quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Notícias fortes de um mundo em mudança

O diário The Wall Street Journal, que é o jornal de maior circulação nos Estados Unidos, na edição de hoje destaca duas importantes notícias de primeira página relativas à política internacional: uma sobre o apoio americano à Ucrânia e outra sobre as relações de Vladimir Putin com a Arábia Saudita.
A notícia sobre o apoio americano à Ucrânia, refere que os Republicanos bloquearam o projecto de financiamento destinado ao apoio à Ucrânia, o que levou a administração de Joe Biden a anunciar que “não terá dinheiro para apoiar a Ucrânia na sua luta contra a Rússia e ficará sem recursos para adquirir mais armas e equipamentos para Kiev”.
A outra notícia é ilustrada com uma fotografia do encontro que o presidente russo Vladimir Putin e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MbS) tiveram ontem em Riad. Estes dois países controlam um quinto da produção diária de petróleo no mundo e ambos precisam que o seu preço seja elevado, porque o petróleo é a força vital das suas economias. Para além dos seus interesses convergentes na área do petróleo, estes dois países têm ambições semelhantes na esfera das relações internacionais. A Arábia Saudita pretende afirmar-se como uma potência regional, menos dependente da tutela americana e daí a sua aproximação ao Irão e à Rússia, enquanto a Rússia procura contrariar as tentativas ocidentais que visam o seu isolamento internacional, sobretudo depois da invasão da Ucrânia. Estas duas notícias destacadas pelo The Wall Street Journal mostram como os diversos países se procuram ajustar às realidades estratégicas de um mundo em mudança e, uma vez mais, revelam como a Europa conta cada vez menos na política internacional. O recente anúncio da revista Forbes informando que Ursula von der Leyen foi escolhida como a primeira das “the World’s 100 Most Powerful Women”, parece mesmo uma verdadeira caricatura.

O Ocidente hesita e a Ucrânia treme

O conflito na Ucrânia já dura há mais de nove anos sem que haja sinais de solução e, depois da recente e grave crise surgida em Gaza, o problema ucraniano até parece ter sido esquecido.
Tudo começou em Fevereiro de 2014 com a agitação civil e as manifestações de Kyev a favor da integração europeia, que ficaram conhecidas como Euromaidan e que levaram o presidente pró-russo Viktor Yanukovych a abandonar o poder. Na sequência destes acontecimentos seguiu-se a intervenção russa que ocupou a Crimeia e o seu apoio às forças separatistas de Donetsk e Lugansk.
No dia 24 de Fevereiro de 2022, perante a hipótese da Ucrânia ser integrada na NATO e de ser admitida na União Europeia, a Federação Russa sentiu-se provocada e ameaçada, tendo decidido invadir a Ucrânia. A chamada “operação militar especial” desencadeada às ordens de Vladimir Putin não correu bem e, sob o comando de Volodymyr Zelensky, a cidade de Kyev resistiu. Desde então, o que vamos sabendo é contaminado pelas propagandas, mas parece que a situação no terreno é estacionária, com os russos a ocupar quatro regiões ucranianas (Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporijia) e com os ucranianos a resistir, embora a depender directamente do apoio militar da União Europeia, dos Estados Unidos e do Canadá.
A Ucrânia exige a retirada das tropas russas de todo o território ucraniano, incluindo a Crimeia, como condição prévia para se sentar à mesa de negociações, mas os russos não cedem nas suas exigências de anexação das regiões que, histórica e culturalmente, consideram russas. O problema é que a ajuda ocidental à Ucrânia se está a tornar mais dispendiosa do que foi previsto e que os resultados operacionais não são animadores. Como hoje refere o diário francês Le Télégramme, o Ocidente hesita e a Ucrânia treme.

