A Cimeira de
Paris aprovou um acordo que envolve 195 países e que vai dar origem a um novo
tratado internacional destinado a conter o aquecimento global do nosso planeta.
Depois de vários anos de negociações e de hesitações, o novo o acordo é visto
como um passo histórico, pelo seu carácter universal e por ultrapassar
divergências que até agora tinham impedido que se encontrasse um substituto do
Protocolo de Quioto. Se o conteúdo do acordo for cumprido, na segunda metade
deste século o mundo terá praticamente abandonado os combustíveis fósseis e as
emissões que restarem de gases com efeito de estufa serão anuladas pela sua
absorção por florestas ou pela sua captura e armazenamento. O novo acordo foi
possível por ter resultado de uma abordagem inovadora, pois não há metas
impostas aos países e são eles que têm que decidir o que fazer. Portanto, a
base do acordo são planos nacionais a apresentar a cada cinco anos por todos os
países, nos quais prestarão contas do que fizeram ou explicarão qual o seu
contributo para a luta contra o aquecimento global. Todos os países têm de
participar e não apenas os países desenvolvidos, embora estes tenham de liderar
os esforços na redução de emissões de gases com efeito de estufa. O objectivo
declarado do acordo é conter a subida dos termómetros a um valor “muito abaixo
de 2ºC” e prosseguir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC
acima dos níveis pré-industriais. Além disso, os países desenvolvidos
comprometem-se a continuar a financiar as nações em desenvolvimento nas suas
políticas de adaptação e mitigação climática. A Cimeira de Paris foi considerada um êxito e Laurent Fabius, o
ministro dos Negócios Estrangeiros francês, recebeu o unânime aplauso. A
imprensa mundial deu larga cobertura à Cimeira de Paris e aos seus resultados:
o The
Sydney Morning Herald foi apenas um deles.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Paris: um acordo para salvar o planeta
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
A Espanha vai a votos no domingo
As eleições
legislativas em Espanha realizam-se no próximo domingo e todos os dias a
imprensa publica sondagens. Hoje, também o El País publica a sua sondagem: PP
de Mariano Rajoy (25%), PSOE de Pedro Sánchez (21%), Podemos de Pablo Iglesias
(18%) e Ciudadanos de Albert Rivera (18%).
Como se vê, a
Espanha está embrulhada numa situação governativa semelhante à que aconteceu em
Portugal depois das eleições de 4 de Outubro, isto é, nenhuma força política
terá maioria para governar e daí que sejam necessárias coligações ou alianças.
A imprensa hoje apresenta as duas alternativas que lhe parecem mais prováveis:
um pacto entre o PP e o C’s ou uma aliança entre PSOE, Podemos e C’s. Em
qualquer dos casos, haverá uma nítida rejeição da actual política de Mariano
Rajoy e da sua subordinação aos baronetes neoliberais da Europa. É bem possível
que nos próximos dias os espanhóis falem da solução portuguesa, aquela que tanto
surpreendeu e deixou engasgados o par Passos & Portas e os jovens radicais
que os seguem. Independentemente dos resultados eleitorais que se verificarem em
Espanha, não é de prever que alguém faça o ridículo discurso da vírgula que Portas fez e que os seus telmoscorreias repetiram exaustivamente.
Observados daqui do rectângulo, parece que nem Rajoy, nem Sánchez, nem
Iglesias, nem Rivera, têm o despudor e nem a falta de vergonha exibida durante
várias semanas pelos inconsoláveis políticos que perderam o poleiro e pelos
seus ideólogos-comentadores do tipo fernandes+marquesmendes.
Atentemos, pois, nas eleições espanholas ou no 20-D, como eles gostam de se
lhes referir.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Angela Merkel - person of the year 2015
Desde 1927 que a
revista TIME escolhe a Personalidade
do Ano e, numa atitude de auto-promoção, a própria revista afirma que, para
o melhor ou para o pior, esta escolha influencia o mundo. É um exagero
publicitário, até porque no fim do ano se fazem inúmeras escolhas deste tipo
sem que alterem o curso da Humanidade. No entanto, esta escolha é uma
curiosidade que se repete há 89 anos e que desperta o interesse das pessoas. A
escolha deste ano recaiu em Angela Merkel, na linha do que aconteceu com a
revista Forbes que a classificou como
a segunda pessoa mais poderosa do mundo, numa lista em que, à cabeça, surgem
sempre Vladimir Putin, Barack Obama, Xi Jinping e o Papa Francisco.
