sexta-feira, 9 de julho de 2021

As histórias tristes deste nosso Portugal

A vida, a escola e os amigos ajudaram-me a ser o que sou, mas a matriz da minha identidade cívica e cultural aprendi-a desde muito jovem, sobretudo, com os meus Pais.
O meu Pai era um homem rigoroso que, de cor e sem hesitações, me debitava páginas e páginas de Os Lusíadas, enquanto a minha Mãe era uma mulher perspicaz que gostava muito de usar provérbios e ditados populares. Um deles, que ela muitas vezes me repetia, era que “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”. Daí resultou, desde há muitos anos, a minha desconfiança nos processos de acumulação de riqueza, no novo-riquismo, na chamada gente de sucesso e, sobretudo, daqueles que se deixavam enrolar na teia da fama e da vaidade que a comunicação social alimenta, enquanto me espantava a intrigante forma como a Justiça e as Instituições pactuavam e conviviam com o que se passava. Muitas vezes me ocorreu a famosa expressão de Sofia, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, mas parece que poucos viam, poucos ouviam, poucos liam e que muitos ignoravam.
Porém, como escreveu Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e, segundo parece, “a tradição já não é o que era”, pelo que começaram a aparecer muitos casos que estão a alarmar a sociedade portuguesa. Esses casos que têm vindo a público não me surpreendem, mas surpreende-me que se continue a verificar um verdadeiro abuso de poder por parte dos operadores judiciais e que a comunicação social se comporte como um grupo de vira-casacas que, depois de endeusar essa gente, os coloca agora sob a sua implacável guilhotina. 
Não há quaisquer dúvidas que é um dever democrático que as autoridades actuem contra quem viola as leis da República, mas não é tolerável o abuso de poder e a prática das fugas cirúrgicas de informação, nem o abuso das prisões preventivas e, sobretudo, a condenação na praça pública de tanta gente, antes de ser acusada e julgada. 
Muita dessa gente, que conviveu com os poderes políticos, que se sentou ao lado dos operadores judiciais e que foi endeusada pelos mass media, está agora no centro da crítica e da severa condenação de quem antes tanto os bajulou. Há poucas histórias tão tristes como estas no Portugal contemporâneo. 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A aventura do “Ever Given” chegou ao fim

No passado mês de Março o gigantesco porta-contentores Ever Given, propriedade da empresa chinesa Shoei Kisen, encalhou no canal do Suez com mais de 18 mil contentores a bordo. O navio ficou encalhado durante seis dias, numa posição que impedia a passagem de outros navios e só foi desencalhado devido à acção conjugada de rebocadores e de dragas e, naturalmente, com a indispensável ajuda das marés. Os prejuizos causados por esta ocorrência foram astronómicos e era muito pesado o cenário judicial que se apresentava.
O navio foi judicialmente apreendido e ficou fundeado no Great Bitter Lake, uma área que separa os dois troços do canal do Suez, enquanto a respectiva Autoridade anunciou que o encerramento do canal representava um prejuízo diário de 12 a 15 milhões de dólares, além de perda de reputação, embora fossem bem diferentes as estimativas de perdas que foram anunciadas por diferentes fontes. As negociações arrastavam-se há mais de três meses.
Finalmente, foi divulgado que o Egipto assinou um acordo de compensação com o armador e com a seguradora do navio, que terá ficado bastante abaixo dos 916 milhões de dólares inicialmente exigidos. Com os seus 400 metros de comprimento e os 18 mil contentores que carrega, o Ever Given voltou ontem a navegar para norte e esse facto foi notícia para o The Wall Street Journal.
Quando chegar a Port Said, a porta de saída do canal para o Mediterrâneo, o navio vai ser objecto de uma avaliação de segurança e, depois, seguirá para Roterdão onde a sua carga terá como destino final o porto inglês de Felixstowe.
Terá então terminado a aventura do gigante Ever Given e do seu encalhe no canal de Suez.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Xi Jinping e a novíssima ambição chinesa

