quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Lisboa, capital da inovação e tecnologia

Lisboa está transfigurada e muito modernizada nos últimos anos e o turismo aparece, ora como causa, ora como consequência, dessa mudança. A cidade aproximou-se da sua zona ribeirinha, os velhos edifícios têm sido bem reabilitados e a oferta cultural dinamizou-se. Um país que há cinquenta anos vivia “orgulhosamente só”, atrai agora gente de todo o mundo, a lembrar a “minha aldeia”, um apreciado poema de António Gedeão:
 
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

 A realização da Web Summit, a grande conferência mundial de tecnologia que é organizada desde 2009, primeiro em Dublin mas desde 2016 em Lisboa, é um exemplo da transformação por que passa a capital de Portugal e, naturalmente, o próprio país. É a terceira vez que a cidade de Lisboa acolhe a conferência que este ano é centrada na tecnologia da internet, mas já foi anunciado que a Web Summit e o governo português acordaram numa parceria a dez anos que assegura que a conferência continuará a realizar-se em Lisboa até 2028.
É uma boa notícia para Lisboa e para Portugal, porque melhora a notoriedade e a imagem de Portugal e dos portugueses. Atrai pessoas, investimentos e actividades.  Alavanca a economia e estimula o progresso. Melhora a nossa sociedade. Com os milhares de visitantes que a Web Summit atrai, que enchem hotéis, transportes públicos, restaurantes e comércios, não é apenas um desafio ao empreendedorismo e à inovação, mas é também uma plataforma que parece fazer renascer a cidade em movimento, animação e vida.

domingo, 4 de novembro de 2018

Bolsonaro continua a agitar o Brasil

A eleição de Jair Bolsonaro continua a alimentar o noticiário internacional, a aumentar as preocupações de muita gente e a agitar o Brasil. No exterior, por exemplo em Portugal, o presidente eleito do Brasil continua a suscitar controvérsias e muitas dúvidas quanto às suas qualidades e competências para dirigir o país. A insólita história que está a ser protagonizada por Sérgio Moro, ao aceitar o convite de Bolsonaro e assumir-se como um político, depois de ter estado camuflado de juiz e ter impedido Lula da Silva de concorrer à eleição presidencial, é a prova do estado de degradação a que chegou o sistema judicial brasileiro. Sérgio Moro revelou a sua face de vulgar trafulha e de grande mentiroso. Com a sua ambiciosa pirueta perdeu toda a sua credibilidade e lançou toda a Justiça brasileira num lamaçal.
Hoje o Jornal do Comércio de Porto Alegre alerta para um outro problema que pode ser sério no plano da coesão nacional, pois 11 dos 27 estados brasileiros votaram a favor de Haddad, tendo o Nordeste votado maciçamente contra Bolsonaro. Perante esta concentração de opositores numa mesma região, Bolsonaro já terá ameaçado que os estados do Nordeste podem vir a ter um “tratamento secundário”. Mas o que vai acontecer na relação do novo presidente com o Nordeste é uma incógnita. Porém, a atitude de Moro veio introduzir um novo dado na política brasileira ao fazer com que as forças anti-Bolsonaro começassem a unir-se e a preparar-se para reagir ao autoritarismo que aí vem ou parece vir.

