quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lisboa é a cidade dos jacarandás

Lisboa: avenida 24 de Julho
Desde os fins de Maio até quase ao fim de Junho, muitas ruas e praças da cidade de Lisboa são tomadas pelo azul aroxeado das flores dos jacarandás (jacarandá mimosifolia), uma árvore exótica cujo nome tupi-guarani revela a sua origem sul-americana. A árvore foi introduzida em Portugal pelo botânico Félix de Avelar Brotero quando dirigiu o Jardim Botânico no primeiro quartel do século XIX, tendo sido aclimatizado e depois plantado por toda a cidade de Lisboa e, em menor escala, em outras localidades. Dizem os livros que o jacarandá tem o tronco um pouco retorcido e a copa arredondada, irregular, arejada e rala, perdendo a folhagem no inverno e que tem raízes aprumadas e profundas que não danificam os pisos das calçadas lisboetas, razão porque que passou a ser muito utilizada na ornamentação das ruas, praças e parques da cidade.
Porém, o que verdadeiramente destaca o jacarandá é o seu florescimento a partir de Maio, que constitui um fascinante espectáculo de azul aroxeado que alastra um pouco por todo o lado e que, com a luminosidade característica da cidade de Lisboa, lhe dá um ar tropical único que não é atlântico, nem é mediterrânico. Por isso, os jacarandás são um prazer  para a vista, ao mesmo tempo que insinuam as paragens brasileiras e inspiram muitos lisboetas a fotografar e a escrever sobre este quase ex-libris da cidade de Lisboa, que tanto encanta os lisboetas (excepção feita aos automobilistas que estacionam junto das floridas árvores) e os turistas. Seguramente que, aos elementos que formam o eixo dominante da identidade lisboeta, como o estuário do Tejo, os monumentos e as igrejas, a memória histórica, o fado, as marchas populares, os cacilheiros, o SLB e o SCP, o pastel de Belém, a Tendinha, o João do Grão e tantas outras coisas boas da nossa cidade, teremos que acrescentar o nosso amigo jacarandá. Com toda a justiça!

terça-feira, 16 de junho de 2015

O jogo da TAP e os jogadores em off-side

A questão da privatização da TAP tem suscitado muita controvérsia e não tem deixado ninguém indiferente.
Os argumentos de quem a defende são de natureza financeira e ideológica, enquanto os argumentos de quem discorda são sobretudo de ordem económica e emocional. O debate tem sido apaixonante e mostrou que os portugueses estão muito divididos em relação ao assunto. Na sua ânsia privatizadora, o governo não procurou consensos nem soluções alternativas, tratando de construir uma narrativa que servia os seus propósitos, sem atender ao valor simbólico que a TAP tem para os portugueses, nem ao serviço que presta à economia nacional e às comunidades portuguesas, nem ao emprego directo e indirecto que assegura. A privatização da TAP, tal como acontecera com os Correios e com outras empresas estratégicas, não representa uma mera desnacionalização empresarial e um acto de gestão governativa, mas constitui uma desnacionalização do nosso património, da nossa memória, da nossa identidade e do nosso orgulho nacional. Ao actuar como actuou em relação à TAP, à pressa, com sigilo, com uma intensa campanha de propaganda e a poucos meses de eleições legislativas, o governo prestou um mau serviço ao país, com o apoio de alguns obcecados jornalistas que arregimentou para a sua causa.
Porém, a cereja no topo do bolo, veio de outro lado. Continuando sem perceber que a sua função presidencial é promover a união e a coesão entre os portugueses e de ser um árbitro prudente em questões sensíveis como estas, o homem que veio de Boliqueime e se instalou em Belém, colocou-se uma vez mais em off-side ao afirmar, exactamente a bordo de um avião da TAP e em total informalidade, que estava “mais aliviado” relativamente à privatização da TAP. Que tristeza! Está ele preocupado com a pobreza e o desemprego? É ele o presidente de todos os portugueses? Certamente que não. É mais um cartão amarelo e já são demasiados. É uma pena que nestes jogos não haja cartões vermelhos por acumulação de amarelos!