O Partido Comunista Chinês (PCC) festejou ontem 100 anos de idade e houve festa grande na praça de Tiananmen, com um longo discurso de Xi Jinping que apareceu vestido com a túnica cinzenta popularizada por Mao Tsé-tung, o fundador do partido.
“A China tem 5000 anos e durará outros 5000”, diz um popular slogan que as autoridades têm repetido nas últimas semanas como preparação para os festejos. Ao fim de 72 anos no poder conquistado depois de uma longa guerra civil, o PCC evoluiu e transformou a China, mas conserva a fotografia de Mao à entrada da Cidade Proibida, em frente da praça Tiananmen, certamente para lembrar que a China privilegia as mudanças que conduzem ao progresso, mas continua fiel à herança política do PCC e do seu fundador. Foi aí nesse simbólico local que, de pé e junto à fotografia de Mao Tsé-tung, o secretário-geral Xi Jinping falou aos seus militantes, ao país e ao mundo.
Xi Jinping lembrou as conquistas do passado, elogiou os sucessos do presente que permitiram retirar da pobreza muitos milhões de chineses e estabeleceu metas para o futuro, entre as quais a "missão histórica" da reunificação com Taiwan, a ilha que é considerada uma província separatista da República Popular da China. No seu discurso deixou um claro aviso para o mundo ao afirmar que "nunca vamos permitir que qualquer força estrangeira nos oprima ou subjugue", acrescentando que as potências estrangeiras que tentarem intimidar ou influenciar o país vão entrar em rota de colisão “com uma parede de aço" de 1,4 mil milhões de pessoas.
O discurso de Xi Jinping teve larga difusão na imprensa mundial e, em Macau, o jornal hoje macau dedicou-lhe a sua primeira página com o título “o século da China”. É nesse sentido que aponta a futurologia.  

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Efeito das mudanças climáticas no Canadá

O processo de aquecimento global do nosso planeta e as alterações climáticas estão na ordem do dia, sobretudo pelo está a acontecer nas regiões ocidentais do Canadá e dos Estados Unidos, onde as temperaturas se têm aproximados dos 50ºC, o que tem provocado centenas de mortes e tem levado as autoridades a encerrar escolas, empresas e centros de vacinação. Não há memória de uma onda de calor como esta e todos os registos históricos foram ultrapassados, por exemplo nas cidades de Vancouver, Seattle e Portland, onde as temperaturas têm atingido valores muito superiores aos valores que são habituais nesta época.
Por todo o mundo, à excepção da América de Donald Trump, as alterações climáticas têm sido consideradas a maior ameaça ambiental do século XXI, com consequências profundas e transversais na sociedade, sobretudo nos aspectos económicos, sociais e ambientais. Embora as alterações climáticas sempre tenham sido registadas ao longo da vida do nosso planeta, o agravamento que vem acontecendo no último século não tem precedentes e é uma ameaça para a Humanidade. A principal razão das mudanças em curso são os chamados gases de efeito de estufa, cujas emissões têm aumentado devido ao dióxido de carbono (CO2) resultante da queima de combustíveis fósseis. Daí que, a temperatura global tivesse aumentado 0,76ºC no último século, embora a previsão para este século se situe entre 1,1 e 5,4ºC, dependendo das medidas que vierem a ser adoptadas pela comunidade internacional.
O facto é que esta onda de calor no ocidente do Canadá e dos Estados Unidos impressionou muita gente, incluindo alguma imprensa francesa como o Libération, que já se esqueceu do Euro 2020 e que deixou a loucura dos franceses pelo Tour de France para um plano secundário.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Princesa brasileira, Rainha de Portugal