De acordo com os
critérios da popular revista americana, a escolha de Angela Merkel é acertada,
não só pela posição que ocupa desde 2005 como chanceler da poderosa Alemanha,
mas também pela forma como se tornou a incontestada líder da Europa,
cilindrando Barroso e Juncker, Sarkozy e Hollande, entre muitas outras figuras
que ocasionalmente aparecem no palco europeu, como Jeroen Dijsselbloem ou Christine Lagarde. As suas posições tornam-se sempre as
posições da Europa. É conhecida a sua atitude intransigente em relação à dívida
dos países do sul, mas também o seu apoio aos refugiados sírios. É sabido,
também, como olha para os problemas da Ucrânia e da Síria sem o radicalismo dos seus
parceiros ocidentais, da mesma forma que recusou entrar na cruzada anti-Kadaffi.
Pode concordar-se ou não com a prática política de Angela
Merkel, mas há que reconhecer que tem pensamento próprio, o que é uma coisa que
desapareceu do “mundo ocidental” e até do pequeno mundo que tomou conta da
política no nosso Portugal, onde proliferam papagaios e papagaias que repetem, repetem, repetem ou, se quisermos, mentem, mentem, mentem.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Afinal de que lado está a Turquia?
A revista semanal
italiana Tempi que se publica em Milão aborda como tema principal da sua
última edição a situação na Turquia e, em especial, o comportamento do seu
Presidente Recep Tayyip Erdoğan que,
depois de ter sido primeiro-ministro durante cerca de onze anos, foi eleito
para a presidência do país em Agosto de 2014.
Não é preciso dominar fluentemente o idioma italiano para
perceber que o título Bottino di guerra,
que significa despojos ou prendas de guerra, nos conduz à triste realidade de
perceber que a Turquia está a tirar vantagens da situação que ela própria
ajudou a criar, com a sua oposição a Bashar el-Assad e a sua aliança com a
Arábia Saudita. O subtítulo esclarece ainda mais: “protegida pelo guarda-chuva da NATO, a Turquia
de Erdoğan pratica o saque na Síria, trafica com o ISIS e pratica a extorsão
aos refugiados. E a União Europeia ainda a premeia com três mil milhões de
euros”. Realmente...
É sabido que a Turquia tem sido o principal apoio das
forças anti-Assad e que é pelo seu território que é feito o contrabando do
petróleo que financia o ISIS. Sabe-se, também, que sendo os curdos o grupo que
mais tem combatido o radicalismo do ISIS, como se viu em Kobani, tem sido
fortemente bombardeado pelos turcos sem que a NATO trave essas acções que,
objectivamente, favorecem o ISIS e o jihadismo. O recente abate de um avião
russo na fronteira turca, também mostrou que a Turquia não quer ver estranhos a
observar o que se passa nas suas fronteiras.
Erdogan tem sido acusado de autoritarismo e de ter a
família envolvida em negócios duvidosos, para além de estar a seguir uma
orientação islâmica, no país que há muitas décadas tinha sido transformado num
Estado secular por Ataturk. Afinal quem é e o que quer Recep Tayyip Erdoğan? A revista Tempi
desconfia e eu também. Será que ele é muito diferente de Sadam Hussein
e de Bashar el-Assad e de tantos outros lideres daquela região?
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
A Venezuela cansou-se do chavismo
As eleições legislativas venezuelanas realizadas no passado domingo tiveram
um resultado que, não sendo inesperado surpreendeu, porque depois de 16 anos no
poder, o chavismo foi derrotado.
As eleições realizaram-se num quadro de dificuldades económicas devidas à
quebra da receita do petróleo e num ambiente de grande perturbação nacional e
de quase revolta popular, com uma enorme escassez de alimentos e de
medicamentos no mercado, com altas taxas de inflação, com perseguições
políticas, muita insegurança e raptos e atentados. O eleitorado polarizou-se em
torno de duas grandes coligações: de um lado o GPP ou Gran Polo Patriótico
Simón Bolívar, liderado por Nicolas Maduro, o actual
presidente da República Bolivariana da Venezuela e herdeiro político de Hugo Chavez e, do outro, o MUD ou Mesa de la Unidad
Democratica liderado por Henrique Capriles. Embora se tratasse de duas grandes
coligações, cada uma delas com um largo leque de partidos e movimentos, o GPP
era classificado de centro-esquerda, enquanto o MUD era classificado de
centro-direita. Os quase vinte milhões de eleitores deram a vitória ao MUD, o
que aconteceu pela primeira vez em 16 anos. Nicolas Maduro reconheceu a derrota
e afirmou que venceu a paz. Depois de
novos ventos em Cuba, de mudanças na Argentina e de ambiente tenso no Brasil, está
em curso a mudança na Venezuela.
