quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Renasce a luta política na Catalunha

No dia 1 de Outubro de 2017 realizou-se o referendo de independência da Catalunha, conhecido na imprensa espanhola como o 1-O, que foi convocado pelo Governo Regional da Catalunha, mas que foi considerado ilegal pelo Governo e pelo Tribunal Constitucional de Espanha, com base num preceito da Constituição espanhola de 1978 que não permite qualquer votação relativa à independência de qualquer região espanhola. Nesse referendo que foi uma farsa não democrática pois apenas participaram 42% dos eleitores inscritos, o independentismo teve 92% dos votos que ninguém controlou, mas que os separatistas têm utilizado como bandeira.
Passaram-se dois anos e, a propósito da passagem desse acontecimento, houve comemorações e o actual presidente Quim Torra veio lembrar aquela data e recordar o espírito do 1-O, para afrontar os desafios do futuro e “avanzar sin excusas hacia la república catalana". 
No mesmo dia também decorreu uma manifestação independentista em que, segundo a Guardia Civil, participaram 18.000 pessoas, o que mostra algum grau de desmobilização.
Porém, a vida política na Catalunha parece estar a aquecer. Acontece que a sentença quanto ao chamado procés está para ser anunciada e há quem espere pesadas penas para os dirigentes independentistas, sobretudo os que estiveram mais ligados à preparação do referendo ilegal e à declaração de independência unilateral de 27 de Outubro de 2017, que foi lida por Carles Puigdemont, o então presidente da Generalitat. As forças políticas independentistas, sobretudo o Junts per Catalunya liderado por Carles Puigdemont (actualmente exilado na Bélgica), a Esquerra Republicana Catalana presidida por Oriol Junqueras (actualmente na prisão) e a CUP - Candidatura d’Unitat Popular, já vieram divulgar um manifesto em que afirmam não aceitar outra sentença que não seja a absolvição dos seus dirigentes e apelam desde já aos catalães para a desobediência civil e para darem uma resposta massiva, mas sem violência, à esperada decisão judicial.

No 70º aniversário da revolução chinesa

No dia 1 de Outubro de 1949, pela voz de Mao Tsé-Tung foi proclamada a República Popular da China (RPC) sob a liderança do Partido Comunista Chinês e, passados 70 anos, exactamente no mesmo local da Praça Tiananmen onde Mao fizera a sua proclamação, também o presidente Xi Jinping falou ao mundo.
O jornal Libération deu grande destaque às comemorações do aniversário da revolução chinesa e acentuou que se trata de mais uma etapa no processo chinês de chegar mais longe no concerto das nações. Na sua proclamação, o presidente Xi destacou que a revolução comunista “transformou completamente o miserável destino da China, que foi pobre, débil e humilhada durante mais de cem anos” mas, sobretudo, presidiu a um grandioso desfile militar que assinalou o 70º aniversário do estabelecimento da RPC, apesar da gravidade da situação de protesto em Hong Kong e das acesas lutas comerciais com os Estados Unidos.
O imponente e impressionante desfile militar que as televisões mostraram, teve a participação de cerca de 15 mil militares dos diferentes ramos das Forças Armadas, mas também incorporou as mais recentes conquistas tecnológicas chinesas, como os mísseis nucleares estratégicos, designadamente o míssil balístico intercontinental DF-41 e o míssil hipersónico DF-17. Segundo a doutrina chinesa, com o fortalecimento das suas forças militares a RPC persegue o objectivo de “garantir a sua segurança estratégica, através do reforço de uma capacidade de dissuasão que possa desincentivar quaisquer países de ameaçar ou utilizar armas nucleares contra a China”. Naturalmente, a grandeza da celebração dos 70 anos da proclamação da RPC teve intenções diferenciadas e talvez seja um aviso para aqueles que, interna e externamente, ainda não vêm a RPC como uma potência mundial em ascensão.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Memórias náuticas de Cabo Delgado

