terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma tempestade perfeita ameaça o Brasil

O Brasil não é só um grande país, mas é também um familiar que nos é próximo ou mesmo um irmão que o mar oceano mantém separado de nós. Entre o Brasil e Portugal há um passado e uma herança comuns que incluem Cabral e Pero Vaz de Caminha, mas também Estácio de Sá, o Padre António Vieira, o Tiradentes, Pedro de Bragança, José Bonifácio e Machado de Assis. O Brasil tem um destacado lugar na nossa árvore genealógica e na nossa matriz cultural, no nosso imaginário histórico e nos afectos mais profundos da alma lusitana, não só através da língua comum, mas também através de muitos factores de identidade cultural visíveis no património das suas cidades históricas. 1808, 1822 e 1889 não são apenas títulos de livros de Laurentino Gomes, mas são datas importantes da nossa vivência comum.
Há milhares de brasileiros que escolheram esta margem do Atlântico para viver, mas também há milhares de portugueses que se acolhem no grande Brasil. Do Brasil vieram a boa música, o futebol artístico, as novelas, a feijoada e a caipirinha. Se nós somos o Brasil da Europa, o Brasil bem pode ser um Portugal dos trópicos.
Hoje o Brasil vive dias difíceis e os indicadores da sua economia apontam para uma recessão prolongada, com excessos na despesa pública e um enorme descontrolo da inflação. O crescimento económico estagnou e o mesmo acontece com o investimento estrangeiro. A incerteza no futuro é grande e há uma enorme desconfiança nos governantes. Dilma Rousseff e o seu governo têm inacreditáveis índices de popularidade. As desigualdades sociais acentuam-se. Os brasileiros já sentem dificuldades no seu quotidiano com o aumento do custo de vida, o crescente desemprego e o número cada vez maior de empresas e famílias insolventes, mas não vêem saída fácil para este quadro. A somar a todas estas situações, há o mensalão, o petrolão e, agora, o lava-jacto. Como titula a revista Veja, o Brasil enfrenta uma tempestade perfeita. Os países, tal como as pessoas, atravessam bons e maus momentos. É a vida. Aqui em Portugal bem sabemos o que são bons e maus momentos económicos e o que são políticos medíocres e incapazes e, por isso, estamos certos que os brasileiros se saberão defender e que vão ultrapassar a tempestade perfeita que ameaça o seu país.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Espanha: as touradas estão acima de tudo

Toda a península Ibérica tem estado sob intenso calor que, nalgumas regiões, tem atingido temperaturas da ordem dos 40 graus. É o tempo das férias e da deslocação de muitos milhares de espanhóis para as praias, sobretudo na costa mediterrânica, mas também é o tempo em que os centros urbanos ficam desertos durante as horas de maior calor e da siesta.. Os jornais reflectem esta realidade com notícias que são ilustradas com fotografias das ruas desertas e das praias superlotadas, porque essa é realmente a imagem mais conhecida do Agosto espanhol. Porém, a imprensa espanhola também trata dos temas internacionais e de outros temas nacionais, como as pré-temporadas futebolísticas, o soberanismo e as eleições autonómicas na Catalunha e, em especial, as fiestas. As fiestas fazem parte da identidade espanhola e realizam-se por todo o país, havendo cinco delas que estão classificadas pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Duram vários dias com muita gente, muita animação e muitas luzes, concertos, gastronomia, provas desportivas, fogo de artifício e… corridas de touros.
Uma das mais apreciadas festas espanholas é a Fiesta Colombina de Huelva, que celebram Cristóvão Colombo e os seus companheiros, alguns dos quais portugueses, que largaram de Palos de la Frontera no dia 3 de Agosto de 1492 em busca das Índias e acabaram por descobrir um novo mundo. Hoje vários jornais espanhóis, sobretudo na Andaluzia, noticiaram com grande destaque e em primeira página a tourada ontem realizada em Huelva, na Plaza de La Merced, em que os diestros Ponce e Manzanares triunfaram, cortaram duas orelhas cada um e sairam em ombros da praça. O caso também foi notícia noutras regiões e, no caso do  madrileno ABC, uma fotografia ocupou toda a capa do jornal a mostrar a importância que os espanhóis dão às touradas.