sábado, 3 de novembro de 2018

Brasil prossegue nos seus passos radicais

Jair Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil e, depois de uma primeira declaração de apaziguamento, retomou as suas controversas declarações e atitudes, apesar de ainda faltarem dois meses para se instalar em Brasília e ocupar o Palácio do Planalto.
A mais surpreendente das suas atitudes foi o convite que dirigiu ao juiz federal Sérgio Moro para que ocupasse um cargo de ministro no seu futuro governo, o que ele aceitou após algumas horas de reflexão. Portanto, os brasileiros vão ter como ministro da Justiça e Segurança Pública o juiz que prendeu o ex-presidente Lula da Silva e que o impediu de concorrer às eleições presidenciais de que era favorito, o que tanto pode significar o pagamento de um serviço prestado à candidatura de Jair Bolsonaro, como um empenhado esforço na luta contra a corrupção e o crime organizado.
Esta transição da Justiça para a Política vem mostrar a promiscuidade que existe entre ambas e vem demonstrar que Sérgio Moro tem actuado por conta das suas ambições políticas, isto é, tem actuado na magistratura como um político disfarçado de juiz, como sempre pareceu devido à sua obstinação na perseguição a Lula da Silva.
Daí que muitas pessoas se interroguem quanto ao facto de Bolsonaro ter convidado para ministro o juiz que condenou o seu principal adversário político e que duvidem da sua intenção de combater a generalizada corrupção brasileira, que existe sobretudo nos sectores políticos que lhe afectos.
O que certamente vai acontecer é que esta nomeação vai dividir ainda mais os brasileiros e vai mexer com o PT e com os apoiantes de Lula da Silva, cada vez mais convencidos de que houve um enorme golpe anti-PT para tomar o poder, o que vai contribuir para a sua coesão enquanto oposição a Jair Bolsonaro.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Portugal e a Galiza são uma Irmandade

Marcelo Rebelo de Sousa foi distinguido com o Prémio Fernández Latorre, que é considerado como um Prémio Nobel galego, tendo sido o primeiro chefe de Estado estrangeiro a ser distinguido com aquele prémio, que foi instituído há 60 anos pelo fundador do jornal La Voz de Galicia.
É sabido como o Presidente da República Portuguesa, na linha do que fizeram os seus antecessores, tem dedicado uma especial atenção à Espanha, o país a que nos unem fronteiras, interesses económicos e laços históricos e culturais que se têm intensificado, depois da Democracia ter sido adoptada nos dois países, com enormes vantagens para ambos. Por isso, a distinção premeia o homem e o trabalho que tem desenvolvido pela amizade com a Espanha e pela unidade ibérica. 
O Prémio Fernández Latorre foi este ano decidido por unanimidade dos membros do seu Conselho de Curadores e foi entregue a Marcelo Rebelo de Sousa pelo rei Felipe VI de Espanha, tendo sido atribuído “em reconhecimento da sua acção para a promoção das relações bilaterais entre a Espanha e Portugal”, mas também pelo seu contributo para que as relações transfronteiriças entre ambos sejam agora “um modelo de coesão” para a União Europeia.
Na cerimónia de entrega do prémio, houve discursos em português, em galego e em castelhano, mas os discursos do Rei de Espanha e do Presidente de Portugal, foram coincidentes nos elogios e nos afectos. Marcelo disse que “juntos somos mais fortes” e, de facto, assim é no estado actual da Europa.
Naturalmente, o jornal La Voz de Galicia dedicou uma edição especial a este evento a que deu o título “Irmandade”, em referência às afinidades luso-galegas e que, além disso, muito reforçou o prestígio internacional de Marcelo Rebelo de Sousa.
O prémio tem um valor de 10 mil euros que o premiado doou à Comunidade Vida e Paz, uma associação que luta pela integração de pessoas sem-abrigo. De aplaudir, também.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O Brasil escolheu e o Jair é que venceu

