivo discurso, vibrantemente aplaudido por muitos milhares de pessoas, no qual sublinhou ser necessário “mudar urgentemente de caminho, ou este governo tem de ser apeado” de preferência pelo Presidente da República, para além de ter criticado a submissão com que os nossos governantes se apresentam perante os credores internacionais. "Chegou o momento de dizer Basta!", disse Vasco Lourenço, para logo a multidão repetir em coro e por largos minutos: "Basta, basta, basta!"
A multidão, com muitas pessoas de cravo ao peito, dirigiu-se depois para a rua António Maria Cardoso para homenagear os quatro cidadãos que, em frente da sua sede, a PIDE assassinou na tarde de 25 de Abril de 1974. 
"Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente", como nos cantou Chico Buarque.
Dois dos mais importantes artistas portugueses da actualidade – Júlio Pomar e Henrique Cayate  – conceberam para a Associação 25 de Abril, um cartaz comemorativo dos 40 anos do 25 de Abril, que simboliza a angústia e a incerteza que hoje assalta muitos milhões de portugueses, cada dia mais reféns de um governo cuja prática governativa não corresponde ao programa com que se apresentou ao eleitorado. E não deixa de ser insólito, o facto de termos visto o primeiro-ministro aparecer nas televisões de cravo ao peito… o que, evidentemente, é mais uma das suas habituais mentiras.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Então, cacemos e esfolemos os coelhos

Ao contrário do que o Coelho e o Portas têm dito, não será a 17 de Maio, nem em Junho, nem em qualquer data que caia no meu horizonte de vida, que recuperaremos a nossa soberania, porque os credores internacionais virão a Portugal duas vezes por ano até 2038. Foi isto que eles decidiram e foi isto que os nossos dirigentes aceitaram. Estamos em estado de choque com esta notícia e com esta humilhante submissão que ofende a dignidade de um povo que “deu novos mundos ao mundo” e tem nove séculos de história. Não há memória de uma coisa destas. É uma vergonha, a fazer lembrar o ultimato inglês de 1891, mas aí tivemos a reacção “dos heróis do mar” e da “nação valente e imortal”, com o povo a cantar “A Portuguesa”.
Afinal, quem são os garantes da independência nacional que aceitam esta humilhação? Quem é que nos prometeu uma coisa antes das eleições e depois fez outra? Quem é que nos tem mentido sistematicamente, sem vergonha e sem pudor? Quem é que olha para tudo isto sem nada dizer e nem nada fazer? Quem é que instalou um relógio na sede do seu partido a assinalar o tempo que faltava para a saída da troika? Quem é que disse que estávamos a viver um milagre económico? Quem é que disse que tudo se resolvia com o afastamento de Sócrates e o corte das gorduras do Estado? Quem é que responde pelo nosso empobrecimento e pelo aumento da dívida? Quem é que disse que as nossas exportações eram o porta-aviões da nossa recuperação económica? Afinal, quem são os Miguel de Vasconcelos da nossa história recente?
Está feita a vontade do Coelho, expressa numa entrevista dada ao semanário Expresso em 27/11/2010, quando disse estar pronto para governar com o FMI. A sua vontade está a concretizar-se. Interrogado sobre o que aí vem e para fugir à questão, procurou o humor: “não se deve esfolar um coelho antes de o caçar e eu que estou aqui e sou coelho, não gostaria de ser caçado”. Então, para que nos libertemos do FMI e para que recuperemos o orgulho e a dignidade nacionais, cacemos e esfolemos os coelhos. A bem da nação!

terça-feira, 22 de abril de 2014

A dívida continua a subir, a subir...

