sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma mulher inconseguida

Confesso que andei distraido e que foi preciso que alguém do outro lado do Atlântico me chamasse a atenção para o sucesso que está a ter o discurso de uma mulher  inconseguida, isto é, uma mulher que afirma que “o meu medo é o do inconseguimento”. Fui ao YouTube e lá estava a esdrúxula entrevista a declarar “o inconseguimento frustracional do soft power sagrado” e a sua afirmação de ter medo “do egoísmo que nos deixa de certo modo castrados em termos pessoais e nos deixa castrados em termos colectivos”.
Pois a ideia do inconseguimento é da autoria de uma senhora licenciada em Direito que, com esse diploma e o cartão do seu partido, tem levado uma vida de conforto à nossa custa e que vai muito para além dos seus eventuais méritos. Desde muito cedo militou nos comícios transmontanos de certeza de bandeirinha na mão. Muito jovem chegou a deputada e depois foi indicada pelo seu partido para juíza do Tribunal Constitucional, onde esteve até 1998. Aí se reformou com 42 anos de idade! Mas não parou e andou pelo Conselho da Europa e pelo Parlamento Europeu. Chegou a Presidente da Assembleia da República mas, pasme-se, não tem salário pois optou por continuar com a choruda reforma que vence desde há quase vinte anos. Que exemplo para quem trabalha ou para quem trabalhou! Pois é esta mulher que, de vez em quando, se destaca pelos ridículos disparates que diz e que são cada vez mais frequentes, a provocar a gargalhada geral e a envergonhar-nos enquanto segunda figura do Estado. Aqui há tempos inventariou os custos da eventual transladação de Eusébio para o Panteão Nacional e, agora, tomou posição sobre as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril, ao lançar a ideia de abrir a porta ao mecenato para as custear. A senhora tem medo de inconseguimentos, mas o verdadeiro inconseguimento é ter esta senhora no lugar onde está, a falar desta maneira e a mostrar-se como se fosse assessora da troika ou das finanças. Que ridícula. Só nos faltava esta!

Carvalho, um português de sucesso

O Miami Herald é um importante diário que se publica em Miami desde 1903 e que tem no seu historial a atribuição de 20 Prémios Pulitzer, o maior galardão do jornalismo americano. Na sua edição de hoje, o jornal destaca em primeira página o seguinte título:
Carvalho named U.S.’ best schools leader.
O nome Carvalho chamou-me a atenção porque se devia tratar de um português e como estamos habituados a ver apenas o nome de Cristiano Ronaldo impresso nos jornais internacionais, não só li a notícia como também procurei saber mais sobre esse nosso compatriota.
Trata-se de Alberto M. Carvalho, um português nascido no Bairro Alto em Lisboa, que emigrou para os Estados Unidos em 1982, depois de completar os seus estudos secundários. Uma vez nos Estados Unidos começou por trabalhar em restaurantes e na construção civil mas estudou sempre, tendo obtido o grau de B.S. em Biology/Biomedical Sciences na Barry University e o grau de Master of Educational Leadership na Nova Southeastern University. Depois, foi professor numa escola secundária durante três anos, dando aulas de Física, Química e Biologia, mas rapidamente foi promovido a assistente de director de uma escola. Desempenhou outros cargos e em 2008 foi escolhido para o cargo de Superintendente das Escolas de Miami-Dade, o quarto maior sistema de educação dos Estados Unidos, gerindo 392 escolas com 350 mil estudantes que falam 56 línguas diferentes, além de 40 mil professores e outros profissionais. Em Dezembro de 2013 foi declarado o Florida’s 2014 Superintendent of the Year e, agora, foi eleito o 2014 National Superintendent of the Year entre os 49 superintendentes estaduais do país. O Miami Herald destacou Alberto Carvalho na sua primeira página, um português bem sucedido de 49 anos de idade!
Talvez o crato queira aprender com ele.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O sucesso do A380