O Brasil escolheu ontem o seu 38º Presidente da República e o escolhido foi Jair Bolsonaro com 55% dos votos. Foi uma vitória expressiva e o discurso de vitória surpreendeu pela moderação, pelo anúncio da defesa da Liberdade e da Democracia e, naturalmente, pelo apelo à reconciliação nacional, depois de uma campanha eleitoral quezilenta que acentuou rivalidades e despertou ódios.
Todos os grandes jornais internacionais noticiaram a vitória de Jair Bolsonaro e o jornal espanhol ABC escolheu para título da sua primeira página a sugestiva frase “Brasil elege o seu Trump”. Portanto, a norte teremos o Donald e, a sul, vamos ter o Jair, enquanto entre eles estará o Maduro.
O futuro não vai ser nada fácil porque o país está dividido e Jair Bolsonaro não parece ter capacidade política, nem qualidades pessoais, nem tão pouco o carisma necessário para unir os brasileiros. Há 60 milhões de brasileiros que esperam grandes coisas do novo presidente, mas há 47 milhões de eleitores que não votaram em Bolsonaro e essa enorme massa de potenciais contestatários vai exigir muita prudência e muita habilidade política por parte do novo presidente, que vai ter enormes dificuldades para levar por diante as suas promessas. Significa que o discurso extremista da campanha eleitoral terá que ser atenuado e que muitas das ameaças feitas têm que ser esquecidas, em nome da paz social, da tolerância e do progresso. Nesta margem do Atlântico oriental, onde já vivem e trabalham tantos brasileiros, todos iremos torcer para que o Brasil ultrapasse rapidamente a difícil situação de crise política e social em que se encontra e possa ter êxito no combate à violência e à insegurança, à corrupção e à pobreza, que têm sido as marcas mais negativas  do país nos últimos anos.  Vamos esperar para ver.

sábado, 27 de outubro de 2018

A encruzilhada em que está o Brasil

Amanhã realiza-se a 2ª volta das eleições presidenciais brasileiras e o mais provável, segundo as sondagens que são conhecidas, é que o candidato Jair Bolsonaro seja o vencedor e o candidato Fernando Haddad seja derrotado. Porém, qualquer que seja o vencedor, o facto é que o Brasil está muito dividido e cada vez mais agitado, pelo que vai entrar num período de grande instabilidade política e social. As posições estão extremadas entre os que querem o fim da corrupção e da violência e se agarram a Bolsonaro, e os que temem o regresso da ditadura e da repressão e que se juntam a Haddad.  O que vai acontecer é que o futuro Presidente não vai ter uma base social de apoio suficientemente alargada para fazer o que tem que ser feito contra a corrupção e contra a violência que, só no último ano, deu origem a mais de 60 mil mortos, o que é uma vergonha para o Brasil e para toda a Humanidade. O combate aos males que afectam a sociedade brasileira precisa de um consenso alargado que não existiu antes e que agora se tornou mais difícil. O fosso entre o Brasil de Bolsonaro e o Brasil de Haddad aprofundou-se. E há, ainda, os problemas da geografia, isto é, os problemas e as tensões naturais num país de uma enorme dimensão, de grandes assimetrias sociais e regionais.
Hoje, a edição do semanário Expresso dedica grandes espaços às eleições brasileiras e publica uma ilustração da estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado, em que os braços abertos da paz estão substituidos pelo cano das armas. É certamente uma liberdade ilustrativa, porque ninguém pode pensar que a rivalidade e a agressividade políticas que hoje se vivem no Brasil se possam transformar noutra coisa qualquer. O que tem que valer é o título do jornal: ódio não!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O continente americano está ameaçado