domingo, 14 de junho de 2015

O mito Robin Hood e o discurso de Hillary

No dia 8 de Novembro de 2016 realizar-se-ão as eleições presidenciais americanas. Ainda faltam mais de 16 meses, mas já estão oficialmente anunciadas 14 candidaturas, sendo dez por parte de apoiantes do Partido Republicano e quatro por parte de apoiantes do Partido Democrata. Este elevado número de candidaturas resulta em boa medida do facto de Barack Obama, o actual Presidente, não ser elegível para um terceiro mandato, o que aumenta a probabilidade de vir a acontecer uma mudança de ciclo dos Democratas para os Republicanos.
Um dos candidatos democratas já anunciados é Hillary Rodham Clinton, a antiga Primeira Dama (1993-2001) e Secretária de Estado (2009-2013), que ontem fez o lançamento oficial da sua campanha presidencial na ilha Roosevelt, no East Side de Nova Yorque, com um discurso de 40 minutos perante alguns milhares de apoiantes, tendo a seu lado o marido Bill Clinton, a filha Chelsea e o genro Marc Mezvinsky. Respondendo aos que apontam os seus 67 anos de idade como um handicap, ela disse que “posso não ser o candidato mais jovem na corrida presidencial, mas vou ser a mais jovem mulher a ser Presidente dos Estados Unidos”. Porém, o que despertou mais interesse no discurso de Hillary Clinton foi a sua declaração anti-Wall Street e de grande hostilidade ao poder especulativo e ganancioso dos bancos, dos fundos financeiros e das grandes empresas, tendo afirmado que “iria tirar aos ricos para dar aos pobres”. O diário sensacionalista New York Post, que é o sétimo jornal americano em termos de circulação, destacou hoje essa declaração de ataque aos ricos para tratar Hillary Clinton como Rodham Hood, isto é, uma moderna versão no feminino do simbólico Robin Hood, o herói mítico dos ingleses que roubava aos ricos para dar aos pobres.

A exposição da obra de Josefa de Óbidos

Josefa de Óbidos e a invenção do Barroco Português é uma grande exposição patente no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, com mais de 130 peças de pintura, escultura e artes decorativas, provenientes das colecções de várias instituições nacionais e estrangeiras, em que se destacam os museus do Prado e de Bellas Artes de Sevilha e o Mosteiro do Escorial, além de muitas obras cedidas por colecionadores particulares. Destacam-se, também, algumas importantes pinturas e retábulos provenientes de algumas igrejas e paróquias da região Oeste, nomeadamente Cascais, Peniche e Torres Vedras, para as quais a pintora trabalhou.
Josefa de Ayala Figueira, conhecida em Portugal por Josefa de Óbidos, era filha do pintor português Baltazar Gomes Figueira, natural de Óbidos, e de mãe espanhola, tendo nascido em Sevilha em 1630, mas os seus pais fixaram-se em Óbidos quando ela tinha 4 anos de idade. Seguiu as pisadas artísticas do pai desde a adolescência e viveu em Óbidos até 1684, sendo considerada uma especialista na pintura de temas religiosos  e de naturezas mortas, onde incluia flores, frutos, aves de caça e objectos inanimados.
A exposição dispersa-se por oito núcleos e constitui, também, um suporte para revelar os méritos e a originalidade do Barroco Português nos anos que se seguiram à restauração da independência portuguesa. Trata-se de uma exposição muito bem estruturada e muito pedagógica que nos revela uma grande pintora e a sua época,  estando patente no Museu Nacional de Arte Antiga até ao dia 6 de Setembro.