O consórcio europeu Airbus, que tem a sua sede em Toulouse, anunciou uma encomenda de 20 aviões A380 pela Amedeo, uma plataforma de compra e aluguer de aviões baseada na Irlanda, numa operação avaliada em cerca de 6 mil milhões de euros e, com esta encomenda, o objectivo de vender anualmente três dezenas destes aviões está próximo de ser atingido em 2014, conforme noticia hoje o diário económico parisiense La Tribune.
O A380 é conhecido por superjumbo e é o maior avião comercial de todos os tempos. Entrou ao serviço em 2007 e, desde então, já foram feitas 123 entregas a dez companhias aéreas com destaque para a Emirates Airlines (44), a Singapore Airlines (19), a Qantas (12), a Lufthansa (10) e a Air France (9).  Entretanto, estão actualmente encomendados 309 novos aviões por 19 companhias, quase todas asiáticas e, entre estes, há 140 unidades que se destinam à Emirates, a companhia do Dubai. Porém, estes números escondem alguma preocupação no seio do fabricante, porque em 2012 apenas foram encomendados 9 aviões e, no ano seguinte, houve apenas um contrato que só foi confirmado no dia 23 de Dezembro pela Emirates, com uma encomenda de 50 aviões. A imprensa francesa dizia então que a Emirates era le Père Noël de l’Airbus A380, ao assegurar um negócio de 20 mil milhões de dólares. Como ainda não apareceu nenhum concorrente do A380, lançado pela Boeing ou por outro construtor, é evidente a excessiva dependência e até mesmo a vulnerabilidade económica da Airbus em relação a um só cliente, quase a configurar uma situação de monopsónio, uma vez que nos próximos quatro anos a Emirates Airlines vai assegurar por si só, a produção anual de 30 aviões, que é a normal capacidade de resposta do construtor. Nesse aspecto, a encomenda de 20 aviões pela Amedeo foi uma excelente notícia para a Airbus e, embora tenda a esconder os tempos difíceis por que passa o mercado aeronáutico, mostra que o A380 é um caso de sucesso tecnológico do construtor europeu, mas que também é um caso de sucesso comercial.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Moçambicanos escolhem o treino italiano

Segundo anuncia hoje a edição do diário moçambicano O País, os “italianos treinam a Marinha de Guerra moçambicana” através do trigésimo grupo da sua marinha, que compreende o porta-aviões Cavour, a fragata Bergamini, o navio-patrulha Comandante Borsini e o navio reabastecedor Etna. Este importante grupo naval, que embarca mais de mil homens e mulheres, deixou a Itália no dia 13 de Novembro para fazer uma viagem de circum-navegação do continente africano e chegou a Maputo no dia 27 de Janeiro, para materializar o acordo de colaboração técnica assinado recentemente, que estabelece actividades de cooperação naval durante dois meses e inclui acções de formação, operações de segurança marítima, diplomacia naval, assistência humanitária e a promoção da indústria italiana.
Dadas as relações históricas e culturais entre Portugal e Moçambique e, ao mesmo tempo, o seu comum empenhamento na CPLP, estranha-se e lamenta-se que o treino da Marinha moçambicana deixasse de ser feito pela Marinha Portuguesa. São conhecidas as situações de aperto por que estão a passar os países do sul da Europa, incluindo a Itália e Portugal, com elevadas dívidas externas, enormes défices públicos e altas taxas de desemprego. Apesar disto, a Itália não hesita em investir numa acção de promoção de grande envergadura, onde expressamente inclui a promoção da indústria italiana, enquanto Portugal parece nada fazer para se manter com influência junto da Marinha de Moçambique. O advogado Aguiar-Branco sabe desfazer hospitais e estaleiros, mas parece nada fazer para nos manter na linha da frente da cooperação com Moçambique, talvez porque não conheça essa dimensão simbólica e essa vocação da nossa Marinha. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A bizarra ideia da “Fatura da Sorte”