domingo, 2 de agosto de 2015

Aí estão as Ruas Floridas do Redondo’15


Redondo, 1 de Agosto de 2015
As mais esperadas festas do Redondo – as Ruas Floridas – foram inauguradas ontem às 16:00 horas, decerto sob um sol abrasador e com cerca de 40 graus de temperatura, pelo que as visitei logo de manhã, quando ainda se davam os últimos retoques na preparação daquelas ornamentações de papel colorido que a imaginação humana consegue idealizar e concretizar. As temperaturas eram ainda relativamente amenas e os milhares de visitantes que haveriam de chegar em autocarros e automóveis só começaram a aparecer mais tarde, ou seja, é muito avisado que se vá cedo para estas coisas e, com certeza, acompanhado por bons amigos. Como sempre, a vila do Redondo estava preparada e mobilizada para a festa, com parques de estacionamento devidamente sinalizados, com as ruas limpas, as casas pintadas e com abundante distribuição de folhetos informativos, tornando muito agradável a circulação pedestre dos visitantes. O elemento central das festas são as suas ruas floridas que nos deslumbram e encantam com uma  ornamentação feita de papéis de muitas cores, laboriosamente transformados em flores pela imaginação dos redondenses. Embora não haja competição entre ruas, o facto é que o visitante acaba por hierarquizá-las em função dos temas, das cores e da criatividade. Como habitualmente, cerca de duas dezenas de pequenos restaurantes anunciam as suas especialidades e, para o verdadeiro gourmet é a oportunidade para juntar ao deslumbramento que são as ruas floridas, o outro deslumbramento que é o festival de sabores da cozinha local com o gaspacho alentejano, a sopa de cação, o cozido de grão, as migas à alentejana, os pézinhos de coentrada, o ensopado de borrego e tantas outras iguarias. Nessas circunstâncias, os amigos são ainda mais desejados.
As Ruas Floridas são, realmente, uma grande festa e um grande evento da cultura popular e vão decorrer até ao dia 9 de Agosto. Como dizem na televisão, é um programa a não perder.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A morte do leão que indignou o mundo

A imprensa internacional, sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido, tem divulgado o enorme escândalo que foi a notícia da morte do leão Cecil, que vivia no Parque Nacional de Hwange e era o mais famoso leão do Zimbabué, o qual foi abatido por um caçador. Esse caçador foi identificado como Walter Palmer, um dentista americano de 50 anos de idade, residente em Mineápolis, no estado do Minnesota, que tem como hobby a caça de leões, ursos, morsas, rinocerontes ou renas, entre outros animais selvagens, utilizando o arco e a flecha como arma, tendo também o hábito de divulgar na internet as fotografias dos seus troféus de caça. Assim se soube deste caso, a que o diário nova-iorquino Daily News se referiu como um “assassinio cobarde” que despoletou a “ira do mundo” e que tornou Walter Palmer “o mais odiado”.
Desta vez Palmer viajou para o Zimbabué para caçar no Parque Nacional de Hwange. Uma noite avistou o leão Cecil na área do parque e atingiu-o com uma flecha, mas apenas o feriu ligeiramente. Como se encontrava dentro do parque natural, ele e os seus dois guias-caçadores, ataram um animal morto ao jipe em que se deslocavam e arrastaram-no durante cerca de meio quilómetro. O objetivo era untar o terreno com o cheiro do animal de modo a atrair o leão. A armadilha resultou e, cerca de 40 horas depois, Cecil apareceu. Foi morto, cortaram-lhe a cabeça e tiraram-lhe a pele. Palmer recolhera mais um troféu e fez-se fotografar com ele. O  escândalo rebentou. Palmer disse que tinha confiado nos seus dois guias locais para tratarem da legalidade da caçada, que não sabia que aquele leão tinha nome e que, assim, não tinha violado a lei do Zimbabué.
Este caso não é invugar. A caça tem muitos adeptos e, por todo o mundo, existem grandes fazendas ou coutadas onde os animais nascem e crescem para serem abatidos por caçadores que, para seu gozo, pagam 14 mil dólares para abater um búfalo ou 50 mil dólares para abater um leão, que parece ter sido o montante que Walter Palmer pagou para esse seu destemido e corajoso acto de matar um leão com uma flecha, embora com dois guias-caçadores profissionais ao seu lado para prevenir qualquer eventualidade... Eu critico fortemente estes inimigos dos animais, mas também critico os amigos dos animais que são responsáveis pelo atentado à saúde pública urbana que é a inundação de dejectos caninos na via pública.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A cidade de Ceuta e a memória lusitana