A exposição que está patente na Galeria do Rei D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda com o título D. Maria II. De princesa brasileira a rainha de Portugal. 1819-1853, é um acontecimento cultural relevante, não só por representar a retoma das grandes iniciativas culturais a que a cidade de Lisboa já nos habituara e que a crise pandémica suspendera desde há muitos meses, mas também pela grande qualidade expositiva e diversidade de conteúdos.
A exposição celebra o 200º aniversário do nascimento da rainha D. Maria II e foi organizada pelo Museu da Presidência da República (MPR) e pelo Palácio Nacional da Ajuda (PNA), apresentando várias centenas de peças e documentos provenientes de diversos museus, autarquias e coleccionadores privados, bem como do Governo Regional dos Açores, muitas das quais foram restauradas para esta exposição. De entre as obras que ficarão em exposição até ao dia 29 de setembro, destacam-se várias joias pessoais de D. Maria II e a Coroa Real Portuguesa que há mais de duas décadas não era exposta ao público, bem como a bandeira utilizada pelas forças liberais na ilha Terceira, que fora bordada pela própria princesa Maria da Glória.
A exposição evoca a vida e o reinado da rainha que nasceu no Brasil em 1819, que era filha de D. Pedro IV e da imperatriz Leopoldina, mas que veio a falecer precocemente em 1853, durante o parto do seu 11º filho. Dois dos seus filhos - D. Pedro V e D. Luís - foram reis de Portugal.  No seu reinado, que iniciou em 1834 com 15 anos de idade, o país passou do absolutismo ao constitucionalismo e, apesar de ser um período de grande instabilidade que se seguiu à guerra civil, abriu as portas a grandes transformações sociais, económicas e culturais.
Um excelente catálogo apoia a belíssima exposição que, naturalmente, se recomenda que seja visitada, pela sua qualidade pedagógica, documental e estética.

terça-feira, 29 de junho de 2021

Marcelo foi contagiado pela futebolite

O jornal Tal & Qual foi fundado em 1980 e teve grande sucesso editorial, mas em 2007 cessou a sua publicação. Porém, cerca de catorze anos depois, voltou às bancas como semanário de informação geral e é um regresso que se saúda.
Na sua última edição o jornal escolheu para manchete “Marcelo anda a pôr Belém num virote”, mas o assunto não me interessou porque não tenho nenhuma curiosidade em saber a forma como o venerando Chefe do Estado faz a gestão da sua residência oficial.
Entretanto, vieram os dias do Euro 2020, com a comunicação social a infectar a sociedade portuguesa de uma forma absolutamente desproporcionada e a deixar no espírito dos mais distraídos a ideia de que o futebol era a coisa mais importante das nossas vidas. Com o entusiasmo fora dos limites, não só o Presidente da Assembleia da República perdeu a cabeça, como o próprio Presidente da República veio dar razão ao Tal & Qual, ao pôr o país num virote, pois alinhou no generalizado desvario que se abateu sobre o país, fazendo ao mesmo tempo de comentador, de adepto e de seleccionador. Foi um absoluto exagero, estudado e preparado, sempre com os microfones e as câmaras à vista, como ele tanto gosta. Naturalmente, decidiu assistir ao jogo Portugal-Bélgica, mas não escolheu o recato da sua casa, mas preferiu um restaurante com os inevitáveis microfones à volta. No dia seguinte, tomou a decisão de ir esperar os jogadores que, por acaso tiveram a pior prestação de sempre naquela competição. Mais um exagero. O jornal O Jogo escreveu que “Marcelo decidiu dar colo à selecção”, mas mais nenhum jornal ligou à inapropriada presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que foi dizer que éramos tão bons como o campeão do mundo, que éramos melhores que o número um do ranking mundial, que jogámos mais do que eles e que a luta continua. Foi demasiado colo. É demasiado populismo. É bom que o Presidente da República seja inteligente, culto, cosmopolita e democrata, mas estes exageros não são nada recomendáveis.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Há muito mais vida para além do futebol