O mundo anda muito nervoso e quando esse nervosismo chega aos Estados Unidos, todos ficamos preocupados, como mostra o recente envio de explosivos para diversas personalidades da vida política americana por via postal. A capa do New York Post ilustra bem esse nervosismo.
Os Estados Unidos não são apenas o país mais rico do mundo e o país onde as questões de segurança são tidas como a prioridade primeira das autoridades, mas são também uma referência de estabilidade para meio mundo. Por isso, quando o terrorismo entra no mais poderoso país do mundo, seja nos ataques às Torres Gémeas, seja no envio de explosivos por via postal, a sociedade destabiliza-se e os cidadãos preocupam-se. Evidentemente que quem semeia ventos colhe tempestades e, por isso, o discurso agressivo e provocador do Donald tem criado o ambiente onde o terrorismo e o espírito de vingança têm condições para aparecer e prosperar.
Se a este ataque que foi dirigido a personalidades do Partido Democrático americano e que está a deixar os Estados Unidos nervosos, juntarmos a grave situação política que se antevê para o Brasil qualquer que seja o resultado das próximas eleições, mais a agitação social que já está nas ruas da Argentina, mais a gravíssima crise nacional na Venezuela e as revoluções sociais em marcha na Nicarágua e nas Honduras, então parece termos todo o continente americano muito agitado.
A presidência dos Estados Unidos deveria ter um papel pacificador no continente e com muita atenção aos ventos de mudança, o que implica muito diálogo e muita capacidade de conciliação, mas também muito apoio aos países do Centro e do Sul do continente. Não é com a gritaria do Donald, nem com muros na fronteira que se resolvem os problemas de um continente que está sob a "ameaça" dos pobres e dos injustiçados.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Um novo livro de Cavaco? Não, obrigado!

Aníbal Cavaco Silva lançou ontem um livro a que chamou Quinta-feiras e outros dias, mas os jornais não lhe deram qualquer importância, à excepção do jornal i que aproveitou a oportunidade para entrar no jogo do autor e para o ajudar a vender alguns livros. Porém, as imagens televisivas da sessão de apresentação mostram que Cavaco tem muitos admiradores, incluindo aqueles que gostam de aparecer e de ser vistos nestas coisas.
Eu não li, nem vou ler o livro porque, segundo observei num comentário crítico, são 500 e tal páginas “sem uma ideia, sem um pensamento sobre a situação e o futuro de Portugal “, mas também porque durante a sua leitura não me sairia da cabeça a figura auto-convencida e sempre angustiada do autor, ora a engolir bolo-rei, ora a espumar pela boca, ora a dizer aos portugueses que podiam confiar no BES. Além disso, um homem que uma vez afirmou que “nunca me engano e raramente tenho dúvidas” não merece o estatuto de académico que usa, nem que se perca tempo com a literatura de cordel a que parece ter-se dedicado. Por isso, limitei-me a ler algumas das críticas em que é salientado que “a vaidade paroquial do homem não tem medida”. Deve ser isso.
Na realidade, para quem tem um confortável gabinete no antigo convento do Sacramento, que foi preparado e é pago pelo Estado, não se esperava que produzisse literatura de tão desolador vazio. Tratando-se do político que mais tempo esteve no poder no Portugal democrático, o que se esperava dele era uma obra de reflexão sobre o mundo e sobre o nosso país, que apontasse caminhos e nos ajudasse a pensar o futuro em relação à economia, ao ambiente, à cultura e a tantos outros sectores, mas em vez disso, parece que o ex-presidente que veio de Boliqueime, se dedicou a um exercício de intrigalhada política e de exibição de vaidades pessoais.
O que nos interessa o que Cavaco pensa sobre Costa, sobre Passos ou sobre Portas? Se Eça de Queirós ou Almada Negreiros fossem vivos, bem teriam matéria inspiradora para recriar o Conselheiro Acácio ou um novo Dantas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A pobreza e a caravana do desespero