Maduro tem “novo mapa” da Venezuela

O insólito referendo realizado no passado domingo na Venezuela, em que era perguntado aos eleitores se o governo ficava “autorizado” a invadir a vizinha Guiana para ocupar três quartos do seu território, teve o resultado esperado. A onda de propaganda nacionalista a favor da anexação do Essequibo produziu efeitos, pois mais de dez milhões de venezuelanos, correspondentes a mais de 95% dos votantes, votaram “Sim”. Foi uma verdadeira união nacional e uma explosão de nacionalismo à maneira sul-americana, em que até a oposição se juntou ao governo de Nicolas Maduro que, naturalmente, logo afirmou que “el pueblo habló bien claro”.
A Guiana ou República Cooperativa da Guiana é independente desde 1970 e tem uma superfície de cerca de 214 mil quilómetros quadrados (mais do dobro de Portugal), mas tem menos de um milhão de habitantes. Trata-se de um país que mantém alguns problemas fronteiriços que herdou do tempo colonial, tanto com o Suriname, como com a Venezuela. As reivindicações da Venezuela acentuaram-se desde que, recentemente, foram descobertas enormes reservas de petróleo na região de Essequibo. Daí a excitação de Nicolas Maduro e a oportunidade que está a aproveitar para consolidar o seu poder, ao mobilizar os venezuelanos em torno da ideia de integrar o Essequibo no seu território. Assim, mal foi conhecido o resultado do referendo, Nicolas Maduro mandou criar o novo estado da Guiana Essequibo e divulgou o “novo mapa” da Venezuela com a incorporação daquele território, ao mesmo tempo que anunciou a concessão de licenças para explorar petróleo naquela região, determinando ainda que o “novo mapa” seja publicado e levado às escolas e às universidades.
Um conflito regional parece estar em curso, embora exista a convicção de que Maduro esteja a pressionar a Guiana para negociar a resolução desta reivindicação. Porém, não é seguro que ele resista à pressão da onda nacionalista que foi criada na Venezuela e que descarte uma iniciativa armada para, de facto, ocupar o Essequibo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Gaza: sem precedentes, limite ou piedade

A resposta israelita às barbaridades cometidas pelo Hamas no passado dia 7 de Outubro tem sido caracterizada por uma enorme brutalidade, que tem provocado a destruição das infraestruturas e do parque habitacional de Gaza, causando muitos milhares de mortos, a maioria dos quais é inocente e nada tem a ver com as práticas do Hamas. Houve uma esperançosa trégua acordada por razões humanitárias, mas depressa foram retomados os violentos bombardeamentos do território de Gaza, cada dia mais bárbaros e mais cruéis, feitos à revelia do direito humanitário, deixando claro que Israel não quer apenas a destruição do Hamas, mas que também quer riscar Gaza do mapa e expulsar os palestinianos daquele território. Hoje, o jornal francês Libération destaca os bombardeamentos de Gaza e classifica-os: sem precedentes, sem limite, sem piedade.
As imagens televisivas são esclarecedoras quanto à brutalidade da intervenção das IDF, as Forças de Defesa de Israel, mas uma parte do mundo tem assistido a toda esta violência desproporcionada sem expressar uma clara condenação da barbárie conduzida por Benjamin Netanyahu, à qual até se opõem os sectores moderados da sociedade israelita.
Neste contexto, continua a ser verdadeiramente lamentável a forma como a União Europeia mostra compreensão pela barbaridade israelita conduzida em nome do seu “direito de resposta”, ao mesmo tempo que revela uma gravíssima indiferença pelo sofrimento do povo palestiniano. Esperava-se mais de Charles Michel e de Ursula von der Leyen, mas também dos líderes de cada um dos 27 líderes dos estados-membros da União Europeia. Entretanto, são várias as vozes que vão condenando as atrocidades cometidas por Israel, com destaque para os líderes do Brasil e da Espanha, mas também de António Guterres. Outros, como o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, exigem que Benjamin Netanyahu seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional, tendo-o já indiciado oficialmente com a acusação de cometer genocídio em Gaza.
Pergunta-se: quem poderá travar estes falcões que afirmam mover-se em nome da civilização?