A edição de ontem de El Pueblo de Ceuta está ilustrada com uma fotografia de um político local em que se destaca o brasão português do século XV, que faz parte integrante da bandeira da cidade autónoma de Ceuta.
Essa imagem é um bom pretexto para aqui evocarmos o dia 28 de Julho de 1415, data em que o rei D. João I anunciou o destino, até então era secreto, das mais de duzentas embarcações com cerca de 20 mil cavaleiros e soldados que tinham saido de Lisboa e que estavam fundeadas na baía de Lagos. Segundo a Crónica da Tomada de Ceuta de Gomes Eanes de Zurara, no dia anterior “foi a frota toda juntamente ancorar na baía de Lagos” e, nesse dia 28 de Julho, “saiu el-Rei em terra e teve logo ali seu conselho, no qual foi determinado que se divulgasse, claramente, toda a verdadeira informação daquele movimento, porém foi mandado ao Mestre Frei João Xira que pregasse, porque todo o povo pudesse verdadeiramente saber qual era a intenção, por que se el-Rei movera a fazer aquele ajuntamento”.
Menos de um mês depois, na manhã de 22 de Agosto de 1415, estava concretizada a tomada de Ceuta e foi então que “João Vaz de Almada foi pôr a bandeira da cidade de Lisboa sobre as torres do castelo”. Significa que, simbolicamente, a bandeira de Lisboa gironada de oito peças de negro e branco e o brasão de armas português do século XV, estão desde há quase 600 anos na Sempre Nobre, Leal e Fidelíssima Cidade de Ceuta.
Não deixa de ser uma curiosidade interessante da expansão portuguesa. Apenas isso, porque depois de 1640 os ceitis não reconheceram D. João IV e escolheram a soberania espanhola.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Estamos quase aliviados dele!