No passado dia 13 de  Outubro na cidade hondurenha de San Pedro Sula, um grupo de centro-americanos desesperados pela sua condição de pobreza e pela violência nos seus países, decidiu espontaneamente constituir-se como uma caravana pacífica e iniciar uma marcha de quase três mil quilómetros em direcção aos Estados Unidos para pedir asilo, arranjar trabalho e ter melhores oportunidades de vida. Inicialmente seriam cerca de 160 pessoas, mas poucas horas depois da decisão da partida o grupo já teria cinco centenas de migrantes. Quando a já chamada caravana migrante ou caravana dos descamisados passou em Ciudad Tecún Umán, na Guatemala, já excedia as cinco mil pessoas. A passagem da Guatemala para o México tornou-se mais difícil e perigosa pois houve que atravessar o rio que serve de fronteira entre os dois países, tendo havido forte oposição da polícia mexicana. Entretanto as autoridades mexicanas, sob a pressão da administração americana, têm procurado deter a marcha dos desesperados, que já serão cerca de sete mil pessoas indocumentadas e ilegais e que se aproxima agora da cidade mexicana de Tapachula.
Não é a primeira vez que estas marchas acontecem na América Central. Porém, esta caravana tem uma dimensão como nunca tivera antes e acontece quando ocorrem situações semelhantes nas águas do mar Mediterrâneo e nas cidades espanholas de Ceuta e Melilla. A imprensa americana, caso do Washington Post, mostra-se preocupada com o que pode vir a acontecer quando a caravana migrante hondurenha chegar à fronteira americana, mas esta caravana mostra que estamos perante um fenómeno novo e de certa forma inesperado, que é uma revolta mundial dos desesperados e dos pobres contra um mundo de injustiça e de desumanidade.

domingo, 21 de outubro de 2018

A complexa e difícil gestão do Brexit

Um número estimado em meio milhão de pessoas agitando as bandeiras azuis e douradas da União Europeia participou ontem em Londres numa manifestação para exigir ao governo britânico a realização de um novo referendo sobre o Brexit. Não foi a primeira manifestação deste tipo porque no passado mês de Junho uma outra fôra realizada, então com cerca de 100 mil pessoas.
O que está em causa é o referendo que foi realizado no dia 23 de Junho de 2016, em que 51,8% dos 16 milhões de votantes britânicos escolheram sair da União Europeia, enquanto 48,2% escolheram permanecer. Este equilíbrio de posições revela que o Reino Unido estava dividido quanto a esta questão e que os dois anos já decorridos desde então, mostram que a divisão continua e que há muitas dificuldades políticas e económicas, mas também culturais, para ultrapassar. O governo de Theresa May tem mostrado muitas dificuldades na condução do processo e o seu governo tem mostrado alguma falta de coesão. A oposição trabalhista também tem insistido na necessidade de repensar o Brexit e, sobretudo, há novos sectores da população que parece estarem a acordar para uma realidade que a propaganda populista escondeu dos eleitores há dois anos. Aparentemente há agora mais britânicos a preferir a permanência britânica na União Europeia do que antes.
O jornal espanhol La Vanguardia destacou a grande manifestação de Londres na sua primeira página, mas nenhum jornal britânico destacou esta notícia, talvez por andarem demasiado atarefados com as notícias do Harry, o neto de Isabel II que anda a passear pela Austrália. As dificuldades de Theresa May são enormes e os observadores já se interrogam sobre se o Brexit vai por diante sem que haja eleições ou um novo referendo. O que parece não haver dúvidas é que, com ou sem Brexit, vão soprar ventos muito fortes nas ilhas Britânicas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Há juízes que vivem para os tablóides

Nos últimos dias, após a tomada de posse da nova Procuradora-Geral da República, o juiz Alexandre tem-se desdobrado a dar entrevistas à RTP e ao jornal i, que depois têm sido amplificadas em outros orgãos da comunicação social.
Não é habitual que os juízes portugueses se deixem envolver na tabloidização das suas funções, que são muito importantes numa sociedade democrática e num Estado de Direito, mas este juiz que veio de Mação, parece ser a excepção à regra. Gosta de ser entrevistado, de revelar a sua vida pessoal, de exibir as suas raízes identitárias e de dar palpites sobre os processos em que está envolvido. Para satisfação desse seu apetite, há sempre uns amigos para abonarem as suas boas qualidades e uns estagiários disponíveis para fazer o papel de entrevistadores.
E o que se passou nos últimos dias nem aconteceu pela primeira vez e isso é preocupante para os cidadãos que confiam na Justiça.
O comportamento de quem julga deve ser reservado, discreto, atento e imparcial, para que possa comprender o problema em questão e o seu enquadramento social, de forma a tomar a decisão justa de acordo com a Lei. Com estas entrevistas ao estilo tablóide, o juiz Alexandre revela demasiados pré-conceitos e muitos preconceitos. Com este tipo de exposição mediática, comparável aos futebolistas, às artistas de telenovela ou a algumas locutoras da televisão, o juiz Alexandre dá um enorme contributo para a describilização da Justiça.
É uma tristeza assistir a estas entrevistas promocionais, feitas de encomenda e sem qualquer interesse jornalístico, em que os entrevistados nada de substantivo dizem e se mostram deslumbrados por aparecer nos tablóides, com fotografia e tudo.