sábado, 2 de dezembro de 2023

As ambições geo-económicas da Venezuela

No próximo domingo vai realizar-se um insólito referendo na Venezuela, no qual cerca de vinte milhões de venezuelanos irão responder a uma pergunta considerada provocadora: “Debería el gobierno obtener un cheque en blanco para invadir a la vecina Guyana para arrebatarle tres cuartas partes de su territorio”?
Este referendo tem como objectivo a rejeição de uma decisão judicial de 1899 que estabeleceu a fronteira da Venezuela com a Guiana, que é uma antiga colónia da Grã-Bretanha e dos Países Baixos. Em causa está a disputa do território de Esequibo que tem cerca de 160 mil km quadrados e é contíguo à Venezuela, onde foram descobertas grandes reservas de petróleo em 2015 e onde há poucas semanas houve novas descobertas.
O assunto não é novo pois vem do século XIX e tem estado sob mediação da ONU, mas quando o regime de Nicolas Maduro viu o governo da Guiana a fazer concessões a companhias petrolíferas, reagiu e tem ameaçado com uma acção militar para ocupar o Esequibo. Nessas circunstâncias, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) pediu à Venezuela para se abster de qualquer iniciativa que altere a actual situação, mas a Venezuela não lhe reconhece competência para resolver este diferendo. Muito atento, o Brasil enviou o seu assessor presidencial Celso Amorim a Caracas e, no Dubai, onde ambos se encontram, o presidente Lula da Silva vai encontrar-se com Mohamed Irgan Ali, o seu homólogo da Guiana.
A imprensa internacional veicula as mais diferentes opiniões sobre este referendo. Uns dizem tratar-se de uma manobra política de Maduro para excitar o nacionalismo venezuelano e reanimar a sua popularidade, outros defendem que Maduro nada fará para não agravar o seu isolamento internacional, mas outros afirmam que a ameaça de uma intervenção militar é real e que até a oposição venezuelana a apoia. O facto é que o governo da Guiana já avisou Maduro “que no subestime el derecho del país a defender-se”. Entretanto, o regime de Maduro lançou uma agressiva campanha nos meios de comunicação em que é constantemente repetida a mensagem “El Esequibo es nuestro”, ao mesmo tempo que o jornal El Universal alinha nessa campanha e escreve "Toda Venezuela en defensa del Esequibo”.
Até parece a campanha de 1982, quando a Junta Militar Argentina chefiada pelo general Leopoldo Galtieri usou o nacionalismo e a campanha “Malvinas argentinas” para a fazer uma guerra contra a Grã-Bretanha de que saiu derrotada…

COP28: de que é que eles estão à espera?

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2023 é a 28ª conferência promovida pelas Nações Unidas para pressionar os governos a adoptar políticas que limitem o aumento da temperatura global do nosso planeta e para que se adaptem aos impactos que aparecem associados às alterações climáticas. A conferência é conhecida como a COP28, realiza-se no Dubai até ao dia 12 de Dezembro e nela estão presentes delegados de quase duzentos países, incluindo alguns dos líderes mundiais e o primeiro-ministro António Costa. O anfitrião e presidente da COP28 é o sultão Ahmed Al Jaber dos Emirados Árabes Unidos.
O primeiro dia dos trabalhos foi marcado pelo discurso de abertura de António Guterres, o homem que fez da luta contra as alterações climáticas o seu maior desafio e que recentemente visitou a Antártida e o Nepal, verificando pessoalmente o degelo da calote polar e a fusão de glaciares, cujos efeitos “estão à vista de todos” nos deslizamentos de terras, nas inundações e na subida do nível dos mares. Disse Guterres que “os sinais vitais da Terra estão a falhar: emissões recorde, incêndios ferozes, secas mortais e o ano mais quente de sempre. Estamos a milhas dos objetivos do Acordo de Paris – e a minutos da meia-noite para o limite de 1,5 graus. Mas não é demasiado tarde. É possível evitar o colapso e o incêndio do planeta. Dispomos das tecnologias necessárias para evitar o pior do caos climático – se agirmos agora”. Guterres não está sozinho e um dos seus aliados é Lula da Silva que declarou que “o planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos”. 
Entretanto, o jornal londrino The Independent perguntava na sua edição de ontem “de que é que estão à espera?” Porém, um pequeno sinal positivo aconteceu no início da cimeira, pois foi acordada a constituição de um fundo de “perdas e danos” para apoiar os países mais pobres afectados pelos efeitos das alterações climáticas a ser gerido pelo Banco Mundial, que mobilizou 420 milhões de dólares. Foi apenas um sinal...