A nova face do poder local em Espanha

Havia uma grande expectativa quanto aos arranjos políticos que iriam concretizar-se depois das eleições autárquicas espanholas de 24 de Maio.
Ontem, realizou-se a tomada de posse dos novos alcaides e de mais de oito mil novos autarcas, depois de terem sido negociados muitos pactos pactos e alianças entre as “forças da mudança”. O mapa político espanhol foi muito alterado, com a esquerda (PSOE, Podemos e outras formações nacionalistas e independentes) a garantir o poder em 37 das 54 capitais de província do país e a acabar com domínio do PP no poder local, que agora governa apenas 17 das 43 capitais que antes governava. Como salienta o jornal madrileno El Mundo, foi a “revolución en los ayuntamientos”.
O facto mais saliente aconteceu nos dois maiores municípios espanhóis e teve duas mulheres independentes como protagonistas: em Madrid foi empossada Manuela Carmena, juiza reformada que foi eleita pela lista cidadã “Ahora Madrid” e que garantiu o apoio do PSOE para governar a capital com maioria absoluta e, em Barcelona, tomou posse a activista política e social Ada Colau, que assumiu o cargo após a vitória da sua coligação “Barcelona en Comú”. A generalidade das lideranças agora empossadas tem um ideário político que se afasta claramente das práticas partidárias habituais e defende o governo das cidades com uma política anti-austeridade e ao serviço da maioria empobrecida, a criação de emprego, o reforço da coesão social, uma maior equidade económica e social, uma participação efectiva dos cidadãos e a eficiência nas despesas públicas.
Em Espanha, as expectativas são muito altas mas, naturalmente, o que acontecer no país vizinho também nos interessa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

As grandes festas da cidade de Lisboa

Hoje é a grande noite das Festas de Lisboa de 2015!
Embora o programa das festas se estenda desde o dia 30 de Maio até ao dia 4 de Julho, contemplando inúmeras iniciativas culturais, incluindo os concertos, as exposições, festivais de cinema e teatro, algumas competições desportivas e outros eventos, o facto é que a noite de Santo António é a rainha da festa, com uma singular animação nas ruas, com o cheiro da sardinha assada a impor-se nos recantos mais típicos da cidade e com o desfile das marchas populares. Será assim por toda a cidade, especialmente na Alfama, na Mouraria, no Castelo e na Madragoa. Os característicos aromas dos manjericos andarão no ar e são acompanhados por um cravo de papel e de uma quadra alusiva a Santo António. Os bairros populares já estão engalanados com grinaldas e globos coloridos e as suas ruas já se animam com a música popular. Os restaurantes e as tabernas já instalaram as suas mesas, os barris de cerveja estão prontos e os assadores estão preparados para a noite da sardinha assada. A meteorologia está a ajudar e a cidade está cheia de turistas. Respira-se um ambiente de festa. Lisboa e os lisboetas bem precisam dele.
Na grande Avenida da Liberdade vão desfilar as marchas populares e, ao longo da avenida, estarão milhares de pessoas a assistir ao desfile e a apoiar os marchantes. A televisão dedica sempre grandes espaços às festas da cidade e todo o país vai ter a possibilidade de ver a alegria e a cor das grandes festas da cidade de Lisboa.
Camões tinha razão quando em 1572 escreveu:
                              E tu, nobre Lisboa, que no mundo
                              Facilmente das outras és princesa.
                              (Os Lusíadas, Canto III, Estância 57)
Lisboa grande cidade, Lisboa a minha cidade!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Foi apenas música no coração

A generalidade da imprensa internacional de referência ilustrou as suas edições de ontem com uma fotografia alusiva à reunião do G7 – Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, Reino Unido, Itália e França – que se realizou em Elmau, nos  Alpes da Baviera. Essa fotografia mostra Angela Merkel e Barack Obama a conversar descontraidamente num cenário campestre que tem como pano de fundo as montanhas alpinas ainda cobertas de neve. Muitos dos relatos e das legendas que acompanharam essa fotografia na imprensa internacional aludiam à semelhança com o cenário do filme “Música no coração”, rodado em 1965 sob a direcção de Robert Wise e tendo Julie Andrews como protagonista.
Sabe-se pouco a respeito dos assuntos tratados nestas reuniões do G7, mas parece que as preocupações se centraram nos problemas financeiros da Grécia e no nervosismo por que passam os seus credores, na forte crítica ao envolvimento russo no separatismo ucraniano e, ainda, no problema das alterações climáticas. A ter sido assim, significa que os sete países mais industrializados do mundo estiveram reunidos para que alguns deles tratassem das suas agendas próprias, enquanto outros se limitaram a fazer-lhes companhia. A ter sido assim, os mais preocupantes problemas mundiais da actualidade não foram tratados na reunião, caso da fome e da desigualdade no mundo, do terrorismo, do declínio demográfico da Europa, da proliferação de guerras e da instabilidade no Médio Oriente, da ameaça jihadista e das maciças migrações do Mediterrâneo e do Sueste asiático, entre tantos outros problemas que afligem o mundo.
A fotografia de Obama e Merkel que se tornou famosa, parece traduzir o que realmente se passou em Elmau, isto é, um encontro cordial de amigos que se limitou a ameaçar a Grécia e a insistir nas sanções à Rússia ou, como foi escrito, não foi mais do que música no coração.