As eleições venezuelanas têm uma grande importância para Portugal, porque
depois do Brasil, a Venezuela é o segundo país da América Latina com mais emigrantes
portugueses. Os números oficiais apontam para cerca de quinhentos mil, embora
os luso-descendentes possam ultrapassar um milhão. Por isso, tudo o que
acontece na Venezuela interessa aos portugueses.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Um galeão para resgatar 300 anos depois
O Presidente da
Colômbia Juan Manuel Santos anunciou na passada sexta-feira que os restos do
galeão espanhol San José tinham sido
encontrados a cerca de 10 milhas do porto de Cartagena das Indias e ontem, numa
conferência de imprensa na Base Naval de Cartagena, afirmou: “Estoy muy
complacido como jefe de Estado de informar a los colombianos que sin lugar a
dudas, sin ningún tipo de duda, hemos encontrado
307 años después de su hundimiento el galeón San José”.
O galeão San José, guarnecido por 60 canhões, foi
afundado no dia 8 de Junho de 1708 por navios ingleses quando largava daquele
porto em direcção a Espanha, com mais de seiscentos marinheiros a bordo e com
um tesouro que incluia ouro do vice-reino de Nova Granada (hoje Colômbia),
prata do Perú e pedras preciosas, além de muitos outros objectos religiosos. A
partir da documentação coeva existente, foi estimado pelos arqueólogos
marítimos colombianos que o valor da carga do San José estaria entre 5 e 10 mil milhões de dólares, caso fosse
vendido a colecionadores. Porém, o Presidente Santos anunciou de imediato que
os tesouros a resgatar seriam musealizados num edifício apropriado a construir
na cidade de Cartagena. A imprensa colombiana destaca este acontecimento e o El Colombiano ilustra a sua primeira página com uma gravura do galeão.
A localização do
navio naufragado foi feita em 1991 pela empresa americana Sea Search Armada e levantou-se então um conflito entre o Estado
colombiano e a empresa que reclamava metade do valor do tesouro a resgatar.
Porém, um tribunal americano já decidiu a favor do Estado colombiano com base
na lei colombiana que regulamenta a propriedade do património cultural submerso
e que estabelece mecanismos para o resgate das centenas de naufrágios
históricos que se encontram em águas colombianas, entre os quais se incluia o
galeão San José. A descoberta deste
galeão é um grande acontecimento cultural para a Colômbia e os colombianos souberam
proteger-se atempadamente dos caça-tesouros.
sábado, 5 de dezembro de 2015
Iraque, Síria, Líbia… e o Afeganistão
A ignorância e incompetência com que as potências ocidentais, os seus dirigentes
máximos e os seus gabinetes de estratégia trataram as chamadas primaveras
árabes, levaram ao afastamento de alguns dos seus líderes mais contestados como
Saddam Hussein e Muammar Kadaffi, enquanto agora se procura abater Bashar
al-Assad. Com o vazio político criado, o poder caiu na rua e a desordem impôs-se nesses
países. Na ausência do poder que o ocidente abateu ou desautorizou, surgiu a
guerra no Iraque com base numa mentira e a guerra na Síria com base numa
teimosia e, daí, surgiu um radicalismo terrorista consubstanciado no ISIS. Apesar
de todas as acções militares em curso, o jihadismo está a alastrar e, embora
por formas diferentes, atingiu interesses russos, feriu a França com enorme
crueldade e, aparentemente, até chegou aos Estados Unidos.
A Líbia é agora o
novo foco onde se concentram as atenções jihadistas porque fica na encruzilhada
da Europa, África e Médio Oriente. Aí, o ISIS não só dispõe do arsenal militar
que sobrou da guerra contra Kadaffi como tem engrossado as suas fileiras com
novos combatentes. Sabe-se que está a treinar pilotos na base aérea de Sirte e
que a travessia do Mediterrâneo demora menos de uma hora. É a nova ameaça para
a Europa, como Kadaffi avisara.
