domingo, 14 de fevereiro de 2021

Donald resistiu ao segundo impeachment

Após cinco dias de julgamento e de apresentação de provas condenatórias em Washington, que pudemos acompanhar via CNN, a votação final do Senado dos Estados Unidos absolveu o ex-presidente Donald Trump da acusação de “incitamento à insurreição”. Não houve surpresas, apesar de sete senadores republicanos se terem juntado aos cinquenta senadores democratas e terem votado a favor do impeachment, mas os 57 votos a favor foram insuficientes para condenar o Donald que ainda conseguiu ter 43 votos em sua defesa. A notícia do The Washington Post é arrasante: o Senado absolveu Trump outra vez.
Este resultado é um paradoxo e uma vergonha para a democracia americana, pois mostra como muitos políticos se afastam dos princípios pelos quais foram eleitos. O líder republicano Mitch McConnell é um bom, mas infeliz exemplo dessa situação. McConnell votou pela absolvição de Trump, mas disse que ele foi “prática e moralmente responsável” pelos acontecimentos do dia 6 de Janeiro, acusando-o de ter inequivocamente provocado o motim e a invasão do Capitólio. Então o homem diz isto e depois vota em sentido contrário a estas afirmações? Faltou-lhe coragem e acabou a defender que o Senado não era o local adequado para tratar daquele assunto, mas que Donald Trump deveria ser presente a um Tribunal. Para os Democratas e em especial para Nancy Pelosi, a líder da Câmara dos Representantes, o comportamento dos Republicanos foi cobarde e mostrou falta de coragem e de moralidade.
Donald Trump foi alvo de dois processos de destituição, um caso único na história dos Estados Unidos, mas com esta infeliz decisão do Senado ele poderá recandidatar-se à presidência em 2024 e, por isso, já anunciou que o seu movimento político vai agora começar. Muitos americanos, e não só americanos, dirão “que mais nos irá acontecer”.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

As luzes e as cores do Ano Novo Chinês

O Ano Novo Chinês começa oficialmente hoje, segundo se pode ler em diferentes plataformas informativas da imprensa e da internet, isto é, inicia-se o ano 4719 do calendário chinês que terminará no dia 31 de Janeiro de 2022.
De forma diferente do que acontece com o calendário ocidental ou calendário gregoriano, estabelecido pelo Papa Gregório XIII em 1582, em que o ano corresponde a uma translacção da Terra em torno do Sol, o calendário chinês é estabelecido de acordo com as fases da Lua e a posição do Sol e, por isso, não há uma data fixa para o início do Ano Novo Chinês. No entanto, apesar desse calendário, os chineses usam desde 1912 o calendário gregoriano, como de resto se faz em quase todo o mundo, por necessidade prática das suas relações diplomáticas e do seu comércio internacional.
Significa que o calendário chinês é sobretudo uma marca cultural da milenária civilização chinesa, pois assinala as datas importantes e as grandes festividades populares que lhes estão associadas, como por exemplo o início do Ano Novo Chinês. Nesse calendário os anos têm uma representação específica que é simbolizada pelos doze signos do horóscopo chinês e, nessas circunstâncias, depois do ano ou signo do rato inicia-se agora o ano ou signo do boi ou do búfalo.
Em Macau, mesmo durante o longo período da administração portuguesa do território, as festividades do Ano Novo Chinês sempre tiveram muita cor, luz e animação, mas parece que esses festejos se intensificaram agora e que, segundo a tradição chinesa, se prolongam por duas semanas. O Jornal Tribuna de Macau assinala na sua última edição o início do Ano Novo Chinês com a frase “à espera do búfalo” e com uma sugestiva fotografia em que se destaca claramente a fachada do histórico Leal Senado de Macau, uma instituição criada pelos portugueses em 1583.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Donald livra-se do segundo impeachment