Toda a gente sabe da existência da economia paralela, da fuga ao fisco e da concorrência desleal, mas ao consultarmos os estudos divulgados por entidades internacionais credíveis, verificamos que a dimensão desses males no nosso país não é muito diferente da que se verifica na Suécia, na Noruega ou na Alemanha, além de ser menor do que aquilo que se verifica em alguns países da União Europeia. Portanto, coloquemo-nos no nosso devido lugar e sem complexos, embora deva ser estimulado o cumprimento  dos nossos deveres cívicos para minorar esses males da sociedade. Nesse sentido, o governo decidiu-se por uma verdadeira cruzada no combate à economia paralela e teve a bizarra ideia de criar a Fatura da Sorte.
A Fatura da Sorte é um concurso que premiará os consumidores que exijam as facturas correspondentes aos seus consumos de bens e serviços, quando tomam cafés, engraxam sapatos, compram um jornal ou usam alguns WC. Tal como acontece com as promoções do tipo “Poupa mais”, “quantas mais facturas forem emitidas a cada contribuinte” mais cupões vão a concurso, segundo disse o porta-voz da iniciativa. O concurso terá direito a transmissão televisiva, que provavelmente vai ser tão animada como “O preço certo” e, semanalmente, vai sortear automóveis que “em princípio” serão viaturas novas “de gama elevada”. Tudo conta e todos podem ganhar um automóvel, pelo que é de esperar algum sucesso desta bizarra iniciativa. É a estratégia da cenoura!
A dignidade e a autoridade do Estado, assim como a responsabilidade fiscal dos contribuintes ficam, desta maneira, colocadas ao nível dos concursos televisivos e das promoções das grandes superfícies. Que mais nos irá acontecer?

O novo-riquismo de São Bento

O governo faz tudo para ir ao bolso dos pensionistas e dos funcionários públicos com o argumento que é preciso cortar na despesa pública e diminuir o défice público e, depois, vai dando exemplos de um brutal despesismo e de ausência de economicidade nas suas decisões, o que para além de ser insensato, é passível de ser classificado como ilegalidade. É mais uma das poucas vergonhas a que vamos assistindo, porque o dinheiro que o gabinete do primeiro-ministro gasta é meu e de quem paga os impostos, que ele, o seu governo e os seus deputados nos impõem.
O caso é divulgado hoje pelo jornal i, que informa que o gabinete do primeiro-ministro contratou uma empresa em regime de outsourcing para atender telefones em São Bento por 25,1 mil euros, apesar de ter no seu gabinete de São Bento nada menos do que dez secretárias pessoais, nove auxiliares e doze pessoas a prestar apoio técnico-administrativo. O contrato foi assinado com a empresa We Promote – Outsourcing e Serviços, Limitada e já é o terceiro que é celebrado por adjudicação directa entre esta empresa e o gabinete do primeiro-ministro, porque este tem "ausência de recursos próprios". No entanto, com tão elevado número de secretárias/assistentes será mesmo necessária esta despesa? E porque não foram recrutados alguns funcionários no grupo da mobilidade especial, evitando-se assim o recurso a uma empresa externa? É o novo-riquismo de São Bento!
Quando, no intervalo da consulta da sua conta bancária que cresce, cresce, cresce, o amigo Catroga souber disto, não só vai discordar deste contrato, como vai poder dizer que são estas as gorduras do Estado a que se referia quando em 2011 afirmava que seria tudo fácil.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A gente sem vergonha que nos governa

São cada vez mais as vozes de todos os quadrantes políticos e sociais que, com legítima indignação, se levantam contra o fanatismo ideológico do governo, contra a arrogância e a mentira, contra as promessas eleitorais não cumpridas e contra a violação dos direitos das pessoas, sobretudo dos pensionistas e dos funcionários públicos.
A voz de António Bagão Félix é apenas uma delas e na edição de hoje do jornal i, aquele antigo ministro das Finanças afirma que “para o governo tudo é matemática orçamental e as pessoas não contam”, recordando ao mesmo tempo aquilo que está escrito em todos os livros de Economia, isto é, que a Economia deve estar ao serviço das pessoas e não o contrário. O que se tem verificado em Portugal sob a direcção de um governo cheio de gente sem vergonha e sem pudor, mas com o apoio de Belém e das bancadas de São Bento, é o sistemático confisco das pensões, levando a pobreza e a insegurança aos seus beneficiários, sem que daí tenham resultado quaisquer efeitos significativos sobre a dívida e o défice.
Em Espanha, que passa por uma crise muito semelhante à nossa, o governo de Mariano Rajoy tem mostrado uma atitude bem diferente perante os pensionistas e escreveu-lhes recentemente uma carta personalizada na qual informa que, desde o dia 1 de Janeiro, as pensões foram aumentadas em 0,25% e que em 2013, apesar da difícil conjuntura económica, as pensões subiram entre 1 e 2%. A carta subscrita pela Ministra de Empleo y Seguridad Social garante aos pensionistas “que las pensiones subirán todos los años sea cual sea la situación económica y que nunca podrán ser congeladas".
O exemplo espanhol mostra a gravidade do que se passa por cá e mostra que, lamentavelmente, continuamos sujeitos à arrogância, à ignorância e à mediocridade desta gente sem vergonha que nos governa.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Os temporais que não nos dão tréguas