Ao ver a capa da edição de ontem do jornal Domingo em que é representada a orla costeira moçambicana da província de Cabo Delgado, entre o rio Rovuma e a baía de Mocímboa da Praia, senti uma estranha sensação de familiaridade com cada uma daquelas baías e ilhas, que há mais de cinquenta anos visitei inúmeras vezes quando, por dever de ofício, percorri aqueles mares.  
Lá está o rio Rovuma em que não ousávamos entrar por razões hidrográficas e diplomáticas, bem como as ilhas Rongui e Tekomagi, mais a Vamizi e a Tambuzi, além de outras ilhas do arquipélago das Quirimbas, não sendo difícil identificar as estreitas passagens entre as ilhas e a orla costeira, por onde se arriscava a navegação para ganhar tempo ou para tirar partido do abrigo que proporcionavam relativamente ao mau estado do mar no canal de Moçambique.
E lá estão, invisíveis, os baixos de coral onde as conchas raras eram procuradas pelos malacologistas, onde havia peixe e marisco em abundância e onde a limpidez das águas não tinha igual no mundo. Lá estão, também, as antigas povoações de Quionga e de Palma, o aldeamento do Olumbe e a vila de Mocímboa da Praia, hoje certamente bem diferentes do que eram há cinquenta anos. Era um tempo de conflito militar e, naquela região periférica do território norte de Moçambique, por ali passamos muitos dias e muitas noites nas chamadas missões de fiscalização, mas também em apoio de todos os que nós necessitavam no mar sem cuidar de saber de que lado estavam.
A capa do jornal Domingo fez-me mergulhar em muitas memórias da minha juventude marinheira e até me fez recordar alguns episódios mais ou menos pitorescos que por lá aconteceram, mas também me recordou que aquela mesma região se confronta hoje com a descoberta de hidrocarbonetos e a exploração de gás natural em larga escala e daí o título "5 mil milhões para o Rovuma". Porém, há alguma tensão naquela área resultante da acção de grupos jihadistas e isso é muito preocupante.

domingo, 29 de setembro de 2019

Sevilla apresenta “el viaje más largo”

Como tem sido referido em diversos textos já aqui publicados, a frota de Fernão de Magalhães que com a bandeira de Castela saíu para descobrir a passagem do oceano Atlântico para o Mar do Sul e chegar às Molucas navegando para ocidente, largou de Sevilha no dia 10 de Agosto de 1519 e percorreu cerca de 80 quilómetros até à foz do rio Guadalquivir em Sanlúcar de Barrameda. Aí permaneceu durante algumas semanas para ultimar os preparativos da viagem, largando finalmente no dia 20 de Setembro.
Agora que se comemora o 5º Centenário dessa viagem que se tornou na primeira volta ao Mundo, a cidade de Sevilha que foi a capital da expansão marítima espanhola para as Américas e que hoje é uma cidade moderna, dinâmica e ambiciosa, encontrou neste feito histórico uma oportunidade para assumir a liderança dessas comemorações.
Por isso, no quadro das actividades comemorativas espanholas, o programa preparado pela cidade de Sevilha é muito diversificado. Porém, a exposição El Viaje Más Largo: la primera vuelta al Mundo, que está patente em Sevilha no Archivo General de Indias e que apresenta 106 peças e documentos originais é, seguramente, um dos pontos mais altos destas comemorações.
A exposição foi inaugurada no dia 12 de Setembro pelos reis de Espanha e foi organizada pela Acción Cultural Española e pelo Ministerio de Cultura y Deporte, juntando uma colecção de documentos originais únicos, a par de uma apresentação pedagogicamente esclarecedora e com um relato que, no essencial, respeita a verdade histórica, embora seja evidente alguma marginalização da participação portuguesa na viagem. Porém, é uma excelente exposição que interessa a todos os estudiosos da epopeia marítima dos povos ibéricos e, por isso, alguns portugueses já fizeram os 500 quilómetros de Lisboa até Sevilha e, certamente, deram por bem empregue o seu tempo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A subida dos oceanos já ameaça a Terra