Os irresponsáveis comportamentos do ex-presidente Donald Trump e os seus incitamentos do dia 6 de Janeiro para que o Capitólio fosse assaltado, ainda estão na memória da América e do mundo. Portanto, há um grande interesse no que se está a passar nos Estados Unidos e de saber se este tipo de comportamento fica ou não fica impune.
A primeira acusação contra o comportamento de Trump partiu dos Democratas e foi facilmente aprovada no dia 13 de Janeiro na Câmara dos Representantes, onde têm a maioria. Depois, o processo passou para o Senado e houve um primeiro debate para se saber se este julgamento com vista ao impeachment era ou não era constitucional, daí resultando a esperada derrota de Trump por 56 a 44 votos, o que significa que o Senado confirmou que o julgamento de Donald Trump é constitucional e podia prosseguir. 
A partir de agora vão intensificar-se as acusações ao Donald, não para destituir um presidente que os eleitores já despediram, mas para o responsabilizar pelo assalto ao Capitólio e para o impedir de poder pensar numa recandidatura. Porém, houve apenas seis senadores republicanos que aceitaram que o julgamento de Trump era constitucional e, por isso, é altamente improvável que agora surjam dezassete senadores republicanos (de um total de cinquenta) a condená-lo e venham a votar contra ele na próxima votação. 
Nessa votação serão necessários 67 dos cem votos do Senado e isso parece ser uma miragem. A imprensa americana tem reproduzido algumas das acusações contra o Donald, que foi o inciter in chief, que a sua atitude foi deliberated e premeditated ou, ainda, como afirma o The Wall Street Journal, que ele inflamed and incited o ataque ao Capitólio.
Ainda vamos esperar alguns dias mas, provavelmente, Ronald Trump não vai ter o castigo que merece. Os Estados Unidos precisavam de dar outro exemplo ao mundo. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Como a Índia está a combater o covid-19

O jornal Hindustan Times que se publica em Nova Delhi desde há quase cem anos, anuncia hoje que, pela primeira vez desde o dia 11 de Maio, não se registaram na cidade quaisquer óbitos por covid-19, apesar de se continuarem a registar novos casos de infecção, embora em menor grau do que antes. Numa cidade cuja área metropolitana tem mais de vinte milhões de habitantes, o facto é realmente notável e até surpreendente porque, apesar de todas as precauções tomadas pelas autoridades e pela população, é difícil conceber que uma tão grande massa populacional esteja livre de contágios.
A Índia tem actualmente cerca de 1350 milhões de habitantes, quase tantos como a China que é o país mais populoso do mundo. O covid-19 foi detectado pela primeira vez no dia 30 de Janeiro de 2020 e, desde então, registaram-se mais de 155 mil óbitos, o que é o quarto valor mais alto do mundo depois dos Estados Unidos, do Brasil e do México. Entretanto, a farmacêutica indiana Bharat Biotech já produz a sua própria vacina contra o covid-19 que tem o nome de Covaxin, que foi aprovada para uso de emergência, apesar de ainda não serem conhecidos os resultados definitivos dos seus testes de eficácia. Apesar disso, a vacina começou a ser aplicada na Índia e o fabricante espera exportá-la para o Brasil e para os Emirados Árabes Unidos nas próximas semanas. Quando vemos que o número de mortes por milhão de habitantes é de 117 na Índia e que em Portugal atinge 1373, poderemos interrogar-nos porque será, mas eu não tenho resposta.
Uma curiosidade final: metade da primeira página do Hindustan Times é ocupada com um anúncio dos relógios Rolex, o que significa que, mesmo em tempos de pandemia, a Índia está optimista e tem mercado para esse produto de grande luxo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O restauro dos Painéis de São Vicente

