quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Na política americana também há tensão


O Congresso dos Estados Unidos reuniu ontem em Washington as suas duas Câmaras – o Senado e a Câmara dos Representantes - pois era o dia do discurso do presidente sobre o Estado da União e, segundo as notícias veiculadas pela imprensa, a cerimónia começou mal. 
Quando Donald Trump chegou ao local onde iria ler o seu discurso, quebrou o protocolo ao cumprimentar apenas o vice-presidente Mike Pence e ao ignorar a democrata Nancy Pelosi, a presidente da Câmara dos Representantes, que lhe tinha estendido a mão. Depois, Trump leu o seu discurso no qual fez o seu próprio elogio e em que disse que os Estados Unidos estavam agora mais fortes do que nunca e que a sua Administração teve um grande sucesso económico ao reverter as políticas do anterior governo de Barack Obama e ao acabar com a mentalidade de declínio dos Estados Unidos. O tom comicieiro esteve presente em todo o discurso, pois foi um pretexto para o lançamento da sua corrida presidencial, pelo que foi muitas vezes aplaudido pelas bancadas republicanas com gritos de “mais quatro anos”.
Acontece que o pior estava para vir, pois Nancy Pelosi é a responsável pela abertura do processo de impeachment que está a decorrer contra Trump e daí a tensão que esteve sempre presente naquela sala. Por tudo isso, Nancy Pelosi respondeu a Donald Trump no fim, pois enquanto o presidente era aplaudido, ela levantou-se e, diante de todos e em directo pela televisão, rasgou o que seria uma cópia do discurso. De uma forma geral, a imprensa condena Pelosi, provavelmente porque não viu ou não quis ver a falta de educação democrática de Trump ao deixar a presidente da Câmara dos Representantes de mão estendida.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

The race for the White House: day 1.


A corrida para as eleições presidenciais americanas, que se realizam no dia 3 de Novembro de 2020, começou hoje no Iowa, onde estão a realizar-se as eleições primárias do Partido Democrata. 
Nessa eleição vão ser escolhidos os delegados do Partido Democrata que tomarão parte na convenção nacional que, por fim, escolherá o seu candidato presidencial. Porém, enquanto do lado do Partido Republicano se encontra Donald Trump à procura de uma reeleição, embora possa vir a ter alguns concorrentes mais ou menos quixotescos como Bill Weld, o antigo goverrnador de Massachusetts, do lado do Partido Democrata há por agora 24 candidatos com idades entre os 37 e os 89 anos, com um númerro recorde de mulheres, com alguns candidatos originários das minorias e com posições ideológicas muito diferenciadas, umas bem moderadas e outras muito radicais. Segundo algumas sondagens que a edição do New York Post hoje divulga, os favoritos parecem ser Joe Biden, Bernie Sanders e Elisabeth Warren, mas ainda é muito cedo para fazer previsões. As eleições no Iowa são bem curiosas, pois não são utilizados os tradicionais votos que se metem numa urna, sendo as escolhas feitas em assembleias. Serão 1.678 assembleias ou caucus em todo o estado (um processo que também acontece no estado de Nevada), que se realizam em espaços como bibliotecas, ginásios, igrejas e sindicatos, nas quais participam as pessoas com 18 anos completos até ao dia 3 de Novembro e em que, mais ou menos por braço no ar, são escolhidos os delegados do partido.
As eleições presidenciais americanas não são apenas um assunto da política interna americana, pois interessam a todo o mundo.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

As singulares mensagens dos ‘graffiti’

Lisboa - Alameda Dom Afonso Henriques
Os graffiti são simples textos ou desenhos feitos nas paredes ou em outras superfícies, por vezes com grande arte e criatividade, mas que são práticas artísticas marginais que sujam e poluem a paisagem urbana, os monumentos, os edifícios e os transportes públicos. Porém, há que reconhecer que os graffiti estão na moda e, nalgumas situações, surpreendem mesmo os mais avessos a este tipo de mensagens, umas vezes pela sua qualidade artística, outras vezes pelo conteúdo da sua mensagem e outras, ainda, pelo humor que nos transmitem.
Na alameda Dom Afonso Henriques e nas proximidades da Fonte Luminosa, em Lisboa, encontra-se uma dessas mensagens que nos atraem, não tanto pelo seu teor anarquista, em que o autor se afirma contra toda a autoridade imposta pelas estruturas do Estado ou da Sociedade, mas em que aceita com reverência a carinhosa autoridade da sua mãe – contra toda a autoridade excepto a da minha mãe.
Esta mensagem é inteligente e bem humorada e, por isso, aqui a destaco.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Um futuro de incerteza na ‘small island’