Ontem à noite, quando navegava pela internet para melhor me informar sobre o estado da nação, deparei-me com um blogue muito interessante onde, sob o título “Estamos quase aliviados dele”, nos era apresentado um contador automático que indicava o número de dias, horas, minutos e segundos que faltavam para ficarmos “livres de Cavaco”. Achei essa informação muito interessante e oportuna. Aníbal Cavaco Silva, um economista natural de Boliqueime, venceu as eleições presidenciais que se realizaram no dia 23 de Janeiro de 2011. Estavam inscritos 9 milhões e meio de eleitores, mas houve 53,56% que se abstiveram. O candidato vencedor obteve 53,1% dos votos expressos, embora os 2 209 227 votos que recebeu tenham correspondido apenas a 23% dos eleitores inscritos. Para uma reeleição, foi uma vitória pouco expressiva. Pouco tempo depois realizaram-se eleições legislativas e, pela primeira vez na nossa história democrática, concretizou-se o sonho de Sá Carneiro: uma Maioria, um Governo, um Presidente. O resultado foi o unanimismo e isso foi muito mau.
Era um tempo difícil, com o país humilhado perante a troika e sujeito a um duro programa de assistência económica e financeira, com um governo a ir mais longe do que a própria troika. Os portugueses pagaram um preço bem elevado. Aumentaram-lhes os impostos. Cortaram-lhes os salários e as pensões. Mudaram-lhes as leis laborais para facilitar os despedimentos. Dificultaram-lhes o acesso à saúde, à educação e à justiça. A mentira e a manipulação estatística tornaram-se prática corrente de uma governação baseada na propaganda e na mentira. Desemprego. Emigração. Falências. Despejos. Pobreza. O desespero tomou conta de muitos portugueses.
Nesse quadro, era necessário que em Belém estivesse um provedor dos cidadãos ou um árbitro das disputas político-partidárias, mas isso não aconteceu. Aquele que um dia se intitulou “o homem do leme”, acomodou-se às suas vaidades e mordomias, tornando-se um delegado subalterno do governo. Viajou pelo mundo com alargadas comitivas como se o país fosse rico e rodeou-se de pelotões de assessores. Seguiu à risca a fórmula “uma Maioria, um Governo, um Presidente“, não teve vontade própria e adaptou-se a uma agenda ideológica imposta pelas circunstâncias. Esqueceu-se que devia ser “o presidente de todos os portugueses” e não ser apenas o presidente de uma maioria política e não sociológica. O seu compromisso para defender a soberania e a independência nacional foi ultrapassado por um seguidismo por vezes bajulador e contabilístico. Nunca a popularidade presidencial foi tão baixa.
Eu nunca esqueci aquela pobreza cultural de não saber quantos cantos têm Os Lusíadas, nem o vazio cultural dos seus improvisos perante as câmaras da televisão. As suas declarações públicas são muitas vezes despropositadas e algumas vezes são mesmo lamentáveis, como nos casos do BES, da crise grega ou da privatização da TAP. Este homem foi o nosso “azar dos Távoras”, como disse Carlos do Carmo. Alguém sugeriu recentemente que “ajudemos Cavaco a acabar o seu mandato com dignidade”. Não sei se ainda é possível. O seu mandato termina no dia 23 de Janeiro de 2016. Faltam pouco menos de 180 dias. Então, ficaremos aliviados desta pesadelo. Já não regressará a Boliqueime. Os seus amigos esperam-no na Aldeia da Coelha.

domingo, 26 de julho de 2015

Nora Tyson, uma almirante bem poderosa

Na passada sexta-feira em San Diego, a bordo do USS Ronald Reagan, a Vice-Almirante Nora Tyson assumiu o cargo de comandante da 3ª Esquadra Americana, que agrega as forças navais americanas do Pacífico Ocidental desde a costa oeste dos Estados Unidos até à linha internacional de mudança de data. O jornal The San Diego Union-Tribune salientou esta “historic change for Navy” e referiu que se trata da primeira mulher a comandar uma Naval Fleet.
Nora Tyson é natural de Memphis, Tennessee, alistou-se na Marinha em 1979 e foi recentemente promovida aa posto de Vice-Almirante. No seu currículo naval constam muitas comissões de carácter operacional, com destaque para o comando do USS Bataan (LDH-5), um Landing Helicopter Dock ou navio de assalto anfíbio da classe Wasp, mas também a participação em operações no golfo Pérsico e o comando de forças navais.
A Marinha dos Estados Unidos tem ao seu serviço cerca de 45 mil mulheres que representam cerca de 16% do seu efectivo total, das quais cerca de 8 mil são oficiais. Nessas circunstâncias é normal que uma mulher atinja tão elevado cargo na estrutura operacional da Marinha Americana. A US Third Fleet que a Vice-Admiral Nora Tyson agora comanda é responsável por uma área de grande importância estratégica para os Estados Unidos, cobrindo a área do norte e do ocidente do oceano Pacífico, incluindo o Alaska, o estreito de Bering, as Aleútas e o sector do Ártico. É uma das seis esquadras permanentes americanas e o seu dispositivo dispõe de 4 porta-aviões (USS Nimitz, USS Carl Vinson, USS Ronald Reagan e USS John C. Stennis), mas também alguns cruzadores, muitas fragatas, submarinos, aviões, helicópteros e muitos soldados. É caso para perguntar: quem é a mulher mais poderosa do planeta?