domingo, 7 de junho de 2015

O fascínio d’As ilhas desconhecidas

No Verão de 1924 o escritor e jornalista Raúl Brandão visitou o arquipélago dos Açores e dessa viagem resultou a publicação em 1926 de um “livro de viagens” que ficou famoso no contexto da literatura portuguesa. O seu título é As ilhas desconhecidas - Notas e paisagens e é uma das mais apreciadas obras literárias sobre as ilhas açorianas, que muito tem contribuído para a divulgação e para a formação da sua imagem externa. Ao longo do tempo têm sido publicadas várias edições desta obra sobre os Açores, que retrata com um recorte literário de excelência o ambiente natural e a paisagem humana das ilhas, algumas especificidades da fauna e da flora, a arte da pesca da baleia, as festas do Espírito Santo, a imponência da montanha do Pico, as fainas marítimas e a solidão insular, entre muitos outros aspectos característicos das ilhas.
A partir de 2008 o fotógrafo Jorge Barros decidiu promover uma edição desta obra ilustrando-a com belíssimas fotografias da sua autoria. O ambicioso projecto demorou três anos e da ligação do texto de Raúl Brandão com a fotografia de Jorge Barros, resultou uma edição de grande qualidade estética e artística que muito valoriza o património editorial açoriano.
Com o apoio do Governo dos Açores foi preparada uma bela exposição de fotografia itinerante com muitas das imagens resultantes do levantamento fotográfico de Jorge Barros por todas as ilhas. Actualmente, a exposição encontra-se na ilha do Pico, repartida por dois núcleos, respectivamente nas Lajes do Pico (Museu dos Baleeiros) e em São Roque do Pico (Museu da Indústria Baleeira). É um acontecimento cultural relevante e inspirador na “mais bela e mais extraordinária ilha dos Açores”, como escreveu Raúl Brandão.

A diplomacia histórico-emocional

Hoje, no Estado da Virginia e especialmente no porto de Yorktown, há uma grande festa em honra da amizade entre a França e os Estados Unidos e de exaltação da lendária figura do Marquês de La Fayette, o herói francês da independência americana. A réplica da famosa fragata francesa L´Hermione que em 1780 levou o famoso revolucionário da França para a América e, também, o apoio francês aos revolucionários americanos, saiu da costa francesa no dia 18 de Abril, atravessou o Atlântico e entrou, com a pompa e circunstância com que os americanos recebem os veleiros, no histórico porto de Yorktown.
A história americana está fortemente ligada a Yorktown e à Virgínia. Foi nesta região que em 1607 os ingleses estabeleceram o seu primeiro assentamento no novo continente e este Estado foi um dos treze que se revoltaram contra os ingleses durante a guerra da independência, tendo sido exactamente em Yorktown que em 1781 as forças britânicas de Lord Cornwallis se renderam às forças de George Washington, um filho desta terra, assim terminando a guerra da independência americana.
Depois de uma escala de três dias em Yorktown, a fragata L’Hermione realizará um périplo de um mês pelos lugares históricos da revolução americana, como Filadélfia e Boston, terminando esta sua missão história e diplomática em Nova York no dia 4 de Julho, quando se celebra o aniversário da independência das colónias inglesas da América.
Ontem, o diário Daily Press que se publica em Newport desde 1896, destacou este acontecimento, publicando na sua primeira página uma espectacular fotografia do L’Hermione a entrar no porto de Yorktown. A nação americana tem uma existência ainda curta e, por isso, sabe apreciar como poucas as suas memórias históricas, muitas vezes materializadas na visita de um veleiro que evoca a sua própria identidade nacional, enquanto a França sabe como é importante e prestigiante esta diplomacia de natureza histórico-emocional.