Dentro de poucas horas vai concretizar-se a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, o tal Brexit de que se falou durante tanto tempo e que metade dos britânicos queria, mas que a outra metade não queria. 
Alguma imprensa internacional destaca hoje esse assunto e aborda-o de muito diferentes maneiras, desde uma quase indiferença traduzida por um bye, bye ou um l’adieu, até a um bem afirmativo acordo com um triunfante yes, we did it, passando por situações intermédias que parecem prever ou desejar um regresso em tempo não muito longo, com frases como see you later ou, ainda, farewell, not goodbye.
Esta decisão, como foi repetidamente afirmado, é má para a Grã-Bretanha e é má para a Europa, podendo criar situações muito difíceis para as duas partes, apesar de ambos jurarem que vão ficar amigos para lá deste divórcio. Porém, parece evidente que os britânicos vão ser mais penalizados, não só porque se transformaram na small island a que se refere a edição de hoje do The Guardian, mas também porque correm o risco de se desintegrarem e acabarem com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, que existe desde 1801. Os mentores deste divórcio sempre contaram com o amigo americano, mas esquecem-se que as solidariedades anglo-americanas de há setenta anos têm sido cada vez mais substituídas por interesses.
Os tempos que aí vêm são de muita incerteza. Os britânicos que apoiaram este divórcio, depois de 47 anos de união com a Europa, não estão alinhados com os sinais dos tempos e parece quererem reactivar o seu orgulhoso passado vitoriano e imperial, mas serão  esses mesmos sinais dos tempos que lhes vão mostrar que sem a Europa não passarão de uma small island.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Calatrava e a arquitectura de Valência

Santiago Calatrava é um arquitecto e engenheiro espanhol que nasceu em 1951 na cidade de Valência e que é, actualmente, um símbolo maior da arquitectura mundial, pelo seu carácter inovador nas formas e nos materiais que utiliza, em especial o vidro e o aço, mas também pelo arrojo com que estuda as suas soluções a partir de métodos matemáticos e informáticos.
As obras de Santiago Calatrava integram-se na chamada “arquitectura-espectáculo” e, por vezes, parecem desafiar as leis da Física, mas estão hoje espalhadas por muitos países europeus, pelos Estados Unidos, Canadá, Argentina e Brasil, destacando-se mais de quarenta pontes que são classificadas como verdadeiras obras de arte. Em Portugal, Santiago Calatrava deixou a sua marca em 1998 na monumental Gare do Oriente, em Lisboa, cuja cobertura de vidro está equilibrada sobre colunas que se assemelham a um enorme palmar.
Na sua cidade natal de Valência, o arquitecto Santiago Calatrava ergueu a Cidade das Artes e das Ciências, um impressionante complexo arquitectónico formado por oito gigantescas construções, entre elas o Planetário em formato de olho humano adornado com gigantescas pálpebras de aço, um Oceanário e o Palácio das Artes Rainha Sofia.
Hoje o jornal valenciano Las Provincias destaca na sua primeira página a fotografia de Pedro Luis Ajuriaguerra, o fotógrafo espanhol que venceu o Art of Building, um concurso anualmente organizado pelo Chartered Institute of Building do Reino Unido. Ajuriaguerra fotografou o Museu da Ciência, um dos edifícios integrado na Cidade das Artes e das Ciências utilizando o reflexo do edifício para dar a aparência de um estranho tipo de peixe, pelo que deu o título Fish à sua fotografia. É uma fotografia realmente espectacular, bem ao nível da criatividade de Santiago Calatrava.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Kobe Bryant e o mundo do desporto