O mau tempo continua a assolar a costa ocidental da Europa e a afectar a vida das pessoas e das suas actividades. Num tempo em que cada vez mais se fala das alterações climáticas como a maior ameaça ambiental da actualidade, as televisões e os jornais têm dado o devido relevo a este fenómeno e mostram as imagens de nevões, inundações, quedas de árvores, desabamentos de terras e destruição de infraestruturas, mas também de muitos dramas humanos que lhes estão associados.
Porém, nos países situados na orla marítima atlântica, nos últimos dias tem sido retratada a violência da agitação marítima, com ondas superiores a 10 metros e com ventos a atingirem velocidades superiores a 130 km por hora, sobretudo nas costas atlânticas francesa e espanhola. Muitas barras têm sido encerradas e a actividade da pesca paralizou. Há destruição um pouco por toda a parte, desde o sudoeste da Inglaterra até à Costa da Caparica. Nesse contexto meteorológico, quando ontem entrava a barra do porto francês de Bayonne, o cargueiro espanhol Ludo não resistiu ao temporal e naufragou, obrigando ao resgate dos seus 12 tripulantes por helicóptero. Vários jornais franceses, como o Aujourd’hui en France, mas também diversos jornais espanhóis, ilustraram as suas edições com fotografias do naufrágio do Ludo, mas também salientaram a persistência dos temporais que não nos dão tréguas como possível consequência das alterações climáticas e como uma ameaça ambiental muito séria. A juntar ao que já se passou, a previsão meteorológica indica algum agravamento para os próximos dias.

A Rússia e o triunfo de Vladimir Putin

Realiza-se amanhã a cerimónia de abertura oficial dos Jogos da XXII Olímpíada de Inverno, que terão como sede principal a cidade de Sochi, na costa russa do mar Negro e nos quais o nosso país vai estar representado por dois atletas que não falam português: Camille Dias e Arthur Hanse. Depois de ter recebido os Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, a Rússia receberá pela segunda vez as Olimpíadas e, como sempre acontece nos países que acolhem estes grandes eventos internacionais, também a Rússia está a viver momentos de grande euforia.
Na sua última edição, a revista The Economist procurou analisar a actual situação russa e salienta que “os sucessos no exterior e os Jogos Olímpicos de Inverno parecem mostrar uma Rússia forte mas, no que é essencial, é fraca”. O Presidente Vladimir Putin tem governado a Rússia desde a resignação de Boris Iéltsin, como primeiro-ministro (1999-2000), como presidente (2000-2008) e, desde então, como primeiro-ministro. A escolha de Sochi foi uma vitória de Putin e o investimento de 50 mil milhões de dólares representa a sua vontade  em afirmar a Rússia e fazê-la respeitar na cena internacional. Na realidade ele está a viver um momento alto pois a sua aposta nos Jogos Olímpicos correu bem,  mas também porque tem feito valer as suas posições sobre a Síria e tem recebido a preferência do presidente ucraniano Viktor Yanukovych.
Porém, segundo The Economist, se Putin é um triunfador, a Rússia é “a patinadora com pés de barro”, pois a sua economia continua muito centralizada e muito dependente da exportação de petróleo e gás.  A corrupção é endémica e a sua indústria não é competitiva, com altos custos salariais e baixa produtividade. O investimento é muito baixo e o capital e os jovens quadros continuam a deixar o país. A revista conclui a sua análise  salientando que “a União Soviética não caiu só porque o povo rejeitou a sua ideologia, mas porque a sua economia desmoronou” e acrescenta que, “a menos que Putin proceda a reformas económicas, o seu regime vai seguir o mesmo caminho”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os horácios que nos governam