sábado, 6 de junho de 2015

Os incontroláveis dinheiros da FIFA

No meio do vendaval que tem atravessado a FIFA e que, sob fortes suspeitas de corrupção, levou à detenção de alguns dos seus dirigentes de topo e à demissão do seu recém eleito presidente, começam a surgir informações sobre a opulência financeira em que vivia essa organização. Sabe-se agora que não se tratava apenas das muitas e excessivas mordomias de que os membros da organização beneficiavam, nem das fortes suspeitas de recebimento de desonestas comissões, mas também dos salários que constituiam a parte mais visível dessa opulência. Assim, foi agora revelado que o salário anual médio pago pela FIFA às suas cinco centenas de funcionários baseados em Zurich atinge 242 mil dolares (cerca de 220 mil euros), sendo que os mais elevados salários são atribuidos aos 25 membros do seu comité executivo e aos 12 directores da organização. Uma fartura de notas! Estes valores ultrapassam largamente os salários que são praticados pelas outras federações desportivas, designadamente pela UEFA (177.000 dolares), pela União Ciclista Internacional (108.000 dolares) e pela Federação Internacional de Ténis (100.000 dolares). Só os salários médios dos funcionários do Comité Olímpico Internacional que está instalado em Lausanne e que atingem 217 mil dolares, rivalizam com a FIFA. Estes valores salariais são excessivos e não têm paralelo no mundo empresarial, nem sequer nas maiores multinacionais. Como a FIFA nada produz e se limita a receber as largas somas de dinheiro que caem na sua conta bancária devido aos direitos publicitários e aos direitos relativos às transmissões televisivas dos jogos de futebol, é natural que tanto dinheiro deslumbre os seus funcionários, sobretudo aqueles que têm algum poder de influência e de decisão no mundo do futebol. É caso para perguntar como foi possível que tudo isto acontecesse durante tantos anos, sem que ninguém visse e que todos se calassem.
 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

EUA a perder terreno no Médio Oriente

A mais recente edição do The Economist aborda o complexo problema das enredadas relações entre os Estados Unidos e o mundo árabe e sustenta que, em poucos anos, a ordem que estabeleceram e controlaram desde o fim da 2ª guerra mundial colapsou. Os erros estratégicos americanos estão um pouco por todo o lado, com violentas guerras civis que estão a devorar a Síria, o Iraque e a Líbia, enquanto no califado estabelecido pelo EIIL, os jihadistas vestidos de negro são promovidos pelas televisões e a aviação saudita bombardeia os rebeldes no Iémen. Segundo os analistas, ainda vão decorrer muitos anos até que a paz regresse ao Médio Oriente.
Os americanos têm perdido influência na região e neste grande imbróglio é necessário perceber-se o que é que têm feito de errado e de tão desastroso, embora em Washington, não haja acordo entre republicanos e democratas quanto ao que de mal tem sido feito desde a invasão do Iraque em 2003. O apoio às “primaveras árabes” e a luta contra os ditadores regionais produziu efeitos perversos e agudizou o nacionalismo árabe que, muitas vezes, levou os jovens sem perspectivas a refugiarem-se na religião e até no fanatismo. Além disso, o petróleo, a ambição geopolítica da China, o ressurgimento do orgulho e do poder da Rússia e a vontade do Irão em afirmar-se como uma potência regional ou mesmo nuclear, tornaram a situação ainda mais complexa e preocupante. Os recentes sucessos militares do EIIL em Ramadi (Iraque) e em  Palmyra (Síria) foram motivadores para os seus militantes e atrairam dinheiro e combatentes. Mais tarde ou mais cedo, a insegurança e o terrorismo que hoje estão na Síria e na Líbia, hão-de chegar à Europa.
É verdade que o poder americano já não é o que era. As guerras do Vietnam e do Iraque foram muito caras e os recursos não são ilimitados, mesmo nos Estados Unidos. Muitos árabes acham que o poder americano já não governa o mundo, enquanto muitos americanos acham que não lhes compete impor ordem no caos reinante no Médio Oriente, mas estas são duas posições-limite. Muito do que se passa no Médio Oriente resulta de erros dos americanos e dos seus aliados ocidentais e, até por isso, há que emendá-los e procurar soluções equilibradas. Os Estados Unidos têm interesses estratégicos na região e, além destes problemas recentes que lhe exigem uma intervenção pacificadora, não podem deixar de continuar a sua luta pela paz entre Israel e a Palestina. Porém, mais importante do que os meios militares, serão as armas do bom senso, da inteligência e da diplomacia.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