A notícia apareceu ontem com grande destaque no Los Angeles Times e em muitos outros jornais americanos, canadianos, ingleses, espanhóis, italianos, belgas, brasileiros, australianos e de muitos mais países, anunciando que Kobe Bryant tinha morrido num acidente de helicóptero. 
Eu não sabia quem era Kobe Bryant porque não acompanho a NBA, nem o basquetebol americano, mas com a extensão desta homenagem fiquei realmente convencido da minha ignorância, pelo menos no que respeita ao basquetebol internacional. Os títulos dos jornais chamam-lhe lenda, eterno e imortal, enquanto a fotografia de Kobe ocupa a primeira página de inúmeros jornais de referência e vem mostrar que o desporto e os seus protagonistas têm mais peso nas opiniões públicas do que os políticos, os cientistas ou os grandes empresários. Hoje, se Winston Churchill, Wernher von Braun ou Henri Ford fossem vivos, teriam menos notoriedade que os Federer, os Ronaldos e os Kobe. 
Há que reconhecer que, depois de se ter transformado numa poderosa indústria e num campo em que os homens e os grupos mostram as suas rivalidades, o desporto está catapultado agora para um nível demasiado alto da vida das comunidades. Este caso do respeitável basquetebolista Kobe Bryant é tão significativo como as longas horas que as televisões dedicam ao futebol, isto é, a comunicação social esqueceu o lema básico do desporto - mens sana in corpore sano – para tratar da indústria e do espectáculo, bem como dos seus agentes e das suas gentes.
Como escreveu Camões, "todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades".

A evocação do horror de Auschwitz


Ontem, no antigo campo de concentração de Auschwitz que simboliza como nenhum outro a vergonha do Holocausto, foi evocado o 75º aniversário da sua libertação pelas tropas soviéticas que entraram no campo no dia 27 de Janeiro de 1945.
Este campo situado no sul da Polónia foi construído pelo Terceiro Reich e foi o maior de todos quantos foram feitos pelo regime nazi para liquidar os seus inimigos, sobretudo os judeus, dispondo de vários campos-satélite, entre os quais o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, onde morreu mais de um milhão de pessoas nas câmaras de gás ou pela fome. Os horrores de Auschwitz têm sido divulgados pelos meios de comunicação e, em 1989, o chanceler Helmut Kohl declarou que “Auschwitz era o capítulo mais sombrio e mais horrível da história alemã”, mas parece que as novas gerações, nomeadamente na própria Alemanha, ignoram o que foi aquele campo de morte.
De resto, o reconhecimento internacional dos horrores de Auschwitz foram tardios, pois só em 2002 a Unesco declarou as ruínas de Auschwitz-Birkenau como Património da Humanidade e só em 2005 a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou a data da libertação do campo como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.
Ontem, cerca de duzentos sobreviventes de Auschwitz estiveram no local de onde foram libertados no dia 27 de Janeiro de 1945 e, simbolicamente, usaram a boina listada que os identificava como prisioneiros ou como condenados à morte. Com eles estiveram muitos chefes de Estado e de Governo. Hoje, The Times, mas também The Wall Street Journal, El País e The Daily Telegraph publicam a fotografia de Igor Malckij, o prisioneiro 188.005 de Auschwitz e o que se pode dizer é, simplesmente, que uma imagem vale mais do que mil palavras.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Ceuta é uma fronteira entre dois mundos

A cidade de Ceuta foi conquistada pelos portugueses em 1415 e, quando em 1640 optou por não aderir ao movimento que restaurou a independência de Portugal, continuou a usar o escudo português e a bandeira gironada de branco e negro da cidade de Lisboa. 
Depois, em 1978, quando foi aprovada a actual Constituição espanhola, foi reconhecido à cidade a possibilidade de se constituir numa comunidade autónoma o que, juntamente com Melilla, veio a acontecer em 1995, mas a sua bandeira e o brasão de armas continuaram a ser aqueles que eram usados desde 1415. Esses símbolos não deixam indiferente qualquer cidadão português que visite Ceuta e nem sequer é um problema de saudosismo.
Apesar de estarmos em época de globalização, a pequena cidade de Ceuta é cada vez mais uma ilha, isolada do restante território peninsular espanhol e sujeita a uma pressão migratória dos territórios marroquinos. As suas autoridades afirmam que a cidade vive um momento crítico e preocupante e, nessas circunstâncias, dirigiram-se a Pedro Sanchez, o novo primeiro-ministro espanhol, pedindo-lhe que tire a cidade autónoma do abismo.
O jornal Faro de Ceuta entrevista Juan Vivas, o presidente da Ciudad Autónoma de Ceuta e que também é presidente do PP na cidade, divulgando a carta que enviou a Pedro Sanchez, onde enumera os sete pontos considerados essenciais para tirar Ceuta do abismo, entre os quais o apoio à actividade económica e à criação de emprego, a melhoria das infraestruturas e redes fronteiriças, o apoio ao tratamento da água potável e mais presença do Estado em sectores como a Saúde, a Educação e a Justiça.
O facto é que Ceuta está realmente na fronteira entre dois mundos e isso não está a proporcionar-lhe progresso e ameaça cada vez mais a sua estabilidade e modo de vida.