A equipa portuguesa jogou ontem em Sevilha e perdeu com a selecção belga por 1-0, pelo que foi eliminada do Euro 2020. “O único momento de inspiração da Bélgica bastou para afastar Portugal”, escreveu o jornal Público como manchete de primeira página, ilustrada com uma fotografia de um Cristiano Ronaldo derrotado. Segundo rezam as crónicas, “o apuramento bateu no poste” e houve “falta de pontaria”, mas a equipa bateu-se bem, atacou muito e merecia ganhar. Os belgas foram eficazes e fizeram um só remate que lhes bastou para averbar a vitória. Foi uma enorme desilusão para os portugueses, depois de uma intensa campanha conduzida pela comunicação social e pelos seus estagiários, bem como por algumas personalidades da nossa vida política, com destaque para o Presidente da República que, qual venerando Chefe do Estado, se tornou um fervoroso adepto e um entusiasmado comentador. Todos eles fizeram do futebol a coisa mais importante das nossas vidas e isso não é verdade. A desilusão geral que se abateu sobre o país também é uma consequência da insistência com que nos fazem crer que somos os melhores do mundo e de não nos prepararem para outro resultado.
Os jogadores fizeram o que puderam enquanto profissionais muito bem remunerados, ou obscenamente pagos, mas também ficaram tristes, porque o resultado poderia ter sido outro. Porém, hoje o país acordou com os mesmos 92.212 quilómetros quadrados de superfície, a nossa dívida pública não se alterou, a taxa de desemprego também não baixou e o índice de transmissibilidade do covid-19 podia estar melhor.  
Há que seguir em frente porque há muito mais vida para além do futebol, como diria o saudoso Presidente Jorge Sampaio, que era um genuíno adepto de futebol, mas que não era comentador.

domingo, 27 de junho de 2021

A América cultiva a rapidez da Justiça

No dia 25 de Maio de 2020 na cidade de Minneapolis do estado do Minnesota, um polícia chamado Derek Chauvin deteve um indivíduo suspeito de qualquer coisa chamado George Floyd e aplicou-lhe uma técnica de imobilização que consiste em deitar o suspeito de bruços, ajoelhar junto dele e pressionar o seu pescoço com o joelho. Chauvin pressionou o pescoço de Floyd durante mais de oito minutos, Floyd gritou vinte vezes que não conseguia respirar, alguns polícias assistiram sem intervir e diversos transeuntes filmaram aquela cena. George Floyd não resistiu. As imagens desta ocorrência foram largamente difundidas pelas televisões e desencadearam protestos antiracistas e manifestações contra a violência e o abuso policiais em muitas cidades americanas, mas também tiveram muitas solidariedades, incluindo nos estádios de futebol europeus.
No dia 25 de Junho de 2021, um ano e meio depois da ocorrência de Minneapolis, o julgamento do caso ficou concluído e a sentença foi lida. Os americanos esperavam ansiosamente pela sentença e o ex-polícia Derek Chauvin foi condenado a 22 anos e seis meses de prisão pelo homicídio do afro-americano George Floyd.
A sentença foi recebida com algum alívio pela comunidade negra americana e pelas organizações de defesa dos direitos civis, pois a condenação de um polícia branco pela morte de um afro-americano é uma raridade na justiça americana, enquanto a imprensa americana deu alargada cobertura à notícia.
A Justiça americana foi rápida como convém à boa ordem social.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