Entretanto, como
hoje revela o jornal londrino The Times, o ISIS invadiu o Afeganistão, isto é, um grupo de 1600 combatentes
islâmicos internou-se na zona leste do Afeganistão, junto da fronteira
com o Paquistão. É o Wilayat Khurasan, a versão afegã do ISIS. Ocupou quatro distritos a sul da cidade de Jalalabad, a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital Kabul, tendo instalado um campo de treino militar e procedido a julgamentos
corânicos e a decapitações públicas.
Não sei o que
mais é preciso para Obama, Putin, Xi Jinping, Hollande, Cameron, Merkel e não sei quem mais, se
entenderem.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Haverá aviões a mais nos céus da Síria?
O Parlamento
britânico decidiu ontem à noite o envolvimento na campanha aérea em curso na
Síria contra o ISIS por uma maioria de 174 votos, depois de 397 deputados terem
votado a favor e 223 deputados terem votado contra. Segundo refere a imprensa inglesa, designadamente The Herald,
apenas 57 minutos depois dois Tornado GR4
largaram da sua base de Akrotiri em Chipre e regressaram três horas depois sem
bombas.
Há três dias
também o Parlamento alemão tinha aprovado o envolvimento da Alemanha no
conflito sírio, com a participação de seis
aviões Tornado que estacionarão na
base turca de Incirlik, para além de um aparelho para reabastecimento aéreo,
uma fragata que irá participar na protecção do porta-aviões francês Charles de Gaulle, que já está a actuar
no Mediterrâneo oriental, para além de um total de 1200 efectivos terrestres que
ainda não se sabe o que irão fazer.
Tal como acontece com a coligação liderada pelos Estados Unidos e com os
russos, também a França tem uma assinalável presença aérea na região. Além
disso, há os aviões do regime de Bashar al-Assad, mais os aviões turcos e os
aviões chineses. É muito avião a voar por ali e não estará longe o dia em que
alguns desses aviões se envolvam em tiroteio.
A acção militar implica sempre um correcto planeamento e muita coordenação.
No caso da Síria/Iraque não se sabe quem coordena, nem o que coordena, o que se
traduz por menor eficácia, maior custo e um elevado risco de incidentes do tipo
daquele em que recentemente estiveram envolvidos aviões russos e turcos. É caso
para perguntar se não serão aviões a mais.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
A bela Goa para quem tem frio em Lisboa
Um bom amigo decidiu
deixar esta cidade de Lisboa por uns tempos e voar até Dabolim, que é o
aeroporto que serve Goa, para fugir ao frio atlântico-europeu e para aproveitar
o calor e a amizade dos muitos amigos que tem naquela bela terra virada para o
mar Arábico. O meu amigo tem uma enorme notoriedade e prestígio cultural naquela
terra e, provavelmente, é o português mais ilustre que nos próximos tempos
andará a circular por Caranzalém, Dona Palma, Fontainhas, Altinho, Miramar e
outros bairros da cidade de Pangim. Por isso, fui consultar os jornais de Goa para
verificar se tinham dado notícia da sua chegada, porque esta sua visita é um facto que merece
notícia. Porém, desapontado, verifiquei que ele tem mantido a discrição de que tanto gosta.
No entanto, aproveitei
e fiz uma breve leitura do The Navhind Times, um dos mais
populares jornais goeses. Na sua edição de hoje, o jornal reflecte na sua
primeira página os tempos que se vivem em Goa e a sua rapidíssima entrada na
era do consumo de massa, com anúncios de vários modelos de automóveis Chevrolet e de Instant Winter Holidays por 29.000 rupias (400 euros), publicitação
do Shopping Festival em Chicalim e da
Trade Fair cum Food Festival e de uma
Singing Competition em Mapuça. Há dinheiro e vontade de o gastar. Como o
mês de Dezembro é o mês em que milhares de goeses da diáspora visitam as suas
famílias, sucedem-se todo o tipo de festas, sobretudo as festas religiosas dos
católicos e os casamentos, sempre com muitas centenas de convidados. Para
esses, também o jornal anuncia as ofertas do Señor, the suit people: um complete
wedding package por 4999 rupias (70 euros) e a feitura de fatos simples por
2499 rupias (35 euros), com delivery in 3
to 4 hours.