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Um resgate feliz nos confins da Índia

A União Indiana, ou simplesmente Índia, é uma união de 29 estados (incluindo o estado de Goa) e seis Union Territories, directamente dependentes da capital federal New Delhi (incluindo o UT Daman and Diu e o UT Dadra and Nagar Haveli).
O mais recente estado da União chama-se Uttarakhand e resultou da separação do estado de Uttar Pradesh, que é o maior dos 29 estados e que tem 200 milhões de habitantes.
O estado de Uttarakhand fica situado no noroeste da Índia nas proximidades dos Himalaias, pelo que tem vários picos com mais de 7 mil metros de altitude, tendo fronteiras externas com o Nepal e com a Região Autónoma do Tibete da China. É uma região onde se localizam muitos templos hindus, que atraem muitos peregrinos e muitos turistas, pelo que o governo federal decidiu construir modernas autoestradas para acomodar a intensidade do tráfego rodoviário.
Na madrugada do dia 12 de Novembro, devido a um deslizamento de terras, ruiu uma secção de um túnel em construção - o túnel Silkyara - com mais de 4 quilómetros, deixando 41 trabalhadores presos e separados da entrada por uma “parede” de escombros de cerca de 60 metros de espessura. A Índia entrou em pânico perante a possibilidade de uma tragédia. Iniciadas as operações de salvamento foi possível introduzir um tubo de aço de 15 centímetros de diâmetro, através do qual foram fornecidos oxigénio, água, electricidade e refeições quentes aos trabalhadores soterrados. Foi depois introduzido um outro tubo de aço com 90 centímetros de diâmetro, que foi uma operação mais complexa. Após 17 dias, os 41 trabalhadores foram recuperados sãos e salvos, como anunciou por exemplo The Times of India. A televisão indiana transmitiu em directo o resgate de cada um dos trabalhadores e essas imagens transformaram-se numa emocionante festa para os milhões de indianos que durante mais de duas semanas acompanharam esta situação, que ameaçava poder ser uma tragédia.

O brilho artístico dos Joãos em Barcelona

Ontem o Barcelona FC venceu o FC Porto por 2-1 num jogo de futebol a contar para a Liga dos Campeões e toda a imprensa catalã, desportiva ou generalista, destaca hoje em primeira página e com fotografia, o facto dos golos da equipa da Catalunha terem sido marcados pelos jogadores portugueses João Cancelo e João Félix, o que levou um jornal desportivo português a anunciar a derrota dos portistas com a frase “Abatidos por fogo amigo”. Desde que em 2021 a equipa catalã deixou de contar com a estrela Lionel Messi, que o rendimento futebolístico da equipa, tanto no plano nacional como na esfera internacional, desceu muito. Porém, com a chegada dos Joãos, uns artistas da bola que pelo seu valor caíram nas graças da imprensa e dos adeptos catalães, a equipa do Barça tem vindo a melhorar e, com a vitória de ontem, passou aos oitavos de final da Liga dos Campeões, o que já não acontecia há três anos. Os jornais desportivos catalães publicaram a fotografia dos dois portugueses e até o generalista elPeriódico, destacou os dois jogadores com uma fotografia a quatro colunas.
Para o FC Porto, que perdeu os dois jogos com o Barcelona FC por margens tangenciais, ainda há a esperança de passar à fase seguinte, mas estes dois resultados negativos, se não foram injustos foram pelo menos dolorosos. Contudo, ficaram os golos dos Joãos para que a nossa mágoa fique mais amenizada.