A edição de hoje do jornal Público destaca na sua primeira página uma imagem dos Painéis de São Vicente, com a notícia que estão a ser restaurados “para nos devolver o original”. É uma grande notícia a relatar um grande acontecimento, o que aqui se salienta porque, por vezes, acontecem grandes manchetes com relatos ou notícias de não-acontecimentos. 
Portanto, o jornal está de parabéns por dedicar a sua manchete e uma parte do seu espaço ao restauro de uma peça notável do nosso património móvel, o que não é vulgar na imprensa portuguesa
Trata-se de um políptico composto por seis painéis, que se julga ter sido executado circa 1470 por Nuno Gonçalves e que foi casualmente descoberto em 1882 no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora, encontrando-se actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Com mais de quinhentos anos de idade e com evidente necessidade de restauro, tornou-se necessário fazer um diagnóstico correcto e ouvir especialistas nacionais e estrangeiros, para se avaliar o que deve ser feito, isto é, saber até onde devem ir os técnicos de restauro na sua busca da pintura original e na correcção dos eventuais repintes feitos em anteriores intervenções de restauro. Hoje o restauro utiliza conhecimentos científicos e recorre a múltiplas técnicas que asseguram uma superior qualidade do restauro, o que permite esperar que a operação decorra com o desejado sucesso.
O projecto iniciou-se no dia 18 de Maio e prevê-se que tenha uma duração de dois anos, devendo assegurar a preservação de uma das maiores obras da pintura portuguesa e restitui-la ao seu aspecto original. 

A protecção ao grande condor-dos-andes

O condor ou condor-dos-andes é a maior ave voadora do nosso planeta e tem 3,3 metros de envergadura das suas asas. 
O seu habitat é a extensa cordilheira dos Andes, na América do Sul, onde desempenha um papel muito simbólico na cultura, no folclore e na mitologia das regiões andinas, pelo que a sua imagem integra os brasões oficiais da Colômbia, do Equador, da Bolívia e do Chile. Porém, o condor é cada vez mais uma espécie em vias de extinção devido à progressiva perda do seu habitat natural e ao facto de ser vítima de envenenamento provocado pelas carcaças abandonadas por caçadores. Perante este quadro, a protecção ao condor-dos-andes faz parte de muitos programas nacionais e alguns países criaram programas de reprodução em cativeiro. 
No caso da Colômbia, segundo anuncia hoje o jornal La Patria, que se publica na cidade de Manizales que fica situada no centro ocidental da Colômbia, os registos indicam que, em todo o país, haverá apenas 130 condores em ambiente selvagem. Por isso, no próximo fim-de-semana vai realizar-se o primeiro recenseamento à escala nacional para obter dados concretos sobre a população de condores, para ajudar à conservação da espécie. Serão contados uno a uno. Naturalmente, o destaque dado pelo jornal La Patria é um estímulo para que o recenseamento tenha sucesso e para que a população dê o seu contributo para a preservação da espécie.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

O golpe na Birmânia e Aung San Suu Kyi

O tempo dos golpes de estado militares já passou e, por isso, os acontecimentos que no início da passada semana ocorreram na Birmânia, surgem ao arrepio da História.
A Birmânia, também chamada Burma e que, desde 1989, tomou o nome de Myanmar, é um país budista que tem uma história complexa, sobretudo depois de ter feito parte da Índia britânica ou Raj, entre 1885 e 1948, data em que se tornou independente.
Um golpe de estado militar impôs uma ditadura ao país em 1962, mas sob a pressão internacional, em 1990 houve eleições que foram ganhas pela senhora Aung San Suu Kyi e a NLD – National League for Democracy, com uma campanha em que defendiam a restauração da democracia no país. O regime militar não aceitou os resultados, prendeu-a e manteve-a presa no seu domicílio durante 15 anos, apesar de ter recebido o Prémio Nobel da Paz em 1991. Finalmente, após 49 anos, em 2011 os militares anunciaram o abandono do poder. Houve eleições em 2015 e a senhora Aung San Suu Kyi e a NLD voltaram a ganhar as eleições, mas ela foi impedida constitucionalmente de assumir a chefia do Estado porque os seus filhos têm nacionalidade estrangeira, pelo que foi criado o cargo de Conselheiro de Estado, que ela ocupou com poderes semelhantes aos do Primeiro-Ministro. A vida política birmanesa parecia correr normalmente e, no passado mês de Novembro, a senhora Aung San Suu Kyi e a NLD voltaram a ganhar as eleições. Os militares não gostaram e, no dia 1 de Fevereiro, tomaram o poder, tendo detido o presidente Win Myint, a conselheira Suu Kyi, muitos membros do NLD e decretado o estado de emergência. Aparentemente, só a China apoiou este golpe para proteger os seus enormes investimentos no país, enquanto as forças democráticas, os estudantes, o pessoal de saúde e outros sectores da população têm vindo para as ruas para contestar a ditadura militar e para apelar à desobediência civil. 
Hoje, o jornal francês Libération dedica a sua primeira página à contestação à ditadura militar birmanesa, à detenção de Aung San Suu Kyi e ao cri du peuple birman.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Quando as pistas da neve se tornam dunas