Tour de France 2015: espectáculo único

A 102ª edição da Volta à França em bicicleta termina hoje em Paris depois de terem sido percorridos 3.360 quilómetros por estradas holandesas, belgas e francesas. Durante 22 dias, um pelotão de 198 ciclistas repartidos por 22 equipas proporcionou um espectáculo desportivo de alto nível e de grande adesão popular. Através da televisão tivemos a possibilidade de acompanhar a prova com transmissões de alta qualidade técnica devidamente comentadas, que nos permitiram “estar” realmente dentro do pelotão, acompanhando os ciclistas, as suas lutas e as suas fraquezas. Essas reportagens também permitiram acompanhar o inigualável entusiasmo de milhões de franceses pelo Tour de France que, nas bermas das estradas ou no alto das montanhas dos Pirinéus e dos Alpes, aplaudiram os seus ídolos, mas essas imagens também permitiram apreciar as paisagens deslumbrantes e um notável património histórico e cultural disseminado por todo o território francês. Provavelmente, nenhum outro evento desportivo como o Tour de France contribui tanto para a promoção de um país, através da beleza das imagens que transmite para todo o mundo durante muitas dezenas de horas. Esta 102ª edição, que hoje termina, caracterizou-se pelo seu percurso de grande dificuldade, com muitas etapas de alta montanha e muitas quedas. Não foi apenas uma prova desportiva, pois foi um espectáculo único. O ciclista português Rui Costa foi, para nosso desapontamento, uma das vítimas dessas quedas, enquanto os verdadeiros campeões se impuseram na subida das altas montanhas. Para a história vão ficar sobretudo os nomes dos espanhóis Contador e Valverde, do italiano Nibali e do colombiano Quintana mas, principalmente, o inglês Christopher Froome que repetirá hoje em Paris a sua vitória de 2013. E hoje em Paris, haverá três portugueses entre os 160 ciclistas que vão terminar o Tour.

sábado, 25 de julho de 2015

A intervenção turca no conflito sírio

Na complexa situação que se vive na Síria, resultante de uma desastrada intervenção ocidental que decidiu apoiar todas as forças que lutam contra o presidente Bashar el Assad, aconteceram nos últimos dias alguns acontecimentos relevantes. A Turquia que até agora mantivera uma atitude de hostilidade para com o regime sírio e de tolerância ou mesmo apoio ao Estado Islâmico (ISIS ou Daesh), parece ter alterado a sua posição.
No início da semana um homem-bomba fez-se explodir no meio de uma manifestação de estudantes curdos em Suruç, próximo da fronteira turca, matando 32 pessoas. As autoridades turcas de imediato acusaram o Daesh. Dias depois, um grupo de elementos do Daesh atacou um posto fronteiriço turco, provocando a morte de um oficial e alguns feridos. O governo turco reagiu a estas provocações jihadistas e decidiu impor a sua autoridade na fronteira, onde vinha “fechando os olhos” às actividades do grupo extremista no seu território. O seu envolvimento no conflito, depois de cinco anos de não intervenção directa, é a resposta aos receios de que o jihadismo do Daesh entre pelos seus 900 quilómetros de fronteira. Assim, o governo turco tomou a decisão de autorizar a coligação liderada pelos Estados Unidos a utilizar a base aérea de Incirlik no sul do país e, ao mesmo tempo, as forças armadas turcas atacaram o Daesh. Três aviões de combate F–16 turcos atacaram as suas posições em Kilis, junto à fronteira com a Síria, tendo sido anunciada a morte de 35 militantes jihadistas. Foi a primeira operação do género lançada pelo governo de Ancara e a imprensa turca, caso do diário Milliyet, deu-lhe grande destaque a mostrar que a Turquia começa a estar preocupada com o que se passa junto das suas fronteiras e passou a ter um papel mais activo nesta guerra.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A unidade da Espanha e a ambição catalã