domingo, 26 de novembro de 2023

A trégua em Gaza é obra da Diplomacia

Uma janela de esperança foi aberta em Gaza e, por extensão no Médio Oriente, pois está em vigor um cessar-fogo e está suspenso o massacre da inocente população palestiniana. De momento, trata-se de uma trégua de quatro dias apenas, pois é sabido que a facção extremista que domina o governo israelita quer prosseguir a guerra e continuar a massacrar a população palestiniana de Gaza.
A Diplomacia funcionou e os reféns em poder do Hamas começaram a ser trocados por palestinianos presos em Israel. Há festa em Israel pela libertação de reféns e há festa na Palestina pelo regresso de presos. Os camiões de ajuda humanitária voltaram a entrar em Gaza, mas são enormes os receios pelo que poderá acontecer depois da actual trégua. O jornal nova-iorquino Daily News destacava ontem a alegria pela libertação de alguns reféns, embora também destacasse o medo do que possa acontecer às centenas de reféns que ainda estão em poder do Hamas.
As negociações para o cessar-fogo e para a libertação dos reféns têm sido conduzidas por diplomatas de Israel, Estados Unidos, Catar e Egipto e têm sido demoradas, complexas e, como alguém referiu, “cada passo foi como arrancar dentes”. Foi uma vitória da Diplomacia e do diálogo, a mostrar que esse é o melhor caminho para superar e resolver os conflitos que perturbam o mundo. Porém, não deixa de ser surpreendente que a União Europeia, ou alguns dos seus membros mais destacados - que historicamente têm grandes responsabilidades na conflitualidade entre judeus e palestinianos - estejam ausentes destas negociações, o que só se explica porque não têm a confiança das duas partes, o que vem confirmar que o corrupio de dirigentes europeus para Telavive depois de 7 de Outubro, não ia em busca da paz nem da moderação. De resto, vão decorridos quase dois meses de conflito e a União Europeia ainda não conseguiu tomar uma posição condenatória dos extremismos, nem uma declaração inequívoca a favor das Resoluções das Nações Unidas, da moderação e da paz.
A Europa começa a ser demasiado pequena…