De acordo com as "Estatísticas das Contas Financeiras das Administrações Públicas e da Dívida Pública" hoje divulgadas na Nota de Informação Estatística Nº 6 do Banco de Portugal, em Fevereiro de 2014 a nossa dívida pública atingiu 220,6 mil milhões de euros, correspondentes a cerca de 130,6% do produto interno bruto (PIB). Assim, só nos dois primeiros meses de 2014, o nível de dívida pública em termos nominais e em percentagem do PIB já viola a meta definida pelo governo e pela troika para o corrente ano, que bem recentemente foi fixada em 214,2 mil milhões de euros e que é equivalente a 126,8% do PIB. Significa, portanto, que em dois meses, o montante da dívida já derrapou 6,4 mil milhões de euros e quase 4 pontos percentuais do PIB.
Quando em 21 de Junho de 2011 o actual governo iniciou funções, a dívida pública era da ordem dos 170 mil milhões de euros e representava cerca de 100% do PIB. Cerca de três anos depois a dívida atingiu 220 mil milhões de euros e representa cerca de 130,6% do PIB.  Em menos de 3 anos a nossa dívida aumentou cerca de 50 mil milhões de euros!
Depois de tantos sacrifícios, tanta austeridade e tanto empobrecimento, este resultado é uma completa frustração para os portugueses e uma vergonhosa derrota para a coligação que nos governa. Assim, não se compreende o triunfalismo e a irresponsabilidade que por aí andam, com os governantes e a sua rapaziada a papaguearem um discurso mentiroso sobre a nossa história dos últimos três anos, ao mesmo tempo que Belém nada faz perante este descalabro a que nos está a conduzir esta gente inculta, incompetente e desonesta.
 

Há quem lute contra a arrogância do FMI

É sobejamente sabido que o FMI foi criado para ajudar os seus membros com dificuldades a equilibrarem as suas balanças de pagamentos, não sendo propriamente uma associação de solidariedade internacional. No entanto, a instituição e os seus funcionários podiam ter um comportamento menos arrogante e que não fosse tão humilhante para os cidadãos dos países em que põem os pés, mas aqui em Portugal tem sido exactamente assim.  
Em 2011 foi chumbado o PEC IV, que a Comissão Europeia e a Alemanha já tinham aprovado, tendo havido mudança na governação. Os novos governantes estavam convencidos que a solução passava por um corte de gorduras e, na sua juvenil ambição e ignorância, apressaram-se a dizer que governariam com o FMI sem quaisquer problemas. O FMI veio a correr para cá e passamos a conviver com os seus funcionários – o dinamarquês Poul Thomsem, depois o etíope Abebe Selassie e, mais recentemente, o indiano Subir Lall. Juntos com os nossos gaspares e albuquerques, eles têm desgraçado o nosso país com políticas de cortes nos salários e nas pensões, com redução brutal das políticas sociais, com uma desenfreada onda de privatizações e com o aumento do desemprego, da dívida, da pobreza e da desigualdade, para além de comprometerem o nosso futuro, sobretudo daqueles milhares de jovens que continuam a sair do país. Hoje o país não é o mesmo e os portugueses estão pior, como de resto afirmou esse inteligente e esclarecido dirigente que é o montenegro.
Ontem, no aeroporto de Lisboa, segundo destaca hoje o Correio da Manhã, um zeloso funcionário do SEF ou um patriota travestido de funcionário aduaneiro, barrou o caminho ao agente do FMI que entrava em Portugal sem ter a necessária documentação em ordem. O homem do SEF fez muito bem! Parece um assunto sem importância, mas não é. Estes funcionários do FMI julgam-se de outro planeta e permitem-se entrar no nosso país e dar opinião sobre todos os nossos assuntos internos, desde o salário mínimo às privatizações, sem que ninguém os ponha na ordem. Ao menos o funcionário do SEF apertou com ele e com a sua arrogância. Esse homem devia ser promovido já pelos relevantes serviços que prestou.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A independência da Catalunha arrefece