No próximo dia 27 de Setembro vão realizar-se eleições regionais antecipadas na Catalunha e a grande novidade é a apresentação de uma lista unitária independentista, conforme revela El Periódico de Barcelona. Esta lista agrega os dois principais partidos nacionalistas catalães, isto é, a Convergência e União (CiU) que está no poder e que é presidida por Artur Mas e a Esquerda Republicana Catalã (ERC) dirigida por Oriol Junqueras, mas integra também outros pequenos partidos.
Estas forças apresentar-se-ão ao eleitorado catalão sob o lema “Junts pel Si” e, de facto, pretendem transformar as eleições regionais num plebiscito independentista. O acordo celebrado junta pela primeira vez as forças políticas independentistas catalãs e visa proclamar a independência da Catalunha, já incluindo um pacote de medidas calendarizadas que se destinam a preparar a independência catalã num período de entre seis a oito meses depois das eleições. Este anúncio deixou a Espanha inquieta.
Dois dias depois, a recém-eleita presidente do Município de Barcelona Ada Colau, militante do Podemos mas que não é assumidamente independentista, decidiu retirar o busto do Rei João Carlos da sala de plenários municipais, porque a lei apenas obriga à presença de um busto ou fotografia do rei actual e não do rei anterior, o que foi considerado um acto inamistoso para com a Casa Real e originou uma "guerra" municipal. No dia seguinte, o rei Filipe VI visitou Barcelona para presidir à entrega de diplomas a 35 novos juízes e, perante as autoridades catalãs, afirmou que o respeito pela lei não pode ser uma formalidade nem uma alternativa, o que foi entendido como um aviso aos que actuam contra a unidade da Espanha. Estes acontecimentos mostram que há uma grande preocupação em Espanha pelo que possa acontecer na Catalunha nos próximos tempos.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma nova era para 11 milhões de cubanos

Depois de 54 anos de total ausência de relações, de muita tensão e de algumas provocações, as diplomacias americana e cubana conseguiram chegar a uma base de entendimento que teve ontem o seu momento mais simbólico em Washington, quando foi hasteada a bandeira cubana na nova Embaixada de Cuba nos Estados Unidos. Esse acto foi protagonizado perante mais de cinco centenas de convidados pelo ministro Bruno Parrilla, o primeiro governante cubano a entrar nos Estados Unidos em mais de 50 anos.
A história de Cuba é demasiado rica de grandes acontecimentos, neles se incluindo a sua luta pela independência contra o poder colonial espanhol que culminou em 1898, o movimento guerrilheiro de Fidel de Castro e dos seus companheiros que a partir da Sierra Maestra tomaram o poder em 1959 e a controvérsia que a revolução cubana e os seus ícones sempre despertaram. Cuba desafiou e afrontou os Estados Unidos e o imperialismo económico-militar dos tempos modernos, aliou-se ao sovietismo e alimentou conflitos um pouco por todo o mundo. Isolou-se do mundo e, como contrapartida, os onze milhões de cubanos ficaram mais afastados da comunidade internacional.
Agora, os dois milhões de cubanos que vivem nos Estados Unidos, sobretudo na Florida, estão a passar por um tempo de confiança e de orgulho nacional, conforme revela o Miami Herald. Porém, o processo de normalização das relações entre os dois países vai ser longo e lento, pois há muitas forças, quer em Cuba quer nos Estados Unidos, que não esquecem as tensões do passado e não aceitam os passos que estão a ser dados por Barack Obama e por Raul Castro. Uns prometem não terminar com o embargo económico que vigora desde 1962, enquanto outros reclamam o fim do regime fidelista. Por isso, durante a cerimónia em Washington alguns manifestantes gritaram “Cuba si, Fidel no”, enquanto outros preferiram gritar “Cuba si, embargo no”, mas seguramente que está aberta uma nova era para os 11 milhões de cubanos que vivem na ilha.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Como eles nos afundam e nos mentem