O coronavírus e a resposta chinesa

Na cidade de Wuhan, que é a sétima maior cidade da China, foi detectado um vírus denominado coronavírus que afecta o sistema respiratório e que, nesta altura, já causou 41 mortes e infectou 616 pessoas na cidade. Ao mesmo tempo que a cidade foi “encerrada” para evitar contágio e impedir a propagação da doença, foram detectados outros casos de coronavírus em diversos países asiáticos, mas também nos Estados Unidos e, nas últimas horas, em França e na Espanha. Apesar das declarações das autoridades sanitárias a alertar que o mundo está melhor preparado do que antes para enfrentar a situação, a preocupação está a tomar conta de muitas populações.
Vários jornais internacionais publicam hoje uma fotografia em que se vêem dezenas de escavadoras a preparar um terreno em Wuhan, no qual vai ser construído um enorme hospital para mil doentes afectados pelo coronavírus. O jornal Hoy, que se publica em Badajoz, na sua edição de hoje publicou essa fotografia em primeira página e dedicou-lhe seis colunas. O hospital deverá ser inaugurado no dia 3 de Fevereiro, o que significa que será construído em dez dias! É notável ou mesmo impensável imaginar esta capacidade que os chineses têm para preparar e executar um projecto desta dimensão e que, por mais simplificado que seja, será sempre muito complexo em estruturas, acessos, esgotos, água, electricidade, iluminação, comunicações, equipamentos e um nunca mais acabar de coisas a que é preciso dar resposta. Em dez dias!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Alterações climáticas e a depressão Gloria

A depressão Gloria passou perto de nós e os seus efeitos sentiram-se sobretudo no distrito de Coimbra, onde o vento provocou a queda de centena e meia de árvores, arrancou telhados e destruiu algumas estruturas.
Porém, em Espanha o problema foi mais grave, sobretudo na costa mediterrânica e em especial na Comunidade Valenciana e na Catalunha, bem como nas ilhas Baleares, porque se registaram ventos ciclónicos que atingiram os 130 km por hora, muita chuva que em certas áres acumulou 400 mm e fez transbordar rios e ribeiras e abundante queda de neve, que obrigaram ao encerramento de escolas e a cortes no tráfego rodoviário e ferroviário, mas também ao encerramento do aeroporto de Alicante na Comunidade Valenciana. As ilhas Baleares foram afectadas por ondas gigantes que atingiram alguns prédios, tendo sido observada uma onda de 14,42 metros de altura, a maior onda de sempre naquela área mediterrânica.
Como resultado da passagem da depressão Gloria registaram-se nove mortos e elevados prejuízos materiais, enquanto dezasseis províncias estavam ontem em estado de alerta. A imprensa catalã, nomeadamente o jornal el Periódico destaca na sua edição de hoje a passagem da depressão Gloria e escolheu para título da sua primeira página a palavra devastación. Da sua leitura do noticiário regional pode concluir-se que as consequências da passagem da Gloria foram muito duras em termos humanos e materiais e que não eram habituais pelo que, certamente, serão mais um sinal das alterações climáticas que se estão a verificar no nosso planeta.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Para que a Líbia não seja uma nova Síria