O noticiário corrente da imprensa dos países da Europa ocidental está centrado na evolução da pandemia e nos problemas com a falta de vacinas ou com a sua abusiva utilização, para além das coisas do futebol, parecendo por vezes que não há outros assuntos com interesse. Porém, diversos jornais franceses destacam hoje um fenómeno surpreendente e invulgar ocorrido nas regiões sudeste e leste do país, que “pintou” a paisagem de amarelo alaranjado. Tratou-se do efeito do siroco, um vento quente e seco, que sopra desde o deserto do Saara, muitas vezes sob a forma de tempestades de areia e que habitualmente se dissipa sobre o mar Mediterrâneo, embora por vezes atinja o sul da Itália e mesmo as praias da Riviera francesa.
O fenómeno acontece nos meses de Verão mas muito raramente, mas desta vez aconteceu em pleno Inverno e atingiu diversas regiões francesas, sobretudo a Auvérnia-Ródano-Alpes e a Lorena, a mais de quinhentos quilómetros de distância. No departamento de Isère e na sua capital que é a cidade de Grenoble, “le ciel est devenu jaune”, segundo salienta o jornal local Le Dauphiné, enquanto na vizinha estação de desportos de Chamrousse houve chuva de areia e as montanhas que estavam cobertas de neve se transformaram em dunas, pelo efeito da queda de partículas de areia em suspensão, como mostra uma fotografia que o jornal publicou em primeira página. O fenómeno não é nada comum, pelo que até parece tratar-se de mais um efeito das alterações climáticas que se estão a verificar no nosso planeta.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Os cinco sentidos em tempo de pandemia

Em vez de insistir nas notícias sobre as eventuais irregularidades na distribuição das vacinas, ou sobre a falta de computadores portáteis nas escolas ou, ainda, sobre os resultados do futebol no dia anterior, o jornal Público destaca as especiarias na primeira página da sua edição de hoje. Num tempo de uma enorme especulação jornalística, quando não de descaradas e desonestas mentiras numa competição pelo sensacionalismo e de luta pelas audiências, trata-se de uma boa opção editorial daquele diário, até porque todos começamos a ficar cansados de ouvir tantos irresponsáveis que nos entram em casa através das televisões e de ver manchetes de jornais que nos querem fazer crer que tudo corre mal no país, o que não é verdade.
A imagem da capa do jornal Público recorda-nos os cinco sentidos de que o ser humano dispõe, que lhe facilitam o convívio com o ambiente que o rodeia – visão, audição, olfato, paladar e tacto – permitindo-lhe a captação de imagens, sons, sabores, odores e formas.
Assim, um bailado desperta-nos a visão, a música alimenta-nos a audição e um perfume estimula-nos o olfato, enquanto as especiarias nos entusiasmam não só com a diversidade das suas cores e com a intensidade dos seus odores mas, sobretudo, porque são um estímulo incontornável para o paladar.
Em tempos de pandemia e de confinamento, a activação dos nossos sentidos é uma necessidade para a manutenção de uma saudável forma física e mental, não só para resistir aos efeitos da crise pandémica, mas também para evitar os efeitos perniciosos das distorções da comunicação social e de muitos dos seus agentes. Por isso, hoje vou exercitar o meu paladar e vou recorrer ao take away, procurando consolar-me na ementa do Delhi Darbar, ali na lisboeta Avenida de Roma.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Marta Temido, a pandemia e o aplauso