As fábricas do jihadismo estão em França

Os serviços secretos americanos têm revelado que haverá 20 mil estrangeiros oriundos de 90 países que se encontram na Síria como combatentes do Estado Islâmico, o nome por que é conhecido o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), também reconhecido pelas siglas ISIS (em inglês) e DAESH (em árabe).
A adesão de combatentes ao EIIL tem aumentado desde que em 29 de Junho de 2014 foi anunciado o restabelecimento de um califado nos territórios sob o seu controlo no norte do Iraque e no leste da Síria, enquanto Abou Bakr al-Baghdadi foi proclamado califa e sucessor de Maomé. Alguns anunciados sucessos militares do EIIL e alguma ineficácia na coligação criada para o combater, têm contribuido para atrair militantes e para promover o aparecimento de importantes focos de jihadismo na Nigéria, na Líbia, no Egipto e no Iémen, o que se está a tornar numa ameaça para a paz e a segurança, um pouco por todo o mundo.
Estima-se que haverá 3400 combatentes estrangeiros provenientes de países ocidentais a combater pelo EIIL e a França parece ser o seu principal centro de recrutamento. A edição do diário La Provence que se publica em Marselha, dedica a sua edição de ontem ao jihadismo e anuncia em primeira página que a França é a fábrica do jihadismo, havendo quem classifique a crescente adesão ao EIIL como o tsunami jihadista.
O assunto preocupa a França mas também a Europa, mas é uma reacção natural às políticas que têm sido adoptadas, com predomínio do financeiro sobre o social, aparecendo como reacção ao desemprego, à pobreza, à injustiça, à não integração social e à falta de políticas sociais de enquadramento da juventude. Os erros que têm sido cometidos pelos responsáveis políticos ocidentais, neste como noutros assuntos, evidencia o fim do euro-centrismo e da euro-prosperidade, que têm sido acelerados pela generalizada incompetência dos governantes e pela passividade dos governados.

domingo, 31 de maio de 2015

Os impasses da democracia espanhola

As recentes eleições autárquicas e regionais espanholas deram uma escassa vitória ao partido Partido Popular (PP) por apenas 27% dos votos. O PP perdeu a larga maioria que detinha e perdeu o poder em algumas regiões importantes, enquanto o PSOE conseguiu sobreviver ao aparecimento do Podemos e do Ciudadanos. O mapa político espanhol alterou-se como consequência da reacção do eleitorado à crise económica e ao desemprego, mas gerou um certo impasse político em muitas situações onde o radicalismo pré-eleitoral dificulta agora a obtenção de acordos pós-eleitorais.
O caso da Comunidade Autónoma da Extremadura é ilustrativo dessa situação. Com uma área de cerca de 41 mil quilómetros quadrados (quase metade de Portugal) e um pouco mais de um milhão de habitantes, tem a sua capital em Mérida e inclui 387 municípios nas províncias de Badajoz (165) e Cáceres (222). Nas eleições autárquicas de 24 de Maio registou-se uma participação de 73% de eleitores, tendo havido uma bipolarização em torno do PSOE (42,08%) e do PP (36,75%). Dos 3350 mandatos que estavam em disputa, o PSOE obteve 1642 e o PP conseguiu 1295, enquanto os outros partidos e coligações obtiveram 413 mandatos.
Porém, uma semana depois das eleições, o jornal Hoy de Badajoz, revela que há 70 municípios ou alcaldias, que correspondem a 18% do total da comunidade estremenha, que estão pendentes de acordos entre os diversos partidos políticos para terem governo municipal. São 70 impasses da democracia espanhola. As combinações não são fáceis. O PP defende que deve governar o partido mais votado, enquanto o PSOE está disposto a coligar-se à esquerda. Veremos… e, sobretudo, aprendamos.