Um jornal de Lisboa bem conhecido pelos seus títulos sensacionalistas e por algumas campanhas que alimenta, escolheu hoje a dívida pública portuguesa como tema da sua primeira página. A notícia não é nova, mas porque é apresentada a toda a largura da primeira página tem um impacto maior e serve para alertar os mais distraídos.
É sabido que, em plena crise financeira que atravessou o Atlântico e se instalou na Europa, a dívida pública portuguesa passou de 71,0% do PIB (em 2008), para 83,7% (em 2009) e 94,0% (em 2010). Segundo a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública - IGCP, em 31 de Maio de 2011 a dívida atingia 164.348 mil milhões de euros, correspondentes a cerca de 100% do PIB.
Passados 4 anos, com a intervenção da troika e com um governo submisso que “quis ir mais longe do que a troika”, a dívida pública portuguesa atingiu 224.155 milhões de euros no dia 31 de Maio de 2015, correspondendo a cerca de 130% do PIB. Aumentou 59,8 mil milhões de euros em quatro anos!
Significa que com a troika, o governo nos endividou em cerca de 60 mil milhões de euros, isto é, aumentou a dívida em cerca de 36%, para além de ter aumentado o desemprego, a pobreza e a emigração dos mais jovens e de ter criado graves problemas na educação, na justiça, na saúde e na defesa nacional. A economia e a sociedade estão doentes, mas não faltam lugares para os amigos. No plano europeu tornámo-nos seguidistas sem dignidade e é lamentável termos abdicado da solidariedade para com os nossos parceiros e ouvir o presidente do Conselho Europeu desmentir o primeiro-ministro português. Uma tristeza!
Para quem anda sempre a acusar os outros, a fazer propaganda, a auto-elogiar-se e a afirmar que os cofres estão cheios, esta verdade é demolidora e cobre de ridículo aqueles que têm dito que "é preciso proteger" o que foi feito e "não voltar a cometer os mesmos erros". É que esta gente não só é mentirosa, como também é ousada e atrevida na forma como mente. 

O que nos vale é o futebol… de praia

O ano de 2015 não tem corrido muito bem ao desporto português no plano internacional, porque apesar de ter averbado alguns sucessos muito meritórios, por exemplo no ténis de mesa, na canoagem, no judo e no atletismo, também teve algumas derrotas que muito desapontaram os nossos desportistas.
No Mundial de hóquei em patins disputado em La Roche Sur Yon, a equipa portuguesa perdeu com a Argentina nas meias-finais. No Mundial de Futebol de Sub-20 disputado na Nova Zelândia (FIFA U-20 World Cup) os portugueses perderam nos quartos-de-final com o Brasil na marcação de grandes penalidades. No Europeu de Futebol de Sub-21 disputado na República Checa (UEFA European Under-21 Championship) a selecção perdeu a final com a Suécia também na marcação de grandes penalidades. Na Liga Mundial de voleibol (FIVB Volleyball World League 2015) a equipa nacional foi despromovida ao Grupo 3 depois de ter perdido com a Bélgica, a Holanda e a Finlândia. Até na Volta à França tivemos a desistência de Rui Costa, o ex-campeão do Mundo em que tantas esperanças eram depositadas. Já andamos na alta roda desportiva, mas têm sido demasiados baldes de água fria.
Porém, ontem em Espinho, depois de ter ultrapassado as selecções do Japão, Argentina, Senegal, Suiça e Rússia, a equipa portuguesa derrotou a equipa do Tahiti e tornou-se campeã mundial de futebol de praia (FIFA Beach Soccer World Cup Portugal 2015). Há que felicitar aqueles verdadeiros artistas do futebol de praia, mas também há que salientar que a vitória foi um prémio merecido para os muitos entusiastas portugueses que encheram o estádio, que incitaram os jogadores e que vibraram com a vitória. Foi uma alegria e, no meio das muitas incertezas que nos rodeiam, precisamos destas alegrias. Até o jornal A Bola esqueceu por um dia o Jesus, o Benfica, o Casillas e as transferências de futebolistas para homenagear os campeões do mundo!