Seguramente, o
meu amigo JML vai estar em vários casamentos e não deixará de ir de fato novo. É
só ir ao Señor, ali na Rua Heliodoro
Salgado. E aprecie bem essa terra e essa gente!
UNESCO reconheceu a arte chocalheira
Com a surpresa
que resulta da minha ignorância nesta matéria, tive ontem conhecimento que a
arte chocalheira foi inscrita pela UNESCO na sua lista do Património Cultural
Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. Informei-me ccom a leitura do
Público – talvez o único jornal que tratou do assunto – e passei da surpresa para o aplauso do
trabalho pelo feito pela comissão de candidatura, isto é, por aqueles que com
entusiasmo, competência e discrição, fazem alguma coisa pelo nosso país.
Segundo foi anunciado, a arte chocalheira foi iniciada há mais de dois mil
anos, como testemunham os chocalhos celtiberos do século I a.C. que são
semelhantes aos que são feitos actualmente. É,
portanto, uma arte milenar que tem no território alentejano a sua maior
expressão a nível nacional, especialmente nos concelhos de Estremoz, Reguengos
de Monsaraz e Viana do Alentejo, com especial destaque para a freguesia de
Alcáçovas.
O chocalho português é um instrumento de percussão munido de um só
batente interno, que funciona da mesma maneira que um sino e que,
habitualmente, é suspenso no pescoço dos animais com a ajuda de uma correia em
couro. O chocalho está intimamente associado à pastorícia, sendo utilizado
pelos pastores para localizar e dirigir os rebanhos, mas daí também resulta uma
paisagem sonora única e característica. A inscrição do fabrico de chocalhos na
Lista do Património Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente implica um
Plano de Salvaguarda, uma espécie de “caderno de encargos" que visa
reverter a tendência de desaparecimento desta arte, garantindo a transmissão do
saber-fazer e a sustentabilidade futura da actividade. Daí que tenham sido
propostas um conjunto de medidas para promover o ensino do ofício. Depois do
cante alentejano e do fabrico de chocalhos que mais nos reservará o património
cultural alentejano?
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Falta de seriedade de quem nos governou
O Orçamento do
Estado é o documento que traduz a actividade financeira do Estado, onde se
incluem as receitas previstas e as despesas máximas autorizadas para o período
de um ano ou, dito de outra forma, que trata de fixar a utilização anual a dar
aos dinheiros públicos, tendo em vista a satisfação das necessidades
colectivas. Trata-se do mais importante instrumento da acção governativa que é
elaborado pelo Governo depois de ouvidos os parceiros sociais, sendo a respectiva
proposta apresentada à Assembleia da República até ao dia 15 de Outubro, para
ser discutida e votada. Este ano não vai
ser assim.
O cumprimento do calendário constitucional recomendava que as eleições legislativas tivessem sido realizadas em Maio ou Junho, porque haveria vários meses para preparar o Orçamento do Estado para 2016. Porém, o Presidente tomou outra decisão e, como se vê agora, decidiu mal.
O cumprimento do calendário constitucional recomendava que as eleições legislativas tivessem sido realizadas em Maio ou Junho, porque haveria vários meses para preparar o Orçamento do Estado para 2016. Porém, o Presidente tomou outra decisão e, como se vê agora, decidiu mal.
No entanto, o
processo de preparação do Orçamento começa habitualmente em Junho quando os
Serviços recebem as instruções de orientação governamental e enviam para os
escalões superiores as suas propostas com a explicitação das suas necessidades
mínimas orçamentais para o ano seguinte, como por exemplo a despesa salarial prevista tendo em conta a despesa do ano corrente, as
previsíveis despesas correntes de funcionamento e as despesas de investimento
previstas.