A insólita reeleição de Joseph Blatter

Apesar da tempestade que atingiu a FIFA, na passada sexta-feira Joseph Blatter foi reeleito para fazer o seu quinto mandato como presidente da organização que governa o futebol mundial, depois de ter ocupado o cargo durante 17 anos, de não ter evitado a enorme corrupção que agora foi denunciada e de já ter 79 anos de idade. A imprensa internacional continuou a ocupar-se desta estranha e surpreendente eleição e, no dia seguinte, a capa do Der Spiegel é apenas um exemplo da atenção que o tema mereceu. Mesmo no meio da tempestade que criou ou que não foi capaz de dominar, Joseph Blatter venceu com facilidade. As 209 federações nacionais inscritas na FIFA ainda tiveram que realizar uma segunda volta do escrutínio pois Blatter não conseguiu os dois terços de votos necessários para assegurar a vitória na primeira ronda. O apoio da generalidade das federações europeias, dos Estados Unidos, do Canadá e da Nova Zelândia ao príncipe jordano Ali bin Hussein não foram suficientes para derrotar Blatter.
O mundo admirou-se pelo facto de 133 federações nacionais terem apoiado Blatter, depois do que se passou nos últimos dias. Porém, o presidente da FIFA soubera conquistar esses apoios ao longo dos anos com a oferta de frequentes viagens a Zurique para reuniões e worshops, com alojamento nos mais luxuosos hotéis da cidade, com o pagamento de prémios por presença nessas reuniões, além de outras quase irresistíveis mordomias.    
Em comunicado enviado à imprensa a Federação Portuguesa de Futebol condenou a recondução de Blatter na presidência da FIFA que, segundo ela, deveria ter sido adiada e é uma prova de que Luís Figo tinha razão quando desistiu da sua candidatura por não querer caucionar este processo. Às vezes, no meio das tempestades, sabemos tomar as atitudes correctas.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O vendaval na FIFA e outros escândalos

É uma grande notícia, daquelas de que a comunicação social tanto gosta, mas que muita cumplicidade calou durante muitos anos, sabe-se lá porquê. Por todo o mundo não se fala noutra coisa e até foram esquecidos os grandes problemas com que se debate a Humanidade. Os jornais internacionais e as cadeias de televisão a que temos acesso não param de nos informar, de nos explicar e de nos descrever o que se está a passar na Fédération Internationale de Football Association, a organização que governa o futebol mundial e que é conhecida pela sigla FIFA. Ontem, no seu telejornal das 20 horas, a RTP dedicou-lhe os primeiros 16 minutos! Há uma guerra aberta de contornos políticos e económicos à volta deste vendaval e, entre outros, até Putin e Cameron já tomaram posição, enquanto os grandes patrocinadores como a Coca Cola, a Visa e a Adidas ameaçam desligar-se do futebol. 
Hoje o Le Monde fala do escândalo e da risco de implosão da FIFA. Aconteceu que, a pedido das autoridades americanas e na sequência de uma investigação que decorria há 12 anos, a polícia de Zurique deteve sete dirigentes da FIFA acusados de participar numa rede de corrupção instalada no mundo do futebol e dela beneficiar directamente, através de subornos, chantagens, fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Esta rede terá actuado ao longo de mais de duas dezenas de anos e o valor calculado da fraude poderá atingir 150 milhões de dólares.
O Presidente da FIFA está, até agora, ilibado neste processo. É um cidadão suíço de 79 anos de idade chamado Joseph Blatter, que governa a organização desde 1998 e que hoje mesmo se apresenta para ser eleito para um 5º mandato. O homem não sabia de nada, mas já disse que não podia controlar tudo e que está certo de que se seguirão outras más notícias. É bem curiosa esta nova moda em que aqueles que mandam não assumem as suas responsabilidades pelo que se passa nas organizações ou serviços que tutelam, seja aqui seja lá fora, seja na nossa Autoridade Tributária, seja na FIFA. Antigamente, as pessoas eram mais verticais, tinham vergonha e demitiam-se.