domingo, 19 de julho de 2015

Duas boas exposições em Torres Vedras

Na incaracterística cidade de Torres Vedras, a par de um notável património militar e religioso e de muitas memórias históricas, existe o Museu Municipal Leonel Trindade instalado no antigo convento da Graça, em cuja exposição permanente se evocam as Linhas de Torres que, entre Outubro de 1810 e Março de 1811, travaram o avanço das tropas francesas do marechal André Masséna na sua caminhada para Lisboa e acabaram por provocar a sua retirada de Portugal.
Nesse museu estão actualmente em exibição duas interessantes exposições temporárias de elevado cunho didáctico, que foram inauguradas no dia 15 de Maio e que, por diferentes vias, evocam a expansão ultramarina portuguesa. Uma dessas exzposições intitula-se “Torres Vedras no caminho de Ceuta. 600 anos – Do Conselho Régio de Torres Vedras… à conquista de Ceuta (1414-1415)” e evoca o Conselho Régio que reuniu em Torres Vedras em 1414 e  que decidiu pela tomada de Ceuta e pelos preparativos para a mesma. A outra exposição intitula-se “Sarmento Rodrigues – Viagem ao Oriente Português” e recorda a viagem que o Ministro do Ultramar Almirante Sarmento Rodrigues realizou em 1952 aos territórios ultramarinos da Índia Portuguesa, Timor e Macau, com passagens por Malaca e Singapura, como contributo para a ideia então dominante de unidade de uma nação pluricontinental. Essa longa viagem, em que pela primeira vez aqueles territórios foram visitados por um membro do governo português, constituiu um acontecimento político relevante para a época e entusiasmou as elites locais que ofereceram ao ministro português várias peças ilustrativas da riqueza cultural dos territórios visitados. Essas peças de elevado valor artístico e simbólico que o Almirante Sarmento Rodrigues doou ao Museu Nacional de Etnologia integram a exposição e, só por si, justificam uma visita. A exposições manter-se-ão em exibição até ao dia 10 de Outubro.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Uma belíssima exposição fotográfica!

Sebastião Salgado é um brasileiro com 70 anos de idade, natural de Minas Gerais e é, também, um dos mais famosos fotógrafos ou fotojornalistas do mundo, com trabalhos reconhecidos internacionalmente. Tem acumulado prémios e distinções e a UNESCO distingiu-o com Embaixador da Boa Vontade, pelo seu contributo para a preservação do nosso planeta. Desde o dia 10 de Abril que Sebastião Salgado apresenta em Lisboa a sua exposição “Génesis”, constituída por cerca de 250 imagens a preto e branco de grande formato, dedicadas aos povos isolados,  aos animais, à natureza e às suas paisagens grandiosas, que foram recolhidas sobretudo em lugares ainda não explorados ou não flagelado pelo homem. Trata-se de um trabalho desenvolvido durante quase uma década pelas regiões mais inóspitas do planeta, desde a Antártida à Nova Guiné e à Amazónia, que serviu de base à magnífica e muito didáctica exposição itinerante que é “uma jornada de busca do planeta como ele existiu desde a sua formação e na sua evolução”.
Iniciada no Brasil, a exposição já passou por Londres e vai ficar em Lisboa, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional,  até ao próximo dia 2 de Agosto. Descuidei-me e só quase no fim da mostra, a visitei. Havia muita gente interessada e muitas crianças em visita escolar. O que eu ia perdendo! Para os que, como eu se distrairam, ainda há duas semanas para poderem ver esta belíssima exposição.