sábado, 25 de novembro de 2023

A trégua em Gaza e o alinhamento europeu

A luta entre Israel e o Hamas já dura há cerca de 48 dias e é mais um episódio da guerra que desde 1948 envolve judeus e palestinianos. Desta vez, foram as acções violentas, bárbaras e terroristas do Hamas sobre os kibutz na área de Gaza, que originaram a normal reacção de Israel que, depressa se revelou devastadora, desproporcionada e que o mundo também classificou como terrorismo, devido aos ataques cegos da sua aviação, que tem reduzido a cinzas grandes áreas urbanas e levado a morte a milhares de civis, como o mundo já não via desde 1945. Finalmente, por efeito das pressões internacionais, foi aceite uma breve trégua nos combates por razões humanitárias.
O historial do conflito entre judeus e árabes é bem conhecido, como são conhecidas as repetidas violações israelitas do Direito Internacional e das Resoluções das Nações Unidas e a contínua humilhação do povo da Palestina. A Europa sempre teve responsabilidades geopolíticas nesta região e a União Europeia herdou essas responsabilidades. Porém, desde o dia 7 de Outubro que a maioria dos dirigentes europeus tem repetido o que era óbvio, isto é, que Israel tem o direito a defender-se, mas o facto é que todos sabiam que Israel iria usar todo o seu potencial militar e que iria aproveitar esta oportunidade para empurrar uma vez mais os palestinianos para fora do seu território. A Europa, ou o Ocidente, deveriam ter procurado uma solução de paz e de futuro para aquela região e levar Israel a cumprir as Resoluções das Nações Unidas, como em 1993 fizeram Bill Clinton, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat.
Em nome da Europa destacou-se a vaidade narcisista de Ursula von der Leyen que, usando poderes de representação que não tem, apoiou a declaração de vingança de Israel. Foi uma vergonha para os europeus, mas a senhora não esteve só, pois outros líderes europeus também mostraram desprezo pelas leis humanitárias da guerra. Melhor têm andado Joe Biden e Antony Blinken, apesar de estarem envolvidos nas eleições presidenciais. A Europa assiste a tudo isto sem uma condenação conjunta e inequívoca de Israel em nome dos seus princípios e alimenta uma campanha de propaganda, em que a CNN e os seus comentadores aparecem sempre na primeira fila. 
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez também foi a Israel mas, como revela o jornal La Vanguardia, atirou uma pedrada no charco e instou o radical Benjamin Netanyahu para que "parasse a catástrofe humanitária em Gaza", porque “o número de palestinianos mortos é insuportável”, além de ter anunciado a possibilidade da Espanha reconhecer o estado palestiniano à margem da União Europeia. No mesmo dia, o ministro Cravinho andou a visitar os kibutz que o Hamas atacara e não se imagina outra coisa tão ridícula para o ministro, como esta sua visita a Israel que, objectivamente, dá o aval português aos bombardeamentos e ao genocídio na Faixa de Gaza. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Napoleão e os seus muitos chapéus...

O filme Napoléon do realizador britânico Ridley Scott teve a sua estreia mundial ontem, tendo sido particularmente aplaudido na Córsega, a terra natal do Imperador, e na Provença, a região que conserva muitas das memórias daquele a que os franceses também chamam “le Petit Caporal”. Vários jornais franceses, como por exemplo La Provence que se publica em Marselha, dedicaram grandes crónicas ao filme que mostra as origens e a ascensão política do grande comandante militar que foi Napoleão Bonaparte, através do seu relacionamento íntimo com Josephine de Beauharnais, a “mulher que foi a única pessoa a dominar a fera”, mas que apresenta as principais batalhas da sua carreira militar, como Marengo, Austerlitz, Borodino, Waterloo e o seu exílio na ilha de Santa Helena. Porém, o filme só teve o apreço de 75% dos espectadores franceses, tendo sido muito criticado enquanto versão hollywoodesca da glória napoleónica da França que surge demasiado americanizada e com algumas falhas em relação à verdade histórica.
A estreia do filme despertou uma onda de entusiasmo em torno da figura de Napoleão. Um chapéu que que lhe pertenceu – o famoso bicorne preto com a sua faixa azul, branca e vermelha – foi vendido no passado domingo num leilão realizado em Fontainebleau pela Casa Osenat, pela quantia de 1932 milhões de euros!
Este leilão atraiu coleccionadores de todo o mundo e deu origem a uma verdadeira batalha de licitações na sala, no telefone e na internet, tendo a Casa Osenat batido o seu próprio record que, desde 2014, estava em 1884 milhões de euros. Segundo foi anunciado, conhecem-se vinte chapéus de Napoleão, dos quais quinze estão em museus e cinco em colecções privadas. Muitos chapéus tinha o Napoleão ou, como diria um amigo meu, “chapéus há muitos”…

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Houve uma espécie de milagre económico