Atravessamos uma enorme crise pandémica cujas consequências vemos expressas todos os dias em comunicados que nos dão a dimensão de uma tragédia, mas para além desta realidade há uma crise económica e social que se vai revelando e cujos contornos são imprevisíveis. 
Vivemos num templo absoluto de incerteza para o qual não estávamos preparados e, quando estas situações acontecem, revelam-se as pessoas que se mostram à altura das circunstâncias e aquelas que “abandonam o barco”, que fogem às suas responsabilidades e se refugiam na crítica ao que corre menos bem.
Na primeira linha deste combate estão o SNS e os profissionais de saúde que, todos os dias, se arriscam nos hospitais e nos centros de saúde, mas do outro lado está a irresponsável crítica das ordens profissionais, o oportunismo dos que pretendem tirar vantagem da situação que vivemos e, sobretudo, o lamentável comportamento de muitos jornalistas, muitas vezes mentiroso, manipulador e ausente de ética profissional. Numa altura em que deveriam cumprir o seu dever social de transmitir confiança à população e apoiar os esforços das autoridades de saúde, muitos jornalistas fogem ao esclarecimento dos telespectadores, dos ouvintes ou dos leitores, procurando descobrir sensacionalismo naquilo que sai da norma ou que não correu bem. Alguém já chamou a este vergonhoso comportamento o “assador mediático”, para o qual contribuem jornalistas e comentadores irresponsáveis. Naturalmente que há erros mas, tal como dizia Bento de Jesus Caraça, que não receava o erro porque estava sempre pronto a emendá-lo, também agora se emendam os erros de um plano que, por definição, tem que ser flexível e ajustado às novas evidências.
Assim, aqui se presta homenagem a Marta Temido, a corajosa Ministra da Saúde, que para além de enfrentar as incertezas desta pandemia e os inoportunos ataques de alguns adversários políticos, ainda tem que conviver com muitos daqueles que desprestigiam a ética e a deontologia jornalísticas. Bravo!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Cristiano Ronaldo, o grande recordista

O futebol é um dos fenómenos culturais mais importantes nas sociedades modernas, pois atrai o interesse geral e alimenta uma imprensa desportiva que trata de esmiuçar tudo o que diz respeito ao jogo e, em especial, em relação aos jogadores, aos técnicos, às claques e a todo o fait divers dessa actividade que, ao mesmo tempo, é um desporto, um espectáculo e um negócio.
A imprensa desportiva dá uma enorme importância às estatísticas, sobretudo às estatísticas do golo, que é o momento central do futebol. Os jogadores que marcam os golos, conhecidos como artilheiros ou pontas de lança, tornam-se as figuras principais do espectáculo e as estatísticas tratam de nos dizer quem marcou mais golos com o pé esquerdo ou com o pé direito, de cabeça ou de livre directo. Os outros jogadores parecem ter pouca importância, a não ser o guarda-redes quando defende um penalti ou quando dá um frango.
Neste quadro, há estatísticas para todos os gostos. Porém, segundo nos revelam hoje as estatísticas do diário espanhol Marca, os dois golos que Cristiano Ronaldo ontem marcou em Milão à equipa do Inter na primeira mão da Taça de Itália, tornaram-no o maior goleador da história do futebol, tendo ultrapassado o checo Josef Bican e o famoso Pelé, que partilhavam o topo desta lista com 762 golos. O jornal espanhol descrimina os golos de Cristiano Ronaldo: 102 com a selecção nacional, cinco com o Sporting, 118 com o Manchester United, 451 com o Real Madrid e 87 com a Juventus. Nenhum jornal português, desportivo ou generalista, falou desta performance de Cristiano Ronaldo, mas não há dúvidas ele é o mais importante português da actualidade e que a sua notoriedade e prestígio internacionais não deixam espaço para mais ninguém.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Uma tempestade de neve em Nova Iorque