As preocupações ambientais não são um assunto recente, como por vezes parece. Já em 1988 as Nações Unidas tinham criado um grupo de trabalho intergovernamental, aberto a todos os seus Estados-membros, com o objectivo de monitorizar as informações de ordem científica, técnica e socio-económica que pudessem contribuir para uma melhor compreensão das ameaças ligadas ao aquecimento global resultante da acção do homem. Esse grupo passou a denominar-se Groupe d'experts intergouvernemental sur l'évolution du climat (GIEC) ou Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e tem analisado os efeitos das mudanças climáticas nos oceanos e na criosfera (gelo compactado, geleiras, calotas polares e solos congelados), tendo produzido relatórios com regularidade. Um desses relatórios recentemente divulgado, provocou algum alarme, sobretudo em França, ao estimar que o aumento do nível do mar até 2100 pode atingir 1,10 metros. Esta estimativa resulta do facto de, segundo o relatório, entre Janeiro de 2008 e Janeiro de 2018, o nível médio do mar ter subido 3,3 milímetros por ano e 4,3 centímetros nesse mesmo período.
A subida dos oceanos é uma das principais consequências do aquecimento global e, a médio prazo, poderá fazer com que 280 milhões de pessoas sejam afectadas em todo o mundo, porque vivem junto à orla costeira e, muitas vezes, em áreas situadas abaixo do nível médio do mar.
O relatório do GIEC indica a França como uma das regiões mais ameaçadas da Europa, sobretudo por efeito das inundações costeiras e da erosão que provocam. Por isso, o jornal Le Dauphiné, que se publica em Grenoble, foi um dos jornais franceses que deu notícia deste relatório do GIEC, ilustrando a sua primeira página com uma sugestiva ilustração que em que o nosso planeta está a ser inundado por efeito da subida dos oceanos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Bolsonaro na ONU a envergonhar o Brasil

Jair Bolsonaro foi a Nova Iorque e pela primeira vez falou numa sessão de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, mas o seu discurso de 32 minutos foi fortemente criticado, tanto no Brasil como no exterior, tendo sido acusado pela imprensa de romper uma tradição de moderação e pragmatismo da diplomacia brasileira e de ter perdido uma oportunidade para desfazer a má imagem internacional do seu governo pela forma como tem tratado o problema dos incêndios e da devastação da Amazónia.
Bolsonaro não revelou quaisquer dotes de estadista e adoptou um tom de confronto e de intolerância com muitos exageros e muitas falsidades, tendo criticado o “espírito colonialista” de alguns países como a França por terem questionado a política ambiental brasileira e chamado “falácia” à tese que defende que a Amazónia é património da humanidade. Igualmente polémica foi a sua declaração de que o Brasil esteve à beira do socialismo durante os governos de Lula e Dilma Rousseff, bem como os ataques que fez a Cuba e à Venezuela.
Bolsonaro passou ao lado da agenda e das preocupações do mundo e foi fazer propaganda ideológica, tendo sido duramente criticado por ter levado para Nova Iorque alguns temas da política interna brasileira como a corrupção e a criminalidade, mas também pelas insinuações que fez aos estrangeiros que defendem os índios e o meio ambiente que, segundo disse, apenas o fazem como pretexto para cobiçar as riquezas da Amazónia.
O Brasil é um dos maiores países do mundo e é aproximadamente 96 vezes maior do que Portugal, mas o Jair perdeu uma oportunidade para readquirir e elevar o estatuto de prestígio que o país merece no seio da comunidade internacional. O Jair, enquanto inquilino do Palácio do Planalto, deveria ser um exemplo para o progresso do Brasil, mas manifestamente não é capaz.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O clima junta Guterres e Marcelo na ONU

Por iniciativa do Secretário-geral das Nações Unidas reuniram-se em Nova Iorque muitos líderes políticos dos 193 Estados-membros para participar na Cimeira da Acção Climática, a qual pretendeu ser um palco para anunciar compromissos e projectos concretos para o reforço do combate às alterações climáticas. Com esta iniciativa, António Guterres quis lembrar as metas do Acordos de Paris sobre as alterações climáticas alcançado em 2015.
Antes daquela cimeira realizou-se a Cimeira da Acção Climática para a Juventude, cujo debate foi conduzido por alguns jovens activistas em que se destacou a adolescente sueca Greta Thunberg. Nessa cimeira, António Guterres afirmou que existe um “conflito sério entre as pessoas e a natureza”, acrescentando que o mundo precisa de um novo modelo de desenvolvimento ligado às alterações climáticas, que garanta justiça e igualdade entre as pessoas, mas também uma relação boa entre a população e o planeta.
Na Cimeira da Acção Climática que se seguiu, em que foi aproveitada a presença de quase uma centena de líderes mundiais que no dia seguinte iriam participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, foi tratado o tema do combate às alterações climáticas e fixado o objetivo de, nos próximos dez anos, reduzir as emissões globais de gases com efeito estufa em 45% e de alcançar a neutralidade carbónica até 2050. Disse António Guterres que “ainda não é demasiado tarde” e pediu que aquele encontro não fosse utilizado para discursos ou negociações, mas apenas para acções concretas e compromissos. “A emergência climática é uma corrida que estamos a perder, mas que ainda podemos ganhar”, acrescentando que “a crise climática é provocada por nós e as soluções devem vir de nós”.
Portugal esteve bem representado nesta cimeira pelo Presidente da República que, uma vez mais, se fez acompanhar por demasiados jornalistas que até o questionaram sobre Tancos, a demonstrar que a sua deslocação, que é paga com os meus impostos, não é necessária e que bastava a cobertura noticiosa da Agência Lusa.
O Diário de Notícias registou na sua primeira página a fotografia de António Guterres e de Marcelo Rebelo de Sousa, amigos de longa data e que tão bem representam o nosso país.