A euforia independentista catalã está a perder fôlego segundo refere a edição de hoje do diário madrileno La Razón, ao salientar que há “menos independentistas”, com base numa sondagem que revela que, desde o passado mês de Dezembro, houve uma subida de 4 pontos percentuais nos partidários do não à independência, que agora alcançam 42,9% das intenções de voto, enquanto os partidários do sim alcançam 39,5%.
A Convergência i Unió (CiU), uma federação de partidos políticos nacionalistas de direita moderada dirigida por Artur Mas, o chefe do governo autónomo da Catalunha e líder dos independentistas, caíu naquela sondagem de 22,8% para 21,9% das intenções de voto, estimando-se que perdeu a confiança de 385 mil eleitores. A Esquerra Republicana de Cataluña (ERC), um partido que apoia a independência dos territórios de língua catalã e que é dirigido por Oriol Junqueras, tende a afirmar-se como o partido com mais apoio na Catalunha ao passar de 20,8% para 22,3% das intenções de voto. O chamado desafio soberanista de Artur Mas também perde em relação à mobilização popular para um eventual referendo, pois a participação cairia de 67,8% para 62,4%.
Porém, a sondagem revela aquilo a que o jornal chamou “uma Catalunha ingovernável”, pois no actual quadro de intenções de voto não há nenhuma maioria ou coligação "racionalmente possível". Por isso, La Razón afirma que se Artur Mas insistir no desafio de levar por diante o referendo independentista na noite de 9 de Novembro de 2014, a Catalunha sairá “política e socialmente fragmentada, profundamente dividida e economicamente na bancarrota”. Faltam pouco mais de 6 meses.

O esplendor do Oriente na joalharia goesa

Está patente no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, a exposição Esplendores do Oriente - Jóias de Ouro da Antiga Goa que apresenta uma colecção de 392 peças de joalharia hindu e cristã dos séculos XVIII e XIX. Estas peças estiveram guardadas em caixas e encerradas em cofres durante 50 anos e essa é uma história que não pode ser dissociada do panorama artístico e estético da exposição.
No dia 12 de Dezembro de 1961, perante a iminente invasão de Goa pelas tropas indianas, que veio a acontecer poucos dias depois, o gerente do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Goa, Jorge Esteves Anastácio, decidiu preservar um conjunto de bens guardados no banco, enviando-o para Lisboa no paquete Índia da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que nessa data se encontrava em Mormugão. Essa remessa de bens estava repartida por caixotes e caixas de toda a espécie, sendo constituída por jóias depositadas por particulares, por apreensões de contrabando e por cauções de pequenos empréstimos concedidos pelo BNU. 
O restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a Índia aconteceu depois de 1974, mas só em 1991 foi feito um acordo entre o BNU e o State Bank of India que permitiu que a maior parte do espólio trazido em 1961 fosse devolvido ao Estado indiano, que recebeu cerca de meia tonelada de jóias que se encontravam nos cofres, num gesto que então foi altamente elogiado na Índia. Entretanto o BNU fundiu-se com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) que herdou a parte restante dessa remessa de jóias que, 50 anos depois, foi aberta e catalogada por especialistas. Devido ao mau estado geral das peças, a CGD decidiu proceder ao seu restauro, fazendo depois a sua doação ao MNAA que as integrou no seu acervo e que até 7 de Setembro as exibirá ao público.

domingo, 20 de abril de 2014

O nosso futuro está muito comprometido

A edição de hoje do jornal La Voz de Galicia destaca em título de primeira página que “Galicia compromete su futuro al perder 120.000 jóvenes en seis años” e assinala que “o brutal colapso da população de entre 15 e 34 anos desenha um horizonte negro devido à emigração e à baixa da natalidade”.
As semelhanças sociais e culturais entre Portugal e a Galiza são enormes, mas essa semelhança também se verifica nos problemas por que passam, um dos quais é a emigração. Porém, enquanto o jornal galego denuncia que o futuro está comprometido, os jornais e os jornalistas portugueses não parecem preocupar-se com este problema, preferindo dedicar-se às pequenas coisas que não enervem o poder político. Porém, em Portugal o problema da emigração é bem mais grave do que na Galiza e, segundo o INE, só em 2012 emigraram 121 mil portugueses e de acordo com um estudo publicado em Dezembro passado, verifica-se que “40% dos portugueses admite emigrar ou já emigrou”.
Se recordarmos o ano de 2011, encontraremos vários governantes, incluindo o primeiro ministro Coelho e o seu adjunto Relvas, a aconselhar os jovens “a sair da sua zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”. Milhares deles deixaram o nosso país,  daí resultando a desertificação do território nacional e uma crescente ausência de perspectivas para o futuro. Pois são estes mesmos políticos insensíveis e ignorantes - que agora rejubilam porque a troika anda satisfeita e “os emigrantes enviam cada vez mais dinheiro” - que têm vindo a comprometer o futuro do nosso país ao mandar emigrar a mais qualificada geração alguma vez criada em Portugal.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Memória histórica no bairro da Mouraria