A cidade de Nova Iorque está aproximadamente na mesma latitude da cidade de Lisboa, mas por causa das correntes marítimas e de outros factores meteorológicos, as temperaturas nas duas cidades dos dois lados do Atlântico têm diferenciais da ordem dos 15 a 20 graus durante o inverno. Por isso, todos os anos, vemos os grandes nevões que cobrem Nova Iorque e a região nordeste dos Estados Unidos, enquanto na orla continental portuguesa não há quedas de neve, as temperaturas são amenas e por vezes há dias primaveris.
Este ano as tempestades de neve foram mais intensas do que habitualmente e a cidade de Nova Iorque está em estado de emergência, com a neve a acumular-se desde há cerca de 48 horas e a atingir meio metro de altura. Como é habitual, a rede de transportes está bloqueada, enquanto os aeroportos e as escolas estão encerrados por algumas horas ou dias e, este ano, a tempestade fez com que a campanha de vacinação em curso na cidade e na região tivesse que ser suspensa, tal como as consultas marcadas nos hospitais.
O New York Post destacou hoje a notícia da tempestade de neve e chamou-lhe a snovid-21, por analogia com a covid-19, salientando que ao confinamento mais ou menos forçado devido ao covid-19, se juntou agora o confinamento devido ao snovid-21, embora a neve tenha tornado o cenário mais agradável à vista. O jornal ilustra a sua capa com um nova-iorquino protegido contra o frio e diz que, neste caso, eles até já têm máscaras. Em tempo de tanta angústia não fica mal um pouco de humor…

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palmeiras ganhou e o exagero é português

Em tempos da preocupante pandemia que não nos larga, com as televisões a insistir no lançamento do pânico sobre a população através de um condenável sensacionalismo, o futebol é um dos escapes que vamos tendo nos espaços do nosso confinamento, para além da leitura, da música ou da escrita. 
O futebol, enquanto espectáculo colorido, dinâmico e por vezes com a harmonia de um bailado, suscita muito entusiasmo e, se não nos deixarmos levar pelo fanatismo e pelos excessos dos dirigentes, dos jornalistas e dos comentadores, é realmente um espectáculo muito atraente e divertido. 
Os portugueses gostam de futebol e actualmente a sua selecção é campeã da Europa. Há jogadores e treinadores portugueses um pouco por todo o mundo e, muitos deles, com reconhecido sucesso. Ontem, um desses treinadores, que se encontra no Brasil e se chama Abel Ferreira, levou a equipa da Sociedade Esportiva Palmeiras de S. Paulo, ou simplesmente Palmeiras, à vitória na Taça Libertadores da América, que é a maior prova entre clubes profissionais de futebol da América do Sul e uma espécie de Taça dos Campeões Europeus. A prova desperta grande entusiasmo em toda a América do Sul e os argentinos e os brasileiros, com 25 e 20 vitórias para cada um, têm dominado a competição que já foi ganha por equipas de sete diferentes países.
Tanto a imprensa brasileira como a imprensa portuguesa destacam essa notícia nas suas edições de hoje, mas o jornal A Bola ultrapassa todos e transforma o treinador Abel Ferreira num conquistador, o que é um exagero, mesmo para um jornal que como o seu nome diz, só se interessa pela bola de futebol. É mesmo um "patrioteirismo sem sentido" e a euforia brasileira foi bem mais contida. Portanto, parabéns ao treinador, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Vendée Globe 2021: oitenta dias de mar