A história é muito conhecida e é contada de muitas maneiras, embora na sua forma mais comum seja apresentada como a história de “Horácio e o lobo”. A história conta-se, habitualmente, da seguinte maneira:
Era uma vez um rapaz que se chamava Horácio que era pastor e que costumava guardar as suas ovelhas na encosta de um monte situado junto à aldeia onde vivia. Horácio tinha o hábito de mentir. Um dia lembrou-se de rir à custa dos vizinhos e pôs-se a gritar muito alto: “Aí vem lobo! Aí vem lobo!” Os camponeses que o ouviram, correram para o ajudar mas não viram qualquer lobo. Voltaram para o trabalho, a pensar que o lobo se tivesse assustado e fugido, enquanto Horácio se ria dos camponeses que enganara. Na semana seguinte Horácio repetiu a brincadeira e gritou de novo: “Aí vem lobo! Aí vem lobo!” E os camponeses correram para o ajudar, embora em menor número do que da primeira vez, mas não viram qualquer lobo e sentiram-se enganados pelo mentiroso Horácio. Passado algum tempo, Horácio andava na encosta da serra a guardar as suas ovelhas, quando um enorme lobo apareceu e se lançou sobre o rebanho. Então, em desespero, Horácio gritou: “Acudam! Socorro! Lobo! Lobo!” Ninguém fez caso dele e ninguém acudiu. Horácio bem lutou com o lobo mas, apesar dos seus esforços, não conseguiu evitar que ele apanhasse uma das suas melhores ovelhas. Ferido e com a roupa rasgada, Horácio voltou a casa cansado e triste. Contou aos camponeses o que lhe tinha acontecido e censurou-os por não o terem socorrido. Então, um deles disse-lhe: “Nós bem ouvimos os teus gritos, mas pensamos que uma vez mais te querias rir de nós. És um mentiroso!”.
Esta história ocorreu-me por verificar que temos um governo com muitos horácios: o Horácio Coelho, o Horácio Portas, o Horácio-Branco, o Horácio Crato, o Horácio Maduro e o Horácio Moedas, entre vários outros horácios. Mentiram-nos tanto que, mesmo quando anunciam alguns sinais de recuperação económica e social, já poucos acreditam neles.

A triste trapalhada dos Mirós

O Estado Português herdou um activo constituído por 85 quadros de Joan Miró que tinham pertencido ao BPN e, lamentavelmente, decidiu vendê-los. Os quadros encontravam-se à guarda da Parvalorem,SA gerida por um tal Nogueira Leite, parecendo ser a única coisa boa que herdamos do BPN, que tanto tem custado aos contribuintes portugueses e que continua a ser um dos maiores escândalos da nossa democracia pela impunidade com que têm sido tratados os responsáveis por essa fraude. A existência desta colecção surrealista em Portugal podia contribuir para uma afirmação de modernidade e para aumentar e diversificar a nossa oferta cultural, tornando-se numa atracção museológica e num polo de atracção para o turismo.  Nessas condições não deveria ter sido decidida a sua venda, conforme propuseram os especialistas e a Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), pelo menos sem que houvesse uma prévia discussão pública sobre o assunto. Porém, o Estado e o Ministério das Finanças e a Parvalorem,SA e o Secretário de Estado da Cultura embrulharam-se e, obcecados no seu fanatismo financeiro, decidiram a venda da colecção demonstrando uma total ausência de sensibilidade pela problemática cultural, tendo contratado a venda com a famosa leiloeira Christie’s.
No entanto, não foram cumpridos os procedimentos legais a que a Lei de Bases do Património Cultural obriga e a colecção viajou ilegalmente para Londres sem que a DGPC tivesse autorizado a sua saída. Alguns políticos e muitos cidadãos reagiram e interpuseram uma providência cautelar para suspender a venda da colecção. O tribunal não se opôs à venda dos quadros, mas declarou ilegal a sua saída de Portugal, uma vez que não teve a prévia autorização da DGPC. Porém, muito prudentemente, a leiloeira Christie’s decidiu suspender o leilão, devido às incertezas legais que eventualmente poderiam prejudicar os compradores. Essas incertezas legais não resultaram da opção de vender ou não vender, mas tão só pela saída ilegal das obras para o estrangeiro que as entidades responsáveis não acautelaram. Eis aqui o resultado da teimosia dos fanáticos que nos governam e que se tornou em mais um enxovalho internacional para todos nós.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Uma república demasiado gastadora