A nova ponte sobre o rio das Pérolas

Foi anunciado pelo jornal hoje macau que, nove anos depois do início da sua construção, a nova ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau vai ser oficialmente inaugurada na próxima terça-feira, dia 23 de Outubro. Apesar da distância a que nos encontramos, esta obra desperta a nossa curiosidade devido à forte ligação histórica de Portugal com esta região do sul da China, onde em 1557 foi criado o estabelecimento de Macau e onde aconteceu uma intensa actividade dos mercadores portugueses e, em especial, as peregrinações e as aventuras de Fernão Mendes Pinto neste delta do Rio das Pérolas, que uma enorme ponte agora atravessa.
A inauguração vai ser, certamente, uma grande festa à maneira chinesa. Trata-se de uma notável obra de engenharia cujo custo atingiu 16 mil milhões de euros para servir esta região do sul da China com cerca de 60 milhões de habitantes e que se espera venha a impulsionar a sua economia que já é responsável por 9,1% do PIB e por 26% das exportações chinesas.
A ponte tem 55 km de comprimento e é a maior travessia sobre do mar do mundo, unindo as duas margens do delta do Rio das Pérolas, sendo constituída por três pontes suspensas, um túnel submarino e duas ilhas artificiais. Vai ligar Hong Kong, Zhuhai e Macau, numa região em que também se localizam as cidades de Guangzhou e Shenzen, permitindo ligar aquelas três cidades em 45 minutos, algo que até agora demorava entre 60 a 70 minutos de ferry boat e entre três a quatro horas de automóvel.
Enquanto obra de grande dimensão e tal como sempre acontece, a nova ponte ou travessia teve atrasos na construção, sobrecustos, suscitou dúvidas quanto aos seus efeitos ambientais, teve a denúncia de casos de corrupção e foi afectada por alguns graves acidentes.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Os dias da Lusofonia decorrem em Macau

Tiveram início em Macau no passado fim-de-semana as iniciativas que integram o programa da 10ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, organizada pelo Fórum Macau em coordenação com o Instituto Cultural e o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais.
Nesse programa, que se desenvolverá até ao dia 4 de Novembro, estão incluídas exposições de pintura, peças de teatro, espectáculos musicais, uma feira artesanato, stands de apresentação dos produtos dos vários países lusófonos e, naturalmente, as habituais iniciativas gastronómicas.
Na sua última edição o jornal Tribuna de Macau dedicou um alargado espaço a esta Semana Cultural e apresentou muitos dos artistas e grupos que vão participar neste evento, onde aparecem representantes de pequenos países como São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste e até um grupo musical da antiga Índia Portuguesa.
Segundo informa aquele jornal, o interesse pela semana lusófona em Macau tem vindo a aumentar, assim como o número de visitantes, não apenas locais mas também turistas, o que constitui um bom incentivo para a organização e contribui para a promoção da cultura de raiz lusófona.
É, portanto, uma iniciativa que devia ter um forte apoio das autoridades portuguesas, não só em Macau, mas também noutras cidades onde há portugueses ou onde há quem goste de Portugal e da sua cultura.

sábado, 13 de outubro de 2018

Aproxima-se uma recessão económica?