Realizou-se ontem em Berlim uma grande cimeira com a presença de vários dirigentes mundiais com o propósito de parar os combates entre grupos rivais e procurar uma solução para a Líbia, que ameaça tornar-se numa nova Síria. Depois da queda de Kadafi instalou-se um vazio de poder que, tal como no Iraque, na Síria e no Iémen, transformou o país em mais um campo de batalha na guerra silenciosa entre as grandes potências. Alguma imprensa publica hoje um mapa editado pela Agência Reuters, a maior agência de notícias do mundo com sede em Londres, que mostra as posições no terreno das forças que disputam o controlo do território da Líbia, parecendo um caleidoscópio em que estão misturadas as cores que identificam as forças do governo chefiado por Fayez al-Sarraj que é reconhecido pela ONU, as forças do general Khalifa Haftar ou Exército Nacional Líbio, as forças tribais tuaregues, os combatentes tubus e até o Daesh, cada um deles com os seus aliados. Uma perfeita confusão. Os combates já duram há nove meses e o conflito já se internacionalizou. O general Haftar tem o apoio da Rússia, do Egipto e dos Emirados Árabes Unidos e a simpatia da França, enquanto o governo de Fayez al-Sarraj é reconhecido pela ONU, tem o apoio da Turquia, que já tem tropas no terreno, bem como a simpatia da vizinha Itália. Há muitos mercenários no terreno e o armamento não deixa de chegar aos dois lados.
Ontem as potências com interesses na guerra líbia conseguiram um acordo de cessar-fogo, apesar de continuar paralisada a produção petrolífera no Leste do país por acção de Haftar, o que afecta as receitas governamentais. Apesar da pressão internacional e dos chefes das facções em luta na Síria terem estado em Berlim, não se encontraram pessoalmente. Pelo contrário, Putin e Erdogan que são os principais intervenientes na Líbia, encontraram-se mais uma vez e é natural que não estejam interessados em levar para a Líbia os problemas que ambos têm enfrentado na Síria. A Líbia foi uma colónia italiana até 1951 e, por isso, a trégua agora acordada tem particular interesse para a Itália e para a sua opinião pública.

domingo, 19 de janeiro de 2020

A saída de navios para o mar… é notícia

O jornal The San Diego Union-Tribune destacou na sua edição de hoje uma fotografia do super porta-aviões de propulsão nuclear USS Theodore Roosevelt  (CVN-71), largando do porto de San Diego para o Pacífico ocidental.
Este super navio de 117 mil toneladas de deslocamento e 332,8 metros de comprimento tem a sua base em San Diego e vai partir para uma comissão de sete meses no Pacífico ocidental, levando consigo um grupo de ataque constituído por seis navios de superfície e cerca de noventa aeronaves embarcadas. A bordo destas unidades estarão cerca de seis mil homens e mulheres.
Este movimento faz parte da rotina operacional da Marinha dos Estados Unidos e o USS Theodore Roosevelt  vai integrar-se no United States Indo-Pacific Command (USINDOPACOM), que é o mais antigo e maior dos comandos de combate unificados, responsável por todas as operações militares americanas numa área equivalente a 52% da superfície da Terra. Para além da bela imagem que mostra o navio a sair de San Diego - que é um excelente exemplo de fotojornalismo - o interessante desta notícia é apenas o contraste entre os destaques que a imprensa dá às missões das suas Marinhas de Guerra: na imprensa americana é destacada a missão de um navio que larga para uma comissão de sete meses do outro lado do Pacífico, mas na imprensa portuguesa não consta que qualquer missão naval seja notícia, mesmo quando um navio larga para uma volta ao mundo.

Necessidades ilimitadas, recursos escassos


Quando da sua campanha eleitoral em 2017 o candidato Emmanuel Macron defendeu a transformação de mais de quatro dezenas de regimes de pensões existentes em França num único sistema “universal” por pontos, em que um euro descontado ao trabalhador passe a conferir exactamente os mesmos direitos a todos. Tendo ganho as eleições, o presidente Macron deu andamento à “réforme des retraites”, mesmo sem tocar nos pontos mais sensíveis que são a idade da reforma e o nível das pensões. Naturalmente, o projecto era explosivo por envolver sindicatos, organizações patronais, seguradoras e outras entidades, até porque pretendia resolver uma questão que já tinha sido tentada várias vezes e sempre tinha dado origem a grande contestação social.
Porém, esta tentativa de reforma patrocinada por Macron avançou num período de grande instabilidade e agitação sociais provocados pelo movimento inorgânico dos coletes amarelos, a que se seguiu o movimento orgânico dos sindicatos e das suas confederações. Nos primeiros dias de Dezembro iniciou-se um alargado movimento grevista apoiado pelas cinco confederações sindicais reconhecidas pelo Estado, com destaque para a CGT-Confédération Générale du Travail contra a “réforme des retraites” e contra o próprio presidente Emmanuel Macron. Actualmente, já estão acumuladas seis semanas consecutivas de protesto, com efeitos catastróficos em sectores como os transportes, o comércio, a hotelaria, a restauração e as actividades culturais. Serão necessárias várias semanas para contabilizar o prejuízo total gerado por uma das greves mais longas da história da França, mas o balanço já começou a ser feito: a companhia ferroviária SNCF já perdeu 850 milhões de euros, a Ópera de Paris perdeu 12 milhões de euros e o circo Bouglione um milhão. Provavelmente, muitos empregos serão perdidos nas pequenas e médias empresas que não resistirão a esta crise.
O problema é muito complexo. A revista Le Point trata deste assunto que, segundo diz, está a arruinar uma França que rejeita reformas e que esquece a velha máxima de que “as necessidades são ilimitadas, mas os recursos são escassos".