A Casa Real Espanhola apresentou ontem no Palacio de La Zarzuela o seu orçamento para o ano de 2014, isto é, divulgou a forma como vai utilizar os 7.775.040 euros que lhe foram atribuídos e que correspondem a um decréscimo de 2% em relação ao ano de 2013. Esta apresentação pública perante os jornalistas resulta da vontade do próprio Rei que, desde 2011 e por virtude das políticas de austeridade, decidiu que o orçamento da Casa Real fosse transparente e aceitou que, desde então, todos os anos fosse diminuido. A novidade deste ano foi a decisão de atribuir um salário fixo e uma verba para representação à Rainha Sofia (131.739 euros) e à Princesa das Astúrias (102.464 euros), de modo a assegurarem o cumprimento das suas apertadas agendas institucionais, enquanto as condições retribuitivas do Rei João Carlos (292.752 euros) e do Príncipe Filipe (146.376 euros) se mantém, embora todos estes valores estejam sujeitos a uma retenção na fonte que vai dos 51% aos 47%. Na detalhada notícia publicada pelo diário La Razón conclui-se que a Monarquia custa 16,6 cêntimos por ano a cada espanhol.
Inversamente, Portugal comporta-se como uma república gastadora. A divulgação dos gastos da Presidência da República é feita pela respectiva Secretaria-Geral, mas é mais opaco e sem a transparência das contas apresentadas aos jornalistas espanhóis. Assim, em 2013 o orçamento da Presidência da República foi de 15.130.000 euros, o que significa que essa entidade custa a cada português cerca de 1,5 euros, ou seja, quase dez vezes mais do que a Casa Real espanhola. Embora os dois orçamentos não possam ser comparados com total exactidão por incluirem diferentes despesas, é evidente que Portugal gasta muito mais do que a Espanha na sua representação institucional, entre outras razões porque se fazem mais viagens presidenciais com alargadas e sumptuosas comitivas, mas também porque tem ao seu dispor uma verdadeira legião de dezenas consultores e assessores. Realmente, o Palácio de Belém não quer ser uma referência de contenção despesista nem procura inspiração no exemplo de parcimónia de Manuel de Arriaga, o seu primeiro morador.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O multiculturalismo e a coesão social

A edição de hoje do The Daily Telegraph destaca que "em cada nove escolas primárias e secundárias inglesas há uma em que o inglês já não é a primeira língua", mas acrescenta mais: um milhão de alunos falam inglês como segunda língua e um em cada cinco alunos não falam inglês em casa. Essa realidade está a preocupar as autoridades inglesas, mas trata-se de um fenómeno que também está a acontecer noutros países europeus e que merece reflexão.
A notícia partiu de um inquérito realizado no Reino Unido como parte do recenseamento escolar anual, ao qual responderam 15.288 escolas primárias e secundárias com informações sobre a língua materna ou a primeira língua dos seus alunos. Verificou-se que em 1.755 escolas frequentadas por um total de 835.174 estudantes havia uma minoria de falantes de inglês e apurou-se que as línguas mais faladas pelos alunos eram urdu, bengali, punjabi, somali, polaco, hindi, gujarati, tamil, português, árabe e espanhol. A pequena cidade de Reading, situada no condado de Berkshire nos arredores de Londres, é chamada a “babel dos dialectos” pois verifica-se que as crianças da cidade falam mais de 150 línguas e dialectos nas suas casas.
O problema é conhecido na generalidade dos países europeus e resulta da atracção que a União Europeia continua a exercer sobre muitas populações, não só da sua periferia, como também do norte de África, da antiga Índia Inglesa e de outras regiões. Há que lhe dar muita atenção. Para os países receptores é necessário um esforço para proteger a diversidade cultural e assegurar a coesão social, o que implica o reconhecimento do multiculturalismo e, reciprocamente, é necessário que os emigrantes também se obriguem a um esforço de integração e que respeitem as sociedades de acolhimento e as culturas locais. Esse é um dos grandes desafios do nosso tempo a merecer debate e reflexão, pelo que a notícia do The Daily Telegraph é mais um alerta.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os temporais na costa norte de Espanha