A tensão à volta do caso da Crimeia

Perante a grave crise que atravessava, em 1985 o Partido Comunista da URSS elegeu Mikhail Gorbachev para seu secretário-geral, encarregando-o de promover as reformas necessárias para salvar o regime instituído depois de 1917. Daí nasceu a perestroika que veio dar origem ao desmembramento do estado soviético e à independência de várias das suas repúblicas, entre as quais a Ucrânia que se tornou independente em 1991. A influência russa era enorme na Ucrânia porque cerca de 20% da sua população é de origem russa e, além disso, uma parte do arsenal nuclear soviético estava em território ucraniano, pelo que foram feitos acordos, nomeadamente de âmbito militar, entre a nova Federação Russa e a Ucrânia independente.
Porém, vieram a surgir problemas políticos internos resultantes da diversidade cultural do país e do alinhamento internacional que procurava, com os ucranianos divididos entre a aproximação à União Europeia e a fidelidade à Federação Russa. Esses problemas acentuaram-se e em 2014, houve um movimento insurrecional em várias regiões do país e a população russa da península da Crimeia, com o apoio militar russo, ocupou muitos edifícios públicos e rejeitou a governação ucraniana de Kiev. Foi então realizado um referendo local, considerado ilegal, que aprovou a chamada “reunificação com a Rússia”, mas as Nações Unidas e a comunidade internacional não aceitam a ocupação da Crimeia e consideram-na um território ucraniano sob ocupação russa.
A península da Crimeia tem cerca de 26 mil km2 de superfície, cerca de dois milhões de habitantes dos quais cerca de 60% são de etnia russa e tem uma posição estratégica importante no Mar Negro, pois acomoda a base naval russa de Sebastopol.
Esta semana, o destroyer inglês HMS Defender, em trânsito de rotina de Odesa para a Geórgia, terá entrado nas águas territoriais da Crimeia junto do cabo Fiolent e um navio-patrulha russo terá feitos tiros de advertência, enquanto um avião de combate Su-24M terá lançado bombas na proa do navio inglês. A imprensa inglesa deu grande destaque a este caso como se fosse uma guerra e avisou Putin de que “não vai parar os nossos navios”, mas os russos também não querem navios ingleses por lá. No entanto, ainda está por esclarecer o que realmente se passou. 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A nossa superestrela é Cristiano Ronaldo

Cristiano Ronaldo marcou ontem dois golos à França e, para além do empate que garante uma presença (sofrida) da equipa portuguesa nos oitavos de final do Euro2020, o jogador atingiu a marca de 109 golos ao serviço da selecção portuguesa, o que iguala o máximo mundial de golos marcados ao serviço de uma selecção nacional, que pertencia ao iraniano Ali Daei.
Naturalmente, a comunicação social portuguesa destacou este acontecimento e Ronaldo merece-o.
Porém, tem sido um exagero o exibicionismo novo-riquista, ridículo, suburbano e desproporcionado da comunicação social portuguesa, que tem andado atrás dos jogadores por Budapeste e por Munique, enchendo-nos de futebol, de ronaldices e de imensas banalidades. Alguns títulos reflectem a ronaldomania que tomou conta da nossa imprensa, como por exemplo CR109, Ronaldo é Deus ou Ronaldo dispensa calculadora. É um entusiasmo que não é espontâneo e que resulta em alto grau de um estímulo criado pelas capas dos jornais, pelas intermináveis horas de televisão que nos são servidas e por um merchandising que explora o entusiasmo popular.
Porém, os golos que ontem foram marcados por Cristiano Ronaldo, tiveram repercussão no estrangeiro e, por exemplo, os grandes jornais desportivos italianos como La Gazzetta dello Sport (Milão), o Corrierre dello Sport (Roma) e o TuttoSport (Turim), trataram de internacionalizar os 109 golos de Ronaldo. Nestas circunstâncias, embora criticando muito do que é escrito e dito na nossa comunicação social que muitas vezes esquece que uma equipa de futebol tem onze jogadores, eventualmente dez estrelas e uma superestrela, não podemos deixar de aplaudir e enaltecer os feitos futebolísticos de Ronaldo e da sua destacada presença nas capas dos maiores jornais desportivos italianos.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Sánchez enfrenta o desafio da Catalunha