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Não esqueçamos o povo irmão de Timor

As relações entre Macau e Timor tornaram-se íntimas desde que em 1844 ambos foram desligados do Estado da Índia e das autoridades de Goa, tendo passado a constituir a província de Macau, Solor e Timor, com um governador residente em Macau e um governador subalterno em Timor, dele dependente. Depois, ainda houve algumas alterações deste quadro político, mas em 1863 o território de Timor foi declarado como província ultramarina de Portugal, tendo a vila de Dili sido elevada à categoria de cidade.
A distância de Lisboa foi apenas uma das razões porque Timor nunca se desenvolveu, embora existam alguns edifícios que  testemunham alguma coisa do que foi feito pelas autoridades portuguesas e pelas missões católicas. Um deles, construído em 1932 e actualmente em ruinas, é o belo edifício escolar do reino de Kelicai, no distrito de Baucau e nas proximidades do famoso monte Matebian que tem 2316 metros de altitude, que parece ter sobrevivido à ocupação japonesa (1942-1945) e indonésia (1975-1999). A escola funcionou até 1942 e só voltou a funcionar em 2014, mas em condições muito precárias, com as salas cobertas com folhas de zinco, bambu e folhas de palmeira. O jornal macaense ponto final veio agora divulgar que foi constituída uma Associação de Reabilitação do Edifício Escolar do Reino de Kelicai–Timor Leste (AREESK-TL) para recuperar e salvaguardar aquele edifício histórico e com ele preservar a cultura portuguesa em Timor Leste. O presidente não executivo desta associação é o bispo D. Ximenes Belo, prémio Nobel da Paz em 1996. Nesta altura estão reunidos 25 mil euros dos 360 mil que são necessários para reabilitar a escola onde 200 alunos do ensino secundário, entre outras coisa, poderão aprender o português.
Tanto quanto sei, há várias associações de amizade Portugal–Timor Leste registadas. Então, se existem, que façam alguma coisa de útil e que, ao menos uma delas, se interesse por este desafio que é a reabilitação da escola de Kelicai.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Anúncios de mau tempo na Grã-Bretanha

Apesar do possível vendaval que se aproxima das ilhas Britânicas trazido pelo Brexit, a imprensa britânica não tem tratado desse assunto e vem dando um enorme destaque à recente decisão do príncipe Harry e da sua mulher Meghan Markle, que anunciaram pretender deixar de ser membros séniores da Família Real, passar a ter uma vida normal e a dividir o seu tempo entre a América do Norte e o Reino Unido. Segundo parece, esta decisão do jovem casal está relacionada com o excessivo escrutínio a que está sujeito, tal como a generalidade da Família Real, bem como à forma como os media britânicos tratam os seus comportamentos, recorrendo frequentemente ao sensacionalismo e à mentira.
Na tradição inglesa este caso é sério e a Rainha tratou de convocar uma reunião de emergência que foi chamada a "Sandringham summit", na qual participou o príncipe Carlos, que é o herdeiro da Coroa, bem como os seus dois filhos William e Harry. Através de um comunicado, a Rainha afirmou apoiar a vontade de Harry e de Meghan e de ter ficado acordado um período de transição, pois há muita coisa para acertar em termos de direitos e obrigações.
Porém, alguns periódicos britânicos, como hoje faz o The Independent, preferem seguir uma prátical editorial britânica e publicar fotografias do mau tempo, em vez de falar do Boris, do Harry, da Meghan e de outros figurões, até porque não parecem trazer bom tempo às Ilhas Britânicas. 
A fotografia mostra a fúria do mar ontem em Porthcawl, uma localidade situada a sul de Gales, onde o vento atingiu 90 mph, isto é, cerca de 160 km/hora. É um bom exemplo de fotojornalismo.