Nos últimos dias o golfo da Biscaia esteve sob violento temporal que assolou a costa norte da Península Ibérica e afectou a orla marítima das comunidades autónomas espanholas do País Basco, Cantábria, Astúrias e Galiza. Os jornais das principais cidades desta região, sobretudo os diários de San Sebastián, Santander, Gijón e Oviedo, destacaram este temporal que teve uma invulgar violência e ilustraram as suas primeiras páginas com imagens impressionantes da fúria do mar. Assim aconteceu, por exemplo com o El Diario Vasco que se publica em San Sebastián, que apresenta uma imagem invulgar e impressionante das ondas a rebentar sobre a ponte de Kursaal, no centro da cidade.
Segundo a informação veiculada por esses jornais a agitação marítima foi desproporcionada, tendo sido registadas ondas com mais de 11 metros e ventos com velocidades superiores a 100 km por hora, de que resultaram danos materiais em algumas infraestruturas costeiras, o corte de estradas e a inactividade da pesca local. Houve pelo menos uma vítima mortal dos temporais no pequeno porto de pesca de Ondarroa, onde o temporal terá sido mais violento.
Como se costuma dizer, o mar é belo mas não se pode brincar com ele. 

A Ucrânia está em pé de guerra

Depois de cerca de dois meses de contestação e de um levantamento com grande apoio  popular nas ruas de Kiev e de outras cidades ucranianas com barricadas e ocupação de edifícios, a situação teve ontem uma evolução significativa, quando o governo se demitiu e o Parlamento revogou as leis que permitiram a repressão do protesto popular. Poderá, assim, abrir-se uma porta para o fim da crise ucraniana, embora a oposição continue a exigir a amnistia para os detidos nos protestos, a revisão da Constituição e a marcação de eleições presidenciais antecipadas, pois continuam sem confiar no Presidente Victor Yanukovich. O que está em causa parece ser uma clivagem profunda da sociedade ucraniana, dividida entre uma ligação preferencial à Rússia e a adesão à União Europeia, mas também muitas divergências quanto ao futuro do leste da Europa. A crise começou quando o presidente ucraniano Yanukovich decidiu não assinar um acordo de associação com a União Europeia, optando por uma união alfandegária proposta pela Rússia, o que provocou manifestações pró-europeias que alastraram e se têm agravado. Ontem a situação acalmou, mas a estabilidade da Ucrânia e da Europa continuam ameaçadas. Por isso, ontem o presidente russo Vladimir Putin esteve em Bruxelas e a comissária europeia Catherine Ashton esteve em Kiev. Tanto a União Européia como a Rússia têm interesse em que a situação se resolva com rapidez, antes que atinja proporções mais graves. Hoje, no Parlamento, o primeiro presidente do país desde a independência conquistada em 1991, Leonid Kravchuk, afirmou que a Ucrânia está “à beira de uma guerra civil” em consequência do confronto entre as autoridades e os opositores, generalizado a todo o país. Era a única coisa que ainda não tinha sido dita com tanta clareza.
A Ucrânia é um grande país com 600 mil km2 de superfície e mais de 45 milhões de habitantes. Geograficamente é um país distante, mas desde que mais de 40 mil ucranianos trabalharam ou trabalham em Portugal, todos ficamos mais inquietos com o que se está a passar e o que pode vir a acontecer naquele país, com cujas gentes nos habituamos a conviver.