Nada disto foi feito e, segundo a edição de hoje do Diário de Notícias, o
novo governo socialista encontrou tudo por fazer no que respeita à preparação
da proposta de Lei do Orçamento para 2016. Diz o jornal que “o trabalho
produzido na anterior administração foi zero - mesmo aquele trabalho orçamental
que não tem nada que ver com opções políticas de fundo”. Portanto, teremos o
país sem Orçamento do Estado para 2016 durante vários meses porque houve falta
de seriedade de um Presidente que marcou eleições fora de tempo e de um Governo
que tratou da sua propaganda eleitoral em vez de cumprir com os seus deveres.
domingo, 29 de novembro de 2015
A enorme tragédia ambiental de Mariana
Mariana é uma
cidade histórica brasileira do Estado de Minas Gerais que foi fundada por
bandeirantes portugueses em finais do século XVII e cujo nome homenageia a
rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V. Situa-se numa região
que é objecto de intensa exploração mineira e, para
acomodar os materiais inertes provenientes da extracção do minério de ferro, foram
construidas algumas barragens. Foi em duas dessas barragens, respectivamente Fundão e Santarém, pertencentes
à empresa mineira Samarco, que no passado dia 5 de Novembro ocorreu uma tragédia
que deixou um rasto de morte e de destruição, com
graves danos para a sua população e para o meio-ambiente, em consequência de
uma avalancha de lama que resultantou do rompimento das duas referidas barragens. Apesar desta lama não ter um teor marcadamente tóxico, o facto é que devastou e pavimentou
mais de quinhentos quilómetros no seu percurso até ao mar.
Esta tragédia que ficou conhecida como o desastre de Mariana, é considerada o maior desastre
ambiental da história de Minas Gertais e, para muitos observadores, é um
retrato do Brasil contemporâneo, tendo servido para mostrar a negligência e a
inoperância dos órgãos governamentares para enfrentar acontecimentos desta
gravidade, mas também a enorme promiscuidade que prevalece entre as grandes
empresas multinacionais, como é o caso da Samarco, e as instâncias políticas
estaduais e federais.
Hoje o diário Estado
de Minas de Belo Horizonte publica uma extraordinária fotografia do mar
de lama a entrar no oceano e alerta para os “crimes contra o Brasil” e informa
que a “tentativa de sabotar investigação de corrupção revolta o país”.
sábado, 28 de novembro de 2015
O vendedor de serviço para o Novo Banco
A Direcção Geral
de Economia e Finanças da Comissão Europeia advertiu há umas semanas atrás, para
a possibilidade dos contribuintes portugueses virem a suportar eventuais
prejuízos do Novo Banco, depois de ter sido detectado um enorme buraco
financeiro e de ser necessário reforçar o seu capital em 1398 milhões de euros
no prazo de nove meses. A ministra Albuquerque afirmou então: “Digo o que
sempre disse: os contribuintes não serão chamados a suportar eventuais perdas
do Novo Banco”.
O assunto não ficou
esquecido e a pressa para o vender acentuou-se. Assim, foi agora anunciado que o
principal rosto da política de privatizações do governo de Passos & Portas tinha
sido contratado pelo Banco de Portugal para vender o Novo Banco. A contratação
do supracitado indivíduo de nome Sérgio Monteiro, que é um antigo funcionário
da CGD, envolve uma remuneração mensal da ordem dos 30 mil euros, segundo
noticiou o Público. O seu currículo revela que o referido Monteiro tem
sido contemplado com alguns tachos a premiar a sua militância partidária, que
assinou alguns contratos swaps, um
dos quais gerou perdas de 152 milhões de euros ao Estado e, ainda, que esteve
envolvido nas privatizações das lucrativas e estratégicas ANA e CTT, mas também
da CP Carga e, por duas vezes, da TAP. Este currículo mostra que Monteiro tem
mexido em muita massa, mas não garante que o tenha feito da melhor maneira, nem
com salvaguarda do interesse nacional. Segundo diz o jornal, o montante que vai
receber mensalmente está “a gerar perplexidade quer na CGD, quer no
supervisor”, mas eu também fico perplexo por lhe pagarem tanto dinheiro, quando
anda o país todo com o cinto tão apertado. E não deixarei de ficar perplexo quando souber que, ao contrário do que eles juraram, ainda teremos de pagar o Novo Banco
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Um discurso insólito que é para esquecer
A cerimónia da
tomada de posse do XXI Governo Constitucional foi um acontecimento histórico,
não só porque acabou com aquela estupidez que era o “arco da governabilidade”, mas
também porque nos permitiu assistir a um dos mais insólitos discursos que um Presidente
da República podia pronunciar naquelas circunstâncias. Nesse discurso falou
muito em política económica, em disciplina orçamental e na confiança dos
mercados financeiros e dos investidores externos, esquecendo-se que essa área governamental
está entregue a gente que sabe e que veio das prestigiadas universidades de
Harvard e de Nottingham.