Boris Johnson é um grande mentiroso

O Supremo Tribunal britânico decidiu por unanimidade dos seus 11 juízes que o conselho dado por Boris Johnson à Rainha Isabel II para suspender os trabalhos do Parlamento por cinco semanas foi “ilegal, vazio e sem efeito”, pelo que o Parlamento vai abrir hoje as suas portas.
Foi uma pesada derrota para o primeiro-ministro que foi acusado de “frustar e impedir” que os deputados cumprissem os seus deveres constitucionais, isto é, quase foi acusado de ter tentado fazer um golpe de estado. Hoje todos os jornais britânicos destacam esta notícia e desancam no tresloucado primeiro-ministro, dizendo que Boris Johnson é um mentiroso e deve pagar por isso. “Ele enganou a Rainha, o povo e o Parlamento”, é o título do The Guardian. Um outro jornal destaca que Boris “voa para o caos” e que, apesar de humilhado, recusa a demissão, embora outro jornal já antecipe a sua saída e escreva “Bye, bye Boris”.
Temos, assim, que o processo do Brexit continua a produzir sucessivos acontecimentos sensacionalistas, que se assemelham a uma palhaçada própria de uma república das bananas e que ninguém imaginaria poderem acontecer na ilha onde reinou a Rainha Victoria e governou Winston Churchill. Naturalmente, a imprensa alimenta-se destas situações e, aparentemente, não tem procurado qualquer via de sensatez e de equilíbrio que ajudasse a resolver a situação. Apesar da aproximação da data de saída da União Europeia que está prevista para o dia 31 de Outubro, mantém-se o mesmo grau de incerteza e de confusão quanto ao futuro, que havia há um mês, ou há cinco meses, ou há um ano. Em boa verdade, parece que no Reino Unido ninguém sabe como sair deste imbróglio.

Donald Trump alvo de 'impeachment'

Nancy Pelosi, a líder democrata da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, anunciou ontem a abertura de um processo formal de impeachment contra o Presidente Donald Trump, por suspeitas de ter feito depender o desbloqueio da ajuda americana à Ucrânia da abertura de uma investigação ao filho de Joe Biden, um dos seus possíveis adversários democratas nas eleições de 2020.
Segundo foi declarado por Nancy Pelosi, o Presidente Donald Trump telefonou a Volodimir Zelenskii, o Presidente da Ucrânia, pressionando-o para prejudicar Joe Biden e esta pressão sobre um líder estrangeiro para obter benefícios políticos pessoais viola gravemente a Constituição dos Estados Unidos. Assim e porque ninguém está acima da lei, os Democratas decidiram avançar para o impeachment, o que hoje é destacado pelo USA Today.
Depois de várias ameaças, sobretudo depois das investigações sobre a interferência russa nas eleições americanas a favor de Trump, é a primeira vez que os Democratas avançam com um processo contra ele. Porém, o processo é complexo, demorado e não tem garantias de sucesso, mas a pouco mais de um ano das eleições presidenciais, esta iniciativa faz parte do jogo político. Na Câmara dos Representantes a maioria simples parece estar assegurada (235 em 435 lugares), pelo que o processo pode passar ao Senado onde precisa de dois terços para ser aprovado, mas os Democratas apenas têm 47 dos 100 lugares, pelo que é improvável que a iniciativa tenha sucesso.
De resto, seria a primeira vez que um processo de impeachment teria como efeito o afastamento coercivo do Presidente. Parece, portanto, que esta iniciativa democrata apenas pretende desgastar politicamente o Donald e não visa o seu mais que improvável afastamento.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Thomas Cook não resistiu aos tempos