A política espanhola está a passar por momento de tensão devido à intenção do governo de Pedro Sánchez de decretar o indulto a nove líderes independentistas catalães condenados a penas de prisão no âmbito d’el procés, ou seja, a sua luta pela independência da Catalunha. O tema divide a Espanha, pois o indulto é um acto de clemência mais profundo do que a amnistia, ao extinguir o procedimento criminal e a própria pena. Assim, enquanto a Direita acusa Sánchez de claudicar perante as exigências dos separatistas catalães, a Esquerda aposta na abertura de um diálogo que pacifique a política catalã e reforce a unidade espanhola. Porém, os dirigentes catalães exilados, entre os quais se encontram três eurodeputados, reclamam não só o indulto, mas também o seu regresso em liberdade e a realização de um referendo sobre o futuro da Catalunha.
Pedro Sánchez anunciou a sua proposta num cenário enquadrado pelas bandeiras da Espanha e da Catalunha e essa imagem foi publicada não só na imprensa espanhola, mas até no Financial Times, a mostrar o interesse com que foi seguida a apresentação de “un nuevo proyecto de país com los independentistas”.
Os graves acontecimentos do Outono de 2017 na região da Catalunha têm sido objecto de intensa discussão jurídica pois foram analisados à luz de um Código Penal obsoleto, que todos querem que seja revisto. Porém, não se tratou apenas do comportamento ilegal e do exílio de alguns dirigentes catalães, com destaque para Carles Puigdemont, porque outros acontecimentos levaram à abertura de dezenas de processos judiciais contra altos cargos administrativos da Generalitat de Catalunya, não só por sedição, mas também por uso indevido de fundos públicos e desfalques por ocasião do referendo ilegal de 1 de Outubro de 2017.
Não é nada fácil o desafio de Pedro Sánchez.

domingo, 20 de junho de 2021

O Brasil já ultrapassa os 500 mil óbitos

O Brasil atingiu 500 mil mortes por covid-19 e, segundo titula hoje o jornal O Estado de S. Paulo, não há fim à vista para esta tragédia, pois tanto o número de óbitos como o número de novos casos não param de aumentar. O Brasil já é o segundo país do mundo com mais óbitos e nos últimos dias esse número tem estado acima de dois mil. A situação é muito preocupante e a população tem-se manifestado contra Jair Bolsonaro pela incapacidade e incompetência com que tem conduzido a luta contra a pandemia, enquanto Lula da Silva, o ex-presidente e virtual candidato à presidência, fala em genocídio.
Entretanto Bolsonaro não comentou a tragédia nacional que são 500 mil mortes e preferiu fazer um balanço dos seus primeiros 900 dias de governo, num documento de propaganda irresponsável que foi intitulado “900 dias: nos trilhos da preservação de vidas e da retomada da economia”, em que se afirma que mais de 110 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 foram enviadas para todos os estados brasileiros, “o que coloca o país em quarto lugar no ranking mundial de países que mais vacinas aplicam”. Trata-se de uma descarada deturpação da realidade pois o Brasil está em 78º lugar mundial no que respeita à população já vacinada, além de estar em 2º lugar no número de mortes. O que se lamenta é a forma despudorada como os políticos do estilo Bolsonaro actuam na base da propaganda mentirosa e da irresponsabilidade política. 
Os brasileiros merecem um presidente à altura do desafio que o país atravessa. As manifestações apontam para que seja posto na rua em 2022, mas ainda falta tanto tempo...

sábado, 19 de junho de 2021

Guterres é mesmo o melhor de todos nós

António Guterres foi reeleito por unanimidade para um novo mandato como Secretário-Geral das Nações Unidas e esse facto é relevante, não só porque significa que a comunidade mundial apreciou o seu primeiro mandato, mas também porque a unanimidade não parece ser a norma habitual daquela instituição.
Quando em 2016 foi eleito pela primeira vez para aquele cargo, de entre os elogios que recebeu de todos os sectores da sociedade portuguesa, destacou-se aquele que lhe fez Marcelo Rebelo de Sousa ao referir-se-lhe como “o melhor de todos nós”. Tinha razão, o que nem sempre acontece quando começa a dar opinião sobre tudo o que deve e que não deve. Cinco anos depois, Guterres continua a ser o português de que todos nos orgulhamos, pelo prestígio internacional que cimentou, pelo equilíbrio das suas atitudes e pela sensatez das suas posições.
Quando procuramos ilustrar este texto com a imagem de um jornal, verificamos que a imprensa internacional nem sequer deu notícia desta eleição, tal como a própria imprensa portuguesa, de que apenas o jornal Público fez uma pequena referência de primeira página, enquanto os futebolistas que hoje jogam em Munique mereceram todo o destaque. São os sinais dos tempos, em que somos anestesiados continuamente por aquilo que os mass media entendem ser importante, o que nos obriga a um enorme esforço para distinguir o trigo do joio.
Embora na pequenez que é a dimensão deste blogue aqui fica o nosso vivo aplauso pela reeleição de António Manuel de Oliveira Guterres como Secretário-Geral das Nações Unidas.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