Começaram a chegar a Les Sables-d’Olonne, na costa atlântica francesa, os participantes na 9ª Vendée Globe, a famosa regata em que os participantes fazem a circum-navegação do planeta em monocascos e em solitário, sem escala e sem assistência, passando obrigatoriamente pelos três cabos de referência do hemisfério sul – cabo da Boa Esperança, cabo Leeuwin e cabo Horn. 
As imagens transmitidas pelas televisões mostraram as dificuldades de uma prova desta natureza, longa, solitária e sem assistência, em que os participantes enfrentam todas as meteorologias, incluindo tempestades e calmarias, mares agitados e ausências de visibilidade. Terminar uma prova destas é um feito náutico e desportivo notável. 
Nesta edição, houve 33 velejadores que partiram no dia 8 de Novembro de Les Sables-d’Olonne. Ontem ainda estavam em prova 25 concorrentes e oito deles cortaram a linha de chegada em menos de 24 horas, o que mostra como a prova foi competitiva. Yannick Bestaven, um velejador francês de Saint-Nazaire de 48 anos de idade, foi o vencedor com o veleiro Maître Coq IV e concluiu a prova em 80 dias, 3 horas, 44 minutos e 46 segundos, o que significa que não foi batido o record de 74 dias, 3 horas, 35 minutos e 46 segundos conseguido em 2017. 
Apesar da melhoria tecnológica das embarcações, o factor determinante nesta prova é o vento, pois determina as velocidades dos veleiros e condiciona as rotas, tornando-as mais ou menos longas. Assim, enquanto em 2017 o navegador francês Armel Le Cléac’h percorrera 21.638 milhas, neste ano de 2021 o velejador Yannick Bestaven percorreu cerca de 28.584 milhas, isto é, mais alguns milhares de milhas, pelo que gastou mais seis dias na prova. 
Hoje o jornal L’Équipe presta-lhe uma justa homenagem.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O património ameaçado em Velha Goa

Embora o território de Macau tivesse gozado sempre de grande autonomia e quase pudesse ser classificado como um estado-nação governado por um Senado ou assembleia de moradores, durante os primeiros três séculos em que hasteou a bandeira portuguesa dependeu do vice-rei da Índia, instalado em Goa. Essa ligação administrativa e institucional durou até 1844 quando foi criada a província de Macau, Timor e Solor, dirigida por um governador nomeado em Lisboa, mas dessa relação histórica ficaram memórias e empatias, até porque os goeses são, ainda hoje, uma importante comunidade no território de Macau. Por isso, os jornais macaenses de língua portuguesa tratam muitas vezes os assuntos culturais goeses, sobretudo em relação à defesa e preservação da língua e do património portugueses em Goa. 
Ontem o jornal hoje macau publicou um artigo intitulado “Valha-nos Portugal”, com chamada de primeira página, em que o arquitecto goês Fernando Velho apela à intervenção de peritos portugueses para salvar a Basílica do Bom Jesus em Velha Goa, que está ameaçada pelas chuvas. Este monumento foi construído entre 1594 e 1605, faz parte do grupo de igrejas e conventos que a Unesco classificou em 1986 como Património Mundial e alberga o túmulo em prata de S. Francisco Xavier, considerado como o apóstolo do Oriente. 
No entanto, a preservação do património de origem portuguesa nos países da orla do oceano Índico, é um problema de cada um dos países onde se localizam. Se for do seu interesse, esses países podem pedir o apoio das instituições portuguesas. Porém, sejam elas públicas ou privadas, não podem ter qualquer intervenção nesse domínio sem que as autoridades locais a solicitem ou autorizem. Há protocolos culturais com alguns desses países, nomeadamente com a Índia. Que sejam activados ou reactivados. Que a Basílica do Bom Jesus e outros monumentos de origem portuguesa possam ser preservados.