De vez em quando rebentam grandes bombas no mundo dos negócios, como foi caso do Lehman Brothers em 2008 ou, a uma escala mais modesta, o nosso BES que implodiu em 2014, ou as muitas companhias de aviação que desaparecem. Agora, foi a famosa agência de viagens britânica Thomas Cook que faliu, depois de ter estado durante 178 anos no mercado do turismo e em outras actividades a ele ligadas. Era uma referência mundial pois transportava todos os anos cerca de 19 milhões de turistas, mas não conseguiu concorrer com a venda directa online que com ela concorria com preços mais favoráveis. O seu modelo de negócio estava em crise há alguns anos porque não se adaptou aos novos tempos das plataformas digitais, pois quem viaja passou a utilizar o modelo it yourself, em que as reservas de passagens aéreas, hotéis e outros serviços associados são feitas online, o que significa que os serviços prestados pelas agências de viagens têm cada vez menos procura. Os défices de exploração e o passivo da empresa foram-se acumulando e surgiu um ultimato bancário para o qual eram necessários 227 milhões de euros. Ninguém lhe deu a mão, nomeadamente o accionista chinês Fosun, nem o governo de Boris Johnson. Um frio comunicado foi emitido ontem:
Thomas Cook has confirmed that all of the UK companies in its group have ceased trading including Thomas Cook Airlines. As a result, we are sorry to inform you that holydays and flights provided by these companies have been cancelled and are no longer operating. All Thomas Cook’s retail shops have also closed.
Havia 600.000 clientes em viagem, um pouco por todo o mundo, que não sabem como regressar ao seu país e, provavelmente, alguns milhares de hotéis que não vão receber pelos serviços que prestaram aos clientes da Thomas Cook. Há 22.000 funcionários que perderam o emprego. Uma frota de 34 aviões Airbus 321 e 330 parou. Um jornal português diz que “gigante falido deixa calotes a hotéis portugueses”, um jornal das Canárias anuncia que “a falência da Thomas Cook representa a perda de 15 mil empregos” e o jornal económico francês La Tribune diz que esta falência foi "um terramoto para o turismo". Neste caso, como vem sendo hábito nas grandes empresas que vão à falência, os seus gestores receberam salários e bónus de muitos milhões de euros, mesmo quando a falência já estava no horizonte. O problema é que os terramotos costumam ter réplicas...

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A renovação da vida política na Madeira

Ontem, pela 12ª vez, realizaram-se as eleições legislativas na Região Autónoma da Madeira e, pela primeira vez nesse percurso político de 43 anos, nenhum partido obteve a maioria absoluta, pelo que terá que haver coligações ou acordos parlamentares para formar governo.
A Madeira esteve demasiado tempo dependente do mesmo governo de maioria que, embora com toda a legitimidade democrática, condenava os partidos da oposição a um papel irrelevante na vida política regional. Isso acontecia desde 1976 quando se realizaram as primeiras eleições para a Assembleia Legislativa da Região em que participaram 107.265 eleitores, que deram a vitória ao PSD liderado por Alberto João Jardim com 59,6% dos votos. Depois realizaram-se eleições em 1980, 1984 e 1988 e, em todas elas, o PSD obteve mais de 60% dos votos. Nas eleições de 1992 e até às eleições de 2004, o PSD continuou a ganhar com maioria absoluta, mas a sua votação entrou na casa dos 50%. Nas eleições de 2011 e 2015, o PSD ainda ganhou com maioria absoluta, mas a votação entrou na casa dos 40%.
Nas eleições que ontem se realizaram e em que votaram 143.190 eleitores, o PSD agora dirigido por Miguel Albuquerque obteve 39,4% dos votos, passando de 24 para 21 deputados. Pela primeira vez em 43 anos, o PSD não obteve a maioria absoluta o que significa que, como hoje diz o Diário de Notícias da Madeira, o “PSD já não manda sozinho”. Essa foi a primeira surpresa que nos chegou do arquipélago da Madeira. A outra surpresa que veio da Madeira foi a subida vertiginosa do PS que obteve 35,7% dos votos e passou de 7 para 19 deputados, afirmando-se como uma verdadeira alternativa aos governos dirigidos desde 1976 pelo PSD.
Os outros partidos conseguiram eleger 7 deputados mas, definitivamente, a Região Autónoma da Madeira parece ter rejeitado o jardinismo e adoptado a bipolarização pós-jardinista. Ora esta renovação da vida política é boa para os madeirenses (e portosantenses), pois podem alternativamente escolher “entre a carne ou o peixe”.