A cimeira Biden-Putin e um novo diálogo

O encontro de ontem entre Joe Biden e Vladimir Putin foi um dos mais importantes acontecimentos políticos dos últimos anos, porque os Estados Unidos e a Rússia são as duas maiores potências nucleares do nosso planeta, tendo os grandes jornais internacionais publicado a fotografia dos dois líderes. O encontro Biden-Putin realizado na biblioteca da Vila La Grange, em Genebra, foi muito positivo porque permitiu reabrir o diálogo entre as duas superpotências, mas também porque contribuiu para dissuadir os ambientes de desconfiança e de tensão que se tinham acumulado nos últimos meses.
Segundo a imprensa mundial revelou, o encontro durou cerca de três horas e o diálogo foi construtivo e positivo, embora não tivesse quaisquer resultados espectaculares, mas os dois líderes mostraram “vontade de se entenderem”. De resto, como foi acentuado por ambos, cada um deles disse representar os interesses dos seus países e muitos desses interesses não são coincidentes. Joe Biden disse mesmo que a sua agenda “não é contra a Rússia, mas que é pelo povo americano”.
A imprensa refere que durante a reunião foram tratados o problema dos direitos humanos, em particular a prisão do líder oposicionista russo Alexei Navalny, tal como as questões da cibersegurança.
Uma das poucas medidas concretas da cimeira foi a decisão de voltar a enviar para os seus postos o embaixador americano em Moscovo e o embaixador russo em Washington, o que é um bom sinal de desanuviamento.

sábado, 12 de junho de 2021

Jorge Fonseca, um judoca grande campeão

Estamos a atravessar um período em que a crispação política nacional está a aumentar pela conjugação do cansaço de quem governa e de quem espera vir a governar, mas também dos efeitos acumulados da pandemia e, naturalmente, pela aproximação das eleições autárquicas. Tudo está a servir para que muitos políticos apareçam nas televisões a marcar espaços e a mostrar que existem, muitas vezes ultrapassando as regras do bom senso e tornando-se demasiado ridículos. 
Começa a ser insuportável ver e ouvir esta gente que tudo critica e tudo reivindica, esquecendo-se que as necessidades são ilimitadas, mas que os recursos são escassos.
No meio deste clima de crispação, vão aparecendo os resultados de alguns atletas que mercê do seu trabalho e da sua dedicação se destacam no panorama internacional, em diversas modalidades desportivas. Assim aconteceu ontem com Jorge Fonseca que conquistou a segunda medalha de ouro da sua carreira e se tornou bicampeão mundial de judo na categoria de menos de cem quilos, depois de vencer cinco combates e todos por ippon. Não é habitual que os atletas portugueses consigam estes resultados e, por isso, a nossa satisfação tem que aqui ficar expressa. Curiosamente, o jornal A Bola homenageou Jorge Fonseca com grande e merecido destaque de primeira página, embora tivesse escolhido a palavra Monstruoso que não é feliz, pois significa extraordinário, mas também pode significar horroroso. Já o jornal O Jogo escolheu o título show Jorge que “ganhou cinco combates em nove minutos e meio”. Porém houve jornais, como o Público, que nem sequer falaram de Jorge Fonseca na primeira página, preferindo escolher banalidades como aliás fazem demasiadas vezes.