O desempenho económico de um país depende de muitos factores que estão presentes na sociedade e há as mais diversas opiniões sobre o assunto, umas que tudo criticam e outras que tudo elogiam, quase sempre em função dos seus interesses políticos particulares. O facto é que a avaliação macroeconómica depende de muitos indicadores económicos e sociais que normalmente são tratados pela política económica, sobretudo o crescimento do produto, a taxa de emprego, a inflação, o comércio externo, o desequilíbrio externo, a evolução da dívida e o investimento, mas de muitas outras variáveis estruturais e conjunturais. 
As comparações internacionais são também um instrumento indispensável à avaliação económica, bem como os estudos assinados pelos sindicatos e pelas organizações patronais. Assim, uma opinião fundamentada sobre o desempenho económico exige muito estudo, muita consulta de estatísticas e muitas comparações internacionais, mas também muitas análises sectoriais e regionais, tanto qualitativas como quantitativas. Por isso, são muito raros os especialistas independentes que, normalmente através da televisão, avaliam o desempenho económico do nosso país com base na informação necessária e com seriedade intelectual. O cidadão vive entre os que afirmam que tudo vai bem e aqueles que dizem que tudo vai mal.
Quando um famoso economista como Paul Krugman vem a Portugal, um país que ele bem conhece, é natural que a imprensa o entreviste e foi o que fez o jornal de Negócios, que hoje publicou essa entrevista em primeira página, destacando a sua frase: “Portugal é uma espécie de milagre económico”. Paul Krugman tem 70 anos de idade, é professor na Universidade de Princeton e em Yale, escreve regularmente nos jornais de referência americanos e em 2008 foi o vencedor do Prémio Nobel da Economia. Conhece bem a economia portuguesa e, nesta entrevista, até declarou que “é um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem”. Foi o planeamento económico? Foi a “mão invisível? Que importância teve António Costa e o seu governo para este resultado, com contas certas e queda brutal da nossa dívida externa?

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Argentina escolhe mudança de vida radical

O país que viu nascer Jorge Mário Bergoglio - o 266º Papa da Igreja Católica, chefe de Estado do Estado do Vaticano e também chefe da Igreja Católica - mas que também foi berço de Jorge Luís Borges, Ernesto "Che" Guevara, Eva Péron, Juan Manuel Fangio, Diego Maradona e Lionel Messi, escolheu ontem um novo presidente da República Argentina. Da disputa eleitoral resultou a vitória de Javier Milei, um deputado de 53 anos de idade que derrotou Sergio Massa, o actual ministro da Economia. Toda a imprensa argentina destacou a eleição de Javier Milei, embora tome posições que oscilam entre o entusiasmo e a preocupação.
A Argentina atravessa uma enorme crise económica e social, com aumento do desemprego e da pobreza, para além de estar com uma inflação da ordem dos 150%. Nessas condições, o eleitorado não resistiu ao discurso radical e populista deste candidato ultraliberal da extrema-direita. No seu discurso de vitória afirmou que “hoje começa o fim da decadência da Argentina”, renovando as promessas de um tratamento de choque para a economia e de uma nova vida de prosperidade para os argentinos e, à maneira de Donald Trump, garantiu que vai tornar a Argentina “grande outra vez”. Os seus planos incluem medidas radicais como o encerramento do banco central, o abandono do peso argentino como moeda nacional e a redução drástica dos gastos públicos, o que representa uma dolorosa revolução e um castigo para o eleitorado que o elegeu. As reformas prometidas para combater o marasmo económico argentino vão ser muito duras, bem como a necessárias medidas de austeridade para travar a inflação, pelo que há quem preveja uma forte reacção sindical e muita contestação popular e, outros, prognosticam que o presidente Milei sairá rapidamente de cena e pela porta pequena. 
Os tempos não vão ser fáceis para os 45 milhões de argentinos.