O desenvolvimento das actividades económicas acontece por ciclos, isto é, verifica-se uma sucessão de períodos de rápido crescimento económico que alternam com períodos de relativa estagnação ou declínio. Esse facto foi reconhecido e estudado por muitos economistas, nomeadamente Nikolai Kondratiev, Joseph Schumpeter e Paul Samuelson, através da análise estatística dos desempenhos das economias e todos eles concluiram que os ciclos económicos oscilam entre a expansão e a recessão ou entre o chamado boom económico e a depressão económica.
Cada ciclo económico é caracterizado por um grande número de variáveis, a principal das quais é o crescimento do produto interno bruto, mas também considera outras variáveis como a evolução do desemprego e da inflação.
Segundo um estudo recentemente publicado nos Estados Unidos, em relação aos últimos 161 anos, está a verificar-se o segundo maior ciclo de expansão económica que já vai em 109 meses e que se aproxima do mais longo ciclo de expansão que se conhece que foi de 120 meses. Olhando friamente para  estes números verificamos que a recessão está à porta e que não depende deste ou daquele governo, mas principalmente da euforia dos consumidores que tudo querem (casas, carros, férias) e da ganância e da cegueira da banca que os alimenta. Porém, a economia não é uma ciência exacta e, por isso, estes números não nos fornecem qualquer evidência concreta da aproximação de uma recessão, mas sugerem que o ciclo económico se aproxima de uma contração ou de uma depressão económica, que alguns especialistas afirmam poder ser mais grave do que o habitual. Aliás, aqui mesmo, tratamos este assunto há dois dias a propósito do excessivo e preocupante recurso ao crédito para o consumo em Portugal e, na sua edição de hoje, foi o The Economist que, com um sugestivo grafismo, veio avisar da situação, até parecendo que se inspirou na Rua dos Navegantes.
Quem quiser que acredite. Eu acredito.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Os portugueses, o consumo e a poupança

Desde há alguns meses que o crédito ao consumo não pára de crescer em Portugal e esse facto está a começar a preocupar muita gente, sobretudo aqueles que sabem que não se pode consumir acima daquilo que se produz, através do recurso ao crédito. A fórmula “consuma agora e pague depois” regressou aos balcões da banca, parecendo que a banca e as autoridades financeiras se esquecem que, ainda recentemente, tiveram que ser os contribuintes, através dos impostos, que ir em socorro de uma banca gananciosa, incompetente  e impune quanto aos males que trouxe ao nosso país. Na primeira metade do ano, os bancos e as sociedades financeiras disponibilizarn perto de 3,7 mil milhões de euros em créditos ao consumo, o que constitui um novo máximo nacional segundo o Banco de Portugal, significando que, em média, os portugueses pediram mais de 20 milhões de euros por dia  em empréstimos desta natureza. Só no mês de Maio foram concedidos 667 milhões de euros em créditos ao consumo, um valor que representa um crescimento de 16% face ao mesmo período do ano passado.
Esse crescimento foi impulsionado pelo crédito para compra de automóvel que cresceu 15% e atingiu 288,8 milhões de euros. Nunca num mês tinha sido concedido tanto crédito para a compra de automóvel e aí está a razão porque as nossas estradas estão cheias de carros caros e novos.
Hoje o Jornal de Negócios destaca na sua primeira página que o “crédito ao consumo volta a criar alarme”, salientando que o crédito às famílias continua a aumentar e está em máximos de oito anos, parecendo estarem-se a repetir alguns excessos do passado. Mesmo sem ter acesso a estatísticas para conhecer exactamente a situação, também me parece que não se aprenderam as lições do passado.
Podia estimular-se a poupança e canalizá-la para o investimento produtivo, mas a banca está mais interessada no chamado crédito pessoal para compra de habitação, automóvel, férias, artigos para o lar e outros bens e serviços. Será que se aproxima uma bolha de crédito?