Depois, com um ar
desapropriado para aquela cerimónia, o Presidente ameaçou e disse: “Não
abdicando de nenhum dos poderes que a Constituição atribui ao Presidente da
República – e recordo que desses poderes só o de dissolução parlamentar se
encontra cerceado – e com a legitimidade própria que advém de ter sido eleito
por sufrágio universal e direto dos Portugueses, tudo farei para que o País não
se afaste da atual trajetória de crescimento económico e criação de emprego e
preserve a credibilidade externa”. Significa que seguiu a linha da propaganda do
seu partido e se colou, uma vez mais ao anterior governo, ao dizer ser necessário
“preservar a trajetória de crescimento e de criação de emprego”, quando essa
trajectória realmente ainda não existe de forma sustentada e clara, pelo que não
é intelectualmente sério mencioná-la naquelas circunstâncias.
O insólito discurso
presidencial não teve uma palavra de incentivo ao governo para além da área
económica, como se governar fosse a simples gestão da economia, sem que
houvesse pessoas que vivem na pobreza e que carecem de emprego, de saúde, de
justiça, de educação e da satisfação dos seus direitos básicos. O insólito
discurso não teve uma palavra no sentido da mobilização dos portugueses para os
desafios que têm pela frente ou para dar confiança à Europa e aos mercados, a
que tanto se curva. O insólito discurso não teve uma palavra em defesa dos
desempregados, nem dos reformados, nem do regresso dos milhares de concidadãos que
sairam do país. Nem sobre a Ciência, o Ambiente, a Cultura ou a Educação. O insólito
discurso é para esquecer.
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Um novo governo e uma nova esperança
Passados mais de
cinquenta dias sobre as eleições legislativas de 4 de Outubro e depois de
audiências com tantas personalidades apostadas em contrariar a vontade expressa
dos portugueses através dos seus deputados eleitos, tomou posse ontem o XXI
Governo Constitucional presidido por António Costa. Acabou essa treta do arco da governação. Festejemos por isso, até porque os últimos quatro anos
foram duros e cansativos para os portugueses que, com 62% dos votos, rejeitaram
a insensibilidade, o autoritarismo e a demagogia do par Passos & Portas. Como
disse há muitos anos o poeta Luís de Camões:
“Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades;
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o
mundo é composto de mudança;
Tomando
sempre novas qualidades”.
Estamos realmente num tempo de “mudança” e de “novas qualidades”,
mas estamos sobretudo num tempo de esperança para nos sentirmos num país mais
democrático, mais coeso, mais solidário e de gente mais feliz. Ao contrário do
que tem sido dito pela propaganda, o governo de Passos e Portas fez-nos andar
para trás. Estamos pior do que em 2011. Temos mais dívida pública, mais
desemprego, mais pobreza, mais desigualdade, mais gente emigrada, mais
desertificação do território e mais envelhecimento demográfico. Esta é que é
realidade que não é possível manipular.
Ontem Cavaco esteve ao seu nível, com ameaças e avisos
desnecessários que só serviram para aumentar a crispação que anda por aí. O seu
tempo político já passou. Agora é preciso assegurar que regresse a Boliqueime
com um mínimo de dignidade. A História não guardará dele boa memória, mas
talvez lhe ponham o nome numa rua ou numa escola ou num qualquer pavilhão
gimno-desportivo.
O discurso de António Costa foi prometedor com fortes apelos à
serenidade e à moderação, sem abdicar do combate à “vertigem austeritária” e a
lembrar que responde politicamente perante o Parlamento e não perante Cavaco.
Porém, tem um desafio difícil pela frente, até porque vai continuar a campanha
difamatória que lhe tem sido feita pelas televisões e pelos seus jornalistas e
comentadores de serviço, assim como o discurso intolerante e mentiroso de Portas,
de Rangel, de Montenegro, de Teresa Coelho e dessa sinistra figura que é Marco António Costa,
que repetem até à exaustão uma mesma cassete
mentirosa.
António Costa é um político experiente e está preparado. Juntou
gente de muito valor, com provas dadas na política e na vida académica. Sabe
que os tempos são difíceis e que o caminho está armadilhado em Lisboa, em
Bruxelas e talvez em Berlim, mas também sabe que tem a confiança maioritária dos portugueses para
mudar o rumo do país. Boa sorte!
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