No coração do bairro da Mouraria, em Lisboa - um bairro por onde não convém andar sozinho e de máquina fotográfica a tiracolo -  não há só a memória do fado, da Severa e da rua do Capelão. Exactamente na Rua do Marquês de Ponte de Lima, Nº 13, está localizado um edifício de grande valor histórico e patrimonial que serviu como convento e que tem anexa a igreja Paroquial de Nossa Senhora do Socorro. O edifício foi doado pelo rei D. João III à Companhia de Jesus em 1542 e foi a primeira casa própria que esta ordem religiosa teve em todo o mundo.
A Companhia de Jesus é uma ordem religiosa cujos membros são designados por jesuítas, foi fundada em 1534 por Inácio de Loiola e mais seis companheiros, entre os quais o basco Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues, mas só foi reconhecida pelo Papa em 1540*. O rei D. João III vinha pedindo missionários ao Papa para evangelizar o Oriente e a oportunidade surgiu então. Francisco Xavier foi escolhido e veio para Lisboa, tendo partido para a Índia no dia 7 de Abril de 1541 a bordo da nau Santiago da frota de Martim Afonso de Sousa. Tornou-se o "Apóstolo do Oriente" e hoje é venerado em Goa com grande devoção, mas também um pouco por todo o Oriente. A partir daquela casa da Rua do Marquês de Ponte de Lima, onde funcionou a Primeira Cúria Provincial da Companhia de Jesus que também foi a primeira no mundo inteiro, saíram outras expedições de jesuítas, que chegaram a sítios tão longínquos como o Tibete, Macau, a China e o Japão.
Uma placa assinala a importância histórica deste edifício:
ESTA CASA DOADA POR D. JOÃO III
FOI A PRIMEIRA QUE A COMPANHIA DE JESUS
TEVE COMO PRÓPRIA NO MUNDO INTEIRO
DELA TOMOU POSSE O P. SIMÃO RODRIGUES
COM SEIS COMPANHEIROS A
5 DE JANEIRO DE 1542
EM 1553 COMEÇOU AQUI O PRIMEIRO COLÉGIO
DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL
...

 Actualmente, funciona neste edifício a Direcção de Documentação e História Militar e a Chefia do Serviço de Assistência Religiosa do Exército.

* Em 2013 o cardeal Jorge Mario Bergoglio tornou-se o primeiro jesuíta a ser escolhido para Papa da Igreja Católica, tomando o nome de Francisco.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

País de Abril

Uma das mais interessantes iniciativas que estão a assinalar a passagem do 40º aniversário do 25 de Abril foi a publicação de uma antologia poética de Manuel Alegre, que reúne 29 dos seus mais simbólicos poemas, dos quais 19 foram escritos e publicados antes de 1974. Chama-se País de Abril, tem uma tiragem inicial de 10 mil exemplares e, por acordo entre o autor e a editora Dom Quixote, o seu preço de venda é de apenas 5 euros, por forma a ter uma difusão muito alargada.
A antologia inclui alguns dos mais premonitórios poemas da Praça da Canção (1964) e d’O Canto e as Armas (1967), os livros de Manuel Alegre que inspiraram uma geração que alinhou nos movimentos de oposição ao Estado Novo, que foi moblizada para a guerra colonial ou que escolheu os caminhos do exílio, mas que se reencontrou na madrugada libertadora de 25 de Abril de 1974. Muitas vezes, a poesia de Manuel Alegre antecipou os acontecimentos, como simbolicamente acontece em Poemarma, em que o poeta parece ter antecipado em dez anos, a madrugada vitoriosa de 25 de Abril de 1974:
"Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal".
Muitos dos poemas de Manuel Alegre foram musicados e recitados em múltiplas sessões pelo país, sobretudo por Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Francisco Fanhais e Manuel Freire, entre muitos outros, que levaram a poesia até às pessoas, sendo de salientar que Amália Rodrigues foi, também, uma das vozes que cantou Manuel Alegre.
A publicação desta antologia é um acontecimento cultural relevante e uma das mais simbólicas iniciativas das comemorações dos 40 anos do 25 de Abril.