A campanha eleitoral já está na estrada...

No próximo dia 6 de Outubro vão realizar-se eleições legislativas em Portugal e, nos termos da lei que estipula que a campanha eleitoral se inicia no 14º dia anterior ao dia da votação, temos que essa campanha começou ontem.
Há 10.811.436 eleitores inscritos nos cadernos eleitorais (CNE), o que significa um aumento de 1,1 milhões de eleitores face às eleições de 2015, porque foi introduzida a regra do recenseamento eleitoral automático junto dos emigrantes, através do cartão do cidadão. Para um país cuja população residente é de 10.283.822 habitantes (Pordata) são demasiados eleitores. Isto é um exagero ou mesmo uma fantasia. O sistema de recenseamento e os cadernos eleitorais têm que ser revistos. É uma exigência democrática.
Entretanto, nos próximos 12 dias vamos ser bombardeados com uma campanha que se soma a uma pré-campanha que, embora cordial e sem grandes ansiedades, foi muito longa, tendo incluído muitas acções de campanha e vários debates na televisão e na rádio, provavelmente pouco esclarecedores porque os candidatos prometem tudo, mesmo quando sabem que não podem cumprir as suas promessas. A partir de agora as televisões vão estar entopidas com imagens das caravanas e dos candidatos nas ruas e nos mercados, que vão agitar bandeirinhas e distribuir folhetos, bonés e canetas.
Porém, os estrategas dos partidos sabem que o efeito das campanhas eleitorais não altera significativamente as intenções de voto já decididas pelos eleitores antes da campanha eleitoral, ou que os seus efeitos serão mínimos. Esta conclusão já foi tirada há muitos anos pelo sociólogo americano Paul Lazarsfeld (The People’s Choice, 1944), que verificou que “só uma pequeníssima percentagem de gente pode ser considerada indecisa ao ponto de poder ser convertida pela propaganda” e que, mesmo os eleitores indecisos, são mais sensíveis às pressões sociais e familiares do que às campanhas e à propaganda eleitoral. Certamente por conhecerem esta teoria de base científica, os partidos deixaram de fazer os grandes comícios, embora continuem a gastar muito dinheiro em cartazes e no merchandising. Será que vale a pena gastar tanto dinheiro e cansar os eleitores com demasiadas aparições e discursos que, eventualmente, podem produzir o efeito perverso de os afastar das mesas de voto? Porém, a campanha eleitoral já está na estrada...

sábado, 21 de setembro de 2019

A reconstituição da viagem de 1519-1522

Hoje, na sua edição de Sevilha, o jornal ABC destaca as cerimónias da reconstituição da partida da nau Victoria, cuja réplica largou ontem de Sanlúcar de Barrameda, para repetir a histórica viagem iniciada em 1519 por Fernão de Magalhães e que foi concluída em 1522 por Juan Sebastián de Elcano. Esta viagem que constituíu um acontecimento relevante na história da Humanidade e que é um dos mais curiosos episódios das seculares rivalidades luso-espanholas, enquadra-se no programa do V Centenario de la Primera Circunnavegatión e teve a presença de uma fragata espanhola que, curiosamente ou não, também se chama Victoria.
A Volta ao Mundo de 1519-1522 aconteceu por acaso. A expedição magalhânica tinha como objectivo atingir as ilhas Molucas navegando por ocidente e demonstrar que se situavam no hemisfério castelhano definido pelo Tratado de Tordesilhas. Nas instruções que recebeu do rei Carlos I, era claro que a expedição não deveria entrar no hemisfério português, o que significava que deveria fazer a torna-viagem. Porém, com a morte de Magalhães nas ilhas Filipinas, o seu sucessor decidiu desobedecer e navegar no hemisfério português e atravessar o oceano Índico, tendo chegado ao ponto de partida na foz do rio Guadalquivir em Setembro de 1522. Foi, portanto, uma Volta ao Mundo sem querer, como recentemente escreveu o grande historiador Luís Filipe Thomaz.
A polémica em torno desta viagem continua muito activa e, muita gente, tanto em Portugal como em Espanha, parece abusar de um provincianismo serôdio de rivalidade do tipo das disputas entre Alguidares de Cima e Alguidares de Baixo. O sucesso da viagem organizada e iniciada por Magalhães que Elcano concluíu e a sua importância para a história da Humanidade, não é português nem espanhol. É um sucesso ibérico e, mais do que isso, é um feito civilizacional europeu, ou mais apropriadamente, é um património da Humanidade.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Fernão de Magalhães e a volta ao mundo