sábado, 18 de novembro de 2023

Só Zelensky acredita na vitória ucraniana

A guerra na Ucrânia já decorre há quase dois anos, com muitas mortes, muita destruição e muito sofrimento, mas nos últimos tempos tem sido esquecida, sobretudo depois dos acontecimentos de Gaza de 7 de Outubro, que alteraram a agenda das preocupações mundiais. Muitos dos dirigentes europeus e americanos que andaram em repetida procissão até Kyev, com destaque para Ursula von der Leyen e Jens Stoltenberg, devem ter-se cansado, ou devem ter feito contas ao dinheiro que estavam a gastar. A tão badalada contraofensiva de Kyev foi mais uma operação de propaganda ocidental do que uma operação militar no terreno. O volume e o ritmo dos apoios militares, financeiros e humanitários de que a Ucrânia necessita para lutar, parece ter abrandado, enquanto Volodymyr Zelensky tem batido a todas as portas possíveis à procura de auxílio. Algumas operações militares ucranianas têm sido bem-sucedidas, mas o facto é que um quinto do território ucraniano continua ocupado pelos russos.
Há dois dias, o jornal DNA de Strasbourg escrevia que “en Ukraine, un nouvel hiver de guerre arrive”, lembrando a dureza dos meses que se aproximam, devido ao frio, à falta de alojamentos e de electricidade em várias regiões, mas também devido à continuada acção dos russos e à indiferença daqueles que podem levar ao cessar-fogo e â paz. Há muito tempo que não se falava da Ucrânia, mas a fadiga e a dúvida quanto ao futuro têm aumentado. Na sua última edição, a revista TIME avisa que “o apoio global à guerra está a diminuir” e reproduz o lamento do próprio Zelensky que quase assume a impossibilidade de continuar a guerra, afirmando: “Ninguém como eu acredita na nossa vitória. Ninguém”.
Prevalece o discurso dos maus e dos bons, da confrontação, da ajuda militar, dos mísseis e dos F-16, dos drones e dos tanques, mas ninguém fala de paz. Neste quadro, é oportuno perguntar a razão por que as partes não se entendem, não só os ucranianos e os russos, mas todos aqueles que têm enganado os ucranianos com promessas de utopias e não acabam com a guerra para sossego do povo ucraniano, mas também de todos nós. Sentem-se à mesa e conversem, pois o que não falta são árbitros.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O aperto de mão que o mundo esperava

Os presidentes dos Estados Unidos e da China, ou os senhores Joe Biden e Xi Jinping, encontraram-se frente a frente numa cimeira bilateral em São Francisco, na Califórnia, no âmbito do fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC). 
Como foi noticiado pela imprensa “foi o aperto de mão que o mundo esperava”. 
Segundo foi divulgado pelo The Washington Post e pela imprensa americana, o encontro decorreu durante mais de quatro horas, tendo sido tratados os problemas económicos e comerciais pendentes entre os dois países e discutidas várias questões diplomáticas que preocupam o mundo, como as guerras na Ucrânia e em Gaza e, naturalmente, a questão de Taiwan, que a China pretende integrar pacificamente no seu território através de um processo de reunificação, mas que continua a não ter o apoio americano. Porém, mais importante do que os assuntos que possam ter sido discutidos, a retoma do diálogo entre os dois líderes foi o melhor resultado desta cimeira que o mundo tanto esperava, pois pode travar as escaladas belicistas que por vezes afectam as suas relações, mas também pode ser um contributo para atenuar as actuais tensões internacionais. No fim, realizou-se uma conferência de imprensa em que Joe Biden considerou as conversas havidas como “algumas das discussões mais construtivas e produtivas” que já tivera com Xi Jinping, acrescentando que “o que estamos a tentar fazer é mudar a relação para uma fase melhor”. No entanto, o ambiente de grande cordialidade que caracterizou o encontro entre os dois líderes, não escondeu a enorme competição que travam em todos os domínios e até parece ter sido afectado por algumas declarações finais de Joe Biden, consideradas agressivas pelos chineses, mas que teriam sido utilizadas para servirem na campanha eleitoral americana, o que levou as autoridades chinesas a considerá-las irresponsáveis e inamistosas, ou seja, na cimeira nem tudo aconteceu como parece, apesar de ter acontecido “o aperto de mão que o mundo esperava”.