Perfazem-se hoje 500 anos sobre o dia em que Fernão de Magalhães largou de Sanlúcar de Barrameda para iniciar a sua viagem para as Molucas, navegando para ocidente em nome do jovem rei Carlos I de Espanha, que subira ao trono em 1516 e que em 1519 se tornou no imperador Carlos V da Alemanha.
Nos cinco navios da expedição – San Antonio, Trinidad, Concepción, Victoria e Santiago – embarcavam 237 homens de muitas nacionalidades, incluindo 64 andaluzes, 31 portugueses, 29 bascos, 26 italianos, 19 franceses, 15 castelhanos, 9 gregos, 7 galegos, 5 asturianos, 5 flamengos e 4 alemães, além de elementos de outras nacionalidades. O veneziano António Pigafetta, que foi o principal cronista da viagem, escreveu no seu diário:
El martes 20 de septiembre partimos de Sanlúcar, navegando con viento de garbino, y el 26 llegamos a una de las islas Canarias, llamada Tenerife, situada en los 28º de latitud septentrional.
Hoje o Diário de Notícias é um dos jornais que evoca essa efeméride histórica.
A viagem constituiu a maior aventura que, até então, foi realizada pelo ser humano. Com base nas informações recolhidas pelas explorações portuguesas na margem ocidental do Atlântico e dos conhecimentos cartográficos do tempo, nomeadamente a carta de Martin Waldseemuller, o obstinado Fernão de Magalhães procurou e encontrou a passagem – o Estreito de Todos-os-Santos, depois chamado Estreito de Magalhães – que ligava o oceano Atlântico ao oceano Pacífico, que percorreu com felicidade entre os dias 1 e 28 de Novembro de 1520.
A expedição, então com três navios apenas, atravessou depois o Pacífico e, no dia 27 de Abril de 1521, Magalhães morreu em combate na ilha de Mactán, nas Filipinas. Algum tempo depois, o basco Juan Sebastián de Elcano assumiu o comando da nau Victoria, navegou para oeste até ao cabo da Boa Esperança e, no dia 6 de Setembro de 1522, chegou a Sanlucar de Barrameda com 18 homens. Sem que esse fosse o seu objectivo inicial, tinham concluído a primeira volta ao mundo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Made in Iran - sim ou não?

O ataque dirigido contra uma refinaria e um campo de petróleo sauditas que aconteceu no passado sábado, gerou muita instabilidade nos mercados petrolíferos e aumentou a tensão no golfo Pérsico, sobretudo entre os americanos e os iranianos.
Apesar do ataque ter sido reivindicado pelos rebeldes iemenitas houthis, o facto é que a região do Golfo e o Médio Oriente são um complexo puzzle estratégico em que tudo o que acontece tem a mão, mais ou menos invisível, das potências mundiais ou regionais interessadas no petróleo daquelas regiões.
Por isso, meio mundo tratou de responsabilizar o Irão por este sofisticado e cirúrgico ataque que, naturalmente, foi negado pelas autoridades iranianas, apesar do aiatolá Ali Khameni ter pessoalmente aprovado esse ataque. Entretanto, pela voz do secretário de Estado Mike Pompeo, os americanos, responsabilizaram o Irão pelo ataque e afirmam ter-se tratado de um acto de guerra. Porém, Vladimir Putin apelou à comunidade internacional para que não retire conclusões precipitadas sobre a origem do ataque e declarou estar pronto a ajudar a Arábia Saudita, nomeadamente através do fornecimento de sistemas de mísseis antiaéreos russos para defender o seu território, tal como fizeram o Irão e a Turquia que adquiriram os sistemas S-300 e S-400, respectivamente.
No meio deste jogo de acusações e de suspeitas, os sauditas trataram de juntar os destroços de um drone, de um míssil de cruzeiro e de alguns rockets, tendo o jornal New York Post escolhido o título “Made in Iran” e ilustrado a sua capa com uma fotografia das armas de ataque reconstruídas a partir dos destroços e que, segundo o jornal, incrimina os iranianos.
O assunto vai continuar na agenda internacional e não é isento de grandes preocupações.